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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

1942 - O Brasil e a sua guerra quase desconhecida

É relativamente comum encontrar livros de que não gosto pela sua forma ou pelas suas opiniões, mas não é habitual encontrar um livro com tantos erros históricos. Tantos, que inevitavelmente colocamos em dúvida tudo o que de novo encontramos no livro. 

Escrito por João Barone, entusiasta da FEB (Força Expedicionária Brasileira) e filho de um veterano que lutou na segunda guerra mundial na frente italiana este "1942 - O Brasil e a sua guerra quase desconhecida" poderia ser um documento interessantíssimo que desse ao público um maior conhecimento sobre a experiência brasileira na guerra.

Mesmo não sendo eu brasileiro, tive imensa curiosidade em ler o livro assim que o vi. O Brasil lutou na segunda guerra mundial, mas mesmo para quem já tenha lido dezenas de livros e documentários sobre esta guerra, o nome do país praticamente não é referido. A sua importância foi obviamente pequena e a sua participação limitada e tardia, mas o que fez desta guerra uma guerra mundial foi precisamente o facto da sua dimensão ser tal que mesmo países longe dos principais palcos de batalha - Europa, Norte de África, Pacífico e China - foram seriamente afectados. 

Mas o que encontrei foi, infelizmente, um livro confuso e com graves erros. A sequência cronológica é constantemente atropelada o que permite ao autor usar como argumentos situações fora do seu tempo. Se as descrições dos soldados e pequenas unidades são bastante interessantes, a visão macro da guerra parece excessivamente deturpada e pouco clara. A verdade é que a FEB foi enviada para Itália numa altura em que o desembarque da Normandia já tinha sido feito com sucesso e devidamente consolidado. No leste os exércitos de Hitler e seus aliados já tinha sido amargamente derrotados em Stalingrado e em Kursk e estavam a retirar ou a ser cercadas por uma frente que retrocedia centenas de quilómetros. No atlântico, os submarinos alemães estavam a ser dizimados pela frota americana e o Norte de África estava já totalmente limpo de forças do eixo. Numa frase, a guerra estava ganha quando o Brasil efectivamente pega em armas para lutar contra a Alemanha Nazi. E, numa guerra onde morreram muitos milhões de combatentes e ainda mais civis, o Brasil enviou apenas 25 mil homens para o terreno. Por vezes, Barone perde essa perspectiva e procura energicamente mostrar a importância da frente em que os brasileiros combatiam.

Quanto aos erros e imprecisões, deixo aqui alguns que espero que possam ser devidamente corrigidos em posteriores edições do livro: (p116) a ocupação da Guiana Holandesa pelos Estados Unidos em Novembro de 1941 foi feita com o acordo do governo holandês no exílio. Falar apenas de ocupação leva os leitores a (erradamente) pensarem que foi uma invasão. (p128) referir a hipótese de que o governo americano tivesse conhecimento do iminente ataque a Pearl Harbour (algo que é categoricamente desmentido por todos os historiadores) dizendo apenas que foi "algo nunca comprovado" contribui para alimentar a própria ideia. "Não comprovado" é uns graus diferente de "não existe a mais pequena prova nesse sentido". (p168) obviamente a ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação) não executou a sua primeira missão no dia 12 de Novembro de 1945, já que a guerra já tinha acabado à muito por essa altura. (p181) sobre as deserções no FEB, duas em 25 mil são matematicamente menos de um por cento, tal como diz o autor, mas seria mais preciso se dissesse que são menos de 0,01%. É que um por cento de deserções, com a guerra já ganha e os alemães em completa retirada até seria um valor extremamente alto. (p230) Roosevelt não faleceu no início de 1945 como diz Barone mas em 12 de Abril, apenas umas semanas antes do próprio Hitler. (p242) a descrição do levantamento (ou "levante" na forma brasileira) de Varsóvia "que ajudaria a expulsar os nazistas do país e ao mesmo tempo serviria para intimidar a ocupação soviética" está francamente mal explicado. Naquele momento da guerra o objectivo era mesmo a expulsão dos nazis. A tal ajuda que não veio era precisamente dos soviéticos, que atrasaram o seu avanço para dar tempo aos alemães de destruirem totalmente a rebelião. Tirando Churchill que se apercebeu muito cedo das intenções soviéticas, muito poucos foram os que fizeram algo para o evitar. Nota especial para a liderança americana que em momento algum viu nos soviéticos os seus futuros inimigos.

Muitos destes problemas poderiam ter sido resolvidos com uma revisão mais profissional antes do texto ser publicado. Enquanto escritor amador (blogger) compreendo perfeitamente que é normal dar erros ridículos, mas um livro em papel não é uma página da internet que é imediata e facilmente corrigível. Um livro, depois de publicado é um projecto fechado e não pode ser lançado numa versão draft.

Numa nota mais positiva, apreciei muito do que aprendi sobre a participação brasileira, sobre a complicada posição política do governo Vargas (lutando ao lado das grandes democracias quando ele próprio era uma ditadura de inspiração fascista), até da absoluta impreparação das forças brasileira que chegaram à frente ainda sem armas (fez-me lembrar Portugal na Grande Guerra) e o pós-guerra dos pracinhas com o silenciamento das suas experiências. O trabalho que João Barone está a fazer é relevante e é necessário que alguém consiga fazer esta ligação entre os historiadores académicos e um público mais vasto. O seu estilo mais leve é importante, mas terá que se preparar melhor no futuro se pretende avançar novamente para uma obra desta envergadura.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Invencível - Unbroken 2014

Este filme de Angelina Jolie retrata uma das muitas histórias de heroísmo e bravura que se passaram durante a guerra de 39-45. Baseado em factos verídicos, Unbroken acompanha a vida de Louis Zamperini, filho de italianos imigrantes nos Estados Unidos que, de uma infância de alcoolismo e brigas chega aos Jogos Olímpicos de Munique onde a sua última volta na prova dos 5000 metros impressionou Hitler de tal forma que este insistiu em o conhecer e cumprimentar (embora esse pormenor não seja incluido no filme). 

Durante a guerra, Zamperini fez parte da tripulação dos bombardeiros B-24 Liberator onde acaba por sofrer um acidente e ficar à deriva no mar durante semanas até se tornar prisioneiro de guerra do Japão. 

O filme é impressionante, bem filmado, com bons actores e com uma história de coragem e perseverança que marcam positivamente uma guerra tão cheia de sofrimento e vingança. Jolie, alguém que já demonstrou tantas vezes a sua energia e vontade de estar do lado certo da História, utiliza aqui a sua arte - e não só a sua imagem e fama - para mostrar mais uma história que merecia certamente ser conhecida pelo público. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Guerra do Mundo

Escrito por um dos meus historiadores favoritos, "A Guerra do Mundo" é um livro sobre a história do ódio no século XX e sobre as vítimas que este causou, passando pelos pogroms, as guerras mundiais, os genocídios judaico, arménio, tutsi, entre outros. A lista de vilões é enorme e os seus actos dignos de alguns dos piores carniceiros de toda a história. Mas "A Guerra do Mundo", numa assumida associação ao livro de ficção de H.G.Wells, acaba por ter um problema grave de âmbito. Ao juntar eventos extremamente complexos como a segunda guerra mundial, a guerra fria, a guerra civil de Angola ou a guerra Russo-Japonesa de 1905, Ferguson acaba por não conseguir dar o detalhe necessário e as explicações necessárias para cada um dos temas.

