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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Inimigo às Portas

Filme

Uma das mais importantes batalhas na história da humanidade, a sangrenta defesa de Stalingrado pelas tropas soviéticas pararam o aparentemente imparável exército hitleriano. Nos anos anteriores, Áustria, Checoslováquia, Polónia, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, França, Dinamarca e Noruega cairam aos pés da Wehrmacht e ficaram sobre o controlo de Berlim. Em 1941, num ataque surpresa denominado Operação Barbarossa, as forças de Hitler e  seus aliados atacam a União Soviética com um exército de milhões de homens conseguindo em poucos meses tomar o que restava da Polónia, mais a Ucrânia, Bielorússia, Estónia, Letónia e Lituânia chegando mesmo às portas de Moscovo quando a neve, o frio, muito sangue russo e as formidáveis tropas siberianas os conseguiram parar. Uns meses depois, quando o cruel inverno russo passara e a força do contra-ataque russo já esmorecera, uma nova invasão iniciou-se, mas desta vez (e ao contrário do que Stalin acreditara) o objectivo não era a capital Moscovo, mas os poços petrolíferos do sul, onde a grande cidade modelo baptizada com o nome do ditador soviético dominava a região. É aqui, em Estalinegrado que os exércitos alemães encontram a sua primeira grande derrota.

Numa cidade totalmente arrasada pela artilharia de ambos os lados, dois exércitos lançam-se numa batalha nunca vista com milhões de homens a batalharem rua a rua, casa a casa, e muitas vezes até entre andares do mesmo edifício. Nesses meses intermináveis, os atiradores furtivos russos tornaram-se heróis nacionais, usados pela propaganda russa para mostrar o melhor das suas forças. "Enemy at the Gates"[1] é uma versão bastante romantizada de um destes snipers, Vassily Zaitsev[2], uma personagem histórica que abateu centenas de soldados inimigos durante a segunda guerra mundial.

Gostei muito de alguns detalhes históricos bastante realísticos do filme. Noutros casos, a arte cinematográfica claramente terá tido prioridade. A forma como os soldados eram atirados para a batalha sem qualquer tipo de preparação e muitas vezes sem arma é bastante realística. As armas eram distribuidas apenas a uma pequena parte dos soldados e era suposto os seguintes pegarem na arma à medida que o anterior caísse. Aconteceu em Stalingrado mas também em muitas outras batalhas, embora Hollywood normalmente prefira colocar armas nas mãos de todos os figurantes. No entanto eles não saltavam directamente do comboio para a frente de batalha, como é óbvio. Ainda tinham umas caminhadas pela frente e a travessia do rio Volga que aqui foi dramatizada com Stukas a fazerem voos picados passando a poucos metros dos barcos. Alguns sites mais especializados dizem-nos que se o fizessem a essas distâncias que o avião e a sua tripulação juntar-se-ia às vítimas da bomba. Mas não obstante o exagero, conseguem passar a imagem - muito verdadeira - das dificuldades que os soldados tinham para chegar ao campo de batalha. Outras queixas comuns em relação ao filme são os longos períodos de solidão no duelo entre o atirador soviético e o alemão. Num campo de batalha tão  pequeno, era de esperar que estivessem constantemente grandes números de soldados em acção por todo o lado.
Vasily Zaytsev, Outubro 1942 em Estalinegrado

Talvez pela primeira vez, vi num filme, a cruel mas verídica, segunda linha da NKVD. Esta linha encontrava-se umas centenas de metros atrás da principal frente de batalha e destinava-se a disparar sobre qualquer soldado soviético que tentasse retirar. 

Existe um pormenor de que definitivamente não gostei: a simplificação do trabalho de Vasily. Em "Inimigo às Portas", Vasily apenas mata oficiais superiores. Num caso chega a apontar à cabeça de um soldado alemão e depois desiste comentando que era apenas um soldado. Pelo contrário, o sniper alemão já demonstra toda a crueldade que esperamos de um soldado nazi. Não direi aqui os pormenores para não estragar o filme a quem ainda não o viu, mas a realidade - pelo menos a dos atiradores furtivos russos não era essa. Sabendo das enormes dificuldades que os alemães tinham em encontrar água suficiente atiravam sobre toda e qualquer pessoa que tentasse ir buscar àgua às fontes. Isso incluia não só oficiais como soldados. Muitas vezes os alemães obrigavam civis russos a fazerem esse serviço. E estes eram também mortos. Outras enviavam crianças russas. E também estas eram assassinadas pelos snipers soviéticos como nos conta Vasily Grossman, correspondente de guerra soviético que cobriu a batalha nas suas notas pessoais.    

A realidade é muito mais feia do que os filmes americanos alguma vez conseguirão mostrar. O público não aprecia histórias onde nenhuma personagem é boa. Mas realidade é essa: Num contexto que ultrapassou todos os limites, todas as peronagens são ambíguas, pecadoras e complexas.

É um filme de acção interessante e num ambiente diferente. Que joga com as políticas repressivas do regime soviético de Stalin e com as liberdades naturalmente criadas pelo caos instalado de uma batalha de proporções nunca vistas. Mostra a luta pela sobrevivência dos russos e a loucura criada pelo embate de dois dos homens mais loucos e sanguinários que alguma vez existiu. Presta um serviço importante à história ao ajudar a dar a conhecer o que foi uma das mais decisivas batalhas de todos os tempos, e certamente uma das três batalhas (as outras seriam na minha opinião, Kursk e Midway) que mudaram o rumo da segunda guerra mundial.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um Escritor Na Guerra

Book Review

Não será fácil pegar em notas de um correspondente de guerra, nas cartas que escreveu para a família, em artigos de jornal e comentários de amigos e colegas e conseguir compôr a história da segunda guerra mundial, mas foi precisamente isso que Antony Beevor fez com o romancista e correspondente de guerra russo Vasily Grossman. 

Grossman trabalhava em 1941 para o jornal do exército vermelho, Krasnaya Zvezda, e cobriu o que estes chamaram de "A Grande Guerra Patriótica" desde a Operação Barbarossa até à batalha por Berlim. Pelo meio, cobriu das linhas da frente batalhas que passaram por Estalinegrado, Kursk, Kiev, Varsóvia entre muitas outras. Foi ainda um dos primeiros jornalistas a entrar em Treblinka. 

Nunca chegou a pertencer ao Partido Comunista da União Soviética. Embora tenha ficado famoso com os seus artigos e com os romances que escreveu durante e depois da guerra, este judeu secular não era apreciado por Stalin, que vetou a sua obra quando a URSS se preparava para lhe dar a mais alta condecoração literária do país.

Grossman não tem uma especial percepção das grandes questões da guerra, dos grandes movimentos militares e dos bastidores diplomáticos, mas é brilhante na forma como descreve história do homem comum, do soldado ou do civil apanhado pela guerra. Este correspondente descreve a batalha de Estalinegrado sem se referir a Stalin uma única vez. Os seus artigos eram numerosas vezes alterados ou censurados por não estarem de acordo com as políticas de propaganda do partido. As suas notas pessoais, se alguma vez tivessem sido descobertas pela NKVD (a polícia secreta, que mais tarde se veio a tornar no KGB) o seu destino estaria traçado. O simples facto de ser judeu valeu-lhe a perseguição política nos últimos anos de vida de Stalin, quando o anti-semitismo se tornou política de estado depois do caso dos médicos judeus acusados de conspirar para assassinar os líderes políticos soviéticos. Muitos dos seus colegas que com ele lutaram para que os crimes que os Nazis praticaram contra o povo judeu fossem conhecidos, foram enviados para os gulags ou assassinados pela NKVD. Vasily viu todos os seus livros retirados do mercado e o seu nome atirado para o esquecimento. 
Vasily Grossman durante a Segunda Guerra Mundial

Para o regime estalinista, nenhum crime em especial fora cometido contra os judeus. Os crimes tinham sido cometidos contra cidadãos da União Soviética. Em algum momento admitiam a existência de alvos preferenciais. Também não era do interesse do regime aceitar as culpas de muitos ucranianos no holocausto nazi. A Ucrânia sofrera terrivelmente com as fomes e purgas causadas por decisões do governo de Moscovo e em muitos casos os ucranianos receberam a Wehrmacht como libertadores. Os muitos judeus da região não tiveram noção do que se aproximava, não só porque o avanço nazi foi demasiado rápido para que as cidades pudessem ser devidamente defendidas ou sequer evacuadas, mas também porque devido à política de controlo dos media, o cidadão comum da URSS não tinham qualquer noção de que os nazis viam nos judeus a raiz de todos os males. Isto era o resultado do pacto Molotov-Ribbentrop de 1939, em que os ministros dos negócios estrangeiros da União Soviética e do III Reich dividiram a Polónia entre os dois impérios. Desde essa data até ao ataque surpresa de 1941 os dois países mantinham uma aliança comercial contra-natura mas extremamente bem sucedida.

