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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Israel vs Mundo

Quem utiliza bombardeamentos massivos em cima de um território fechado onde a população não tem por onde fugir não pode esperar outra coisa senão a morte de civis. Muitos civis. Desta vez Israel acertou numa escola das Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabaliya na faixa de Gaza. Provavelmente não terá sido de propósito (ao contrário do ataque à escola da ONU em Gaza em 2009 com fósforo branco), mas deixou 15 mortos e 200 feridos, subindo os totais para 1360 mortos e 7000 feridos.

Para quê? Que espera a liderança israelita desta guerra? Capitulação? E se o Hamas se rendesse, será Israel daria plenos direitos aos não-judeus? Poderiam os parlamentares israelitas árabes voltar a falar livremente no parlamento? Porderiam integrar o exército israelita? Os milhões de refugiados e descendentes de refugiados palestinianos de todas estas guerras poderiam regressar às suas terras? Tornariam o país plenamente democrático e binacional? Permitiriam uma solução de dois estados? Retirariam o meio milhão de colonos judeus que colocaram na Cisjordânia?

A resposta é sempre não. Israel não quer ser um país democrático e inclusivo. Não quer que exista um país chamado Palestina. Para uma parte considerável dos judeus israelitas, os palestinianos deviam simplesmente deixar de existir. Desaparecer do mapa e ir para longe. Muito longe. E deixarem essas terras todas de Eretz Israel para o povo que Deus escolheu. O objectivo, para estes, é apenas de tornar a vida tão difícil que acabem por se ir todos embora para o Egipto, Jordânia, Síria ou Líbano. 

O problema é que estes países também não os querem. E os palestinianos vêm-se na mesma situação os judeus dos anos 30 e 40. É pena que para a direita ortodoxa israelita a frase "Holocausto nunca mais" se tenha acabado por transformar em "Holocausto - para nós - nunca mais".

PS: Uma palavra especial para os muitos judeus em Israel e nos Estados Unidos que continuam a exigir paz e o fazem abertamente sabendo as repercursões sociais, académicas e profissionais de tal opção.

PS2: Sobre o Hamas: É uma organização política e religiosa cuja liderança e rumo é idiota e primitiva e causadora de inúmeras infelicidades para os povos palestiniano e israelita. O seu sucesso político é resultado directo da incapacidade da Fatah em conseguir concessões de Israel e da sua profunda corrupção. São de culpados de muita coisa, mas não desta guerra.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Bombardeamento preciso e os escudos humanos...


Mais uma fotografia onde fica claro o que é um "bombardeamento preciso" e os altíssimos níveis de preocupação com os civis por parte do exército israelita.

À data de hoje: 1065 mortos, pelo menos 795 são civis entre os quais 229 crianças[1].   



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Mais uma derrota para Israel...

Gaza 2014 - Imagem BBC
A cada dia que passa, o mundo mostra-se mais chocado com as imagens de de crianças mortas pelos ataques israelitas. A cada dia mais inocentes pagam por crimes que não cometeram. A maior prisão do mundo, o território de Gaza, com milhões de árabes fechados por todos os lados e sem qualquer hipótese de uma vida digna ou de um futuro para os seus filhos são bombardeados sem cerimónia por um dos mais avançados exércitos do mundo e, de longe, o mais poderoso do Médio Oriente. 

No final, centenas ou milhares de civis estarão mortos, umas dezenas de jovens militares israelitas também. Mais uma geração de palestinianos crescerá imersa no ódio a Israel e disposta a ouvir quem quer que lhe mostre alguma compreensão e apoio, sejam eles nacionalistas, comunistas, nazis ou fundamentalistas. Mais uma geração de israelitas terá lutado numa guerra que é apenas mais um capítulo da militarização total e absoluta do seu país, onde praticamente todas as grandes figuras políticas são antigos generais, heróis de guerra e líderes terroristas judaicos.
Exército Israelita - Invasão de Gaza 2014

Mais uns milhões de pessoas pelo mundo fora compreenderão quem são os agressores e quem são as vítimas. E a balança política que começou a virar desde a primeira intifiada continuará a pender cada vez mais para o lado dos palestinianos até que o mundo se decida a tratar Israel por aquilo que realmente é: um Apartheid!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Gaza, novamente

Qual é a desculpa desta vez mesmo? Se a cada 4 ou 5 anos se criarem as condições para produzir mais uma geração de jovens carregados de ódio, quanto tempo demorará até termos paz? A matemática dir-nos-ia... infinito.


Gaza 2014... mas poderia ser qualquer outra data, passada ou futura.

sábado, 10 de maio de 2014

Mandela e a Palestina

Nos anos que antecederam a sua morte, Mandela tornou-se o mais unânime dos líderes mundiais. Esquerda e direita, seculares e religiosos, todos choraram a sua morte. Mas Mandela não fui nunca um homem de consensos. 

Nesta entrevista, ainda o Apartheid Sul-Africano estava de pé (embora já não de boa saúde) Mandela fala da África do Sul, mas também da Palestina e Israel, de Fidel Castro, Arafat e Khadafi, debaixo de entusiásticos aplausos do público americano que o ouvia. Algumas das respostas são invulgarmente politicamente incorrectas, o que revela uma faceta de Mandela que nos habituámos a esquecer... 




segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A senseless squalid war - Voices from Palestine 1945-1948

Estou habituado a ler muita propaganda. Normalmente não vale a pena levá-la demasiado a sério e é facilmente reconhecível a milhas. Por esse motivo, não é tão perigosa, porque só acredita nela quem já acreditava antes de a ouvir. Serve apenas como reforço de ideias pré-estabelecidas ou, se preferirmos, preconceitos no sentido exacto do termo. Para quem aprecia a história recente do Médio Oriente, ser alvo de propaganda é ainda mais comum do que o normal quando lemos história um pouco mais antiga.

Norman Rose é o autor desta brilhante obra de propaganda. Consegue alterar a história sem mentir em nenhum momento. Consegue legitimar crimes imensos apenas brincando com uma lupa. Mostrando o que lhe interessa e fazendo desaparecer da história o que é mais difícil de explicar. Atira para um canto factos indesmentíveis sem pensar duas vezes e quando a a situação é impossível de explicar utiliza uma tática bastante suja de comparar a crimes ainda piores. Uma obra que desaconselho vivamente para quem pretenda compreender o conflito Israelo-Palestiniano num só livro. Para isso outros, bem mais equilibrados e completos serão mais adequados.
David Ben Gurion

No entanto, este é o livro perfeito para quem queira perceber como é possível

alguém ser cúmplice de um dos grandes crimes do século XX e dormir descansadamente durante a noite. Como é se consegue simplificar a história o suficiente para que no final apoiemos e defendamos verdadeiros criminosos responsáveis por homicídios, violações e roubos em larga escala.