Mas, não obstante as suas falhas, a "Guerra do Mundo" é um belíssimo livro que consegue captar o ocaso dos Impérios Europeus (Austro-Húngaro, Otomano, Russo, França e Reino Unido) as décadas de ascenção das novas super-potências (Estados Unidos da América e União Soviética) e o movimento de desafio do que poderiam ter sido os novos impérios do mundo (Alemanha, Itália e Japão). No fundo, o séc.XX acaba por ser analisado do ponto de vista da segunda guerra mundial, com 40 anos de precedentes (como o tratado de versailles, a ascenção das novas potências ou a grande depressao) e outros 40 de resultados (como as super-potências, as guerras de independência em África e na Ásia, o conselho de segurança das Nações Unidas ou as guerras do Afeganistão e Angola).

Niall Ferguson é também um verdadeiro comunicador, perfeito nos seus programas de televisão e brilhante na sua escrita. Os seus livros são fáceis de ler e agarram o leitor da primeira à última página. Mas devo dizer que os seus momentos mais espectaculares estão na defesa de realidades históricas alternativas, como no seu "Virtual History: Alternatives and Counterfactuals" de 2000, Esse será provavelmente o seu lado mais único, quando utiliza uma análise histórica para provar que muitas decisões e desfechos poderiam, com uma probabilidade razoável, ter sido bastante diferentes.

Conseguimos ver algum deste brilho em "A Guerra do Mundo", mas o livro peca por um final cada vez mais acelerado, onde os grandes eventos do fim do século, como a ascenção do radicalismo islâmico e os conflitos do Médio Oriente (que de facto tomaram o palco central da política e diplomacia internacional) a serem tratados de forma muito superficial.

Resumindo, um livro interessante e bem escrito que não exige conhecimento prévio especializado sobre os temas tratados e claramente direccionado ao grande público. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Stalingrad

Não é possível exagerar a importância da batalha de Estalinegrado, entre 1942 e 1943. É nesta cidade que o 6º Exército Alemão, liderado por Friedrich von Paulus, encontra o 62º Exército Soviético de Vasily Chuikov numa batalha que chega a ter mais de um milhão de homens de cada lado. As perdas para ambos foram terríveis mas, no final, o mundo suspirou de alívio quando percebeu que Hitler tinha sido decisivamente batido pela primeira vez, e que a segunda guerra mundial tinha acabado de virar a favor dos aliados. Nenhuma outra batalha da segunda guerra mundial, não obstante o seu brilhantismo técnico, números envolvidos, genialidade das tácticas militares ou qualquer outro factor foi tão decisiva como esta. É em Stalingrado - hoje Volgogrado - que a guerra foi decidida e que Stalin se torna num dos mais poderosos homens do século XX. 

É sempre um prazer ler Antony Beevor. Já aqui tinha revisto três livros deste autor (Segunda Guerra Mundial, A Queda de Berlim e Um Escritor na Guerra), todos relativos à guerra de 1939-1945 e aos quais praticamente só reservei elogios. Depois de ter detalhado tanto as qualidades deste autor e da sua obra, acho que só me resta dizer que "Stalingrad" é - de longe - o melhor de todos eles. Com o ritmo certo, enorme detalhe, mostra-nos a batalha de Estalinegrado nos vários níveis a que esta se move: entre a vontade férrea dos sanguinários Hitler e Stalin, dispostos a pagar com o sangue dos seus povos qualquer custo necessário para vencer esta batalha; na esfera do simbolismo, já que a cidade tinha o nome do ditador soviético o que leva ambos a sobrevalorizarem uma cidade já sem qualquer valor económico ou militar; das lembranças da gigantesca derrota napoleónica da Grand Armée de 1812 que perdera na invasão da Rússia quase meio milhão de soldados, obrigando o Imperador françês a regressar a Paris com apenas 27 mil soldados e a sua reputação decisivamente manchada; aos amedrontados civis apanhados no meio da mais horrorosa luta porta-a-porta; e aos pobres soldados de ambos os lados a lutar em condições miseráveis sem comida, água ou munições pelos esgotos e caves da cidade, de prédio em prédio até chegarem ao Rio Volga, no que ficou conhecida como a Rattenkrieg (por comparação à Blitzkrieg, guerra-relâmpago, os soldados alemães chamaram a este tipo de luta, "guerra dos ratos").


Estalinegrado - luta pela fábrica "Outubro Vermelho"
a apenas uma centenas de metros do rio Volga
Não deixa de ser curioso que Hitler, que tanto esforço tinha feito para consegui tomar países sem entrar em guerras urbanas tenha caído no erro de tentar tomar os escombros de Stalingrado, quando já não existiam verdadeiros motivos militares ou económicos para o fazer. Nesta altura (Outono de 1942), Hitler colecionava capitais europeias e nenhuma delas tinha sido destruída ao ponto que se viu em Stalingrado. As grandes cidades de França, Bélgica e Holanda estavam em relativo bom estado e só no leste algumas das cidades (nomeadamente na Polónia) tinham sinais sérios de bombardeamento. Em Leningrad, as tropas alemãs limitaram-se a cercar a cidade e deixá-la a morrer à fome sem se darem ao trabalho de tentarem tomá-la completamente. Mas para o lado ocidental do Volga, Hitler decidira que queria a cidade até ao seu último prédio. Toda a sua produção industrial tinha sido arruinada ou movida para leste meses antes e o tráfego fluvial que permitia a ligação do Volga até ao Mar Cáspio (e daí para a ajuda material americana através do Irão) também estava bloqueada já que o 6º Exército chegara até ao rio em vários pontos. A hubris de Hitler e a sua incapacidade em ouvir qualquer conselho dos seus generais, assim como um estado-maior das forças armadas sem qualquer capacidade ou vontade de fazer frente à intervenção directa de Hitler nos detalhes da guerra tornaram toda a situação impossível e muito pouco flexível. São lições que não foram aprendidas nessa altura e que se voltariam a revelar trágicas mais tarde durante a resposta à invasão aliada na Normandia.

Em paralelo, em Moscovo, Stalin permitiu ao seu general estrela, Georgy Zhukov a preparação de uma grande ofensiva de inverno sobre Von Paulus. Ao contrário do que era seu hábito, Stalin não tentou interferir exageradamente e aceitou a necessidade de algo diferente da habitual táctica de carne-para-canhão, com que os alemães tinham sido recebidos. Até aí, centenas de milhares de tropas soviéticas, mal preparadas, mal armadas, muitas vezes sem armas suficientes para toda a gente, eram atiradas contra as linhas da frente em missões quase suicidas contra os exércitos do Eixo. Torna-se então comum a existência de uma segunda linha soviética que disparava contra os que procurassem voltar atrás e uma política de terror fora implementada contra aqueles que desertassem (as suas famílias eram perseguidas e os seus colegas próximos ou superiories hierárquicos responsabilizados pela deserção).


Ju-87 Stuka depois de uma ataque a Estalinegrado
Depois das dificuldades do ano anterior, às portas de Moscovo, os alemães estavam à espera de uma ofensiva de inverno por parte dos russos. O que não contavam era com um movimento tão grande que cercasse a totalidade do seu exército de uma só vez. O azar calhou aos enormes, mas mal preparados exércitos Romenos que protegiam duas zonas cruciais da retaguarda, e do qual toda a logística dependia. Não obstante os oficiais romenos tenham avisado vezes sem conta das suas necessidades de armas anti-tanque, unidades blindadas e artilharia pesada, as suas forças foram na realidade ficando mais fracas à medida que mais recursos essenciais eram enviados para a Rattenkrieg.