Tal como os seus concidadãos, Grossman não se apercebe do que está a acontecer. Lentamente, depois da batalha de Stalingrado, quando o Exército vermelho começa a recuperar o território perdido, os crimes nazis começam a ser conhecidos. Este escritor recolhe os testemunhos dos sobreviventes, dos generais e dos soldados razos e a imagem do holocausto forma-se de forma cada vez mais clara. O próprio, sendo judeu, teme durante todo o tempo pela vida da mãe, que sendo judia em território ocupado tinha poucas hipóteses de sobrevivência.

Vasily Grossman não é um espectador. Em várias situações apercebemos-nos que terá pegado em armas, que a escrita não era suficiente. Também não é neutro. Aparenta ser um apoiante sério, mas não fanático, do projecto soviético, mas com a andar do tempo o afastamento é cada vez mais óbvio. Nas suas notas pessoais podem-se encontrar inúmeras descrições dos crimes de violação, saque e homicídio cometidos pelo Exército Vermelho. Era também extremamente crítico da forma como as chefias atiravam homens mal preparados para a morte. Tinha uma admiração enorme pelos homens comuns que se transformavam em heróis durante as grandes batalhas, e estes retribuiam-lhe com confiança e carinho. Grossman ajudou a elevar a um estatuto mítico os aviadores russos, que abalroavam os Stukas alemães em acções que roçavam o suicídio, das Bruxas da Noite (as mulheres piloto que faziam bombardeamentos noturnos e entrega de mantimentos nos seus biplanos), os atiradores furtivos (o filme Enemy at the Gates[1] é baseado em parte em algumas das descrições de Vasily), dos pilotos dos barcos de transporte do Volga cuja esperança de vida no lugar se media em semanas e, já no final da guerra, as tripulações dos imparáveis tanques T-34 e dos modernos Katyushas no seu avanço sobre o Reich.

Beevor consegue organizar e encaixar de forma elegante todas estas notas, cartas e artigos formando um livro completo e emocionante. Na retina fica a melhor descrição que já li ou vi da batalha Estalinegrado, uma que figurará certamente nas mais importantes batalhas alguma vez travadas e do qual acabamos por saber tão pouco já que foi travada entre duas potências cujos media estavam totalmente dependentes da propaganda dos respectivos estados.

Título: Um Escritor Na Guerra
Subtítulo: Vasily Grossman com o Exército Vermelho 1941-1945
Autor: Antony Beevor e Luba Vinogradova
Editora: Edições 70

sexta-feira, 12 de abril de 2013

PBY Catalina

Não sei quando foi a primeira vez que ouvi falar do "Catalina", este magnífico hidrovião bombardeiro americano do início da segunda guerra mundial, mas sei quando foi a primeira vez que o vi: em pleno céu, à minha frente quando estava nos comandos de um Messerschmit 109 E. Não foi nos meus sonhos, mas lá perto, enquanto jogava o simulador War Thunder, de que já aqui falei recentemente.


"Canso A" (Catalina produzido no Canada, usava a
denominação "Canso" sendo o "A" relativo à versão anfíbia.

Fiquei surpreendido com o Catalina[1]. Achei-o grande, lento e inútil. Com uma certa beleza rude, é verdade, mas incapaz de se aguentar contra um caça topo de gama da mesma época. No entanto, depois de perder o meu avião, ou melhor depois de perder muitos aviões a tentar abater estes PBY começei a achar que talvez estivesse perante algo mais interessante do que originalmente tinha pensado. Quando comecei a voar com um destes hidroviões, apercebi-me rapidamente da sua capacidade de voar com enorme dano, e ainda que era um avião preferido de muitos outros jogadores. E é aqui que saímos do jogo entramos na parte histórica do avião. 

O PBY-5 Catalina[2] é o hidroavião produzido em maiores quantidades alguma vez feito. Já era considerado obsoleto quando a guerra começou, mas os sucessivos barcos voadores que forem sendo criados e produzidos não lhe conseguiram nunca roubar definitivamente o lugar. Na realidade este avião era a mais formidável arma anti-submarino que os aliados tiveram durante toda a guerra. Tinha um alcance superior a 4000 km, tinha a possibilidade de aterrar na água para recuperar feridos e dar apoio a embarcações e levava consigo uma carga letal (1800 kg) de bombas de profundidade ou torpedos. Foi também um destes que conseguiu finalmente encontrar o couraçado Bismarck, que depois de uma longa batalha onde participaram mais de 100 navios, foi afundado na sua viagem inaugural pelo Atlântico ao largo de Brest, França[3].

Para a história ficam também os famosos Black Cats, uma esquadrilha de Catalinas totalmente pintados de preto que operou no Pacífico durante a guerra e que fazia bombardeamentos noturnos, reconhecimento e salvamento de tripulações de barcos afundados.


PBY-6 Catalina de Philippe Cousteau,
nas OGMA em Portugal, um dia antes do seu trágico fim
Este avião teve uma longa utilização por outras forças aéreas, tendo sido utilizado no Brasil até 1982 para vigilância costeira e apoio às populações no extremo interior da Amazónia. Das dúzias de Catalina's ainda a voar hoje em dia, a maioria fazem-no nos serviços aéreos de bombeiros.

Numa nota menos feliz, Philippe Cousteau[4], filho do famoso explorador françês Jacques-Yves Custeau, perdeu a vida no seu Catalina no rio Tejo, junta a Alverca em 1979[5]. O acidente deu-se quando testavam o avião, já na água e a alta velocidade. 

Deixo-vos aqui um documentário sobre este espectacular avião. Um documentário "dos antigos", só com imagens da época e ainda sem o apoio das imagens de computador[6].








sexta-feira, 1 de março de 2013

Até ao Fim, Destruição e Derrota da Alemanha de Hitler 1944-1945

Book Review

Ian Kershaw, proeminente escritor inglês, traz-nos esta obra interessantíssima sobre a segunda guerra mundial, que na realidade se concentra numa só pergunta: por que motivo o III Reich, como entidade política, se aguentou de pé até os soviéticos literalmente baterem à porta do Fuhrer?

A pergunta é relevante. Milhões de civis e militares morreram nos últimos meses da guerra, quando era óbvio para todos os envolvidos que a guerra estava perdida para o eixo. Tragédias como o Wilhelm Gustloff[1], Hiroshima e Nagasaki, a destruição de Berlim[2] entre muitas outras batalhas causaram um sofrimento indescritível sem qualquer valor para o desfecho da guerra.

Normalmente as guerras perdem-se no campo da diplomacia e/ou da política antes de se perderem militarmente. Pelo menos de uma derrota militar deste nível, com o colapso total e absoluto das forças armadas. Na primeira guerra mundial, por exemplo, uma revolução interna na Alemanha[3] provocou a sua derrota, que no campo militar ainda estava longe de ser absoluta. Na frente oriental, também um golpe bolchevique na Rússia sentenciou a saída desta guerra[4], sem que alguma vez as tropas alemãs tivessem sequer aproximado de Moscovo ou São Petersburgo[5]. Sem precisar de ir tão longe, temos a derrota de Portugal na guerra do Ultramar, causada por uma revolução em casa e não por uma derrota militar no terreno[6].