Vejamos alguns exemplos. Norman Rose dedica dezenas de páginas a Haj Amin al Husseini[1] o desacreditado Grand Mufti de Jerusalém até 1937 procurando colocá-lo como grande líder Nazi da Palestina. No relato do seu encontro com Hitler em Novembro de 1941, Norman Rose chega ao ponto de colocar sentimentos e pensamentos nas cabeças dos intervenientesl. Refere-se a um "encontro de mentes" e "claramente existia uma química entre os dois". Palavras que o autor sentiu necessidade de acrescentar ao que Haj Amin e Hitler realmente disseram. Haj Amin viveu no exílio desde 1938, passando por vários países, incluindo a Alemanha e a Itália. Depois de na Primeira Guerra Mundial os árabes se terem unido ao Reino Unido para destruir o Império Otomano, para depois verem todas as promessas ficarem por cumprir, alguém achará estranho que tenham tentado bater a outras portas? Em especial depois da Declaração de Balfour[2] e da aliança informal entre o governo britânico e as forças paramilitares judaicas do Haganah durante a revolta de 1938, estranho seria se tornassem a bater-se ao lado dos ingleses. De qualquer forma, esta obcessão por Haj Amin está longe de ser inocente. Como não é inocente o facto de até o museu do Holocausto fazer questão de falar do Mufti[3]: por todas as formas e feitios procuram que os crimes cometidos sobre os palestinianos seja transformados em retribuição. Como não é possível encontrar qualquer culpa dos palestinianos nos crimes do Holocausto, a solução passa por insinuar esse mesmo crime sem que nunca o digam.

Mas se Haj Amin teve direito a inúmeras páginas, o facto do Stern Gang[4], um dos grupos paramilitares judaicos de inspiração fascistas, ter procurado uma aliança com a Alemanha Nazi já em 1940 não mereceu mais do que uma breve referência. Aqui, Rose não sentiu qualquer necessidade de nos falar em "encontro de mentes" ou algo do género.

Para além do Stern Gang e do Haganah, existia um terceiro grupo paramilitar judaico na Palestina que se dedicou a ataques terroristas, o Irgun[5]. O seu mais espectacular ataque terrorista foi no Hotel King David, em Jerusalém (que servia como sede administrativa britânica), no dia 22 de Julho de 1946 causando 91 mortes. O autor desfaz-se em desculpas procurando criar distância entre a liderança política judaica (Ben Gurion) e o Irgun. Mas a realidade é que o ataque foi previamente aprovado pelo conselho judaico. O líder do Irgun, Menachem Begin, longe de ser afastado pela sua comunidade por este acto chegou a primeiro ministro de Israel umas décadas mais tarde.

Mas Norman Rose não se fica por aqui. Do início ao fim, o livro desculpabiliza o Império Britânico. Desde a escolha do título (retirado de uma frase de Winston Churchill, enquanto líder da oposição no pós-guerra) até à descrição dos últimos dias do Mandato, o autor procura mostrar que a culpa não foi realmente dos inlgeses, que estes não passavam de representantes da ONU que não tinham quaisquer ambições na região e procuravam apenas deixar o Levante em melhor estado do que o encontraram. Como bom exercício de propaganda, o livro procura não agredir os sentimentos do alvo da mensagem, o Ocidente.


Nakba 1948 - Refugiados fogem da Palestina
E quanto a Deir Yassin e a todos os outros massacres que deram origem à Nakba, a grande limpeza étnica da Palestina que levou centenas de milhares de muçulmanos e cristãos para fora do território, Rose ignora olimpicamente declarando que os "êxodos são normais em qualquer guerra". Aliás, em várias situações fala na questão da competência e da unidade. Resume o resultado final ao facto de um dos lados estar organizado e o outro estar sem liderança. É uma forma interessante de evitar a questão moral. É que mesmo sendo verdade, será que ele utilizaria os mesmo termos quanto ao próprio Holocausto? Consideraria ele que no conflito entre nazis e judeus, um dos lados mostrou mais liderança e organização, e que a culpa de terem existido tantas vítimas seria exclusivamente da responsabilidade da exilada liderança judaica? Certamente que não. A culpa de um homicídio é do assassino, não do irmão mais velho que não estava presente e deveria ter estado.

O que tinha tudo para ser um livro espectacular torna-se portanto num case study de propaganda política disfarçada de publicação histórica.

sábado, 20 de julho de 2013

The Ethnic Cleansing of Palestine

Não admira que Illan Pape tenha sido considerado como o mais corajoso de todos os novos historiadores israelitas. O seu livro "The Ethnic Cleansing of Palestine"[1] desfaz categoricamente os mitos de que o milhão de refugiados de 1948 eram simplesmente o resultado colateral da guerra de independência. Um dos muitos males provocados naturalmente pelas guerras, como vemos hoje na Síria por exemplo. Os factos apontam para uma verdade bem mais sinistra. A vaga de refugiados de 1948 é o corolário de uma acção preparada e implementada durante muitos anos por Ben Gurian e a liderança zionista e obedece a um plano muito claro, o Plano Dalet[2].

Como parte deste plano, as aldeias e cidades do mandato da Palestina foram catalogados segundo as suas etnias, os nomes dos seus líderes locais e todos aqueles suspeitos de envolvimento nas revoltas dos anos 30 registados cuidadosamente. O plano tinha como objectivo explícito a conquista de todas estas cidades, o homicídio da sua liderança e a prisão indiscriminadas de homens em "idade militar", ou seja, entre os 10 (!!!) e os 60 anos. Incluia também a expulsão de todos os seus habitantes para fora do que os zionistas consideravam que deveria ser o seu estado e por fim a destruição metódica das aldeias até que nada sobrasse delas.

É um livro pesado, relatando cuidadosamente as violações, homicídios e destruições uma após a outra. Aldeia após aldeia. Cidade após cidade. Muitos destes massacres foram feitos ainda antes da saída dos britânicos. Em diversos casos, foram até ajudados por estes. Grande parte da limpeza étnica foi feita muito antes dos exércitos árabes declararem guerra ao novo estado de Israel, e curiosamente, o esforço de guerra foi tão pouco de parte a parte que nem sequer teve influência no calendário da limpeza étnica que continuou o seu curso sem problemas.


Explica-nos ainda porque motivo algumas cidades foram poupadas. Como as cidades santas cristãs, quando os zionistas temeram que o mundo se virasse contra ele já que muitas dessas cidades eram de maioria cristã. E como a Legiões Árabe jordana, o mais formidável dos exércitos árabes envolvidos, manteve o seu território mesmo quando o Rei Abdullah da Jordânia dividia os despojos da Palestina com a liderança zionista.

Por fim, mostra que o exército paramilitar judaico (denominado Haganah, que mais tarde se tornou no IDF) e as suas unidades de elite, a Palmach, trabalharam lado a lado com organizações terroristas judaicas, como o Stern Gang e o Irgun. Com estes, fizeram atentados bombistas, assassinaram líderes políticos e procederam ao Plano Dalet, tal como programado. Mais de 500 aldeias desapareceram do mapa. Muitos refugiados e os seus descendentes, ainda hoje esquecidos no Líbano e Jordânia sem documentos ou nacionalidade, mantém as chaves de casas há muito dinamitadas, como nos conta Robert Fisk[3].

Em discussões sobre o conflito Israelo-Palestiniano, existe sempre um momento em que um dos pró-israelitas pergunta se estamos a colocar em causa a existência do estado de Israel. A resposta é simples. Ele nunca deveria ter sido criado. Agora, até aceito que terá que existir, mas isso não altera o facto de que é um estado que está a ser montado por atropelo diário aos direitos humanos. Que praticamente todos os crimes que um estado pode cometer sobre uma população indígena estão a ser ali cometidos. E isso iniciou-se há 65 anos mais ainda não parou. Só mudou em intensidade e  estilo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Matando Hamid - A história por detrás do ataque a Gaza

Em novembro, um incidente precedeu o ataque de Israel e que levou a uma escalada de violência como não víamos desde a Operação Cast Lead em 2008: a morte de um adolescente de 13 anos, Hamid Abu Dagga (Ahmed abu Daqqa)  cujo único crime foi estar a jogar futebol com os amigos em frente a casa com a sua camisola do Real Madrid[1]. Um tiro no estômago de um sniper, um pedaço de schrapnel, não interessa realmente. Era só um miúdo que sonhava ser uma superestrela de futebol. Ser como o Cristiano Ronaldo. Morreu tentando cumprir o seu sonho.


