Uma ou outra vez por ano, o cidadão Duarte de Bragança aparece para dar um ar de sua graça. Desta vez temos um documento com o nobre título de "Manifesto: Instaurar a Democracia, Restaurar a Monarquia". Um conjunto de portugueses defendem neste manifesto que o regresso a um sistema monárquico ajudaria a fortalecer a democracia, a moral na política e ainda a justiça e a independência em relação às "mais diversas forças de influência".
Ninguém nega que Portugal atravessa tempos difícieis criados por factores internos estruturais e tornados muito mais complicados pelos factores externos da crise internacional económica e financeira. O que estes subscritores não nos conseguem explicar claramente é como é que um Rei poderia influenciar qualquer um desses eventos. Ou tem poder e então não podem afirmar-se "democratas de sempre", ou estará vazio de poder e então a sua actuação será inútil.
Todas as monarquias são facadas nas costas da democracia. Mesmo que não tenham qualquer poder governativo ou legislativo, são sempre pessoas que não nascem iguais às restantes. Hoje, eu posso manter o sonho de vir a ser chefe de estado de Portugal. Se estes senhores conseguirem os seus propósitos, eu perderei esse direito sem que nada me possa garantir que a escolha para o lugar será melhor do que eu próprio. Bem, se me propuserem para Rei eu talvez passe a apioar a monarquia. Talvez...
Outra questão é obviamente a legitimidade. A seguinte frase do manifesto é particularmente interessante e toca ao de leve sobre este assunto:
"(...) torna-se urgente uma chefia de estado independente e supra-partidária. Isto só pode ser garantido, zelado e velado por um chefe de estado eleito pela história."
Não sei bem o que significa a questão de ser eleito pela história. Imagino que não seja uma espécie de sufrágio universal mas com um ligeiro truque onde apenas os que têm uma licenciatura em história têm voto. Eu até leio bastantes livros de história, será que me vão chamar à discussão? De qualquer forma, a legitimidade do Rei deixou de ser divina para ser histórica. Interessante... possivelmente estarão a apelar ao apoio das forças seculares. De qualquer forma a divina fazia mais sentido. É que quando alguém tem legitimidade divina para fazer qualquer coisa, já não é preciso explicar mais nada. É uma questão de fé. Assim fica mais complicado porque a História é uma ciência a sério, cheia de factos, testemunhas, contradições e buracos.
Um outro detalhe da mesma brilhante frase é sobre o chefe de estado ser suprapartidário. Isso já existe actualmente, e o facto de os votantes terem consistentemente votado em ex-políticos mesmo quando alternativas da sociedade civil também estavam a votos, mostra que essa "urgência" dos monárquicos é profundamente anti-democrática porque é a vontade de uma minoria contra a expressa vontade da maioria.
Tenho muita curiosidade sobre o que aconteceria depois em relação ao resto da corte. Quantos barões, condes, duques e demais nobres teria o país que sustentar e aturar? Ou todos estes apoiantes que guardam religiosamente as cartas comprovativas do seu sangue azul vão simplesmente continuar a sua vida como se nada fosse?
Sobre a pessoa em causa, Duarte de Bragança, tenho apenas um ponto que gostaria de referir:
Um conselho aos monárquicos: façam um referendo quando quiserem, mas eu se calhar esperava por um pretendente que tivesse mais carisma junto do povo português. Neste momento a derrota é assegurada e ninguém vos permitirá ganhar o lugar sem um referendo claro. Depois têm que nos explicar o processo exacto de expulsão no caso de mais tarde o povo português se arrepender.
Por fim vejo somente uma única coisa que poderiam lutar por: a bandeira. Gosto mais da bandeira azul e branca do tempo da monarquia. E mesmo isso... se calhar é porque sou adepto do F.C.Porto.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Violência em Port Said
Um jogo de futebol entre o Al Masry e o Al Ahly onde o treinador português Manuel José tem feito brilhar o futebol egípcio acabou com uma invasão de campo e uma batalha campal que terminou com 74 vítimas mortais e um número enorme de feridos. As imagens são impressionantes e relembram-nos situações semelhantes que aconteceram no passado.
O governo (ainda militar) apressou-se a demitir toda a federação egípcia de futebol e o parlamento recentemente eleito e pela primeira vez verdadeiramente democrático acusa o governo militar e/ou apoiantes de Mubarak de estarem por detrás dos eventos.
A situação política no Egipto é extremamente confusa. Falo quase diariamente com egípcios que me dizem que o novo parlamento não consegue expulsar o governo militar que se mantém no lugar por uma mistura de inércia, inexistência de um quadro legal claro sobre a constituição do governo e tendo como única legitimidade o facto de Osni Mubarak lhes ter passado a presidência do país imediatamente antes de fechar a porta.