Neste caso, o regime Nazi manteve-se de pé até aos últimos instantes e a autoridade de Adolf Hitler intacta até à sua morte. Como seria de esperar, são muitos os motivos porque isto terá acontecido. E nem sempre se passou da mesma forma. A autoridade do partido e dos representantes do estado na frente leste não era a mesma da frente ocidental. A atitude das forças ocupantes também não era a mesma.

O livro foca-se no período final da guerra, desde o atentado falhado de Stauffenberg[7] em Julho de 1944 e que por pouco não conseguiu matar Hitler no seu Wolfsschanze (a "Toca do Lobo", um quarter-general na Prússia Oriental), até ao final da guerra em 1945.

Kershaw explora de forma brilhante, fluida e bem documentada as várias motivações por parte dos cidadãos alemães, funcionários públicos e forças armadas para manterem a sua estrutura até ao fim. Desde a estrutura corrupta que rodeava Hitler e que mantinha uma constante luta de poder, as infatigáveis guerrilhas entre os diferentes ramos das forças armadas até ao medo que os alemães tinham do que seria uma ocupação estrangeira. Uma ocupação soviética, acompanhada pelos relatos assombrosos dos civis em fuga da Prússia Oriental, devidamente regados pela propaganda Nazi, fizeram com que na frente leste a resistência tenha sido sempre maior. A sensação de grande parte das tropas alemãs era, nessa frente, de que a sua guerra era justa ou, pelo menos inevitável para travar as "hordas asiáticas". Os mais veteranos lembravam-se no entanto do que fora o avanço alemão pelas estepes russas durante a Operação Barbarossa. E sabiam que o que lhes estava a cair em cima era uma vingança bíblica. Já do lado ocidental, o comportamento era bastante diferente, com grande parte dos intervenientes a prepararem o pós-guerra e sem medo do que lhes esperava depois de uma ocupação anglo-americana (com excepção dos líderes nazis locais, nomeadamente os Gauleiter[8] e os que trabalhavam directamente com estes).

Não obstante a propaganda nazi e os boatos infundados de que ainda seria possível uma paz separada entre o III Reich e os aliados ocidentais que permitisse que se juntassem na "inevitável" guerra contra o inimigo bolchevique, os receios provaram-se correctos. A esmagadora maioria dos prisioneiros de guerra alemães na frente oriental morreram em cativeiro depois da guerra (à semelhança do que aconteceu aos prisioneiros soviéticos feitos pelos alemães, que foram deixados a morrer de fome e frio em campos espalhados pelos territórios ocupados). Mas o medo da ocupação não foi certamente o único motivo. A máquina de terror criada pelo regime Nazi virou-se nos últimos meses da guerra não só para os seus inimigos habituais, mas também para os restantes alemães. Qualquer sinal de derrotismo recebia a pena de morte. Traição ou rendição levava a consequências trágicas nos familiares para além dos próprios.

Uma questão interessante relativa à sobrevivência do regime até tão tarde prende-se com a própria estrutura de poder. Ao contrário da Itália, por exemplo, que tinha um Grande Conselho Fascista[9] que nomeava o ditador e um Rei que servia como alternativa de transição, a Alemanha não dispunha de qualquer forma pacífica de retirar Hitler do poder. Para além disso, todos à volta de Hitler, nomeadamente as quatro grandes personagens imediatamente abaixo deste (Goebbels, Himmler, Bormann e Speer)  estavam profundamente divididos e receosos uns dos outros. E o poder de todos era dado por Hitler. Todos viram como Goring, lider da Luftwaffe, fora totalmente despido de poder por Hitler depois dos falhanços em 1944 e era, nesta altura final da guerra, absolutamente desconsiderado por todos, desde a população até aos políticos e militares[10].

O livro é brilhante mas, aconselho a sua compra de forma condicional. Acredito que é um livro que faz muito sentido depois de já se ter lido muitos outros sobre a segunda guerra mundial. Foi escrito para quem já leu as obras de Martin Gilbert, Churchill, Max Hastings, Antony Beevor e Richard Overy. Para quem estiver a ler os seus primeiros livros no assunto, este certamente não será o melhor para começar. No entanto, se já começa a sentir que cada livro que lê acrescenta menos sobre o assunto, então "Até ao Fim, Destruição e Derrota da Alemanha de Hitler 1944-1945" é um livro que certamente quererá ter na colecção e que lerá com enorme prazer.   

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

War Thunder

Game Review

O meu interesse por simuladores de voo tem andado muito por baixo nos últimos anos. Embora tenha experimentado vários, houve apenas um que realmente me me cativou, que foi o Red Baron[1], passado na primeira guerra mundial e, obviamente, usando como pano de fundo o grande ás da aviação alemã da Grande Guerra, o Barão Manfred von Richthofen[2].

Mas para quem gosta tanto de história de segunda guerra mundial, talvez fosse mesmo inevitável que acabasse por aparecer um que me enchesse as medidas. Da autoria da empresa russa Gaijin, apresento-vos o War Thunder[3], com algumas das imagens mais espectaculares de Spitfires contra Bf 109 E, Zeros contra P-51 Mustang, FW-190[4] e os bombardeiros de mergulho Ju 87[5]. O jogo é de graça, online e com milhares jogadores envolvidos. Verdadeiramente espectacular. Let's look at the trailer... 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Wings of the Luftwaffe - Ju 87 Stuka

Ju 87 Stuka
Já aqui antes trouxe uma das minhas séries preferidas sobre a Segunda Guerra Mundial, Wings of the Luftwaffe, neste episódio sobre um dos mais míticos aviões da história, o bombardeiro de mergulho Ju 87 Stuka. Um produto de propaganda com as suas sirenes que causaram o pânico às tropas e tanques desde as batalhas da Polónia de 1939 até quase ao fim da guerra, quando o Stuka era armado com um enorme canhão para destruir tanques soviéticos.

Embora deixe para esta série a verdadeira e completa história dos Stukas, não resisto a falar de um homem que será certamente um dos maiores ases da história da aviação: Hans-Ulrich Rudel[1]. Este piloto alemão tornou-se no mais medalhado militar alemão da guerra e sobreviveu-lhe tendo falecido já nos anos 80 do século XX. Entre os seus alvos destruídos estão mais de 500 tanques, 1 navio destroyer, 2 cruisers e um couraçado soviético. Ainda mais surpreendente foi o facto de, depois de ver uma perna amputada em Fevereiro de 1945 depois de o seu avião sido abatido por anti-aéreas, ter regressado aos combates conseguindo destruir mais 26 tanques antes do final da guerra. Continuou a utilizar o Stuka quando este já era considerado uma peça de museu e quando a Luftwaffe já praticamente não existia, embora tenha mesmo no final utilizado também uma variante do FW-190[2].

Mais um documentário a não perder para quem gosta da história deste período.



sábado, 3 de novembro de 2012

Importa-se de repetir Sr. Embaixador?

Ehud Gol - Embaixador de Israel em Portugal
Não admira que homens como Norman Finkelstein falem na existência de uma "indústria do holocausto"[1]. Esta semana o embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, foi à conferência "Portugal e o Holocausto, aprender com o passado, ensinar para o futuro" para nos presentear com um conjunto de afirmações que roçam o insulto à inteligência e à memória histórica[2]. Em plena Fundação Gulbenkian, Gol afirmou que Portugal "foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias" por morte de Adolf Hitler e acrescentou ainda que "É uma nódoa que para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal". 

Este tipo de chantagem psicológica aparenta ser mais uma das muitas táticas utilizadas pelo lóbi de Israel para conseguir concessões ou pagamentos directos do país, ao estilo dos relatos de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt[3]. Mas começo por dizer que, tendo os judeus sido vítimas daquele que provavelmente será o maior crime alguma vez cometido, bandeiras a meia haste deveria ser o menor dos seus problemas.

