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| Amber Lyon - ex âncora da CNN |
Também aqui já declarei a falta de fé que tenho na veracidade de algumas histórias passadas em muitas televisões e jornais, claramente deturpadas por agendas ideológicas ou interesses comerciais. Mas a história que vos trago hoje deveria ser relida vezes sem conta, porque demonstra que tudo aquilo em que acreditamos pode ser simplesmente uma ilusão.
Como a tantos outros países desta região, o ano de 2011 trouxe uma esperança de que algo poderia mudar nas aparentemente eternas ditaduras do Médio Oriente. O povo do minúsculo Bahrain[1], animado pelas conquistas dos seus irmãos tunisinos e egípcios, saiu à rua a protestar pela discriminação entre sunitas e xiitas no seu país[2]. Neste país, uma minoria sunita detêm o poder enquanto a maioria xiita está afastada deste. A revolução é por isso maioritariamente, embora não exclusivamente, xiita. No entanto o Bahrain tem ao seu lado a Arábia Saudita, país profundamente conservador (os termos fundamentalista ou retrógrado seriam igualmente apropriados) controlado pela sua esmagadora maioria sunita e representa a maior potência da península arábica. Aparentemente por pedido do Rei do Bahrain, Shaikh Khalifa, o GCC (Conselho de Cooperação do Golfo, uma espécie de CEE local) enviou um mês depois do início da rebelião uma força militar saudita e emirati para resolver o problema. Recordo-me de na altura ter ficado com a impressão de que o pedido teria sido feito depois, e não antes, da movimentação saudita o que a tornaria de facto uma invasão, como muitos dos protestantes reclamaram na altura[3].
Embora tenha sido largamente ignorada pelos media (não só pelos ocidentais mas também pelos da região), parecem existir planos de tornar o Bahrain em mais uma província saudita, o que resolveria o problema da maioria xiita, que se tornaria irrelevante quando integrada no seu gigantesco estado vizinho.
O país inteiro é, deve-se dizer, praticamente invisível na região e serve para pouco mais do que hospedar a 5th Fleet da marinha americana[4], um grande prémio de F1 por ano[5], receber milhares de sauditas todos os fins de semana (à procura de álcool e prostituição)[6] e permitir a renovação do visto para milhares de expats residentes nos Emirados Árabes Unidos[7].
Não obstante a sua pouca importância, o Bahrain é um aliado do ocidente e não coloca quaisquer entraves à presença da frota americana enquanto paralelamente investe massivamente em relações públicas nos media ocidentais procurando investimento directo estrangeiro, já que ao contrário de muitos dos seus vizinhos, não tem petróleo nem gás natural. A CNN, a mais vista de todas as televisões de notícias em língua inglesa em todo a região, é um dos grandes beneficiários deste investimento fazendo programas partilhados com as autoridades locais, muitas vezes disfarçadas de reportagens noticiosas e sem mostrar o patrocinador do programa[8].
Em Junho de 2011, durante a filmagem de um documentário da CNN intitulado de iRevolution, a âncora Amber Lyon encontrou uma verdadeira revolução e mostrou um conjunto alargado de violações de direitos humanos por parte do governo do Bahrain. Muitas das pessoas que pretendiam entrevistar foram entretanto presas ou desapareceram, outras foram presas pouco tempo depois, muitas mostraram as marcas de tortura e brutalidade policial e incluiu no seu documentário filmagens que mostram claramente as autoridades a dispararem indiscriminadamente sobre manifestantes desarmados e pacíficos. A CNN, depois de ter gasto mais de 100.000 USD na produção deste documentário resolveu - alegadamente por decisão editorial[9] - não o mostrar e Amber Lyon foi despedida no início de 2012, durante uma reestruturação da CNN[10], depois de uma guerra entre esta e as chefias da CNN precisamente devido ao iRevolution. A bem da verdade, uma pequena parte de 13 minutos do documentário foi publicado online no YouTube onde está (por enquanto) disponível[11].
Toda esta dualidade de critérios editorial e a sua relação com os patrocínios é demonstrada cuidadosamente por Glenn Greenwald do The Guardian, no seu artigo de 4 de Setembro de 2012 "Why didn't CNN's international arm air its own documentary on Bahrain's Arab Spring repression?"[12].
Durante o último ano assistimos quase diariamente como a Rússia tem sido acusada de apoiar o criminoso regime de Bashar Al Assad devido à existência de uma base naval russa em território sírio[13]. Aparentemente, o comportamento das potências ocidentais não é muito diferente...