Os egípcios procuram nesta tragédia de Port Said todo o tipo de leituras políticas: Os militares querem provocar violência para poderem provar que só eles conseguiram manter o país estável, que os pró Mubarak querem provocar saudosismo pelos bons tempos de paz e crescimento do ditador, que a sombria Mukhabarat (polícia secreta) estará envolvida com uma agenda própria, etc.
Ainda demorará algum tempo a sabermos o que se terá realmente passado, se é que alguma vez o chegaremos a saber. Os Ultras do Al Ahly (claque do clube) são considerados como a espinha dorsal dos protestantes anti governo na praça Tahrir e por esse motivo é tão fácil a toda a gente misturar política e futebol no Egipto.
O que eu penso? Um jogo de futebol que correu terrivelmente mal. Uma polícia que não conseguiu lidar com os eventos. Um estádio que não cumpre as melhores regras de segurança. Uma rivalidade entre clubes que ultrapassou os limites do razoável. Um golo no último minuto.
O governo (ainda militar) apressou-se a demitir toda a federação egípcia de futebol e o parlamento recentemente eleito e pela primeira vez verdadeiramente democrático acusa o governo militar e/ou apoiantes de Mubarak de estarem por detrás dos eventos.
A situação política no Egipto é extremamente confusa. Falo quase diariamente com egípcios que me dizem que o novo parlamento não consegue expulsar o governo militar que se mantém no lugar por uma mistura de inércia, inexistência de um quadro legal claro sobre a constituição do governo e tendo como única legitimidade o facto de Osni Mubarak lhes ter passado a presidência do país imediatamente antes de fechar a porta.
Os egípcios procuram nesta tragédia de Port Said todo o tipo de leituras políticas: Os militares querem provocar violência para poderem provar que só eles conseguiram manter o país estável, que os pró Mubarak querem provocar saudosismo pelos bons tempos de paz e crescimento do ditador, que a sombria Mukhabarat (polícia secreta) estará envolvida com uma agenda própria, etc.
Ainda demorará algum tempo a sabermos o que se terá realmente passado, se é que alguma vez o chegaremos a saber. Os Ultras do Al Ahly (claque do clube) são considerados como a espinha dorsal dos protestantes anti governo na praça Tahrir e por esse motivo é tão fácil a toda a gente misturar política e futebol no Egipto.
O que eu penso? Um jogo de futebol que correu terrivelmente mal. Uma polícia que não conseguiu lidar com os eventos. Um estádio que não cumpre as melhores regras de segurança. Uma rivalidade entre clubes que ultrapassou os limites do razoável. Um golo no último minuto.
A demissão de Vitor Gaspar
Pergunta do jornal Público em 2012-02-02
Acha que Vítor Gaspar deve demitir-se depois das críticas de apoiantes de Cavaco Silva à política que consideram ser ultraliberal do ministro das Finanças?
Resultado:
Sim: 29%
Não: 71%
Sempre considerei estes inquéritos bastante divertidos. Não têm qualquer significado estatístico e normalmente permitem-nos desabafar os nossos sentimentos sobre o assunto do dia. No jornais desportivos divertimos-nos a escolher as respostas mais absurdas para apoiar mudanças de treinadores nos adversários ou pedir para que eles coloquem o pior dos 3 guarda-redes em campo só porque o titular deu um frango no último fim de semana. Mas a dois de fevereiro, o Público conseguiu ultrapassar a concorrência na competição pelo inquérito mais inútil e desprovido de significado:
1. Um ministro não deve ser demitido só porque alguém criticou as suas políticas, a não ser que essa pessoa seja o seu Primeiro Ministro.
2. Não sei bem o que são as críticas de apoiantes de Cavaco Silva. Não é claro porque motivo o nome do Presidente é chamado à pergunta, mas segundo o Publico, parece que Cavaco Silva é responsável por todos os que o apoiam (salvo erro uns 3 milhões de votantes nas últimas eleições). Será que o próprio Vítor Gaspar e o resto do governo também não votaram no Presidente? Não será que existem uns poucos "apoiantes de Cavaco Silva" que apoiam estas medidas?
3. Por outro lado, quase que subentende que o Presidente terá enviado recados através de alguns dos seus apoiantes. Não sabemos, está à vontade para o fazer, mas mesmo que fosse o caso, essas pessoas não estão mandatadas pelo povo português por isso a opinião delas vale tanto como a minha.