Durante os anos fatídicos de 1933, quando Hitler ascende ao poder, até à sua queda em 1945, o povo judeu foi assassinado aos milhões com a ajuda dos governos fantoches ou legítimos da Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Noruega, Áustria, Checoslováquia, Polónia, Croácia, Itália, Estónia, Letónia, Lituânia, Grécia, etc. Em praticamente toda a europa, as polícias secretas em conjunto com a Gestapo procuravam e deportavam todos os judeus enviando-os para a morte. Portugal, nessa altura, protegeu não só os cidadãos portugueses de religião judaica como também fez vista grossa a milhares de judeus ilegais que entraram no país com vistos falsificados ou produzidos por embaixadas como a de Bordéus cuja validade legal era duvidosa[4]. Tudo isto enquanto o governo de António Oliveira Salazar se via a braços com uma potencial invasão espanhola e/ou alemã de Portugal continental e de uma invasão dos aliados nas ilhas dos Açores pelo que necessitava de manter uma postura o mais neutra possível para evitar ser empurrado para a mais destrutiva guerra de todos os tempos[5]. Se todos os países tivessem tido o mesmo comportamento que Portugal, nem teria existido guerra.

A bandeira a meia haste por Hitler é, obviamente, uma estupidez. A guerra estava decidida e já não havia qualquer interesse em manter a neutralidade. Portugal, aliás, já tinha feito algo bem mais importante do que isso e com efeitos directos na capacidade militar alemã ao proibir finalmente a venda de volfrâmio à Alemanha uns dias antes do Dia D[6]. E, para finalizar o comentário à ridícula conversa da bandeira, atrever-me-ia a dizer que todos ficaríamos muito felizes se Israel em vez de ter expulsado 750 mil palestinanos civis da Palestina e assassinado muitos milhares em 1948 tivesse limitado a sua ação a colocar a sua bandeira a meia haste pela morte de uma qualquer persona non grata dos palestinianos. Estaríamos hoje todos muito melhor.
Aristides Sousa Mendes

Mas como um disparate nunca vem só, o embaixador Ehud Gol acrescenta ainda que lhe foi pedido por parte da Fundação Aristides Sousa Mendes ajuda pelo facto da antiga casa deste estar a ruir. Acrescenta orgulhosamente que não só não ajudará como para não pedirem ajuda aos Estados Unidos. Fiquei um pouco surpreendido por ver um embaixador israelita a falar em nome do governo dos EUA, mas dado o nível de influência do lóbi judeu no congresso americano[7], talvez esta até seja a atitude mais pragmática. Nas suas palavras "Façam vocês algo para promoverem a imagem dos vossos justos". Os justos entre as nações é um título atribuído por Israel e não por Portugal[8]. Nós temos os nossos próprios prémios carreira para os cidadãos portugueses que se distinguem por algum motivo. E somos nós, através dos nossos governos democraticamente eleitos, que decidimos como, quando e a quem apoiaremos dentro das nossas parcas possibilidades. Não cabe ao embaixador de Israel dizer como é que Portugal deve premiar os heróis de Israel. Mais uma vez, o excelentíssimo Ehud Gol parece ter enormes dificuldades em compreender o seu job description. Ele é embaixador de Israel, e não de Portugal ou dos Estados Unidos da América.
Soldados israelitas e o escudo humano

Continuando a sua jihad retórica, o supracitado considera que Portugal tem obrigação de ser um membro e não um observador na task force internacional para a Educação, Memória e Investigação do Holocausto. Para além de estarmos neste momento precisamente a tentar acabar com o "investimento" do estado em inúmeras fundações e observatórios por falta de dinheiro, o estudo do Holocausto não é a prioridade da nossa educação. Felizmente Portugal não teve qualquer envolvimento nesse crime nem, dada a sua dimensão e frágil posição, poderia ter feito algo mais para o impedir. Temos no entanto imensas "nódoas" (para usar mais uma expressão de Gol) no nosso passado que devemos relembrar e fazer todos os possíveis para que não aconteçam nunca mais. Estou a falar por exemplo da tortura ou do racismo de estado que foram cometidos durante séculos no Império Português. Pesadelos que devemos relembrar para que nem nós nem ninguém os volte a repetir. Uma lição que o embaixador poderia até levar para o seu país que sistematicamente viola os direitos humanos, torturando e assassinando os israelitas árabes e os palestinianos[9][10][11][12][13][14].

Por fim, e em jeito de moral da história, temos a afirmação do embaixador de que "(..) os países têm que assumir responsabilidade pelo seu passado". Curiosamente referia-se a Portugal. O meu conselho seria que pegasse nessa lição e a levasse para Tel Aviv para ver se Netanyahu restitui aos palestinianos tudo aquilo que Israel lhes roubou nestes últimos 70 anos[15]

PS: Só faltou mesmo a conversa do ouro nazi, corolário óbvio de toda esta chantagem psicológica. Suponho que essa conversa ficará para quando Portugal tiver mais dinheiro.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Grande Depressão

Anos 30 - Fila do pão
Iniciada com o crash bolsista de 29 de outubro de 1929[1]a Grande Depressão[2]trouxe ao mundo uma miséria tão repentina e incompreensível que lançou as finanças, a economia e finalmente a sociedade inteira num ciclo vicioso que destruiu tudo o que encontrou pelo caminho. O mais estranho é que as lições aprendidas daquela que foi a mais violenta e global crise do século XX acabaram por ser esquecidas ou - pior do que isso - mal compreendidas. Quando estava na faculdade (num curso de ciências económicas e empresariais), a Grande Depressão não tinha praticamente qualquer expressão no curriculum do curso. Quando este assunto foi brevemente abordado, numa cadeira de história económica, o que nos foi ensinado foi que isso hoje nunca seria possível pois os conhecimentos de economia eram agora infinitamente superiores. Suponho que desde 2007 que já não ensinam tamanho disparate nas universidades...

Para um leigo, não é claro como um crash bolsista provoca uma crise económica e social de grande escala. Lá porque o mercado subitamente resolve avaliar as ações das empresas cotadas em bolsa 25% abaixo, isso não deveria ter um grande impacto na economia, para lá de uma resistência dos detentores de acções em as venderem a um preço tão baixo. Isso não deveria causar uma diminuição directa da capacidade de produção, da qualidade dos produtos ou da procura. E na realidade, directamente, não causa. O verdadeiro problema é o desaparecimento do mercado de dívida. Muitos dos investimentos financeiros (nomeadamente a compra de acções na década de 1920 ou a compra de casas no início do século XXI) é feita com recurso à dívida. Enquanto esses activos continuarem a aumentar de preço, essa dívida é segura, já que qualquer problema pode ser resolvido vendendo o activo e saldando a dívida. O problema começa quando esses activos subitamente valem menos do as dívidas que lhes estão subjacentes. A partir daí entramos numa situação "abaixo da linha de água", o que significa que o cidadão ou empresa que é responsável pela dívida e pelo activo, está agarrado ao activo porque não o pode vender para limpar a dívida e tem que pagar a dívida quer o activo lhe dê o retorno esperado ou não. O financiador, por outro lado, tambem fica numa situação impossível. Sabe que emprestou dinheiro a alguém que terá dificuldades em o pagar de volta e também não quer a penhora do activo porque este vale menos do que a dívida. Quer do lado do devedor quer do lado do emprestador, a tendência será por isso a de controlar os seus gastos de forma a precaver-se contra as previsíveis dificuldades. Isto significa os emprestadores vão parar de emprestar dinheiro enquanto os valores dos activos estão em queda, vão cortar nos empréstimos a outras instituições financeiras por medo que estas estejam ainda mais expostas a crédito malparado e forçam os seus devedores cumpridores a reduzirem a sua exposição. Tudo isto causa uma pressão enorme sobre todos os bancos, que ficam limitados na sua tesouraria, em todas as empresas, cujos investimentos vão ser adiados ou cancelados, e sobre as famílias, que sem acesso ao crédito e com medo do futuro retraem os seu consumo preparando-se para o pior. Nesta altura, todos os agentes da economia entram num ciclo de austeridade do qual ninguém consegue sair sozinho sob pena de ser o primeiro a cair.

Aí, a crise cai em cima da economia propriamente dita. Menos financiamento, menos investimento, menos consumo causam necessariamente mais desemprego, menos produção e cada vez mais dificuldades em pagar as dívidas. Como na história bíblica d'O Sonho do Faraó[3], a única verdadeira solução perfeita para os anos de vacas magras teria passado por poupar durante os anos de vacas gordas. Mas isso, obviamente, já não era possível. Como não é possível hoje.

