terça-feira, 31 de julho de 2012

O Lóbi de Israel

Book Review

Publicado em Portugal pela Tinta da China e escrito por John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt, "O Lóbi de Israel e a Política Externa dos EUA" é um livro fascinante que nos leva ao mundo sinistro da política e da diplomacia.

No nosso país, o próprio termo "lóbi" tem uma tal conotação negativa que é usado quase exclusivamente como um insulto ou no âmbito de processos criminais. Obviamente Portugal também tem grupos de interesse, mas não são organizados e legalizados da mesma forma que nos Estados Unidos. Obviamente, também não têm a sua dimensão nem a mesma capacidade de influenciarem os rumos do mundo.

Um dos grandes méritos do livro é que é sério. Não é anti-semita, anti-judeu ou anti-israelita. Não entra sequer na questão se deveriam ou não existir lóbis, mas limita-se a estudar o fenómeno deste lóbi que é tido por muitos políticos americanos como o mais eficaz e agressivo de todos os grupos de interesse a trabalhar em Washington.

A lógica do livro é explicada logo nas suas primeiras páginas e fica perfeitamente definida no seu índice. A primeira parte trata a relação dos EUA com o Lóbi. Começa por provar a relação especial que existe entre os dois países e o apoio financeiro, diplomático e militar que transforma o estado norte americano no "grande benfeitor" de Israel. Depois desmonta os dois grandes argumentos utilizados para explicar esse apoio: o de trunfo estratégico e o da questão moral.

Estrategicamente, a terra santa não é particularmente interessante para os EUA já que não tem nenhum recurso único, escasso ou fulcral para a economia americana. Também o argumento utilizado durante décadas de que Israel seria o único estado que poderia por travão às ambições soviéticas na região, não só está obsoleto, como mesmo antes de 1989 tinha sérias falhas (já que foi o apoio americano a Israel forçou muitos países a pedirem apoio a Moscovo dadas as dificuldades em travarem o estado judáico). Para além disso, mesmo sendo Israel de longe a maior potência militar do médio oriente o facto de ser um estado-pária na região faz com que os próprios americanos não os queiram como aliados nas guerras em que a América se envolve, pelo risco de provocar uma união entre todos os outros do lado contrário. Isto viu-se por exemplo em 1991, durante a operação Tempestade no Deserto, onde não obstante os misséis Scud iraquianos cairem em grandes números sobre Israel, os EUA pediu para que eles nunca retaliassem. O mesmo aconteceu em 2003, quando os norte americanos regressaram para finalizar o trabalho, em que uma aliança de inúmeros países apoiou os estados unidos mas onde Israel ficou novamente de fora. Por fim, o apoio a Israel tem dificultado grandemente a posição política dos aliados árabes dos EUA devido às populações que consideram os seus líderes como fantoches por não se imporem face à flagrante dualidade de critérios dos EUA entre as acções feitas pelos governos israelita e árabes.

Em termos morais, o argumento também é desfeito de várias formas. Por um lado, são muitos os sinais de que o estado judáico representa muito mais um Apartheid do que um estado democrático ocidental. As leis não são independentes da etnia ou religião, e execução destas muito menos. Se o apoio massivo americano dependesse de uma motivação moral, então ele deveria crescer ou diminuir consoante as suas acções. No entanto essa relação não existe. Podemos ver isso quando novos colonato ilegais são construidos por Israel na Cisjordânia, quando invadiram o Líbano contra a vontade americana, etc. em que não houve qualquer diminuição dos fundos concedidos.

Em seguida, o livro trata do que é o lóbi propriamente dito. Não é uma conspiração, não tem uma liderança única nem controla directamente o governo americano. São um conjunto de instituições judaícas conservadoras complementado pelos sionistas cristãos, os neo-conservadores e muitos outros cidadãos americanos que de uma forma ou outra se juntam à causa de Israel. Nem sempre concordam uns com os outros embora façam um esforço notório para manter as suas diferenças longe do grande público. Nunca criticam Israel independentemente de quem é o governo num determinado momento e trabalham a vários níveis influenciando políticos, o mundo académico e - claro - a opinião pública.