Hamid Abu Dagga


Contém imagens violentas. Mas histórias violentas não devem ser contadas de outra forma. Um documentário do activista Harry Fear[2] que dedicou uma curta metragem a Hamid. Desde a morte de Hamid, 61 outras crianças foram mortas em Gaza por violência das forças armadas israelitas.






sábado, 25 de maio de 2013

Le Trio Joubran

Música

E ainda sobre a Palestina, aqui ficam os formidáveis Le Trio Joubran, três irmãos com um estilo de música muito próprio e um ritmo hipnotizante. Tomei conhecimento deles durante os anos que vivi em Ramallah, tendo depois notado que a sua música era utilizada em diversos filmes e documentários sobre o Médio Oriente. Ajudam-nos a lembrar que a Palestina é muito mais do que o seu conflito e os seus problemas.






Desafiando preconceitos

Por vezes existem notícias que colocam em causa tudo aquilo que sabíamos sobre um povo. Esta notícia do The National[1] da semana passada contém tantas agressões às ideias preconcebidas sobre os palestinanos de Gaza que não resisti a colocá-la aqui na totalidade. Em resumo: todos sabemos que em Gaza toda a gente é fundamentalista e detesta americanos e tudo o que seja americano, certo? E que qualquer investimento americano seria atacado diariamente, certo? E que as ideias de empreendedorismo e capitalismo não têm lugar num território cujo único objectivo é preparar crianças para serem bombistas suicídas, certo? Que os túneis entre Gaza e o Egipto existem única e exclusivamente para trazer bombas e armas para atacar israelitas, certo?

Bem... Khalil Efrangi de 31 anos, empreendedor e dono da pequena empresa
Entrega de refeições do KFC através dos túneis
que atravessam a fronteira Gaza/Egipto
de entregas Yamama faz agora entregas de KFC (Kentucky Fried Chickens) a partir do KFC mais próximo, em El Arish no Egipt e a 65 Km de distância. A entrega é feita através de um complexo esquema de motas e túneis e envolve tanta gente que demora 4 horas e o preço final é de cerca de 3 vezes o preço original. A ideia, que tinha começado muito recentemente já chegava a 80 refeições num dia e o empreendedor temia que o Hamas, que controla os túneis lhe começe a cobrar alguma taxa especial. Aqui fica a história completa.




KFC: cooked a secret way, delivered a secret way

RAMALLAH // Those in Gaza craving fried chicken, coleslaw and chips have had their dreams answered.

There is no KFC franchise in Gaza and its 1.7 million people live under an Israeli blockade that restricts the movement of goods and people in and out of the territory.KFC now delivers … well, sort of.
But a Gaza delivery company, Yamama, has made it possible to order Col Sanders' signature dishes by smuggling them in from Egypt through a network of tunnels.

"People can't move easily from Gaza to Egypt and the rest of the region, so when you bring Kentucky to Gaza like we have, you've satisfied demand and made people feel happy and normal at the same time," says Yamama's enterprising founder Khalil Efrangi, 31.

Mr Efrangi says Yamama has more than 500 customers, all paying prices that would be considered extortionate anywhere else.
A 12-piece chicken bucket costs about US$27 (Dh98) - nearly three times higher than the price in Egypt.

Yamama takes orders from Gazans and phones the nearest KFC franchise in the Egypt - in the city of El Arish 65 kilometres away - from where motorcycle riders rush the deliveries to the border.

After being carried through the tunnels by smugglers, motorcyclists waiting at the other end complete the deliveries.

Taking up to four hours, the delivery process can leave buckets of chicken cold and chips soggy, but Mr Efrangi says this has not dampened appetites in Gaza.

Because Egypt restricts commercial traffic into Gaza, the meals join the illicit flow of consumer goods, building materials and rocket parts that passes through the tunnels.

The underground network keeps the territory's economy afloat and its Hamas rulers armed in its fight against Israel.

Demand for Yamama's KFC-trafficking services has risen rapidly since Mr Efrangi conceived the idea three weeks ago.

"We get orders from all over Gaza," he says. Yamama expected to bring 80 meals into Gaza yesterday. The extra delivery cost covers Yamama's fleet of 35 delivery men on both sides of the border, as well as fees paid to the tunnel operators.

Now, Mr Efrangi's biggest concern is Hamas, which administers Gaza and licenses and taxes its tunnels.

"They might impose special taxes on us - at least, that's what we think," he says.

With a promotional Facebook page earning more than 3,300 "likes", Yamama undoubtedly has raised eyebrows - and appetites - inside Hamas.

Some members have become customers, says Mr Efrangi, who sees Yamama's services as more than just a business.

"Palestinians in Gaza deserve access to these brands and companies, just like anyone else in the world," he says. "We bring that access to them."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

World Press Photo 2012

Fotografia de Paul Hansen[1] tirada durante os bombardeamentos de Gaza de 20 de Novembro de 2012, que ganhou o World Press Photo deste ano. Funeral dos gémeos de 2 anos Suhaib Hijazi e Muhammad Hijazi que morreram junto com os seus pais em sua casa durante o sexto dia de bombardeamentos[2].





quarta-feira, 28 de novembro de 2012

24 hours for Palestine

Carta que recebi do Avaaz e cuja assinatura da petição online recomendo. Para já, pelo que percebi para além de Portugal, também a Espanha e França votarão favoravelmente à entrada da Palestina nas Nações Unidas como estado observador não-membro.




Only 24 hours until the UNGA vote, we are winning country after country across Europe with our massive push. Click below to sign up and send a direct message:

Dear Avaazers,


In 24 hours the UN will vote on whether to recognise a Palestinian state. 1.6 million of us have helped get over 100 countries to back this historic peace initiative! But Israel's far-right government is furiously opposing it and many countries are still on the fence -- let's get to 2 million voices for Palestinian freedom!  

Sign the petition
In 24 hours, the UN will face a historic vote on Palestinian statehood. While extremists in Israel and Gaza killed civilians on both sides last week, responsible leaders backed this peace initiative, and it needs our help to win.

UN recognition of Palestine could help end 40 years of repression and lead to two states -- Israel and Palestine -- living in peace and security side by side. 1.6 million of us have signed on and helped get over 100 countries to support the bid! But Israel's far-right government is lobbying hard and many countries are still on the fence.

Heads of state are deciding right now. Our petition is already being widely covered in the media and delivered through actions like a 4 storey-high flag (at right) in front of key government buildings. Click below and let's get to 2 million voices for a freedom and peace that the Palestinian people have not known for a generation:

http://www.avaaz.org/en/palestine_worlds_next_nation_eu_rb/?bVEOXbb&v=19616

After the terrible violence and killings in Gaza and Southern Israel in recent weeks, the urgency for a sustainable solution could not be more obvious. This is a legitimate, non-violent proposal that could turn the tide on endless bad-faith 'peace' talks that simply provide cover for the steady illegal colonization of Palestine by Israeli ‘settlements’. This bid could rescue the path to a fair peace process between two states.

The Israeli and US governments are strangely calling the Palestinian bid ‘unilateral’, when in fact it's a massively popular initiative and all it's asking is for the world to vote. The UN, World Bank and IMF say that the Palestinians are ready to run their own state, if only the Israeli military occupation would end.

Last year the US alone blocked a Palestinian bid at the UN Security Council. But in the UN General Assembly, all nations vote and this resolution could end the US hegemony over this conflict. It can't make Palestine a UN member, but it can declare Palestine a state that could have access to a range of international organisations, and it is a crucial step towards ending the occupation.