Nos anos 30, a solução passou pelo New Deal[4] proposto por Franklin D. Roosevelt[5]. Incentivos do estado em grande escala, construção de grandes obras públicas, definição arbitrária da paridade entre o ouro e a moeda americana conseguiram colocar a máquina da economia americana a carburar novamente. O New Deal não foi no entanto uma solução rápida nem limpa. Custou muitíssimo ao estado americano e quando algum desse "falso" investimento foi retirado a economia caiu novamente em recessão, já nos anos 1936 e 1937. O que acabou definitivamente com a Grande Depressão foi mesmo a segunda guerra mundial[6]. Ao tornar-se no "Arsenal da Democracia"[7], os Estados Unidos da América beneficiaram de emprego total, escoamento de toda a produção e exportações massivas que limparam quase em absoluto as reservas de ouro e moeda forte dos aliados, em especial o Reino Unido como Churchill se queixou amargamente (só em 2006 as dívidas de guerra britânicas aos EUA foram finalmente finalizadas[8]). Mesmo no final da segunda guerra, o espectro de uma nova recessão ainda se encontrava no ar, não se tendo concretizado devido ao que ficou conhecido como o Plano Marshall, que por um lado financiou a reconstrução de vitoriosos e derrotados como também garantiu acordos comerciais extremamente vantajosos para os EUA.

Infelizmente, muitas das soluções aplicadas nessa época não são adequadas nos dias de hoje ou (como é o caso de uma guerra mundial) longe de serem algo que queiramos rever. Ao contrário dos anos 30, o mundo hoje tem fronteiras muito mais ténues e existe uma mobilidade populacional, financeira e económica incomparavelmente superior. Um programa massivo de investimento sustentado por um estado pode ajudar a resolver a falta de liquidez da economia temporariamente, mas a quantidade de dinheiro que se iria escapar do país via importações, remessas de imigrantes e fuga de capitais para offshores seria inevitável e em larga escala. Isto será ainda mais verdadeiro no caso dos países da União Europeia onde as barreiras são totalmente inexistentes. E não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos disto: Portugal conseguiu entre 2000 e 2011 passar de uma dívida pública de 66 mil milhões de euros para 174 mil milhões. Um aumento de 163% no valor da dívida do estado[9], enquanto o PIB sobe de 127 mil milhões de euros para 171 mil milhões[10]. Um aumento do PIB a valores correntes de apenas 35%. Isto dá-nos uma ideia de como o new deal português falhou completamente nos seus efeitos. Quando as dívidas ultrapassaram o nível que os credores consideraram aceitável a queda era inevitável e este doping financeiro na economia deixou de conseguir sustentar uma economia que estaria provavelmente condenada à recessão.

As bases da teoria económica de John Meynard Keynes[11], tão em voga nos anos 30 e que deram as bases para o New Deal de Roosevelt têm o seu calcanhar de Aquiles no longo prazo. Na realidade o próprio previu isso embora não tenha mostrado grande preocupação com essas consequências. Quando lhe perguntaram o que aconteceria no longo prazo, a sua resposta foi "in the long run, we are all dead". Ele estava certo. Quase todas essas pessoas dos anos 30 estão hoje no céu (ou na sua concorrência). Mas nós estamos cá, e ficamos para pagar as contas todas. A economia está longe de ser uma ciência. A economia é ainda um mundo incompreensível cujas variáveis estão muito longe ser entendidas. Precisamos de novas ideias neste campo. Urgentemente.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Churchill 1940-1945 Os Melhores Anos

Max Hastings, autor deste livro publicado pela Civilização, assim como de outros que já aqui trouxe anteriormente (Operação Overlord) merece sem qualquer dúvida o título de um dos melhores historiadores contemporâneos. Não é fácil escrever um livro sobre Churchill quando 70 anos passaram e já tanto foi escrito. Para além disso, Winston Churchill será provavelmente uma das personagens com mais escritos livro sobre si em toda a história. 

Primeiro-Ministro inglês durante a segunda guerra mundial e líder do mundo livre durante um período em que a noite nazi caía sobre toda a europa central, Churchill aparece-nos aqui como uma personagem ainda mais complexa, desequilibrada e genial do que é habitual. Tive oportunidade de ler as memórias de Sir Winston, um livro magnífico que lhe valeu o Prémio Nobel da Literatura em 1953 [1], e a impressão com que fiquei dele era a de um homem brilhante, carregado de certezas e de alguma forma amargurado por ter perdido as eleições já mesmo no final da guerra na europa. Não pude deixar de notar também um certo tom apologético em relação a algumas das suas decisões, que foram escrutinadas ao detalhe durante e a seguir à guerra. Desde o desastre de Dunquerque, a perda da frota inglesa no índico, os erros na Grécia até à frustração da perda da Polónia para o bloco comunista (país cuja liberdade foi afinal de contas o motivo porque o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha), todos esses eventos foram explicados por Churchill numa tentativa de limpar a sua imagem das muitas falhas cometidas pela sua liderança.

Sir Max Hastings no entanto não tem as limitações que Churchill tem a escrever sobre o assunto. Não necessita de dedicar demasiado tempo a explicar o porquê dos erros e tem o distanciamento temporal necessário para não ter que manter nada escondido (Churchill não pode revelar assuntos que eram ainda segredos de estado, tais como a descodificação do ULTRA, os códigos secretos das famosas máquinas Enigma da Alemanha). Para além de ser um historiador extremamente competente, é ainda um escritor de grande nível e um conhecedor profundo da realidade da segunda guerra mundial.

Churchill era um homem completamente fora do seu tempo. E ainda mais seria do nosso. Imperialista convicto, imaginava o lugar do Reino Unido no mundo e o seu na história. A famosa frase de Shakespeare "All the world's a stage" aplica-se melhor a este líder do que provavelmente qualquer outra pessoa antes ou depois dele. Acreditava na vitória em 1940, quando em todo o mundo a derrocada da Inglaterra era dada como garantida, desafiou Hitler a partir da sua pequena ilha e motivou os britânicos para uma vitória impossível, armou o país para lá de todas as suas capacidades humanas e financeiras e envolveu-se em todos os pormenores da guerra de forma obcecada. Cansava-se do jogo político rapidamente, não obstante ser um dos mais brilhantes oradores de que há memória e procurava pessoalmente a frente de batalha contra todas os avisos dos seus conselheiros. Foi o primeiro líder político a voar para a Normandia, dias depois do desembarque. Correu o mundo em conferências com os outros líderes, a animar as tropas e a tentar desbloquear situações militares e logísticas. Procurou batalhas mesmo quando sabia que não havia hipóteses reais de as ganhar, preocupado com o veredicto que a história lhe faria. 

E, em paralelo, acordava todas as manhãs com ideias novas e mirabolantes das quais grande parte foi vetada pelo seu gabinete ou pelos chefes de estado maior garantindo ao mundo livre uma esperança mesmo quando toda a lógica apontava em contrário. Se houve uma faceta  que me ficou marcada pela leitura deste livro, foi a de que Churchill simplesmente não permitia que a lógica lhe causasse quaisquer dúvidas na certeza da vitória. Em qualquer outra situação da vida, isto seria um erro tremendo. Possivelmente, temos ainda hoje que lhe agradecer o facto de na europa não vivermos debaixo de uma tirania nazi. Não fosse a sua voz e os seus actos e o mundo seria hoje muito diferente. E provavelmente para pior.

sábado, 29 de setembro de 2012

A Queda de Berlim 1945

Book Review

Beneficiando da grande quantidade de registos tornados públicos depois da queda do muro de Berlim e do colapso da União Soviética, Antony Beevor (Bertrand Editora) traz-nos este excelente livro que se centra nos últimos meses da segunda guerra mundial na Europa.

Estas são histórias contadas vezes sem conta em livros e filmes, mas que de alguma forma não cansam porque esta guerra continua a ter algo de único e absoluto. Algo que não podemos permitir que se repita. 