Desta vez, Exército Vermelho prepararam-se como nunca tinham feito, juntando enormes números de soldados devidamente acompanhados da força aérea e dos modernos tanques T-34 (o seu design em curva tornava a sua blindagem muito superior a tanques do mesmo nível e as suas lagartas mais largas adaptava-se aos difíceis terrenos das estepes semi-congelada). Juntamente vinham também as unidades especializadas de atiradores furtivos, as super-estrelas do exército soviético e as tropas siberianas, com o seu equipamente camuflado branco e altamente treinadas para lutar no gelo e na neve.
Operação Uranus

No dia 19 de Novembro de 1942, inicia-se a operação Uranus, com um movimento a Norte e outro a Sudeste, com as forças a juntarem-se no rio Don (a leste do Volga), deixando os alemães e seus aliados sem capacidade de receber mantimentos, gasolina ou munições. Depois das irresponsáveis ordens para utilizar as tripulações de tanques em combates de infantaria urbanos, o exército alemão vê-se envolvido por um movimento em profundidade sem ter qualquer capacidade de resposta. Muita da sua artilharia pesada teve que ser abandonada já que as centenas de milhares de cavalos que os puxavam tinham sido levados mais para ocidente, para facilitar a logística da sua alimentação. Von Paulus mostra nessa altura a sua incapacidade. Não estava preparado para esta ofensiva. Não teve iniciativa para lhe responder adequadamente e limitou-se a fechar posições e esperar pelo futuro. A rápida actuação de Richthofen, da Luftwaffe, com os seus bombardeiros de precisão Stukas Ju-87 conseguiu dar alguma ajuda aos exércitos romenos mas foi pouco e demasiado tarde. O futuro do 6º Exército parecia estar selado.


Von Paulus (à direita) a ser interrogado pelo
Gen. Rokossovsky e Marshal Voronov
(primeiro e segundo a contar da esquerda) 
Mas o futuro nada traria de bom. O inverno apanhou os exércitos nazis sem nada e mal posicionados. Cada dia que passava estavam mais subnutridos, mais doentes e mais desidratados (mesmo com os nevões, a inexistência de combustível de tipo nenhum faziam com que não tivessem água suficiente). A ponte aérea prometida por Goering era uma fantasia que nunca poderia resultar: das 700 toneladas diárias pedidas por Von Paulus, Goering considerou que apenas 300 seriam realmente necessárias. Mas, na realidade, nem nos melhores dias conseguiram cumprir isso, mesmo quando desviaram bombardeiros para as missões de transporte. As ajudas terrestres nunca chegaram - o General Manstein não conseguiu quebrar o cerco vindo do sul, onde o seu Grupo de Exércitos do Don se encontrava, e acabou por utilizar o tempo que lhe restava para mover os seus exércitos para noroeste, conseguindo escapar ao inevitável cerco que lhe seria feito assim que o 6º Exército se rendesse. Von Paulus nunca tentou quebrar o cerco com as suas forças e cumpriu a ordem de defender a sua posição até ao fim. De todas as ordens directas que Hitler lhe deu, apenas não fez uma: não se suicidou. Mesmo depois da última promoção a Generalfeldmarschall, a apenas uns dias da destruição total do seu exército, uma indicação clara de que nunca poderia ser apanhado vivo. 

Stalingrado fica para a história como uma das maiores importantes batalhas da história e duvido seriamente que alguém, alguma vez, a contará melhor do que Antony Beevor. Depois de tamanho livro, não sei que mais esperar deste historiador inglês, mas será difícil voltar a estar ao mesmo nível. Talvez seja esta a única crítica a fazer a um livro perfeito: a esperança de voltar a encontrar outro do mesmo nível é mínima e nunca mais terei o prazer de ler este livro pela primeira vez. O que, obviamente, aconselho vivamente a todos os que me acompanham.




sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D - 70 anos

Não foi a maior, a mais importante ou a mais sangrenta batalha da história ou sequer da segunda guerra mundial. Mas foi um feito logístico impressionante, um passo crucial para acabar com a guerra e o momento em que a Alemanha Nazi compreendeu que, acontecesse o que acontecesse, o seu destino estava selado. Neste dia, relembramos os involuntários heróis que depois de horas enlatados dentro de pequenos barcos foram atirados contra as praias da normandia onde os esperavam poucos - mas bem armados e veteranos - soldados alemães.

Deixo aqui os links para dois livros excelentes sobre o desembarque que revi neste blog em 2012: "O Dia Mais Longo" de Cornelius Ryan e "Operação Overlord" de Max Hastings.


sábado, 31 de maio de 2014

Wings of the Luftwaffe - Bf-109

Há 79 anos atrás, o Messerschmitt Bf-109 levantava voo pela primeira vez. Aquele que viria a ser o avião mais construído da história tornou-se no centro da guerra aérea nazi durante toda a segunda guerra mundial. Mas o seu primeiro voo em Maio de 1935 não previa ainda um grande futuro. Heinkel, Focke-Wulf e Arado eram à partida os mais prováveis vencedores da corrida ao armamento que percorreu a Alemanha dos anos 30. 

Entretanto, a bem sucedida experiência nos céus de Espanha durante a guerra civil e os demolidores avanços sobre a Polónia, a França e o resto da Europa Central, levaram a que os 109, assim como os seus pilotos e equipas de suporte se aperfeiçoassem. Quando se inicia a batalha de Inglaterra, os pilotos alemães eram de longe os melhores do mundo, mas o uma defesa heróica e determinada dos britânicos e os seus aliados conseguiram parar a Alemanha Nazi pela primeira vez.

Na lista dos maiores pilotos de sempre estão dezenas e dezenas de pilotos de Messerschmitt Bf-109's [1]. Desde o maior piloto de sempre, Erich Hartmann, o alemão conhecido como Diabo Negro, até ao primeiro não-alemão da lista, o finlandês Ilmari Juutilainen, praticamente todos utilizaram o mesmo avião. Depois da guerra uma versão espanhola (e que utilizava um motor Rolls-Roice Merlin inglês) continuou a ser construída. E são estes 109's espanhóis, que vão ser utilizados no inesquecível filme de 1969 - Batalha de Inglaterra[2] - juntamente com quase todos os Spitfires, Hurricanes e Heinkels 111 que conseguiram encontrar. A Força Aérea Portuguesa contribuiu também para a super produção com dois Junkers 52.

Nos últimos anos da guerra os 109s continuaram a ser os preferidos de muitos pilotos, mas nem números, nem experiência, nem tecnologia poderiam mudar os desfecho da guerra. No final voaram lado a lado com os Fw-190 e os novos aviões a jacto, mas acabaram quase todos destruídos no solo.






Também da série - Wings of the Luftwaffe:

Ju 87 Stuka
Fw 190



domingo, 10 de novembro de 2013

As Bruxas da Noite

As Bruxas da Noite - URSS 1942
Este é um artigo que demorei mais de um ano a compor. A primeira vez que ouvi falar das "Bruxas da Noite", uma unidade de aviadoras soviéticas durante a segunda guerra mundial, foi no livro "Um Escritor na Guerra", de Antony Beevor e Luba Vinogradova. Na altura retirei uma conjunto de pequenas histórias que achei bastante interessantes. Só mais tarde, depois de ver mais alguns documentários sobre o assunto é que me decidi a escrever sobre o assunto.

Agora, com o Halloween no War Thunder a anunciar o clássico avião das "Bruxas da Noite" Polikarpov PO-2[1], e a revista "All About History"[2] a dedicar uma série de páginas às famosas pilotos, já não tinha mais desculpas para manter o silêncio. Todas as informações de que precisava estavam agora disponíveis.

O contexto, claro está, é a Operação Barbarossa[3], quando em Junho de 1941 a Alemanha Nazi invade a União Soviética. Derrotas atrás de derrotas dão a clara impressão a ambos os lados (e a todos os outros que assistem horrorizados) de que estamos perante mais uma bem sucedida blitzkrieg da Alemanha Hitleriana sobre mais uma potência mundial.