After our mega campaign in Europe, France and Spain appear to be voting yes! If we all raise our voices now we can persuade all countries to stand on the right side of history and back a Palestinian state. With firm support and financial aid, this could be a turning point. Join the urgent petition to support the bid now:

http://www.avaaz.org/en/palestine_worlds_next_nation_eu_rb/?bVEOXbb&v=19616

Palestinian statehood will not bring a resolution to this intractable conflict overnight, but UN recognition will change the dynamics and will begin to unlock the door towards freedom and peace. Across Palestine, people are preparing, with hope and expectation, to reclaim a freedom their generation has never known. Let's stand with them.

With hope and determination,

Dalia, Alice, Jeremy, Marie, Ricken, Aldine, Nick, Pascal and the rest of the Avaaz team

MORE INFORMATION

Two-State Solution on the Line (New York Times)
http://www.nytimes.com/2012/11/26/opinion/global/brundtland-carter-two-state-solution-on-the-line.html

UK to back upgrading Palestinian UN status (FT)
http://www.ft.com/intl/cms/s/0/2cc62538-37f3-11e2-b8d3-00144feabdc0.html

Palestinian statehood wins European backing (The Guardian)
http://www.guardian.co.uk/world/2012/nov/19/palestinian-statehood-wins-european-backing

France indicates support for Palestinian UN vote (Reuters)
http://www.reuters.com/article/2012/11/22/france-palestine-vote-idUSL5E8MMCID20121122

Palestinian Authority rejects calls to postpone statehood bid (RT)
http://rt.com/news/abbas-palestine-un-statehood-504/

Q&A: Palestinian bid for upgraded UN status (BBC)
http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-13701636

sábado, 17 de novembro de 2012

Mais uma guerra em Gaza

Tropas israelitas na fronteira com Gaza
 nos seus Caterpiller D9 - 17 NOV 2012
(Imagem CNN)
Voltamos ao mesmo. Subitamente a tensão entre o governo do enclave de Gaza nos territórios ocupados da Palestina e Israel sobe[1] e começam as acusações de parte a parte[2][3]. Ambos os lados falam em auto-defesa e no entanto cada um dos dois é culpado de cada passo na escalada para um conflito total. Como em 2008, na Operação Cast Lead[4], os eventos sucedem-se e arriscamos-nos a assistir nos próximos dias a uma invasão terrestre[5]. Entretanto cada um dos lados vai mostrando o que aprendeu nos últimos 4 anos e as suas novas capacidades militares. Pelo meio, milhões de civis israelitas e palestinianos fogem para onde podem sem conseguir viver uma vida normal. A comunidade internacional vai-se colocando nas suas posições habituais preocupando-se muito pouco com os factos que levaram a isto e o que pode ser feito para evitar o pior. A esquerda e os países de maioria muçulmana colocam-se do lado do Hamas, a direita e os países ocidentais do lado de Israel[6][7][8].

É difícil voltar ao início e perceber o que aconteceu. Provavelmente teríamos que voltar até 1948 e à criação do estado de Israel[9] ou ao final do século XIX e ao aparecimento do movimento Sionista[10]. Num tempo mais recente, vimos a liderança palestiniana partir-se em duas depois de o partido islâmico Hamas, baseado na tradição egípcia da Irmandade Muçulmana que agora governa o Egipto, ter tomado conta da faixa de Gaza no que esteve perto de se tornar na primeira guerra civil palestiniana[11]. Desde então, Israel e o governo de Gaza têm mantido um estado de guerra que levou a uma invasão total em 2008. Israel mantém ainda um bloqueio ao território deixando passar apenas o mínimo essencial à sobrevivência da população. Este bloqueio é considerado ilegal pela maioria dos especialista em direito internacional[12]. Por outro lado, quer o Hamas quer o governo israelita foram acusados pelas Nações Unidas, no famoso relatório Goldstone liderado pelo juiz Richard Goldstone, de crimes de guerra[13] durante a Operação Cast Lead de que falamos anteriormente. Não ficarei de todo surpreendido se daqui a uns meses estivermos a ler um novo relatório a dizer rigorosamente o mesmo.

Mas não obstante as dificeis condições em Gaza, os eventuais rockets Qassam atirados sobre Sderot[14] e os ocasionais ataques da força aérea israelita[15][16], a situação parecia nos últimos meses estar relativamente controlada. É complicado aceitar isto como uma situação normal, mas comparado com o que estamos a ver hoje, era menos mau.

No final de Outubro, o Emir do Qatar Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani tornou-se no primeiro chefe de estado a visitar a faixa de Gaza desde que o Hamas tomara o controlo da mesma[17]. Prometeu investimentos e ajudas para reconstruir o país e beneficiou de, com a queda do governo de Mubarak no Egipto e da subida da Irmandade Muçulmana ao poder, Gaza ter agora acesso ao mundo e um novo aliado às portas. Também o Primeiro Ministro egípcio, Hisham Qandi, foi também ao território confirmar esse apoio já em plena crise (no dia 16 de Novembro)[18] declarando publicamente que o mundo tem que parar a "agressão israelita em Gaza". Uma outra das estrelas da Primavera Árabe, a Tunísia, através do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros Rafik Abdesslem visitou a cidade de Gaza afirmando que "[Israel] não tem total imunidade e não está acima da lei internacional".

Apenas horas depois do Emir do Qatar sair de Gaza, Israel e o Hamas já voltavam à sua rotina. O Hamas atirando com morteiros e foguetes enquanto a Força Aérea Israelita bombardeou causando 4 vítimas[19].

A partir daí, os relatos são confusos porque ambos os lados justificam todas as suas acções como auto-defesa ou contra-ataques. Nas suas mentes endurecidas por décadas de violência, tudo o que fazem é compreensível e não existe nenhum outro caminho a seguir. Para os civis de ambos os lados, a vida é um inferno vivendo sob uma chuva constante de ataques[20][21].

Eu próprio, que procuro acompanhar os acontecimentos na Palestina com algum cuidado por lá ter vivido durante anos, quando olho para trás vejo o erro que é procurar cair na discussão de quem começou primeiro. Um lado e outro (à semelhança do que acontece na fronteira norte de Israel entre este e o Hizbullah) mantém normalmente um certo nível de violência. Depois fazem os seus planos e utilizam o seguinte ataque do adversário para iniciar o seu próprio movimento, tipicamente preparado com bastante antecedência. Aconteceu assim em 1982, como ficou brilhantemente descrito em "Israel's Lebanon War" dos israelitas Ze'ev Schiff e Ehud Ya'ari[22]. E voltou a acontecer o mesmo, nas palavras da própria imprensa israelita que admite que "A resposta de Israel de quarta-feira estava planeada há muito mas tinha sido adiada devido à campanha eleitoral"[23].

