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quinta-feira, 14 de junho de 2012

A perda da inocência

Muitas revoluções começam por ser um levantamento popular genuíno em que o povo procura legitimamente maiores liberdades, honestidade na política, transparência nos serviços policiais e secretos, uma justiça cega e um estado de direito. Considero que, na sua generalidade, a Primavera Árabe representou, para as ruas do Cairo, Damasco, Tunis e muitas outras capitais, essa inocência e verdade de objectivos.

Mas a outra face da inocência e honestidade é a ingenuidade. E quando o sangue começa a banhar as ruas dessas mesmas cidades, os cálculos tornam-se mais frios e bárbaros. Como um predador em cativeiro desde a nascença, o perigo está em que conheça o sabor a sangue, transformando-o naquilo que na sua essência, ainda é. E o ser humano também o é: um animal selvagem que depois de conheçer o sabor do sangue dificilmente se livra desse instinto.

Tunísia e Egipto cairam rapidamente. Suficientemente depressa para os revoltosos conseguirem manter a sua inocência intacta. Mantiveram-se na posição de vítimas nunca deixando que crescessem para o lugar de opressores eles mesmos. No Yemen, Líbia e Síria, a situação prolongou-se até que os mais cínicos, pragmáticos e violentos dos revoltosos tomassem conta da revolta. O poder passou dos idealistas para os generais anti-governo.

E é aí que começam as minha dúvidas. Quando não temos um claro inocente na história. Quando da oposição pode sair algo igual ou pior do que o já lá está. E devemos ter sempre em conta que não existe nenhuma situação tão má que não possa ser piorada. Viu-se isso no Irão, onde depois de um corrupto bárbaro ser deposto do poder (o Xã e a sua família) um "homem santo" ascendeu à direcção dos destinos do país (o Ayatollah Khomeini) mostrando imediatamente uma face ainda mais déspota e sanguinária do que a do seu antecessor.

Tal como defende a ONG Avaaz, acredito que é necessário iniciar imediatamente um embargo de armas total ao governo sírio e à oposição. Criar uma no-fly zone sobre todo o território e se nada mais funcionar, seguir o exemplo da Bósnia fazendo uma intervenção directa da ONU, com tropas de vários países nomeadamente dos russos e americanos. Assad não tem nem nunca teve qualquer legitimidade para estar à frente do seu país, no entanto é preciso garantir que a sua deposição não é seguida de um ajuste de contas sobre as muitas minorias étnicas e religiosas existentes na Síria.

Perdeu-se o momento em que a revolução na Síria poderia ter corrido realmente bem. Bashar Al Assad não o permitiu e entrou num jogo de tudo ou nada que dificilmente ganhará.

Para o resto do mundo, e em especial para o Conselho de Segurança da ONU, agora é uma questão de tentar controlar os danos, não permitir que os massacres continuem e evitar que a guerra civil continue a escalar e eventualmente chegue aos países vizinhos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mubarak não é um ditador

Joe Biden - Vice Presidente dos EUA
A diplomacia dos bons e dos maus. os bons são sempre bons mesmo quando matam, torturam, violam e oprimem. os maus são sempre maus mesmo que não tenhamos qualquer prova.

Por exemplo, Saddam era muito mau porque tinha utilizado armas de destruição massiva em cima do seu próprio povo e porque torturava os adversários, tal como disse Tony Blair no parlamento inglês a 25 de Fevereiro de 2003 (três semanas antes do início da invasão):

(...) the tens of thousands imprisoned, tortured or executed by his barbarity every year. The innocent die every day in Iraq—victims of Saddam—and their plight, too, should be heard.

(...) To those who say we are rushing to war, I say this: we are now 12 years after Saddam was first told by the UN to disarm; nearly six months after President Bush made his speech to the UN accepting the UN route to disarmament; nearly four months on from resolution 1441; and even now, today, we are offering Saddam the prospect of voluntary disarmament through the UN. I detest his regime—I hope most people do—but even now, he could save it by complying with the UN's demand. Even now, we are prepared to go the extra step to achieve disarmament peacefully [1].

Quando as potências ocidentais invadiram o Iraque utilizando urânio empobrecido e torturando em Abu Graib, Guantánamo, Diego Garcia e outras prisões da CIA, não o fazem por serem maus. Fazem-no porque o inimigo é mau e os obriga a isso. É uma lógica retorcida (e que já agora, podia ser utilizada por ambos os lados), mas aparentemente aceite desde o mais comum dos mortais até aos grandes líderes do mundo. Curiosamente o facto de Saddam Hussein ter utilizado armas químicas e biológicas sobre os iranianos de Ayatollah Khomeini (durante a guerra Irão-Iraque nos anos 80 [2]) não é nunca dado como exemplo da vilania do ditador iraquiano. É que afinal de contas, os maus - nessa altura - eram os iranianos. O Saddam era dos bons e tinha o apoio da Arábia Saudita, dos estados do golfo e das potências ocidentais. As armas químicas utilizadas por Saddam tinham sido produzidas com o apoio da Alemanha, Itália, França, Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, Áustria, Singapura, Holanda, Egipto, Índia, Luxemburgo, Espanha e China [3]. Como se pode ver, os telhados de vidro são amplos e cobrem quase todos os cantos do mundo.

Aqui temos mais um caso que demonstra que esta hipocrisia continua viva e de boa saúde. Em plena Primavera Árabe, com um milhão de pessoas na praça Tahrir no Egipto prestes a destituirem o ditador Hosni Mubarak que durante décadas torturou e corrompeu o berço da civilização mundial, o vice presidente americano Joe Biden é alvo da seguinte pergunta:

PBS: (...) should Mubarak be seen as a ditactor?

JB: Look [haaaa....] Mubarak has been an ally of ours in a number of things. He has been very responsible on relative to geo political interest in the region... [haaaa....] [haaaa...] [haaaa...] [he...] middle east peace... [he...] [he..] [ha...] efforts... [he...] [ha...] the actions Egypt is taking relative to [ha...] [ha...] normalize relationship with [ha...] with Israel [hum...] and I... I think that [ha...] [hum...] it would be... I... I would not refer to him as a ditactor.

Obviamente Joe Biden sabe melhor do que qualquer um de nós que Mubarak era mesmo um ditador. Que a sua polícia secreta - a temida Mukhabarat - comete violações dos direitos humanos numa base diária. Que as eleições eram totalmente falsificadas. Que os oponentes políticos eram presos e torturados. Que era líder de um país totalmente corrupto e em que ele próprio era um líder desse mesmo crime organizado. Que tinha uma fortuna acumulada de dezenas de milhares de milhões de dólares que não podem ser explicados pelo salário dele enquanto presidente, etc. Mas era um ditador útil. E por isso não pode ser chamado pelo que ele é. Mesmo quando nesse preciso momento a sua polícia reprimia violentamente manifestações no Cairo, Alexandria, Suez e outros pontos do Egipto com um nível de violência quase ilimitado. 

Esta frase fez-me ainda recordar um momento extremamente infeliz de Franklin D. Roosevelt, presidente americano durante a segunda guerra mundial, que terá dito a seguinte frase sobre o ditador da Nicarágua, e aliado anti-comunista, Somoza, em 1939:

"Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch"

A única coisa que faz sentido na frase de Joe Biden é a dificuldade que ele tem em dizer tamanha mentira. Contei cada uma das hesitações e marquei-a no texto acima com os sons haaaa, he, hahum. São só 62 segundos. Vale a pena ver. E não esquecer.