Há uns anos atrás, num documentário sobre este tema, uma idosa alemã contava como tinha sido violada por membros do Exército Vermelho durante a invasão de Berlim, quando ainda era jovem. Mais do que a sua descrição, o que me tocou mais foi a sua frase final: "não acredito que tenha havido alguma mulher em todo o país que não tenha sido violada". Essa ideia de uma violação massiva de todo um país era algo que só poderia ser comparado com os crimes dos próprios nazis. Mas que, ao contrário destes, não era particularmente recordada. Mesmo que essa frase não pudesse ser levada à letra, mostra sem margem para dúvidas um crime em larga escala cometido por um exército e devidamente abafado pelas potências vencedoras. 

Antony Beevor mostra-nos toda essa história. Da violência de um Exército Vermelho decidido a vingar as atrocidades cometidas pelos nazis nas nações soviéticas. Da facilidade com que pilhavam, destruíam e violavam tudo o que encontravam. Um exército de milhões, totalmente desorganizado, fanaticamente decidido e acossado a conquistar Berlim a tempo das comemorações do 1º de Maio em Moscovo, resultando em inúmeras mortes causadas por "fogo-amigo".

A insanidade da liderança nazi é também um dos assuntos centrais deste livro. A sua insensibilidade ao sofrimento que causaram aos seus próprios civis. A forma como obrigaram crianças e velhos a pegar em armas e como enforcaram ou fuzilaram todos aqueles que fugiram ao recrutamento ou que colocaram bandeiras brancas de rendição nas janelas de suas casas. Como, com a frente russa a centenas de metros de distância, Hitler ainda falava das suas armas maravilha, dos seus exércitos que na realidade já não existiam e de como iria dar a volta à guerra. E, talvez o mais inacreditável, como até à sua morte conseguiu manter um controlo total sobre o aparelho político e militar.

Uma última nota para a importância das topas nazis estrangeiras que lutaram até ao último dia na defesa de Berlim. É algo de que - confesso - não tinha noção que tomara tais proporções. Tropas SS escandinavas, russas e francesas lutaram fanaticamente contra os exércitos russos, mesmo quando os exércitos sobreviventes alemães lutavam apenas com o objectivo de se conseguirem entregar às potências ocidentais, dados os seus receios de serem escravizados pela URSS. Naturalmente, estes nazis estrangeiros tinham poucos motivos para acreditar que seriam bem tratados nos seus países de origem, o que pode ajudar a explicar porque não encontraram outra saída senão a luta até à morte.

Um livro muito interessante, e onde não me é possível fazer nenhuma crítica negativa. Um autor a que espero regressar em breve. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Lisboa, A guerra nas sombras da cidade da luz

Book Review


Fico sempre com sentimentos contraditórios quando vejo livros de História de Portugal escritos por estrangeiros. Por um lado, claro que respeito a liberdade de o fazerem e fico lisonjeado pelo interesse que o meu país lhes causa, para além obviamente de compreender que um espectador estrangeiro será provavelmente mais independente do que um nativo. Por outro, sabendo dos milhares de licenciados em História desempregados que existem em Portugal, não consigo deixar de pensar por que motivo não temos muitíssimos mais livros cobrindo toda a nossa história a serem vendidos pelas muitas livrarias do nosso país.

Neil Lochery escreveu este livro sobre um tema que me fascina: o mundo da espionagem em Portugal durante a segunda guerra mundial. Não tendo sido um dos beligerantes, o nosso país contava-se entre uma das poucas nações onde os refugiados conseguiam abrigo, onde os serviços de inteligência das principais potências procuravam obter informações e introduzir-se nos países inimigos, e onde o lucro fluía fruto dos produtos e informações procurados por todos os lados da guerra.

A guerra do volfrâmio, metal essencial na indústria de armamento alemã, misturou tráfico de ouro nazi e do próprio volfrâmio, alterou o perfil económico do país e testou aos limites os nervos das elites portuguesas (em especial Salazar) que procuravam desesperadamente manter Portugal fora da guerra.

António de Oliveira Salazar é por isso a peça central desta história, tentando agradar a gregos e troianos, jogando com os embaixadores ingleses, alemães e americanos de forma a que cada uma das suas decisões não chegasse nunca a ser considerada como um acto de guerra, mesmo quando algumas delas estavam no limiar disso mesmo. Caso por exemplo da cedência da base das Lages ao Reino Unido, facilitando o tráfego aéreo e a defesa das absolutamente essenciais frotas das américas para a Grã-Bretanha ou, no sentido inverso, a venda de matérias primas à indústria militar nazi. Lochery é claramente um admirador da mestria com que Salazar geriu cada um desses dossiers embora seja crítico da frieza com que o ditador tratou o sofrimento dos refugiados e vítimas civis estrangeiros.

Personagem incontornável desta época será também Aristides de Sousa Mendes e o trabalho que fez ao serviço dos refugiados judeus que se acumularam em Bordéus em fuga do avanço alemão no primeiro semestre de 1940. Mesmo pondo em causa alguns números recorrentemente publicados nos media, Lochery não reduz a importância das acções do Cônsul quer nas vidas dos que beneficiaram dos vistos quer na política e estratégia das várias potências. Espanha, que se encontrava pressionada por Hitler para se juntar ao Eixo tornou a situação para o governo português diplomaticamente complicada, enquanto a Inglaterra fez uma queixa formal por - pelo menos numa ocasião - ter sido pedido dinheiro pelo visto em Bordéus.

Embora seja um livro muito interessante de ler, escrito de forma apelativa para um público mais alargado do que o que habitualmente compra livros de não-ficção - complementado ainda com uma capa lindíssima e fotografias da época bem escolhidas - está longe de ser perfeito. "Lisboa, A guerra nas sombras da cidade da luz, 1939-1945" leva tão a sério a necessidade de agradar o grande público que exagera nas referências às estrelas de cinema, personalidades famosas e ao super espião James Bond, cujo autor - Ian Flemming - serviu como oficial nos serviços secretos ingleses em Lisboa.

Mesmo assim, e depois de horas muito bem passadas a ler o livro, fui obrigado a reler incrédulo o parágrafo final, cuja conclusão discordo totalmente:

Salazar acreditava profundamente que Portugal merecia ser pago pelos bens e serviços que fornecia e que deveria ter permissão para reter os lucros desse comércio após a guerra. Seria um sinal de amadurecimento da democracia portuguesa se as questões relativas ao comércio durante a Segunda Guerra Mundial fossem avaliadas de uma forma crítica menos politizada e mais aberta e justa. Só assim a história de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial terá um fim real.

No contexto do livro ou tendo algum conhecimento sobre a segunda guerra sabemos que isto significa literalmente "Portugal tem de devolver os lucros que teve da venda de volfrâmio porque é ouro nazi". Não podia discordar mais. Sei que outros países já o fizeram, mesmo não estando directamente envolvidos nos crimes nazis, mas não me parece que o lucro da venda de volfrâmio à Alemanha seja ilegítimo. Portugal era um país neutro, fazia troca comerciais com quisesse e não é por um dos lados ter ganho a guerra que tem o direito de exigir indemnizações de guerra a quem nunca participou nela.

Por outro lado, pegando num precedente destes então o mundo inteiro teria contas a ajustar. E não seria preciso ir tão longe como a segunda guerra mundial. Milhares de empresas que tiveram negócios com o Egipto de Mubarak, com a Líbia de Khadafi, com o Iraque de Saddam entre muitos outros teriam que devolver também todo o dinheiro que receberam. Quantas empresas americanas, inglesas e francesas não venderam armas para esses regimes e outros que ainda não caíram? E não estamos sequer a falar de venda de matérias primas, mas de armas. Em muitos casos armas químicas e minas anti pessoal cujos efeitos se sentem por décadas.

Ainda mais insultuoso é Neil Lochery fazer depender a "maturidade da democracia portuguesa" nesta ideia. Porque nesse caso nenhum país do mundo poderia ser considerado democraticamente maduro. Todos tiveram negócios com regimes mais ou menos violentos e muitos deles têm um passado violento em relação aos países vizinhos. 