Em poucas semanas, milhões de soldados vindos de todos os cantos da URSS morriam ou eram feitos prisioneiros. Stalin, o todo poderoso ditador soviético envia todas as tropas para a frente de combate que pode. Mal preparadas, mal organizadas e mal equipadas.

É neste ambiente de derrota total e absoluta que Marina Raskova[4], famosa piloto russa detentora de vários recordes aéreos de distância e que já conquistara a medalha de "Herói da União Soviética" pede uma audiência com Josef Stalin. E foi através do seu conhecimento pessoal e do desespero da URSS que consegue passar a sua proposta. Sem nada a perder, Stalin aceita a criação da primeira esquadrilha feminina. A sua prioridade é no entanto muito baixa. O seu equipamento não passava de sobras da muito desfalcada e mal equipada força aérea soviética.
Policarpov Po-2

Três regimentos da força aérea foram criados, exlusivamente compostos por mulheres. Não só as pilotos, mas todo o pessoal de terra era também do sexo feminino. Destes três, um haveria de ficar famoso. Curiosamente, não o que tinha os mais modernos aviões nem as missões de combate mais espectaculares, mas sim o Regimento 588 de Bombardeamento Noturno[5]. Equipado com velhos Polikarpov Po-2[6], biplanos dos anos 20 que já estavam absolutamente ultrapassados quando a guerra se inicia, nada faria crer que este regimento teria quaisquer condições para se destacar.

Assim, um conjunto de raparigas com cerca de 20 anos de idade lideradas por Yevdokia Bershanskaya[7], com os seus ultrapassados Po-2, vestidas com roupas dos aviadores masculinos em segunda mão e botas vários números acima dos adequados entram na guerra depois de um apertado e insuficiente treino.


Yevdokia Bershanskaya
A sua missão era o bombardeamento de precisão, harassment e reconhecimento aéreo. Os seus aviões, originalmente desenhados para treino e apoio agrícola, encontravam-se agora a lutar contra modernos Messerschmitt 109 e FW-190. A vitória parecia impossível, e nem uma coragem extrema permitiria acreditar na sobrevivência destas mulheres contra os maiores pilotos de todos os tempos. Afinal de contas, os cem primeiros ases (pilotos com mais aviões abatidos) da segunda guerra mundial são todos da Luftwaffe, a força aérea alemã. Curiosamente, o primeiro não alemão foi um finlandês, Ilmari Juutilainen[8] que também lutou também contra a URSS (e equipado com o caça alemão Bf 109. Mas nem tudo eram más notícias para o regimento feminino. Os seus ultrapassados biplanos eram de tal forma lentos (a sua velocidade máxima era 152 Km/h) que os aviões alemães não conseguiam voar à mesma velocidade. Por outro lado, como acontecia com grande parte dos biplanos da época, eram extremamente ágeis por isso conseguiam enganar os ataques da Luftwaffe. Se a isso acrescentarmos o facto de este regimento se ter especializado em ataques noturnos, a aviação alemã tinha imensas dificuldades em impedir as corajosas aviadoras.

Assim, os seus bombardeamentos normalmente passavam sem obstruções. O 588º, mais tarde renomeado 46º Regimento da Guarda devidos aos seus feitos durante o período mais negro da guerra, melhorou ainda as suas prestações especializados no voo planado com o motor desligado. Atravessavam as linhas inimigas sem se denunciarem, largando então as suas bombas quando viam os cigarros acessos nas trincheiras do inimigo. As tropas soviéticas deixavam pequenas velas no fundo das suas próprias trincheiras de forma a que elas soubessem exactamente onde terminava o território controlado pelo Exército Vermelho. Voavam tão baixo que a utilização de pára-quedas era irrelevante. Ao ponto de nem sequer os trazerem a bordo.

Foram os amedrontados alemães nas trincheiras do leste da europa que lhes deram o nome: Nachthexen. As russas gostaram e adoptaram-no, ficando para a história como As Bruxas da Noite. Ao todo, as tripulações (que nunca excederam os 40 pares) receberam 23 medalhas de Herói da União Soviética.

No final da guerra, cada piloto tinha feito mais de 1000 saídas. 3 mil toneladas foram lançadas sobre o inimigo e 30 dos seus membros morreram em combate. Uma história em grande parte desconhecida no Ocidente. Apenas uma das muitas pequenas histórias de coragem e desespero que marcaram a mãe de todas as guerras.




domingo, 20 de outubro de 2013

Judeus da Dinamarca

O holocausto nazi não foi sempre igual. Não teve sempre o mesmo ritmo. A vergonha não foi sempre a mesma. E a história do genocídio do povo judeu na europa é a história de cada uma das vítimas, mas também de cada um dos sobreviventes. Na Dinamarca passou-se algo muito interessante. Pelo trabalho de dois oficiais nazis, pelo desinteresse de Berlim e pela discreto apoio da Suécia, a quase totalidade dos judeus dinamarquesas conseguiram escapar ao horror dos campos de concentração e extermínio.

É da história desses 7000 judeus e dos que os ajudaram que fala este interessante artigo da revista alemã Spiegel[1] que passo a transcrever.


The Exception: How Denmark Saved Its Jews from the Nazis

By Gerhard Spörl
Denmark was the only European country to save almost all of its Jewish
Georg Ferdinand Duckwitz
residents from the Holocaust. After being tipped off about imminent roundups by prominent Nazis, resisters evacuated the country's 7,000 Jews to Sweden by boat. A new book examines this historical anomaly.

They left at night, thousands of Jewish families, setting out by car, bicycle, streetcar or train. They left the Danish cities they had long called home and fled to the countryside, which was unfamiliar to many of them. Along the way, they found shelter in the homes of friends or business partners, squatted in abandoned summer homes or spent the night with hospitable farmers. "We came across kind and good people, but they had no idea about what was happening at the time," writes Poul Hannover, one of the refugees, about those dark days in which humanity triumphed.

At some point, however, the refugees no longer knew what to do next. Where would they be safe? How were the Nazis attempting to find them? There was no refugee center, no leadership, no organization and exasperatingly little reliable information. But what did exist was the art of improvisation and the helpfulness of many Danes, who now had a chance to prove themselves.

Members of the Danish underground movement emerged who could tell the Jews who was to be trusted. There were police officers who not only looked the other way when the refugees turned up in groups, but also warned them about Nazi checkpoints. And there were skippers who were willing to take the refugees across the Baltic Sea to Sweden in their fishing cutters, boats and sailboats.

A Small Country With a Big Heart

Denmark in October 1943 was a small country with a big heart. It had been under Nazi occupation for three-and-a-half years. And although Denmark was too small to have defended itself militarily, it also refused to be subjugated by the Nazis. The Danes negotiated a privileged status that even enabled them to retain their own government. They assessed their options realistically, but they also set limits on how far they were willing to go to cooperate with the Germans.

The small country defended its democracy, while Germany, a large, warmongering country under Hitler, was satisfied with controlling the country from afar and, from then on, viewed Denmark as a "model protectorate." That was the situation until the summer of 1943, when strikes and acts of sabotage began to cause unrest. This prompted the Germans to threaten Denmark with court martials and, in late August, to declare martial law. The Danish government resigned in protest.

At this point, the deportation and murder of European Jews had already been underway for some time in other countries that had submitted to Nazi control. In the Netherlands, Hungary, Greece, Lithuania, Latvia and Poland, the overwhelming majority of Jews, between 70 and 90 percent of the Jewish population, disappeared and were murdered. The Nazis deported and killed close to half of all Jews in Estonia, Belgium, Norway and Romania. About a fifth of French and Italian Jews died. As historian Peter Longerich writes, the Holocaust was dependent, "to a considerable extent, on the practical cooperation and support of an occupied country or territory."