Mas alguns eventos são relativamente claros, embora nem todos tenham tido a mesma reprecursão na imprensa internacional. No dia 5 de Novembro, o IDF (forças armadas israelitas) admitiu ter morto um palestiniano desarmado que se aproximou demasiado da barreira que separa Gaza de Israel no dia anterior[24]. O homem, que não reagiu aos avisos feitos pelos militares israelitas sofria de perturbações mentais e foi alvejado por não se ter afastado. Infelizmente não fico surpreendido pelo evento. Nas anos que passei na Palestina tive que cruzar check points israelitas centenas de vezes, para além das entradas nas fronteiras terrestres (para a Jordânia) e no aeroporto Ben Gurion (perto de Tel Aviv). Diz-me a experiência que embora estas travessias (em especial as das fronteiras) fossem lentas e aborrecidas, normalmente não eram arriscadas. Não era incomum ser revistado e interrogado inúmeras vezes e passar 4 a 6 horas no processo de segurança. O processo era mais simples e mais profissional quanto mais velhos e experientes fossem os militares ou seguranças envolvidos no processo. No entanto, por vezes tinha o azar de encontrar alguns acabados de entrar no serviço. E com esses assisti ou fiz parte de algumas situações bastante mais complicadas. Numa ocasião, num check point à saída de Nablus (Cisjordânia) um jovem militar israelita que parecia ainda não ter saído da adolescência entrou subitamente em pânico quando se apercebeu que eu tinha um casaco vestido, enquanto os restantes passageiros estavam apenas de t-shirt. O facto de ser um pouco mais friorento que os meus colegas valeu-me um susto grande já que o guarda acreditou que eu poderia ser um bombista suicida e o casaco esconder os explosivos. Apontou-me a M16 (salvo erro) ao peito enquanto dava alertas e me gritava num inglês difícil de compreender para abrir o casaco imediatamente. A situação também era resultado de umas horas antes um comando israelita (provavelmente do Shin Bet) ter entrado na cidade de Nablus para uma operação na cidade e de cidade ter sido fechada ao mundo durante horas, mas essa história ficará para outro dia. Numa outra situação, esta no check point imediatamente antes de chegarmos ao Aeroporto de Ben Gurion, o meu taxista (apropriadamente chamado Arafat) estava preocupado por o guarda que fazia a revista ao seu Mercedes novinho em folha estar a ser muito pouco cuidadoso. Enquanto procurava bombas debaixo do carro, com um espelho pendurado na ponta de um tubo de ferro, o aparelho acertava continuamente no carro deixando o pobre Arafat desesperado. O jovem militar israelita entrou subitamente em stress quando viu a forma como o taxista olhava para ele, apontou-lhe uma arma ao corpo e desatou aos gritos. Só a intervenção de um militar mais veterano impediu que a troca de palavras que se seguiu acabasse de forma mais dramática.

Mas voltemos ao incidente que levou à morte do doente mental palestiniano. Não é difícil imaginar que algum soldado mais inexperiente tenha disparado em pânico. Terá sido provavelmente um acidente. Típico quando há armas a mais e juízo a menos, mas ainda assim um acidente. Mas existe ainda outra questão em relação a esse disparo, que é a total impunidade de qualquer militar israelita quando mata um palestiniano. Essa inexistência de accountability leva também a que estes eventos se repitam em inúmeros check points. Seja porque alguém não ouviu a ordem, porque não a compreendeu (sei por experiência que muitas vezes as ordens são dadas em hebraico e não em árabe ou inglês), ou qualquer outro motivo. O facto é que todos sabem que nada acontecerá a um israelita que dispare num palestiniano. E isso já é um problema político e uma questão de justiça, não um acidente. Para piorar, neste caso específico, as equipas médicas do lado de Gaza foram impedidas de se aproximar do homem durante horas, acabando este por morrer[25]. Não sou jurista, mas quase que aposto que isto seria um crime de guerra, se estes crimes se aplicassem a todos os países e não só aos derrotados.

Uns dias depois, a 8 de Novembro, Ahmed abu Daqqa de 13 anos, é morto a tiro enquanto jogava futebol com os amigos a cerca de 1500 metros de um posto israelita. Morreu pouco depois[26].

Durante todo esse período, também o Hamas não esteve parado.  Entre dia 4 e 9 de Novembro, cinco rockets Qassam foram atirados sobre território israelita sem causar feridos ou mortos. A partir de dia 10, os ataques intensificam-se com 25 rockets atirados no dia 10 e cerca de 100 no dia que se seguiu.


A 14 de Novembro, Israel inicia a Operação Pilar de Defesa assassinando Ahmed Jabari, líder militar do Hamas[27] e alegadamente envolvido no rapto do soldado israelita Gilad Shalit[28]. No seguimento do ataque, ambos os lados sobem a parada e no dia seguinte já tinham perdido a vida 3 israelitas e 11 palestinianos, na sua maioria civis[29]. Pela primeira vez desde a guerra do Golfo (em 1991, quando Saddam disparou um grande número de mísseis Scud sobre Israel[30]) que ninguém nas principais cidades israelitas ouvia as sirenes de alerta de ataque. Agora voltou a acontecer em Jerusalém[31]. Também Tel Aviv foi alvo de mísseis disparados de Gaza[32]. Para já o novo sistema de defesa israelita Iron Dome tem conseguido interceptar uma parte considerável dos ataques, mas o facto de existirem já 3 vítimas civis israelitas prova que não é um sistema perfeito[33].

Neste momento em que vos escrevo (madrugada de 17 para 18 de Novembro), acabo de ouvir na SIC Notícias Henrique Cymerman anunciar que mais de 1000 rockets foram disparados da faixa de Gaza e mais de mil ataques aéreos e navais foram feitos pelas forças israelitas. Dezenas de milhares de reservistas estão a ser chamados para a fronteira de Gaza e toda a gente se prepara para o pior.

Veremos que novidades os próximos dias nos trarão. Mas só podemos esperar o pior. Infelizmente devemos estar prestes a ver mais uma invasão. Mais combates no meio de civis. Mais umas centenas ou milhares de vítimas que não têm para onde fugir. Mais um ataque com os indescritíveis IDF Caterpiller D9[34]. Mais uma guerra que deveria acabar com a "infraestrutura terrorista", mas que servirá apenas para criar milhares de novos recrutas para os movimentos fundamentalistas islâmicos. Nem tudo é igual. A nível político (em especial para a Irmandade Muçulmana) está muito em jogo. Mas para os civis de um lado e outro, voltamos ao mesmo. Uma guerra que é ainda pior do que a podre paz em que viviam.





quinta-feira, 19 de julho de 2012

Palestina: Esquerda vs Direita

Um fenómeno estranho e que sempre achei curioso é a forma quase perfeita como conseguimos catalogar a posição que cada um tem em relação ao conflito israelo-palestiniano baseados na posição política nacional (esquerda ou direita). As convicções são tais que são imunes a factos e desenvolvimentos. Diferentes governos tomam posse quer em Israel quer na Palestina, mas o apoio que cada um recebe do resto do mundo é sempre rigorosamente na mesma direcção.

E isto leva a alianças curiosas: os comunistas por exemplo, acabam muitas vezes aliados aos fundamentalistas islâmicos, quando os primeiros são o mais longe que pode haver de políticas baseadas na palavra dos livros sagrados. A União Soviética, o exponente máximo desse fundamentalismo ateu, tinha como um dos seus objectivos iniciais a total erradicação da religião[1]. Certamente todos nos lembramos da famosa frase de Marx onde trata a religião como "o ópio do povo"[2]. Carlos Chacal, o mais famoso de todos os terroristas - até Bin Laden ocupar esse trono - e Marxista-Leninista convicto, lutou na Jordânia e no Líbano integrado na PFLP (Popular Front for the Liberation of Palestine), assim como em raids na europa dos quais o mais famoso foi o ataque ao quartel general da OPEC em Viena, Áustria. E também o mesmo Chacal, em 2001 já preso em França, converteu-se ao Islão e escreveu dois anos depois um livro entitulado de "Islão Revolucionário"[3]. Na Palestina, as t-shirts de Che Guevara são comuns entre os jovens e este revolucionário argentino é visto como um herói quer entre os apoiantes da Fatah (seculares) como do Hamas (islâmicos).