Não faço ideia do que lhe terá dado para escrever um tamanho disparate no final do livro. Talvez queira agradar a alguém. A mim não o fez de certeza.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Wings of the Luftwaffe - Fw 190

Focke-Wulf Fw 190 Würger
O estilo e conteúdo dos documentários tem mudado muito nas últimas décadas. As tecnologias digitais que primeiro apareceram nos filmes foram-se banalizando e os custos envolvidos reduziram-se a um ponto que permitiu que fossem utilizados nos documentários, tipicamente muito mais limitados em termos de orçamento. As imagens tornaram-se mais espectaculares, com imagens muito realistas de batalhas e dos seus intervenientes, dos edifícios históricos e tudo o mais que durante tantos anos preencheu a nossa imaginação quando líamos os livros de história.

No entanto, os documentários já existiam muito antes destas tecnologias estarem disponíveis. A segunda guerra mundial, em particular, beneficiando de ter acontecido quando o cinema já tinha entrado numa fase madura, prencheu milhares de horas de documentários utilizando as imagens filmadas por todos os intervenientes. Estes programas são em muitos sentidos mais realistas do que os mais actuais, já que não tinham outra opção senão o uso de filmagens reais. Por outro lado, nessa época (anos 80 e 90) muitos intervenientes da segunda guerra mundial estavam ainda vivos e conseguiram contribuir para os documentários com entrevistas.

Foi por coincidência que me cruzei com este documentário do Discovery Channel, do início dos anos 90, quando procurava informação sobre o Focke-Wulf Fw 190[1], um avião alemão da 2GM que por algum motivo ficou para história escondido na sombra do Messerschmitt Bf 109[2]. É verdade que o Bf 109 sobreviveu à guerra, tendo sido utilizado ainda durante umas décadas na Força Aérea Espanhola enquanto o Fw 190 acabou junto com o regime nazi que o criou. Também em números produzidos, o Bf 109 ganha. Mas o facto é no final da guerra toda a produção estava concentrado no Focke Wulf e era, regra geral, o caça de eleições dos pilotos alemães embora alguns dos maiores ases se tivessem mantido fieis ao Messerschmitt[3].

Felizmente para todos nós cujo estudo amador da história é um prazer assumido, a colecção completa do programa Wings of the Luftwaffe[4] está disponível no You Tube. Deixo aqui o programa sobre o Fw 190, num documentário sem imagens digitais, apenas historiadores, testemunhos reais e imagens da época.



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Noite

Book Review

Escrito por Elie Wiesel e publicado em Portugal pela Texto, "Noite" conta como este judeu romeno foi atirado para o horror dos campos de concentração nazis de Auschwitz e Buchenwald ainda adolescente.

Como todos os testemunhos reais sobre o holocausto, o livro é impressionante, comovente e assustador. Apetece-nos gritar às personagens para que fujam antes que seja tarde demais. Para que não acreditem que tudo vai correr bem. Mas infelizmente não nos ouvem. Não trazendo nada de completamente diferente de outras descrições como a Primo Levi ou mesmo a versão cinematográfica de "A Lista de Schindler" de Spielberg, não deixa de ser um testemunho relevante e que deve ser lembrado.

Sinceramente o que me estragou o livro é saber mais sobre quem é realmente Elie Wiesel. Página a página, perguntava-me continuamente como é que alguém que passou por tudo isto consegue ser tão frio em relação ao sofrimento dos outros. Este mesmo homem é incapaz de dizer uma palavra quando se fala da expulsão de centenas de milhares de palestinianos, resumindo o problema à seguinte frase:

"Para mim, como judeu, Jerusalém está acima da política. Ela pertence ao povo judeu e é muito mais do que uma cidade. É o que liga um judeu a todos os outros de uma forma que é difícil de explicar"[1].

Wiesel mostra um fundamentalismo religioso perigoso, onde o sofrimento do povo judeu deve ser relembrado por todos, mas qualquer mal causado por um judeu não pode ser recordado.

Piora a sua argumentação usando a cartada religiosa: "[Jerusalém] está mencionada nas escrituras [judaicas] mais de 600 vezes e nem uma vez no Corão"[2].

Ou seja, para Wiesel, a diplomacia internacional deve ser baseada nos livros sagrados. Por algum motivo, não nos diz quantas vezes Jerusalém aparece no Novo Testamento. É que utilizando o mesmo argumento, então provavelmente Jerusalém deveria ser a capital de um estado cristão, e não de Israel.

Wiesel, prémio Nobel da Paz em 1986, utiliza o seu sofrimento e o dos seus para se colocar num patamar diferente de todos os outros. Em vez de lutar para que estes crimes desapareçam todos de vez da face da terra, usa-os para ignorar todos os outros. Inclusivé o dos milhões de deficientes mentais, ciganos, polacos, russos, comunistas, sociais democratas e todos os que cairam nas garras no regime nazi. E isso estraga o livro. Não o seu conteúdo, mas a sua utilização para fins ilícitos.

A Indústria do Holocausto

Book Review

Já ouvira que Norman Finkelstein era um radical[1], um self hating jew[2] entre muitos outros insultos. Conhecia o ódio de que é alvo por parte dos lóbis judeus americanos. Já estava por isso preparado para ouvir algo de diferente da boca deste americano, filho de sobreviventes do holocausto nazi e promotor feroz da independência da Palestina e dos direitos humanos nos territórios ocupados. Mesmo assim, nada me tinha preparado para o que iria encontrar neste livro.

Publicado em Portugal pela Antígona, "A Indústria do Holocausto - Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus" pega num estudo de Peter Novick "The Holocaust in American Life" e leva-o mais longe, transformando-o numa acusação directa à Indústria do Holocausto que Finkelstein distingue do verdadeiro e factual holocausto nazi. Este último refere-se aos milhões de pessoas que foram assassinadas de forma sistemática pelo regime Nazi enquanto o primeiro é não mais do que a forma como essa memória tem sido utilizada para extorquir dinheiro e influência para um conjunto de instituições.

Historicamente o holocausto foi esquecido durante décadas. Os filmes e a literatura dos anos 40, 50 e 60 do século passado ingnoram a sua existência embora toda a gente tivesse conhecimento do que acontecera. Só depois da guerra dos 6 dias em 1967, é que os judeus americanos, nesse momento de força inequívoca do estado de Israel em relação aos seus vizinhos, descobrem Israel. Subitamente a própria sobrevivência do Estado de Israel era gritada aos ventos e os sobreviventes do holocausto estavam a passar enormes dificuldades. Com estes argumentos iniciou-se um processo de dupla extorsão: por um lado o lóbi judeu americano usou a sua influência junto dos governadores, congressistas e senadores americanos para forçar países como a Suíça, a Alemanha e a Polónia a pagarem indemnizações pelos eventos da segunda guerra mundial (mesmo quando em alguns casos já se tinha chegado a acordos e pago os mesmos imediatamente a seguir à guerra). Por outro, esse dinheiro, em grande parte, não chegou efectivamente aos sobreviventes e familiares das vítimas dos campos de extermínio nazis espalhados pelos vários países ocupados para além da própria Alemanha.

Finkelstein defende de forma clara que a ideia de que o extermínio dos judeus pelo regime Nazi não deve ser colocado numa categoria à parte. Embora seja um crime enorme e hediondo, não é único e as regras que aplicamos para procurar justiça para este deve ser utilizado também para outros. Seja o holocausto arménio, a escravatura em todo o mundo, a limpeza étnica dos palestinianos entre outros. Também o extermínio de ciganos e doentes mentais (os outros dois grupos sociais alvo dos nazis) durante o mesmo holocausto nazi deve ser tratado da mesma forma. E levanta ainda a questão de extremo mau gosto de o governo americano financiar inúmeros museus do holocausto e pergunta "o que aconteceria se a Alemanha fizesse um sem número de museus a demonstrar a escravatura dos negros nos EUA ou a limpeza étnica dos nativos americanos?".

