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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Noite

Book Review

Escrito por Elie Wiesel e publicado em Portugal pela Texto, "Noite" conta como este judeu romeno foi atirado para o horror dos campos de concentração nazis de Auschwitz e Buchenwald ainda adolescente.

Como todos os testemunhos reais sobre o holocausto, o livro é impressionante, comovente e assustador. Apetece-nos gritar às personagens para que fujam antes que seja tarde demais. Para que não acreditem que tudo vai correr bem. Mas infelizmente não nos ouvem. Não trazendo nada de completamente diferente de outras descrições como a Primo Levi ou mesmo a versão cinematográfica de "A Lista de Schindler" de Spielberg, não deixa de ser um testemunho relevante e que deve ser lembrado.

Sinceramente o que me estragou o livro é saber mais sobre quem é realmente Elie Wiesel. Página a página, perguntava-me continuamente como é que alguém que passou por tudo isto consegue ser tão frio em relação ao sofrimento dos outros. Este mesmo homem é incapaz de dizer uma palavra quando se fala da expulsão de centenas de milhares de palestinianos, resumindo o problema à seguinte frase:

"Para mim, como judeu, Jerusalém está acima da política. Ela pertence ao povo judeu e é muito mais do que uma cidade. É o que liga um judeu a todos os outros de uma forma que é difícil de explicar"[1].

Wiesel mostra um fundamentalismo religioso perigoso, onde o sofrimento do povo judeu deve ser relembrado por todos, mas qualquer mal causado por um judeu não pode ser recordado.

Piora a sua argumentação usando a cartada religiosa: "[Jerusalém] está mencionada nas escrituras [judaicas] mais de 600 vezes e nem uma vez no Corão"[2].

Ou seja, para Wiesel, a diplomacia internacional deve ser baseada nos livros sagrados. Por algum motivo, não nos diz quantas vezes Jerusalém aparece no Novo Testamento. É que utilizando o mesmo argumento, então provavelmente Jerusalém deveria ser a capital de um estado cristão, e não de Israel.

Wiesel, prémio Nobel da Paz em 1986, utiliza o seu sofrimento e o dos seus para se colocar num patamar diferente de todos os outros. Em vez de lutar para que estes crimes desapareçam todos de vez da face da terra, usa-os para ignorar todos os outros. Inclusivé o dos milhões de deficientes mentais, ciganos, polacos, russos, comunistas, sociais democratas e todos os que cairam nas garras no regime nazi. E isso estraga o livro. Não o seu conteúdo, mas a sua utilização para fins ilícitos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Primo

Nesta semana deparei-me com um filme num dos canais por cabo do qual não estava à espera. Para começar era teatro televisivo, do qual eu estou longe de ser um apreciador. Depois, nunca tinha ouvido falar deste filme, gravado em 2005, embora conhecesse a história de Primo Levi, um judeu italiano que durante a segunda guerra mundial foi enviado para o campo de concentração de Auschwitz na Polónia, e que veio a tornar-se num dos grandes escritores sobre o holocausto judeu. Por fim, não conhecia o actor principal (e único), Antony Sher.

Num palco extremamente simples, e utilizando as câmeras de forma brilhante, olhando o tele-espectador directamente nos olhos em grande parte da peça, Sher retrata num monólogo cativante a história do livro "Se isto é um homem" desde o momento em que é preso até à sua libertação quando o Exército Vermelho liberta o campo.

São tantos os momentos altos, desde a descrição do andar dos presos, a luta pela comida, a angústia de todo o processo, as esperanças do fim da guerra, os rumores, a vergonha da nudez, a revolta para com os outros presos que roubavam a comida e os sapatos até aos heróicos actos de Lorenzo Perrone que demonstrou que mesmo num verdadeiro inferno existem almas capazes de o mais belo dos actos de caridade.

Durante 90 minutos ouvimos e vemos um único actor, praticamente sem efeitos sonoros, com uma roupa discreta, palcos modestos e um jogo de sombras que se vai adaptando constantemente à história. E nem por um segundo ficamos aborrecidos. Depois de o ver a primeira vez, vi uma segunda, e depois uma terceira.

Não achei possível alguém conseguir descrever o holocausto numa peça de teatro. Antony Sher conseguiu-o de forma brilhante. Como se estivéssemos a falar mesmo com um sobrevivente de Auschwitz. Absolutamente perfeito.