Em Portugal, o PCP e BE são consistentemente pró-palestinianos enquanto o PSD e o CDS são inevitavelmente pró-israelitas. O PS comporta-se dependendo de estar no poder ou não.

O Partido Comunista Português, em nota do gabinete de imprensa em Setembro de 2011, anuncia que "apoia o reconhecimento da Palestina como Estado membro da ONU" e deixa bem explícito que as fronteiras devem ser as reconhecidas antes de 1967 e com Jerusalém leste como sua capital. Se até aqui esta nota poderia parecer uma simples e directa posição pela solução de dois estados, mais à frente encontramos verdadeiros juízos de valor ao estilo "bons vs maus"[4]:

Assim, o PCP exige do governo português (...) um inequívoco posicionamento no Conselho de Segurança, na Assembleia Geral da ONU, bem como no seio das Instituições Europeias em que participa, de apoio a esta legítima reivindicação do povo palestiniano, sucessivamente negada quer pela hipocrisia da chamada "comunidade internacional" quer pela criminosa acção do Estado israelita.

Cerca de um mês antes, o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda entrega um documento muitíssimo bem escrito (e muito menos emocional do que o do PCP)na Assembleia da República, onde recomenda ao governo o reconhecimento do estado palestiniano[5]. O documento realça o grande número de países que já reconheceram a Palestina e explica os motivos do seu apoio incluindo as várias resoluções das Nações Unidas, a violação sistemática e deliberada dos direitos humanos nos territórios ocupados e a barreira de segurança, cujo Tribunal Internacional de Justiça já condenou em 2003. A posição do BE não é tão radical como a do PCP já que evita totalmente os juízos de valor e procura fundamentar a sua recomendação em resoluções da ONU, nas suas leis fundamentais, nos direitos humanos e na posição da comunidade internacional.

O Partido Socialista mantém a sua rota sinuosa dependendo da sua posição dentro ou fora do governo. No final de 2011 (já fora do governo), critica a posição do governo português (PSD/PP) por se ter abstido na votação sobre a adesão Palestina a UNESCO por "considerar que ela diverge da orientação seguida nos últimos anos pelo país em relação ao Médio Oriente"[6]. No entanto, uns meses antes (quando José Sócrates era ainda chefe de governo), juntou-se ao PSD para rejeitar as propostas de reconhecimento do estado da Palestina (propostas redigidas pelo PCP, BE e PEV) e até escrevendo um texto conjunto com PS/PSD. Ou seja, quando no poder, submete-se à realpolitik da diplomacia internacional ficando refém dos seus aliados mais poderosos[7]. Esta lógica bovina ficou patente quando o deputado socialista Paulo Pisco utilizou o argumento de que "nenhum estado, enquanto membro da UE reconheceu o estado palestiniano"[8].

Os Sociais-Democratas e os Democratas Cristãos, por seu lado, mantém um discurso mais ou menos coerente na sua incoerência. Apoiam a existência de um estado palestiniano mas "Antes do reconhecimento do estado importa criar as bases desse mesmo estado" ou "Aderimos à ideia do Estado da Palestina como um factor de paz e não como mais uma acha para a guerra"[9]. Embora a ignorância de grande parte dos nossos parlamentares seja reconhecida e merecida, suspeito que terão alguma noção de que não é fácil criar as bases de um estado quando as prisões são bombardeadas por Israel[10], os deputados parlamentares eleitos democraticamente tomados reféns pelo IDF[11], as estradas são cortadas por centenas de check points[12], os aeroportos destruídos[13] e centenas de milhares de colonos judeus são colocados a viver em território ocupado na Cisjordânia[14]. Não é preciso ser especialista para ter alguma ideia do que se está a passar.

Só para efeitos de comparação, não ouvimos este tipo de discurso quando se tratou da independência de Timor-Leste. Nessa altura, não existia nem esquerda nem direita, nem da criação das bases do estado antes de existir um estado, nem o risco de se tornar uma acha para a guerra. Apenas direitos humanos. E é só disto que se trata.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O meu primeiro dia na Palestina

Check Point de Qalandia - Palestina
Muitos dos artigos que vou escrevendo neste blog são resultado de investigação de terceiros. Pensamentos dos autores que mais me vão impressionando, alguns vídeos e documentários que considero particularmente interessantes e críticas a livros sobre os principais assuntos que aqui são analisados. Mas, na realidade, não foi esse o objectivo inicial de ter criado este blog. Também não foi o de criar um espaço de discussão, embora muitas vezes se tenha tornado precisamente nisso, o que me tem dado muito prazer e - não sendo totalmente inesperado - tornou toda esta experiência mais rica e completa.

Desde 2006 que tenho passado mais tempo no Médio Oriente do que na minha terra natal. Fui acumulando experiências que, por questões de segurança pessoal e carreira profissional não podia contar publicamente no momento em que aconteceram. Em especial nos 3 anos que vivi na Palestina, a minha presença foi suscitando interesse das autoridades israelitas que compreensivelmente queriam controlar o que eu lá estava a fazer e o motivo das minhas constantes entradas e saídas. Uma vez que neste momento já deixei de ter que viajar para Israel e para a Palestina, todas essas experiências podem agora ser contadas sem que eu corra riscos de maior. Na sua maioria, não serão substancialmente diferentes das que vão encontrar descritas pelos correspondentes internacionais, pelos voluntários das inúmeras ONG's que por lá populam e dos mediadores que continuam a procurar uma paz duradoura sem grande sucesso. Mas é importante que estas histórias sejam contadas, para que se juntem a milhares de outras, para que a história contemporânea da Palestina possa ser contada com o máximo de testemunhos possíveis, em vez de estar constantemente refém de meia dúzia de fontes que, mesmo sendo extremamente credíveis, nunca serão demais.

Assisti a muitos pequenos acontecimentos que não foram relatados em nenhum jornal. Ouvi histórias da boca dos palestinanos que parecem demasiado incríveis para serem verdade. E também passei muitos dias perfeitamente aborrecidos e pacíficos onde chegava a casa para ver que tinha dezenas de mensagens de amigos e familiares preocupadíssimos porque tinha aparecido uma notícia dramática nos media que no terreno nem notávamos que tinha acontecido. Tipicamente era discutida ao pequeno almoço com o mesmo distanciamento que se estivéssemos a falar do Tibet.

O relato que se segue é da experiência de entrar na Palestina pela primeira vez. Já tinha sonhado e imaginado este momento durante meses. Três amigos meus trabalhavam num projecto em Ramallah e tentavam convencer-me a incorporá-lo. Na altura residia no Dubai já há alguns anos, lugar onde me sentia perfeitamente em casa mas que já tinha pouco de novo para me mostrar. Aproveitava os tempos livres para viajar pelo Médio Oriente usando desculpas mais ou menos típicas de mergulho, visitas de amigos e familiares e as inevitáveis visa trips, fui conhecendo toda a região. Estas últimas (visa trips)referem-se às viajens forçadas de saída dos Emirados e nova entrada para conseguir mais um mês ou dois de visto de turista. Como existia sempre alguém com o visto prestes a expirar, era normal fazer uma visita a Oman - por vezes apenas por breves minutos - ou então aproveitar para ir ver algum país na região durante um fim de semana. A escala a que isto acontece é tal que quando aterramos no Bahrain, as hospedeiras de bordo avisam para as as pessoas que estão em visa trip nem se levantarem pois as autoridades carimbam o passaporte nos próprios lugares. Quando visitei o Bahrain cerca de metade dos passageiros não chegaram a por um pé em terra. Limitaram-se a receber o carimbo e voltar para trás.

