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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Kalashnikov

Book Review
Mikhail Kalashnikov

O sucesso da espingarda de assalto AK-47 é, para mim, um tema fascinante. Já tinha escrito sobre esta arma em Abril do ano passado, onde cobri as vezes que me cruzei com esta em diferentes países, como a Palestina, o Sahara Ocidental, Marrocos, entre outros[1]. No entanto, nunca me tinha interessado particularmente sobre o seu criador, Mikhail Kalashnikov[2]. Mas as feiras do livro têm destas coisas e quando vi um livro potencialmente interessante ao preço de um menu do McDonalds resolvi imediatamente sacrificar o almoço. E não me arrependi.

A personalidade de Kalashnikov é absolutamente surpreendente. Ainda está vivo, no topo dos seus 93 anos. Comunista convicto, defende Stalin como provavelmente não veremos hoje ninguém o fazer. Mesmo os mais ultra ortodoxos dos comunistas - como Álvaro Cunhal - tinham dificuldades em apoiar uma personagem como Stalin, mas não Kalashnikov. No entanto, foi esse mesmo regime, que lançou toda a sua família para os gulags sob acusão de serem kulaks (proprietários abastados que foram perseguidos pelo regime nos anos 30) quando ainda tinha 11 anos. Fugiu diversas vezes dos gulags e viveu toda a vida com papeis falsificados escondendo a sua infância. Só depois da queda da URSS essa parte da sua vida pode ser contada. Até hoje, Kalashnikov acredita que Stalin não era culpado dos genocídios feitos nessa época, mas sim as autoridades locais.
Mikhail Kalashnikov com Elena Joly,
autobiografia do inventor da mais
 famosa metralhadora do mundo

Algumas das suas histórias, fizeram-me imediatamente lembrar os criadores do Ekranoplano, de quem escrevi um artigo no ano passado. Também estes engenheiros militares viram a sua importância e reconhecimento mudarem ao sabor dos líderes políticos. Kalashnikov é um produto do conservadorismo soviético mais extremo. E certamente o homem certo para Stalin, como mais tarde foi para Brejnev. Estes eram adeptos dos enormes exércitos e das armas convencionais. A AK-47, tal como muitas outras armas criadas por Kalashnikov, eram as armas perfeitas para estes exércitos quer se tratassem de tropas em esquis na Sibéria ou em cima de camelos no deserto. Krushev, por outro lado era um adepto das novas tecnologias. Apostou muito mais nas armas atómicas, assim como em ideias novas (como o Ekranoplano). E todos eles, depois da queda da URSS, viram os seus últimos anos de vida passados com miseráveis pensões estatais. Este livro escrito em 2003 fala da pensão de Kalashnikov (agora general) rondar os 500 euros mensais.

Algo muito curioso que podemos ver no livro é a comparação entre dois criadores de armas, um na União Soviética e outro nos Estados Unidos. Numa URSS colectivista e comunista, a arma ficou com o nome do seu criador, Kalashnikov, tal como outras armas como a Dragunov[3] ou os aviões Mig[4]. Nos Estados Unidos da América, uma sociedade capitalista e individualista, o nome de Eugene Stoner[5] não ficou na espingarda de assalto, utilizando-se simplesmente a designação de M16[6]. No entanto, Eugene tinha um avião, um helicóptero e era imensamente rico porque recebia por cada M16 que era produzida. Mas não tinha qualquer condecoração do estado americano e é virtualmente desconhecido do povo americano. Por seu lado, Kalashnikov fora promovido até general, detinha todas as condecorações possíveis e imaginárias da União Soviética e da Federação Russa e é gravou o seu nome na história do mundo.

[Foto: http://www.myspace.com/m_t_kalashnikov/photos/4905979]