The Danes provided no assistance to the Nazis in their "Jewish campaign" in Denmark. They viewed the Jews as Danes and placed them under their protection, a story documented in "Countrymen," a new book by Danish author Bo Lidegaard. "The history of the rescue of the Danish Jews," writes Lidegaard, "is only a tiny part of the massive history of the Shoah. But it teaches us a lesson, because it is a story about the survival instinct, civil disobedience and the assistance provided by an entire people when, outranged and angry, it rebelled against the deportation of its fellow Danes."

Ten Years Documenting the Danish Resistance

Lidegaard, born in 1958, is a tall intellectual with many talents. As a diplomat, he represented his country in Geneva and Paris. After that, he served as an adviser to two succeeding Danish prime ministers and, in 2009, he organized the United Nations Conference on Climate Change in Copenhagen. He has been the editor-in-chief of Politiken, Denmark's large, left-liberal daily newspaper, since April 2011.

He worked on his book for 10 years. During a conversation in Hamburg, Lidegaard said that he was interested in finding out why Denmark had wanted to save the Jews -- and why the Nazis allowed them to be saved. Two men played a key role in the affair -- two German Nazis, each with his own story.

One of the Germans was named Georg Ferdinand Duckwitz. He was from a merchant's family in the northern port city of Bremen and joined the Nazi Party in 1932. Duckwitz was a Nazi and an anti-Semite out of conviction. He worked for Alfred Rosenberg, one of Hitler's race ideologues, who was sentenced to death in Nuremberg in 1946 and executed.

Duckwitz gradually developed an aversion to the Nazis' brutishness and bloodlust. Because he was familiar with Denmark from his earlier days and had a fondness for the country, he went to Copenhagen in September 1939, working as a shipping expert for the German Reich's Ministry of Transport.

Germany occupied Denmark on April 9, 1940, but the protectorate was allowed to direct its internal affairs. It kept a certain amount of latitude and rejected the Nazis' demand that it introduce the death penalty and segregate Jews. The country asserted itself as much as it could.

Germany declared Denmark a model for the protectorates that Hitler intended to establish in Western Europe after the end of the war. The Nazis initially sent only 89 officials to the country, and they were responsible for 3.8 million Danes. By contrast, Berlin sent 22,000 officials to France. Unlike France, Denmark was small and had only a small Jewish population. The country also had no raw materials of importance to the war effort. Denmark supplied agricultural products to Germany, but its economic role was relatively small.

An Enemy from Within

Duckwitz wrote a manuscript describing his official and unofficial activities in Copenhagen. The document, which remains in the political archive of the German Foreign Ministry today, both complements and contradicts Lidegaard's account.

Part of Duckwitz's job was to manage German ships calling at Danish ports. He signed agreements with Danish government agencies that regulated "the reciprocal use of tonnage." He was also required to report to Berlin when the Danish underground committed acts of sabotage against ships.

In addition, Duckwitz established ties with Social Democrats and young labor leader Hans Hedtoft, and he assisted Danes who had fallen into the Germans' clutches. Duckwitz's office soon became unofficially known as "the office for rescuing people."

A Nazi himself, Duckwitz became an opponent of the Nazis who simultaneously had good connections in Berlin. The Nazis could hardly have failed to notice the change. They threatened to recall him several times but never followed through.

Duckwitz exemplified what the German philosopher Hannah Arendt called "the role played by the German authorities in Denmark, their obvious sabotage of orders from Berlin," a phenomenon that she found astonishing. "It is the only case we know of in which the Nazis met with open native resistance, and the result seems to have been that those exposed to it changed their minds.

The second German was and remained a staunch Nazi and anti-Semite. Werner Best was a senior official at the Reich Main Security Office, where he worked closely with SS leader Heinrich Himmler and Reinhard Heydrich, the head of the agency. But then Best quarreled with Heydrich and fell from favor. He left Berlin and joined the German military administration of France, where he managed the internment and persecution of Jews, earning the nickname "Bloodhound of Paris."

In the summer of 1942, Best was sent to Denmark as Berlin's new plenipotentiary, which made him the highest authority in the protectorate. "Best was to play a key role in the fate of the Danish Jews, but exactly what that role was is still debated today," writes Lidegaard.

Lidegaard believes that Best was an opportunist who, in the fall of 1943, was smart enough to recognize that the war was lost for Germany. He tolerated what Duckwitz was doing, because he assumed that he would be treated more leniently after the war if he had turned a blind eye to Duckwitz's activities. But Duckwitz would have disagreed with Lidegaard. He saw Best as a man who had changed his mind in Copenhagen, in the way Hannah Arendt described.

In his manuscript, Duckwitz writes that the Nazis had intended from the beginning to proceed eventually against the Jews in Denmark. In early September 1943, Best and Duckwitz received word from Berlin that Hitler's cohorts were pushing to have the Danish Jews deported. This prompted Best to take initiative, writes Duckwitz. On Sept. 8, the plenipotentiary sent a telegram to Berlin in which he proposed that the German military, the Wehrmacht, should take action against the Jews in Denmark -- in effect appropriating what had, until then, only been a rumor.

But that was only a trick, suggests the well-meaning Duckwitz, who asserts that Best had believed "that his suggestion to launch a campaign against the Danish Jews would be rejected outright. He saw a great benefit in taking the initiative away from those groups that wanted Hitler to persecute the Jews in Denmark."

As Duckwitz tells it, Best had never meant the Nazis to take up his suggestion. He had bluffed and miscalculated. But Lidegaard doesn't buy that assessment. He believes it was an earnest request.

In any case, the response arrived from Berlin on Sept. 19, 1943. Hitler approved of Best's proposal and had ordered Himmler to execute the plan.

Preempting the 'Jewish Campaign'

Duckwitz promptly notified his Danish informants in the government, among the Social Democrats and within the Jewish community. He traveled to Sweden and told Prime Minister Per Albin Hansson what was about to happen. The Swedish government instructed its envoy in Copenhagen to freely issue passports to Danish Jews and made preparations to accept refugees at home.

The "Jewish Campaign" began on the night of Oct. 1. The German security forces consisted of 1,300 to 1,400 police officers, together with Danish volunteers and the Schalburg Corps, an SS unit consisting of Danes. Several hundred Jews fell into their hands, and 202 were designated for deportation and taken, along with 150 Danish communists, to the Wartheland, a ship with the capacity to hold 5,000 passengers.

Neither the German Wehrmacht nor the police "proved to be especially eager to help the Gestapo hunt down the Danish Jews," writes Lidegaard. The campaign was declared over at 1 a.m., and Best wrote in his report to Berlin that Denmark had been "de-Jewed."

"De-Jewed?" One can hardly assume that the Nazis failed to notice that only a few hundred people had been transported on the large ship, while at the same time, thousands of Jews were fleeing to the coast in order to escape to Sweden. It is also difficult to imagine that Duckwitz's conspiratorial activities remained completely unnoticed in Berlin. So why didn't the Nazis do anything about it?

Denmark simply wasn't that important to them, Lidegaard said during the conversation in Hamburg. Besides, he added, the Nazis knew that the Danes would protect their Jews from mass deportation. They had opted to present Denmark to the world as a model protectorate, so they decided for once to dispense with violent reprisals.

Aftermath

What about Duckwitz and Best? Lidegaard believes they acted in the knowledge that Berlin had only a moderate interest in Denmark. One of the oddities of the Danish situation, he says, is that Adolf Eichmann traveled to Copenhagen in November 1943 and expressed his satisfaction with the "Jewish Campaign."