Regra geral, os seus métodos são considerados legais nos Estados Unidos embora em algumas situações tenham ultrapassado as marcas. Tipicamente financiam enormes somas de dinheiro para as eleições de congressistas e senadores depois de estes provarem o seu compromisso para com o lóbi e o estado de Israel. Em casos em que algum membro eleito faz frente ao lóbi, procuram no mercado uma alternativa e encontram investidores de todo o país para promoverem este novo aliado. Noutras situações, acusam publicamente personagens que não lhes são próximas de anti-semitismo, organizam e financiam think-tanks de forma a inundar os jornais de artigos de opinião e notícias que sigam os seus interesses e procuram alterar nomeações de professores e conferencistas que não os agradem. Em muitos casos, os seus alvos são judeus que não seguem o discurso pré-definido internamente.

Na segunda parte do livro, os autores mostram como o lóbi se moveu para apoiar financeira, militar e diplomaticamente o estado judaico em diferentes situações tais como o conflito israelo-palestiniano, o Iraque, Síria, Irão e Líbano. Embora todos estes casos estejam muito bem expostos e documentados por Mearsheimer e Walt, o mais interessante na minha opinião foi o da invasão do Iraque de 2003: ao contrário do que muitos defendem, eu próprio já coloquei neste blog o documentário "The Oil Factor: Behind the War on Terror" que segue essa linha de raciocínio, estes autores procuram provar que o motivo estará muito mais na actuação do Lóbi de Israel do que dos Lóbies do Petróleo e Armamento. A sua opinião está extremamente bem defendida e é um dos mais intrigantes capítulos do livro, principalmente porque na época a opinião pública anti-guerra apontou o dedo aos outros dois grupos de interesse referidos.

No seu final, o livro dedica-se às formas que existem para tentar controlar a influência deste lóbi, reverter os danos causados e garantir que os interesses do país (os Estados Unidos no caso) são colocados à frente dos interesses de nações estrangeiras. O caminho que indicam resume-se a:

- identificar os interesses dos EUA no Médio Oriente
- delinear uma estratégia para proteger esses interesses
- desenvolver uma nova relação com Israel
- pôr fim ao conflito israelo-palestiniano (solução de dois estados)
- transformar o lóbi numa força construtiva

Resumindo este novo roteiro, o que se propõe é que os Estados Unidos voltem a comportar-se como árbitro e não como player. Que obrigue - e dada a dependência da ajuda externa quer de Israel quer da Palestina têm isso é possível - a que ambos os lados cedam oferecendo a ambos plena independência e segurança, normalizando as relações de Israel com todos os países árabes (ou seja, pegando novamente no plano saudita entretanto minado e encostado por influência do próprio lóbi). E ainda a criação de novos lóbies judaicos que representem a pluralidade de pensamento que existe na comunidade judaica-americana.

Tudo isto pode parecer utópico, mas como já aqui escrevi inúmeras vezes, não existe outra solução senão continuar a tentar. E pelo menos um raio de esperança nasceu depois da publicação deste livro: em Abril de 2008, um novo lóbi judaico - J Street[1] - tem crescido com ideias muito diferentes dos seus rivais AIPAC, American Jewish Committee, Anti-Defamation League entre outros actores principais do chamado Lóbi de Israel. Este grupo de interesse tem ganho cada vez mais importância e junta a sua voz ao que todo o mundo, incluindo muitos israelitas e palestinanos, pede: paz no Médio Oriente.



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Prisões e os direitos do homem

Uma das coisas que mais me causa repulsa é a facilidade com que a esmagadora maioria dos nossos concidadãos vive com o mal dos outros. Abundam as expressões brejeiras sobre o assunto e que não me vou sequer dar ao trabalho de reproduzir aqui.