Um livro provocador, bem escrito e corajoso de um homem que não se deixa silenciar. E ainda bem que é judeu, porque qualquer outra pessoa que trouxesse os mesmos argumentos seria simplesmente atirada para um canto e esquecido debaixo do argumento de "anti-semita".

domingo, 5 de agosto de 2012

Dia D

Book Review

Uso este espaço de opinião, entre outras coisas, para a crítica de livros de história. O último livro que li foi "O Dia Mais Longo" escrito por Cornelius Ryan, sobre o dia 6 de Junho de 1944, quando os aliados invadiram a Normandia e viraram definitivamente a guerra contra as forças do Eixo e abriram a tão esperada frente ocidental. Resolvi no entanto não me limitar a analisar este livro do final dos anos 50 isoladamente, mas em comparação a outro, cujo tema é semelhante, intitulado "Operação Overlord - O Dia D e a Batalha da Normandia 1944" da autoria do historiador inglês Max Hastings e escrito já na década de 80.

Ambos são livros muito interessantes e completos. Têm algumas diferenças de âmbito e estilo significativas: Ryan concentra-se no dia 6, e conta a história do ponto de vista das suas testemunhas. Entrevistou milhares de sobreviventes de todos os lados do conflito e mostra-nos o dia do ponto de vista de cada um. O estilo é por isso extremamente pessoal e provocando mudanças de ângulo extremas conforme as personagens que o contam. Hastings pelo contrário faz um trabalho mais frio, mais baseado em documentação e menos nos testemunhos. Também beneficia naturalmente de um maior distanciamento e de todos os trabalhos que o precederam, nomeadamente o próprio "O Dia Mais Longo" que aparece na sua bibliografia. O âmbito incluí não só o famoso Dia D, mas também toda a longa preparação e a batalha completa da Normandia que durou largas semanas.

Clara nos dois livros, é a incompetência militar do alto comando alemão. O regime Nazi tinha nas suas mãos os mais veteranos, bem treinado e competentes líderes operacionais no terreno. Mas entre a loucura de Hitler, a sua convicção de que a Normandia era um engodo e o verdadeiro desembarque seria em Pas-de-Calais, a incapacidade dos que o rodeavam de o aconselharem e o medo terrível dos oficiais superiores de tomarem decisões bloquearam todo o contra-ataque nas horas cruciais. Grande parte dos oficiais responsáveis pela Normandia - a começar pelo seu general Erwin Rommel - estavam em viagens. A Luftwaffe tinha apenas dois (!!!) aviões disponíveis na zona em vez das centenas previstas, devido às suas constantes reorganizações de que era alvo (o livro "The Luftwaffe" de E. R. Hooton revela isso de uma forma inacreditável, com os seus gruppen a serem atirados de um campo de batalha para o outro ao sabor dos medos e caprichos de Berlim). Duas divisões blindadas Panzer ficaram em estado de alerta durante toda a noite (literalmente com os tanques com o motor ligado au ralenti) mas não puderam ser utilizados porque não respondiam ao comando regional mas ao Oberkommando der Wehrmacht, ou seja, ao próprio Hitler - via Marechal Wilhelm Keitel - que ninguem teve coragem de acordar.

Também impressionante, e perfeitamente alinhada nos dois livros, é a capacidade operacional militar dos exércitos ingleses que acumulavam experiência e cujo país tinha uma tradição militar entre as suas elites, que não pode ser encontrada nos EUA, que entre guerras se tornara profundamente isolacionista e onde a carreira militar não encontrava eco junto dos mais ricos, mais educados e mais poderosos. Para compensar, a capacidade logística das forças armadas americanas não tinha igual em nenhuma outra. Conseguiam fabricar mais e mais rápido, colocar tudo no terreno e fazê-lo sem grandes dificuldades mesmo quando se tratava da maior armada alguma vez vista, com 3 milhões de homens, 11 mil aviões e 4 mil navios.

No entanto, embora sejam dois livros que aconselhe sem hesitação, não pude deixar de pensar que "O Dia Mais Longo" é um reflexo claro do seu tempo, ao contrário da obra de Hastings que me parece um pouco mais intemporal. Ryan parece excessivamente correcto e limitado pelas questões geoestratégicas de uns anos 50 em que uma débil Alemanha se tinha tornado a linha da frente para uma possível guerra contra o bloco soviético. Esses mesmo alemães que ele entrevistou e descreveu no livro era na sua grande maioria agora aliados das potências ocidentais e parece existir por isso uma vontade não querer humilhá-los. Não é estranho que numa obra completa sobre uma batalha fulcral entre os aliados e o eixo a palavra Nazi seja virtualmente inexistente? Não encontramos esse género de limitações em "Operação Overlord", em que aparecem descritos os diferentes comportamentos das tropas mais fanáticas hitlerianas em relação às tropas veteranas ou de países aliados da Alemanha. Também os crimes cometidos nesse dia - nomeadamente o assassinato de prisioneiros de guerra - são praticamente ignorados em "O Dia Mais Longo" com uma breve excepção (quando uma das testemunhas encontra um pequeno grupo de prisioneiros degolados atrás de uma duna de uma das praias do desembarque).

Em ambos, o Dia D é apresentado como o momento mais importante da Segunda Guerra Mundial. Talvez seja, mas isso não será claro. Midway ou Estalinegrado certamente poderiam disputar essa honra. Mas ambos os livros foram escritos durante a guerra fria. Quando a URSS já não era aliada, mas sim um perigo muito maior do que a Alemanha Nazi e o Japão Imperial alguma vez foram. 

Em qualquer caso são dois livros que nos relembram como de vez em quando, em alguns momentos da história, um pequeno conjunto de homens carregam nos seus ombros o peso de toda a humanidade. Não são heróis porque são melhores do que todos os outros, porque tenham alguma capacidade especial ou uma preparação extraordinária. Simplesmente foram atirados para uma situação única onde não tinham outra opção senão serem heróis e morrerem, ou simplesmente morrerem.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Portugueses no Holocausto

Book Review

Da autoria de Esther Mucznik, este livro, cuja primeira edição acaba de ser imprimida, retrata de forma cuidada o envolvimento dos portugueses no holocausto, durante a segunda guerra mundial. Não só dos judeus de origem portuguesa que foram vítimas do holocausto por se encontrarem no país errado, tal como a França, Holanda ou Grécia ocupadas, mas também das origens desses portugueses, muitos deles descendentes de refugiados da inquisição no século XVI. Acrescenta a estes temas, o das movimentações dos diplomatas e políticos portugueses e a posição do governo de então.

António Oliveira Salazar, então presidente do conselho (o equivalente ao actual primeiro ministro) e ditador de Portugal, acumulando ainda as pastas de ministro dos negócios estrangeiros e da defesa, procurou manter Portugal fora da guerra, conseguindo tornar-se um "neutro útil" quer aos aliados (em especial à Inglaterra) quer ao eixo (nomeadamente à Alemanha). Dessa forma, o seu medo de provocar algum dos lados levou-o a indecisões que acabaram por custar a vida a muitos judeus portugueses, mesmo quando todos os países neutros receberam da Alemanha a permissão para retirar os seus nacionais - incluindo os judeus - dos territórios ocupados.

Mas se a política oficial portuguesa era hesitante, foram muitos os diplomatas portugueses que se mostraram extremamente corajosos ao darem vistos, fecharem os olhos a documentos forjados e confrontarem o governo português com as suas indecisões. Aristides de Sousa Mendes será sem dúvida o mais famoso de todos esses benfeitores, tendo salvo mais de 30 mil judeus, conquistando o seu lugar ao lado de Oscar Schindler (retratado no filme "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg) e muitos outros como um "Justo entre as Nações" (uma honra dada a não-judeus pelo estado de Israel para os que arriscaram as suas vidas para salvar judeus durante o holocausto).

Em Portugal, muitos desses judeus refugiados eram levados para longe de Lisboa, para cidades mais pequenas onde foram muito bem recebidos segundo os muitos testemunhos descritos neste livro. Embora muitos ficassem pasmados com o arcaismo de Portugal dos anos 40, a perspectiva da paz, segurança e uma possível viagem para o outro lado do atlântico foi uma dádiva dos deuses para estes judeus perseguidos pela fúria nazi.

Um livro extremamente interessante, de leitura fácil não obstante a seriedade do assunto e que nos ajuda a compreender a posição de Portugal e de muitos portugueses naquele que terá sido o maior crime alguma vez cometido na história da humanidade.

(o lançamento do livro será no dia 29 de Maio, às 18:30 no restaurante do piso 7 do Corte Inglês)