In the end, 7,742 Jews were able to flee to Sweden across the Baltic Sea. Each of the refugees received government support in Sweden if it was needed. The Danish government also advocated on behalf of those who had been deported. After negotiations with Himmler, 423 Danes were released from the Theresienstadt concentration camp in early 1945.

How many Danish Jews were killed? An estimated 70, or one percent of the country's Jewish population at the time. Denmark is a shining exception in the history of the European Holocaust.

Both Best and Duckwitz survived the war in Copenhagen. Best was arrested, testified in the Nuremberg War Crimes trial and was later extradited to Denmark. The Copenhagen Municipal Court sentenced him to death on Sep. 20, 1948, but in appeal proceedings his sentence was reduced to 12 years in prison. He was given credit for his behavior in the fall of 1943, and in response to pressure from the new German government in Bonn, he was released on Aug. 24, 1951.

After that, he worked in the office of Ernst Achenbach, a politician with the liberal Free Democratic Party (FDP), for the rehabilitation of former Nazis. He provided the defense with exonerating material in many Nazi trials without making an appearance himself.

Honor, Dishonor

In Germany, Best lived undisturbed for two decades. Only in the late 1960s did documents and witnesses turn up to shed light on his past in the Reich Main Security Office. But his trial was repeatedly postponed for health reasons. Best, an eternally colorful but sinister figure, died in June 1989.

Duckwitz remained in Copenhagen after the war, initially working as a representative of the West German chambers of commerce. He entered the diplomatic service when the Foreign Ministry was rebuilt in West Germany. He returned to Denmark as the West German ambassador in 1955. Ten years later, he chose to retire early, because he disagreed with Bonn's policy of marginalizing East Germany.

But soon Chancellor Willy Brandt brought him back and made him his chief negotiator for the Treaty of Warsaw, which was designed to reconcile Poles and Germans.

Soon after the end of the war, Denmark honored Duckwitz, the converted Nazi, for his role in the rescue campaign. In 1971, two years before his death, Yad Vashem, Israel's memorial to the Jewish victims of the Holocaust, presented him with its "Righteous Among the Nations" award.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Revisionismo Nazi


Foi por mero acaso que me deparei com este documentário no YouTube. É sempre bom encontrar quem discorde das nossas opiniões e ainda melhor se desafiar tudo aquilo que damos por garantido. Este é um documentario assumidamente revisionista, mostrando a Segunda Guerra Mundial pelo lado de Adolf Hitler.

A ideia geral é de que a guerra não foi provocada por Hitler mas sim pelos aliados ocidentais e pela Rússia. Curiosamente a esmagadora maioria dos factos apresentados são reais e - ao contrário do que o título acusa - conhecidos e publicados pelos historiadores.

Adolf Hitler
É um facto que Hitler não pretendia uma guerra com o Reino Unido e a França. Considerava que o seu espaço vital se encontrava a leste, e substimou a ameaça quando decidiu invadir a Polónia. Também é verdade que o comportamento da diplomacia da Polónia no período entre guerras foi deplorável e valeu-lhe muitos poucos amigos. Que a tirania de Stalin não ficava abaixo da de nenhum outro ditador megalómana. 

Também a questão do tratado de Versailles é relevante e conhecida. As decisões dos vencedores da Primeira Guerra Mundial são o motivo número um para o início da Segunda Guerra Mundial. As indemnizações, os novos países criados artificialmente, os impérios desmembrados e, genericamente, a prepotência vingativa dos velhos impérios em relação aos derrotados levou a que fosse uma questão de tempo até que um nova guerra eclodisse.

O que este documentário se esquece de mencionar é o resto: o Holocausto, o tratamento dos prisioneiros russos, as limpezas étnicas, o racismo de estado do movimento Nacional Socialista.

De qualquer forma é relativamente interessante tentar perceber o que vai na cabeça dos revisionistas e quais são os seus argumentos. E aceitar que muitos são válidos mas, no final de contas, cometem o mesmíssimo erro que acusam os historiadores de cometerem. Esquecem-se de mencionar "o resto".



terça-feira, 6 de agosto de 2013

The Battle of Britain - documentário



Ewan McGregor[1], conhecido actor escocês que entrou em filmes como Trainspotting[2] e Star Wars[3] apresenta-nos com o seu irmão Colin, piloto da Royal Air Force, este documentário sobre a Batalha de Inglaterra. The Battle of Britain[4], mostra-nos com bastante detalhe o ponto de vista dos pilotos britânicos sobre a espectacular batalha. Sobre esta, Churchill proclamou a famosa frase: Nunca, na história dos conflitos humanos, tantos deverão tanto a tão poucos. São estes few as estrelas deste documentário da BBC. 

Finda a Batalha de França, em 1940, com uma retumbante vitória para Hitler e um inesperado colapso da França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda, inicia-se em Julho do mesmo ano a Batalha da Grã-Bretanha[5] (ou, como é geralmente conhecida em Portugal, a Batalha de Inglaterra). Depois da humilhante, mas extremamente bem sucedida, retirada do BEF (Força Expedicionária Britânica) de Dunquerque em França, o Reino Unido encontrava-se enfraquecido, sem uma força aérea ou um exército que pudessem contrabalançar o poderio alemão. A sua marinha, a Royal Navy, era nesta altura a mais poderosa da Europa, mas sem um controlo dos céus seria dificil controlar o canal da Mancha. E mesmo essa vantagem poderia estar em risco se a Kriegsmarine tomasse o controlo da força naval francesa, depois da capitulação gaulesa. 
A Batalha da Grã-Bretanha

Cabia portanto a uns poucos e inexperientes pilotos a última defesa da ilha, contra uma Luftwaffe altamente treinada e que já tinha desfeito em pedaços metade das forças aéreas europeias. A estes juntou-se uma brilhante organização que com os mais modernos radares, centenas de telefonistas e dezenas de milhares de observadores com binóculos conseguiram criar um conjunto de vantagens que seriam decisivos na batalha. 

Durante meses os dois lados lutaram avidamente pelos céus do sul de Inglaterra. Milhares morreram dos dois lados. Muitos mais civis perderam a vida quando Hitler e Churchill mudaram os alvos dos seus bombardeiros de alvos militares para alvos civis.
Colin e Ewan McGregor

Faço uma crítica a este documentário. A mesma que fiz a muitos outros sobre o mesmo assunto e até ao filme "Battle of Britain" de 1969 cujo artigo espero escrever em breve: a Operação Sea Lion[6], a invasão do Reino Unido por parte da Alemanha, nunca esteve tão próxima de acontecer como nos gostam de fazer crer. A Alemanha não tinha nem nunca teve um exército preparado para isso. Nunca teve um número de lanchas de desembarque significativo. Para além disso, Hitler e o alto comando Nazi consideravam que o seu espaço natural seria o leste, a abertura dos territórios entre a Alemanha e os montes Urais. 




quinta-feira, 18 de julho de 2013

Bismarck

Bismarck
A curta história do Bismarck[1], o super-couraçado nazi que ultrapassava tudo o que marinha inglesa da segunda-guerra mundial tinha, é um dos momentos decisivos do cenário europeu. Navio almirante da Kriegsmarine, com uma tripulação de 2000 marinheiros e um total de 55 mil toneladas, este era um dos mais poderosos navios de guerra alguma vez feitos. O seu armamento, velocidade e poder de fogo eram simplesmente superiores aos dos seus inimigo. A sua missão era juntar-se às alcateias de submarinos no Atlântico Norte e impor o bloqueio naval sobre o Reino Unido. O espectacular navio era - como tantos outros antes dele - considerado inafundável.