Felizmente, por vezes, o país levanta-se ruidosamente e espantado com situações inadmissiveis, que chegam a público devido aos esforços corajosos e solitários de um pequeno número de jornalistas que agarram no assunto e não o largam até que o país inteiro o conheça e que os políticos sejam obrigados a actuar sobre o assunto.

Um exemplo perfeito foi o processo Casa Pia[1] que explodiu em Setembro de 2002 pelas mãos da jornalista Felícia Cabrita[2]. Não me vou alongar sobre os detalhes do caso, que são totalmente do conhecimento público e cujo o final tarda em acontecer. Queria pegar apenas no facto de para além de ser um caso de pedofilia a situação torna-se ainda mais grave por ter sido cometido sobre crianças que estavam à guarda do Estado. Ou seja, não só são crimes horrorosos, como aconteceram quando o país deveria estar a tomar conta delas.

Mas não são só os orfãos que estão à guarda do estado. Também os prisioneiros se encontram na mesma situação. Por motivos diferentes, claro, mas ainda cidadãos que detêm todos os seus direitos excepto os previstos pela lei relativos à perda de liberdade temporária. E os casos de violações, violência e escravidão nas cadeias de todo o mundo são comuns ainda nos dias de hoje. Mostrados regularmente e com uma aceitação total por parte da população. Vemos essas situações em séries de prime time como Prison Break  (um filme passado recentemente) ou em filmes passados durante o séc.XX, como "Os condenados de Shawshank". Mas não é Hollywood que está enganada, nem isto é um fenómeno exclusivo americano. Os relatos destas situações são mais do que muitos e vêm referidos pelas organizações não governamentais, instituições internacionais e pelos media de todo o mundo[3][4][5][6][7]. Nem vale a pena pegar em detalhe nos casos mais conhecidos como os abusos cometidos no Egipto pela sórdida polícia secreta Mukhabarat[8], pelo Shin Beth israelita[9] ou em casos mais mediáticos como os prisioneiros das forças de ocupação americana em Abu Graib[10] e Guantánamo[11].

Qualquer um destes relatos deixaria um cidadão comum com o estômago às voltas. No entanto, e desde que não se entre em demasiados detalhes, a opinião geral parece ser de que eles têm o que merecem. Quando esse tipo de argumentos absurdos costumo fazer o seguinte desafio:

"Se um detido merece ser violado e espancado repetidamente durante todos os dias que passa numa cadeia, então coloquem isso na lei!"

É que o conceito de Justiça, e é esse um dos motivos porque existem tribunais, é precisamente o de dar uma pena aos criminosos de forma a que possam aprender a lição e voltem a ser cidadãos integrados na sociedade e, ao mesmo tempo, servirem como exemplo para outros que possam ser tentados a cometer os mesmos crimes. Se acreditam sinceramente que é isso (violações e violência) que eles merecem então escrevam isso na lei.

Por algum motivo que desconheço, quando a conversa chega a este ponto normalmente acaba. Tipicamente quem defende a total ausência de direitos dos detidos são pessoas ligadas à direita, e normalmente as mesmas que depois acusam todos os mil milhões de muçulmanos de serem atrasados porque no Irão ainda existem penas físicas (chicotadas, apedrejamentos, etc.). No entanto quando lhes dizemos que em Portugal e muitos outras "nações civilizadas" as penas físicas existem - simplesmente não são oficiais - não conseguem deixar fugir o sentimento de que "eles merecem".

Para deixar clara a minha posição: os prisioneiros estão à guarda do estado e devem cumprir a pena definida por lei, nada mais. Essa pena não incluí espancamentos, violações nem suícidios. É uma vergonha para o nosso país que isso aconteça e que não se faça muito para o impedir, e uma vergonha ainda maior que tanta gente encolha os ombros como se nós - enquanto cidadãos - nada tivessemos que ver com o assunto ou os prisioneiros mercessem tal tratamento.