Acabei por aceitar o convite feito pela empresa indiana para trabalhar na Palestina num sistema misto em que passava umas semanas em Ramallah e outras no Dubai, dependendo das necessidades do projecto que estava previsto durar pelo menos um ano. Era um projecto de informática cujos detalhes aborreceriam de morte os meus leitores, mas onde vale a pena explicar que tínhamos um pequeno grupo (uns 6 a 8) consultores onsite enquanto a equipa de desenvolvimento e testes se encontrava na Índia, mais precisamente em Hyderabad.

Na primeira semana de Fevereiro de 2008 ainda de madrugada embarquei num A320 da companhia aérea Royal Jordanian do aeroporto internacional do Dubai a caminho de Amman, capital jordana. Uma vez que a esmagadora maioria dos países do médio oriente ainda mantém (no papel) um estado de guerra com Israel, e a Palestina não tem um aeroporto próprio (tinha um em Gaza mais foi bombardeado e fechado em 2001[1]), a melhor hipótese para fazer esta viagem é indo até à Jordânia e seguindo depois por terra.

Passado umas 3 horas aproximamos-nos do pequeno mas prático Aeroporto Queen Alia, cujo nome é uma homenagem à bela e jovem rainha jordana falecida num desastre de helicóptero e que curiosamente tinha sido hospedeira de bordo da mesma Royal Jordanian[2]. Um dos meus escritores favoritos não resiste, cada vez que fala neste aeroporto, a dizer que "é o único aeroporto do mundo com o nome de uma pessoa que morreu num acidente aéreo". Como portuense, I know better, já que o aeroporto internacional da minha cidade foi rebatizado em 1990 de Aeroporto Francisco Sá Carneiro[3]. Mas talvez Robert Fisk tenha razão, e o Queen Alia seja mesmo o único com o nome de uma vítima de acidente aéreo. E talvez a nós nos caiba o exclusivo de ter um aeroporto com o nome de uma vítima de um atentato à bomba num avião. E é com estes pensamentos perfeitamente adequados a quem está dentro de um avião que chego pela primeira vez ao reino hashemita. Adiante...

Um dos meus colegas, um brasileiro com quem trabalhei em diversas ocasiões e que é como um irmão para mim, já tinha percorrido o "caminho as pedras", detalhando cada passo desde que iniciava a viagem no Dubai até à chegada a Ramallah. Mas também me avisou das atribuladas viagens que me esperavam. De Amman até à ao rio Jordão, fui transportado por um carro alugado e a viagem correu bem, embora eu tenha ficado impressionado com a quantidade de neve de ambos os lados da estrada. Eu praticamente nunca tinha visto neve na minha vida. Recordo-me de uma ou duas vezes em pequeno. Também umas semanas antes de emigrar para o médio oriente em 2006, que nevou qualquer coisinha em Lisboa. E estou a descontar a neve do Ski Dubai que não conta porque é um frigorífico gigante. E subitamente, de todos os lugares à face da terra, é no Médio Oriente que a vou encontrar em maior quantidade. Depois de uma hora por umas estradas de qualidade discutível, chego à fronteira da ponte Allenby (segundo os israelitas) ou ponte Rei Hussein (segundo os jordanos).

Depois de gastar os 100 dólares mais mal gastos da minha vida entrei no serviço VIP de passagem da ponte, que significa que a espera é feita em sofás a travessia de umas centenas de metros é feita numa Toyota Hiace em vez de num autocarro e temos direito a café no lado jordano e água engarrafada do lado israelita. Conselho de amigo, a não ser que os 100 dólares não vos saiam do bolso, poupem-nos para qualquer outra coisa.

Atravesso o rio onde João Batista batizou Jesus e tantos outros seus contemporâneos há dois milénios atrás com grande expectativa. Mas o rio mal se via. Aliás, provavelmente a palavra riacho ou fio de água seria mais apropriada, mas não faz mal. As bandeiras com a estrela de David aparecem subitamente de ambos os lados da estrada e deparo-me com o primeiro de muitos check points a que nunca me viria a habituar nos anos que por ali passei.

À chegada, somos separados das malas e depois enviados para uma pequena sala de espera com dois sofás e um quadro desgastado de "A criação de Adão" do tecto da Capela Sistina. Com o tempo vamos aprendendo a lidar com esta espera, com os interrogatórios que se seguem e a frustração de ninguém dar informação nenhuma. Dependendo do quanto gostam de nós, podemos esperar 2 ou mais horas, sendo que o meu recorde vai em cerca de seis horas e meia. Um dia destes eu dedico aqui um artigo só às aventuras da ponte Allenby e do aeroporto de Ben Gurion.

E ao fim de umas 3 ou 4 horas lá consegui sair para descobrir que o taxista tinha desistido de esperar e estava basicamente sozinho no meio do deserto de rocha que cobre aquela zona do Mar Morto. Depois de conseguir encontrar um taxi amarelo (i.e. um taxi palestiniano que têm que ficar a uns 2 Kms de distância do edifício da ponte) começamos a longa subida desde Jericó por entre montanhas até às zonas mais altas de Ramallah.

Por esta altura ainda estava bastante confundido. Alguns carros tinham a matrícula palestiniana e outros israelita. Claramente quem mandava nesta zona era Israel, já que os carros da polícia eram destes. Também se viam ocasionalmente veículos militares embora não fossem assim tão frequentes. Só ao fim de uns 40 ou 50 minutos de viagem, já bem dentro do país é que vi os grandes quartéis militares israelitas, com os jipes e camiões todos alinhados e em números bastante elevados (na ordem das muitas dezenas), a uns 100 metros da estrada e bem à vista. Foi nesta mesma estrada que uns meses mais tarde vi os imponentes tanques israelitas Merkava, de que falei num artigo escrito em Abril deste ano. Embora olhando para o mapa de um dos muitos Lonely Planet que fui acumulando eu estivesse em plena Palestina - mais precisamente na Cisjordânia - a verdade é que os palestinianos estavam (e estão) muito longe de ser donos e senhores desta região. A Palestina assemelha-se muito mais a um arquipélago de cidades controladas pela Autoridade Palestiniana enquanto o grosso do território é vagamente controlado pelas autoridades militares israelitas. Para tornar a situação ainda mais complicada, mais de meio milhão de israelitas vivem em colonatos ilegais[4] espalhados pela Cisjordânia e Jerusalém Oriental[5].

A Barreira de Segurança
Mas verdadeiramente marcante terá sido mesmo a visão da chamada Barreira de Segurança seguido de Qalandia. Em inglês o termo utilizado pelo governo israelita e os seus apoiantes é de security fence, onde fence lembra as divisões de madeira branca que separam as moradias nos bairros mais seguros americanos. Na realidade é uma muralha. De cimento. Alta. A perder de vista como se fosse uma muralha da China dos tempos modernos. Finalmente chegamos até Qalandia, o grande Check Point que liga Jerusalém a Ramallah com as suas torres, arame farpado, barreiras de cimento nas estrada e um aparato militar bem visível . As paredes estão (do lado palestiniano) cobertas de grafitis dos heróis óbvios, como Yaser Arafat e Marwan Barghouti, mas também com alguns bastantes mais inesperados e criativos tais como pinturas de Ghandi ou um famoso e extremamente simples "CTRL + ALT + DEL".