4. Se o Presidente quiser fazer alguma crítica directa, tem toda a legitimidade para o fazer e terá certamente os media e o povo português a ouvir as suas palavras. Mas não faz parte das suas funções escolher ministros. Pode dissolver o parlamento, mas não escolher os indivíduos que compõem o governo.
5. Quanto à parte da política neo liberal, este governo foi votado para resolver os problemas do país e seguir a sua linha ideológica e política. Goste-se ou não, não é surpresa o que está a fazer e tem legitimidade democrática para o fazer.
Ou seja, os resultados do inquérito não nos dizem nada. Talvez 71% tenham votado que não (se deve demitir) porque gostam das políticas. Ou simplesmente porque não é esse o motivo porque deveria sair. Ou que até gostariam de políticas ainda mais ultra liberais. Ou porque consideram que não é um grupo de notáveis ou amigos de alguém importante que deve decidir quem fica ou não num governo. E mesmo em relação os que votam "sim", querem que ele saia porque é fraco, porque não gostam das suas políticas ou porque acham que um ministro se deve demitir cada vez que um grupo senadores não eleitos assumem que não concordam com ele?
Resumindo, o Público conseguiu criar um dos inquéritos mais inúteis que já vi. Como não dou esta competição por terminada estarei atento nos próximos tempos para ver se se conseguem superar. Só é pena que não tenha o nome do jornalista que o escreveu para lhe podermos entregar o prémio em pessoa.
Acha que Vítor Gaspar deve demitir-se depois das críticas de apoiantes de Cavaco Silva à política que consideram ser ultraliberal do ministro das Finanças?
Resultado:
Sim: 29%
Não: 71%
Sempre considerei estes inquéritos bastante divertidos. Não têm qualquer significado estatístico e normalmente permitem-nos desabafar os nossos sentimentos sobre o assunto do dia. No jornais desportivos divertimos-nos a escolher as respostas mais absurdas para apoiar mudanças de treinadores nos adversários ou pedir para que eles coloquem o pior dos 3 guarda-redes em campo só porque o titular deu um frango no último fim de semana. Mas a dois de fevereiro, o Público conseguiu ultrapassar a concorrência na competição pelo inquérito mais inútil e desprovido de significado:
1. Um ministro não deve ser demitido só porque alguém criticou as suas políticas, a não ser que essa pessoa seja o seu Primeiro Ministro.
2. Não sei bem o que são as críticas de apoiantes de Cavaco Silva. Não é claro porque motivo o nome do Presidente é chamado à pergunta, mas segundo o Publico, parece que Cavaco Silva é responsável por todos os que o apoiam (salvo erro uns 3 milhões de votantes nas últimas eleições). Será que o próprio Vítor Gaspar e o resto do governo também não votaram no Presidente? Não será que existem uns poucos "apoiantes de Cavaco Silva" que apoiam estas medidas?
3. Por outro lado, quase que subentende que o Presidente terá enviado recados através de alguns dos seus apoiantes. Não sabemos, está à vontade para o fazer, mas mesmo que fosse o caso, essas pessoas não estão mandatadas pelo povo português por isso a opinião delas vale tanto como a minha.
4. Se o Presidente quiser fazer alguma crítica directa, tem toda a legitimidade para o fazer e terá certamente os media e o povo português a ouvir as suas palavras. Mas não faz parte das suas funções escolher ministros. Pode dissolver o parlamento, mas não escolher os indivíduos que compõem o governo.
5. Quanto à parte da política neo liberal, este governo foi votado para resolver os problemas do país e seguir a sua linha ideológica e política. Goste-se ou não, não é surpresa o que está a fazer e tem legitimidade democrática para o fazer.
Ou seja, os resultados do inquérito não nos dizem nada. Talvez 71% tenham votado que não (se deve demitir) porque gostam das políticas. Ou simplesmente porque não é esse o motivo porque deveria sair. Ou que até gostariam de políticas ainda mais ultra liberais. Ou porque consideram que não é um grupo de notáveis ou amigos de alguém importante que deve decidir quem fica ou não num governo. E mesmo em relação os que votam "sim", querem que ele saia porque é fraco, porque não gostam das suas políticas ou porque acham que um ministro se deve demitir cada vez que um grupo senadores não eleitos assumem que não concordam com ele?
Resumindo, o Público conseguiu criar um dos inquéritos mais inúteis que já vi. Como não dou esta competição por terminada estarei atento nos próximos tempos para ver se se conseguem superar. Só é pena que não tenha o nome do jornalista que o escreveu para lhe podermos entregar o prémio em pessoa.
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