Na sua primeira viagem, afunda o navio almirante britânico, o Cruzador de Batalha HMS Hood com um único tiro certeiro. Praticamente todos os navios disponíveis da marinha britânica são então lançadas sobre o Bismarck. O final, como quase sempre acontece na guerra, é trágico. Nestes dias, milhares de homens dos dois lados morrerão no mar, abandonados pelos navios que os poderiam ter salvo. Golpes de sorte e azar definem o vencedor e, para a história, fica as intermináveis discussões habituais: o que poderiam ter acontecido se não tivessem tido sorte/azar? que poderia ter sido feito para evitar esse final?

Uma última questão que não é colocada neste brilhante documentário: para quê construir couraçados numa era em que pequenos aviões com um torpedo os conseguiam destruir? Na realidade, mesmo os japoneses que perceberam a fraqueza dos grandes navios e fizeram de Pearl Harbour um dos mais espectaculares ataques surpresa da história militar não conseguiram evitar gastar quantidades inacreditáveis de recursos para construir dois couraçados que ultrpassavam até o famoso Bismarck (e o respectivo gémeo Tirpitz[2]). Com um total de 72.000 toneladas, o Yamato[3] e o Musashi[4], provaram-se igualmente inúteis e indefensáveis.

Este documentário[5] utiliza de forma bastante elegante as novas tecnologias, criando imagens CGI dos navios e das batalhas durante esses decisivos dias de Maio de 1941, com entrevistas com os últimos sobreviventes de alguns dos navios envolvidos na batalha, com os detalhes de uma expedição submarina. Muito interessante, e com alguns detalhes interessantes sobre a questão dos radares, que não tinha visto desenvolvida noutros documentários.




quinta-feira, 4 de julho de 2013

Das Boot



Filme

Nesta longa procura de encontrar os melhores filmes de sempre sobre a Segunda Guerra Mundial, chego agora a um que terá que estar no pódium de qualquer lista deste género. "Das Boot" (cujo título em português é um infeliz "A Odisseia do Submarino 96"[1]) conta-nos a história do U-Boot 96[2] sob o comando de Heinrich Lehmann-Willenbrock[3]. Este filme alemão foi em 1981 um sucesso inesperado em todo o mundo tendo feito enorme sucesso nos Estados Unidos da América. Alguns dos seus principais actores (nomeadamente Jurgen Prochnow[4]) tornaram-se estrelas em Hollywood e o seu realizador, Wolfgang Peterson[5], ganhou um protagonismo que lhe permitiu fazer depois super-produções, como Tróia e Air Force One.

A versão que acabei de ver é precisamente o Director's Cut do "Das Boot". Mais de três horas de um ambiente absolutamente claustrofóbico, de enorme suspense e de um lado muito cru e mecânico da guerra. A comida cada vez mais estragada, as barbas maiores, a sujidade por todo o lado e um crescente cinismo em relação a tudo o que se relacione com a guerra, tornam o filme pesado e triste, num crescendo onde se espera sempre o pior.

Como escrevi noutras ocasiões, a exatidão histórica destes filmes é um dos critérios que mais utilizo para os apreciar. E este, não obstante alguns detalhes abusivos sobre as personagens e lugares, mostra fielmente o que era a vida num dos submarinos alemães durante a Batalha do Atlântico. Enquanto a propaganda alemã mostrava heróis, lobos que levavam o Império Britânico ao chão, os submarinistas eram na realidade dos militares que viviam em piores condições. A sua taxa de mortalidade era absurdamente alta, sendo que dos 40.000 marinheiros que serviram nos submarinos da Kriegsmarine[6], quase 30.000 perderam a vida. O que significa que a esperança de sobrevivência de um submarinista era inferior à dos homens que fizeram o desembarque na Normandia. O filme captura este medo constante, uma relação de amor entre os homens e o seu navio, uma unidade do grupo à volta do seu capitão e uma posição bastante apolítica da guerra. Também o tratamento dos náufragos inimigos mostra alguns dos dramas da guerra submarina.


"Delães" o Bacalhoeiro português
afundado quando regressava da Terra Nova
Pegando agora no lado histórico, o verdadeiro U-96 passou depois para as mãos de um novo comandante: Hans-Jurgen Hellriegel[7]. E é com este novo líder que o submarino se vê envolvido num acontecimento trágico para um navio português. A 11 de Setembro de 1942, o belo Bacalhoeiro português "Delães"[8] regressava a Portugal quando foi interceptado pelo submarino. Não tendo respondido às ordens de paragem, tendo mostrado uma navegação suspeita e ainda devido à passagem na noite anterior de um combóio de navios aliados (ON 127[9]), o "Delães" acabou por ser afundado com o canhão de bordo embora todos os seus tripulantes tenham sido salvos dos seus barcos salva-vidas umas horas depois[10].

Um filme extremo, sujo e pesado. Cuja comparação com qualquer outro filme sobre submarinos é desnecessária e sem sentido. Todos os outros se comparam a este.


Dossier Filmes da Segunda Guerra Mundial:



sábado, 29 de junho de 2013

Defiance

Filme


Vejo filmes de guerra com um espírito bastante crítico. Sou um amante de História, em especial da do século XX e das suas inimagináveis guerras. Compreendo no entanto que alguns dos livros que me deram enorme prazer seriam para outros tão insuportáveis como para mim seria a "Anatomia" de Gray. Não haverá para mim nada tão aborrecido como as ciências da vida (desculpa mano, sei que isto para ti é uma facada na alma). Por esse motivo, os filmes de acção, drama e romance passados na segunda guerra mundial são a principal fonte de informação desse pedaço de história para a maioria das pessoas. Hollywood (e Bollywood, Toronto, Londres, etc.) define por isso a percepção histórica do que foi o nosso passado. Torna-se então perigoso quando pequenas alterações românticas colocam em causa a realidade do que foi esta ou aquela personagem ou que aconteceu num determinado evento. Compreendo perfeitamente que os filmes exigem acção, amor e espectáculo e que não se podem prender a todos os detalhes da vida real, por isso existe um equilíbrio que deve ser sempre bastante cuidadoso.

"Defiance"[1] leva-nos às florestas da Polónia/Bielorússia durante a ocupação nazi, numa história verídica onde um grupo de improvisados guerrilheiros comunistas judeus protegeram um grande número de civis (maioritariamente mas não só judeus). Criaram casas, hospitais e escolas, armaram-se, treinaram-se e lutaram quando necessário em apoio de outros grupos militares e paramilitares da resistência. Em algumas acções procuraram a libertação de judeus das vilas e cidades que os rodeavam.

Por vezes faz-nos lembrar o clássico "Robin Hood - Príncipe dos Ladrões"[2] quer no ritmo da acção, nos motivos da história e até na forma como todo a história se vai desenrolando. Mas claro, isto é uma história baseada em factos reais, o que faz uma grande diferença.


Tuvia Bielsi, líder dos Bielski partisans
Tuvia Bielski e Zus Bielski existiram mesmo[3]. Foram, e serão para sempre, heróis judeus. No entanto o filme omite uma parte do seu lado mais negro. Segundo o IMDB, a história é passada na Bielorússia. Na realidade é passada na Polónia ocupada. Primeiro ocupada pela União Soviética, desde 1939 e de acordo com o obscuro pacto Molotov-Ribbentrop[4] onde os ministros dos negócios estrangeiros de Hitler e Stalin definiram a divisão da Polónia antes da invasão. Uma altura onde a URSS e a III Reich andavam de braço dado atacando os pequenos estados da europa de leste. A família Bielski contava-se entre os colaboradores desta ocupação soviética. Fizeram parte da curta administração soviética do território (até à invasão alemã) colocando-os contra os de etnia polaca, que quase sem excepção recusaram sempre qual colaboração com qualquer uma das potências ocupantes. Também ficou ausente do filme os massacres e ataques a aldeias que este grupo partisan este envolvido, mostrando um estilo de liderança altamente partilhado e democrático que está longe de ser real.