Grafiti pedindo a libertação de Barghouti
Infelizmente não me foi possível nessa primeira passagem apreciar a arte moderna nas paredes pois quando estava mesmo em frente à entrada principal começaram distúrbios entre um grupo de crianças e adolescentes palestinianos com os guardas israelitas. Com o meu taxi amarelo preso no trânsito totalmente parado, quando se começaram a ouvir os primeiros tiros fiquei sem saber bem o que fazer: sair do taxi para o meio da confusão com os carros todos bloqueados e as pessoas a fugirem entre os automóveis não parecia uma grande ideia. Por outro lado ficar ali enquanto os soldados avançavam na nossa direcção com as armas apontadas também poderia ser uma forma bastante passiva de levar com um tiro. Dado leque de opções que se abriam, optei pela terceira que foi enterrar-me entre os bancos. Como ainda senti uma certa vergonha na cara por ver o taxista impávido e sereno no meio deste faroeste, perguntei por sinais e um inglês especialmente básico se deveria mergulhar (fiz uns movimentos do tipo salto olímpico para a piscina imitando a linguagem futebolística compreendida por todo o planeta). A resposta veio imediata e directa: No... rubber bullets. Notei um certo ar de gozo no motorista, mas nesse momento tinha maiores preocupações do que o meu frágil ego de Lawrence da Arábia. Os tiros continuaram durante mais uns minutos (ou seriam segundos?) enquanto o meu pensamento voava entre "como raio é que ele sabe que as balas são de borracha?" e "será que alguém vai olhar para o meu ar de estrangeiro e achar que sou um israelita infiltrado" até - obviamente - ao "talvez isto de vir para a Palestina não tenha sido um dos meus momentos mais inteligentes...". Mas o senhor lá devia ter razão porque um miúdo por volta dos seus 10 anos e que ia a correr entre os carros levou um tiro numa perna mesmo ao meu lado e continua a correr, embora se contorcesse de dores enquanto o fazia.

E assim passou minha primeira aventura pela terra santa. Passados uns 15 ou 20 minutos, chegava ao compound onde fiquei durante grande parte dos anos que se seguiram, recebido por guardas de AK-47 ao bom estilo revolucionário e encontrando os meus velhos colegas de paragens anteriores. Não mais de uma hora passada, estava sentado com eles e com um palestiniano de quem me viria a tornar bom amigo enquanto bebia uma merecida Corona no clássico bar Sangrias no centro de Ramallah. Para minha surpresa, fartaram-se de rir de mim e invejaram-me porque andavam aborrecidos porque não havia nada para fazer. De facto, passei dezenas e dezenas de vezes por Qalandia depois disso, mas nunca voltei a ouvir tiros por lá. E esta história, ficou durante muitos meses escondida de todos os que me eram próximos excepto aos que foram ou planearam ir mesmo a Ramallah. Agora, à distância, ela tem bastante mais interesse e já não preocupa nenhum familiar. E confesso que tenho imensas saudades da Palestina.

[Nota do Autor: as fotografias foram retiradas da internet]

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Arafat, A pedra que os palestinianos lançaram ao mundo

Book Review

No mesmo dia em que Yasser Arafat regressa aos noticiários de todo o mundo, desta vez devido a uma investigação da Al Jazeera[1] que indicia que este terá sido vítima de assassinato através de polónio 210[2], acabava eu de ler a excelente biografia  "Arafat, A pedra que os palestinianos lançaram ao mundo" editado pelo Público e da autoria de Margarida Santos Lopes. Este é um daqueles livros que esteve em fila de espera durante vários meses. Talvez por eu não ser um grande apreciador de biografias. Talvez por existirem outros assuntos que não sendo mais importantes, poderão ser mais actuais ou urgentes. Ou talvez por as minhas expectativas não serem muito elevadas já que sou bastante crítico das posições discretamente tomados pelo jornal "Público" nas questões sobre o médio oriente, em particular na forma como é relatado o conflito israelo-palestiniano.

Regra geral, as biografias não me interessam particularmente pois sempre achei mais interessante discutir ideias, soluções e acontecimentos do que pessoas específicas. Mas há, de facto, algumas personagens que marcam a história. E são eles próprias os criadores e propagadores de todas essas marcas históricas. Arafat é - para o povo palestiniano - o pai da sua nação. Isso é aceite e assumido por amigos e inimigos.

Em relação à actualidade do assunto, se existe algo que Arafat certamente conseguiu foi tornar a questão palestiniana no mais mediático de todos os dramas nacionais a nível global. Suscita paixões em todos os cantos do mundo, mesmo em lugares cujas relações históricas com a Palestina e Israel são quase nulas, como é o caso de Portugal. E transformou o problema da sua nação no Santo Graal da diplomacia mundial.

Por fim, as minhas reservas no que toca à linha editorial do Público levavam-me a crer que este livro poderia não passar de uma breve colectânea de algumas das biografias já feitas sem acrescentar muito ao que já é conhecido.

De facto, o livro não revela grandes surpresas em termos de factos históricos sobre o famoso líder, mas consegue algo que é raro: é um livro de história que se lê como um romance. Miguel Sousa Tavares di-lo no seu prefácio e eu estou totalmente de acordo. Para além das entrevistas feitas pela autora, das inúmeras fontes bibliográficas que incluem os melhores e mais credíveis autores sobre o Médio Oriente (tais como Robert Fisk, Edward Said, Thomas Friedman, Ze'ev Schiff) e as auto-biografias de muitos dos líderes envolvidos, a autora consegue manter uma prosa coerente, cronologicamente controlada e sem adiantar o desfecho do que se vai passar a seguir.

A cada momento do livro vamos vivendo as aventuras de um homem que viveu e lutou no Egipto, Israel/Palestina, Jordânia, Síria, Líbano, Tunísia e mais uma série de países. Que trabalhou contra e a favor de todas as grandes potências mundiais e regionais. Que cresceu no meio do nacionalismo árabe de Nasser no Egipto, que viu esse nacionalismo desaparecer emancipando a luta palestiniana. Que assistiu e apropriou-se do fenómeno dos bombistas suicidas no líbano e posteriormente na sua própria terra. Sobreviveu a inúmeros atentados e tentativas de assassinato por parte de inúmeros inimigos e viveu para poder voltar a ver a sua terra, embora nunca tenha conseguido o estado que tanto desejava.

Mas por muito especial que Arafat tenha sido, certamente cometeu erros táticos e estratégicos gravíssimos. E as suas mãos estão banhadas de tanto sangue quanto os seus inúmeros inimigos. Fomentou uma guerra civil na Jordânia e tentou afastar o rei hashemita e perdeu. Criou um "estado dentro de um estado" no Líbano até provocar (ou melhor, deixar-se provocar) uma invasão total israelita pelas mãos do seu arqui-inimigo Ariel Sharon. Recusou qualquer divisão de poder dentro da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) afastando todos os que não seguiam rigorosamente a sua linha de pensamento. Manteve prisões nos territórios ocupados que atropelavam qualquer conceito de direitos humanos. E finalmente, cometeu o erro dos erros ao apoiar Saddam Hussein na sua invasão ao Kuweit deixando-o totalmente isolado no momento em que a União Soviética. O dinheiro que fluía para a sua organização com origem nas petro-monarquias do Golfo Pérsico subitamente secou e foi todo ele canalizado para o Hamas, que se transforma rapidamente numa organização muitíssimo mais organizada do que a decrépita e corrupta Fatah.

Yasser Arafat foi tudo isto. Herói e vilão. Terrorista e prémio Nobel. Criador de nações e destruidor de países. Um homem que tem o seu lugar na história e cujos sucessos e falhanços influenciaram e continuarão a influenciar a vida de milhões.