Como sempre, Hollywood precisa de bons e maus. Tem dificuldade em viver com a complexidade do ser humano, que naturalmente tem ambos os lados e vive numa constante luta entre ambos. Nem sempre é coerente, nem sempre as suas acções são previsíveis ou explicáveis no futuro.

Mas no seu todo não deixe de ser um excelente filme. Cheio de acção, bons actores e cenários realistas. Mostra um pouco da crueldade do que é uma ocupação e de como um pequeno grupo de homens determinados a sobreviver pode fazer.



terça-feira, 25 de junho de 2013

Aviões Secretos Aliados

Ice Carrier - Imagem idealizada do H.M.S. Habakuk (www.io9.com)

Um documentário bastante interessante sobre alguns protótipos aliados. Embora o documentário seja sobre aviões, penso que o projecto mais interessante lá descrito é mesmo o dos super porta-aviões feitos a partir de gelo que tentaram fazer durante a segunda guerra mundial[1].

Algumas das ideias estavam à frente do seu tempo, outras são futuros que nunca chegámos a alcançar, mas em todo o caso frutos de uma imaginação e uma vontade absolutamente extraordinárias.





domingo, 23 de junho de 2013

1942 - Guerra em África

Encontrei esta fotografia (E 12293)[1] no site o Imperial War Museum[2] britânico e achei-a tão curiosa que resolvi colocá-la aqui no blog. A fotografia foi tirada em 1942 na guerra do Norte de África, onde Erwin Rommel, o ambicioso general alemão ganhou o seu cognome de "Raposa do Deserto" e o general britânico Bernard Montgomery virou a guerra nesta frente com a brilhante vitória na segunda batalha de El Alamein[3].
Norte de África 1942

Esta é uma fotografia de um camião britânico, que terá sido "vendido" pelos americanos no programa Lend-Lease. Atrás, está um pequeno tanque Valentine[4], disfarçado de forma a que do céu pareça apenas um camião de transporte.

A segunda guerra mundial foi de tal forma uma guerra total, que toda e qualquer ideia era rapidamente testada. Uma fúria de inovação que permitiu avanços extraordinários mas também investimentos inúteis megalómanos. Neste caso, lembro-me de ler que os melhores ilusionistas da Grã-Bretanha foram chamados a ajudar o exército britânico na guerra do deserto. Construiram falsos portos a uma escala mais pequena e de forma barata para que os verdadeiros não fossem bombardeados, utilizaram espelhos para tentar confundir os bombardeiros de mergulho stuka e disfarçaram tanques de camiões e camiões de tanques para convencer o inimigo de que iriam atacar num lugar diferente.

Uma fotografia, a meu ver, extremamente interessante. Revela ainda o deserto árido e sem fim que não permitia às tropas terrestres fazerem qualquer movimento sem serem imediatamente vistas a enormes distâncias. E já que não se podiam esconder, disfarçavam-se de algo diferente. 





quinta-feira, 6 de junho de 2013

69 anos passados...

Inicia-se a invasão da Normandia, Operação Overlord, no que ficaria para a história como o Dia D.


Omaha Beach - 6 Junho 1943

sábado, 25 de maio de 2013

Segunda Guerra Mundial

Book Review


Acho que nunca tive tanta dificuldade em escrever a minha opinião sobre um livro. Esta será talvez a minha quarta versão deste post e, neste momento em que escrevo, não tenho quaisquer garantias de que não será deitada ao lixo dentro de poucos minutos. Bem, não sentindo capacidade para fazer a crítica, vou tentar analisar o porquê de não a conseguir fazer. Nas versões anteriores, chegava ao final com a sensação de que não estava a passar a imagem correcta ao leitor. Por vezes demasiado benigna, pelo facto de ter tirado um enorme prazer da leitura deste livro, embora soubesse que tem falhas graves. Outras vezes demasiado agressiva concentrando-me nesses momentos de que não gostei perdendo-se a certeza de que estamos perante uma grande obra.

Os últimos livros que li de Antony Beevor deixaram-me extremamente curioso em relação a este autor. A Queda de Berlim 1945 é um livro brilhante e emocionante que nos mostra os últimos dias da guerra e ao qual eu não fui capaz de fazer qualquer crítica negativa. Mais recentemente li Um Escritor na Guerra que nos leva à frente oriental e aos documentos pessoais e públicos de Vasily Grossman, escritor do jornal oficial do Exército Vermelho e que acompanhou algumas das maiores batalhas (da frente Oriental) da segunda guerra mundial. Nestes livros Beevor entrega-se numa imersão de detalhes que nos permite imaginar com grande pormenor a crueldade e fealdade da  guerra. Provavelmente começa aqui a primeira crítica que faço a "Segunda Guerra Mundial" de Antony Beevor. O nível de detalhe muda muitíssimo dependendo da batalha. Por vezes sentimos que estamos no meio do acontecimento, enquanto noutras ocasiões estamos apenas a fazer ligações entre os eventos. O Projecto Manhatan é tratado de forma muito breve. A Itália quase desaparece da guerra. A resistência nos diferentes países é em grande parte ignorada. Os aspectos industriais e económicos que, no final de contas, decidiram a guerra tanto quanto o sangue dos homens também são tratados com alguma ligeireza.

Já utilizei anteriormente a expressão "livro demasiado pequeno". Normalmente para demonstrar o quanto gostei de uma obra e da sincera tristeza de o ter acabado. Neste caso, estamos perante um livro duplamente demasiado pequeno. É sem dúvida um livro espectacular e bem escrito, interessante e viciante, desavergonhado nos horrorosos detalhes da guerra e preciso. E por tudo isso não queremos que acabe. Mas também pequeno demais porque de facto 1000 páginas podem ser suficientes para descrever uma batalha, mas não a guerra. Não esta guerra.

No entanto, quando Beevor se entrega a um tema, como acontece em diversos momentos deste livro, o resultado é formidável. Os acontecimentos no Extremo Oriente, entre a China e o Japão, entre os nacionalistas e comunistas chineses, estão muitíssimo bem descritos e colocam esse palco no centro da guerra. Algo que a maioria dos historiadores não fazem, reduzindo muitas vezes estes acontecimentos a menos do que - por exemplo - a campanha do Norte de África. As conferências dos Três Grandes (Teerão, Ialta, Potsdam) são excepcionais e acho que seria capaz de ler mil páginas só dos detalhes dos jogos entre eles. Desde as mistura de brilhantismo e loucura de Churchill que via muito para lá da guerra, mas que ao mesmo tempo fervilhava de ideias absurdas e irrealizáveis, até ao cinismo e genial calculismo de Stalin, até ao pragmatismo e inteligência de Roosevelt. Definitivamente memorável, a descrição de como Truman revela a Stalin que a explosão experimental da bomba atómica tinha sido bem sucedido. Prometo um destes dias fazer um post só sobre essa história.

Por fim, uma nota sobre o livro quando comparado com outras obras com o mesmo título. Ao contrário de outros, este é um livro que se lê directo, do início ao fim. Não é um livro de consulta, para procurarmos pequenos detalhes sobre um determinado período um acontecimento, embora possa ser usado dessa forma. É acima de tudo uma obra para ser lida. Não exige qualquer conhecimento prévio sobre o assunto e não necessita de mapa ou dicionário ao lado. É escrita para toda e qualquer pessoa que  esteja interessada em compreender a mais terrivel de todas as guerras. Uma que deve ser lembrada todos os dias, na esperança de que nunca mais se repita.