Dostoyevsky terá dito um dia que "a civilização pode ser medida pela forma como trata os seus prisioneiros". Onde é que isso nos deixa?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A lotaria do útero

Dubai - Sheikh Zayed Road
O assunto que aqui trago hoje encontra-se para nós - portugueses - ao nível da ficção científica. São os "problemas de ricos", neste caso dos Emirados Árabes Unidos, país do golfo pérsico que, como se sabe, é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e detendo as sextas maiores reservas do mundo deste recurso[1]. A isso acresce o facto desta federação de sete emirados ter uma população relativamente pequena, cerca de 8 milhões de habitantes, mas dos quais apenas 16,6% são cidadãos emiratis, ou seja menos de um milhão e meio. A sua capital, Abu Dhabi, é considerada a mais rica cidade do mundo[2], e tem o maior fundo soberano do planeta estimado em 627 mil milhões de dólares (o que significa que poderia dar cinco vezes a ajuda financeira que portugal recebeu da Troika)[3].Os cidadãos deste país beneficiam de extensos subsídios para além de educação e saúde totalmente por conta do estado. A sua maior cidade, o Dubai, tem o maior arranha-céus do mundo, o Burj Khalifa, e muitas outras obras marcantes de engenharia e arquitectua tais como a Palm Jumairah, o hotel "7 estrelas" Burj Al Arab e as belíssimas Emirates Towers que abrem a zona central da avenida Sheikh Zayed, talvez a mais famosa de todas as avenidas do Médio Oriente. O país é hoje um hub de turismo, aviação, media, tecnologias de informação, portos indústria naval e - claro - petrolífera. O seu PIB per capita atinge os 48.000 USD anuais, colocando-o consistentemente nos 10 países mais ricos do mundo[4], mais do dobro do português que se encontra por volta do lugar 40 entre os quase 200 países do mundo.

Abu Dhabi - Emirates Palace
Desta forma, os jovens dos Emirados Árabes Unidos saem das universidades com expectativas totalmente irrealistas dos salários que devem receber e dos cargos que devem ter. Com os salários da função pública altíssimos, praticamente toda a população local recusa-se terminantemente a trabalhar no privado. Os salários são baixos, os benefícios menores e provavelmente terão que ter chefes estrangeiros. Foi a isto que o empresário emirati Mishal Kanoo, presidente do Kanoo Group[5], definiu como "the lottery of the womb". Num artigo em 2011 para o jornal local de língua inglesa The National, Kanoo alertava para os perigos dessas ideias e a forma como estavam a definir a própria cultura dos cidadãos dos EAU. Basicamente os jovens do seu país consideravam "merecer" um bom trabalho porque tinham ganho a lotaria do útero[6]. Para além disso, critica duramente a política de emiratização posta e prática e que força quotas de cidadãos locais nas empresas privadas. O que sempre ouvi foi que os salários locais são de tal forma altos que compensa mais pagar as multas do que contratar o tal número mínimo de emiratis. Mas não comprendi a dimensão do problema (ou melhor, dos salários dos recém graduados) até começar a ler outras notícias relacionadas com o tema. Uma notícia na BBC sobre o programa de emiratização, de Março deste ano, anunciava que apenas 5% dos empregados do sector privado eram locais, enquanto representavam 60% a 70% dos funcionários públicos[7]. Em termos de procura de emprego, 90% dos emiratis desejam encontrar trabalho como funcionários públicos[8]. Também igualmente exemplificativa é um outro artigo de opinião do The National escrito por Ali Al Saloom, onde relata que o seu bom nome assim como o da sua família foi seriamente afectado por ter trabalhado enquanto jovem num hotel pelo "indigno" salário de 3.500 Dirhams (cerca de 780 euros) por mês, para além de que quando contrata pessoas e espera pagar 3.000 a 5.000 Dirhams mensais (para um estrangeiro), os jovens emiratis pedem pelo menos 20.000 Dirhams (cerca de 4.500 euros)[9]. E para comprovarmos que Ali Al Saloom não está errado nas suas previsões, deixo ainda aqui uma notícia de um outro jornal local, o 7 Days, que fez primeira página em Maio do corrente ano, que relata um estudo da UAE University, que concluiu que 10% dos jovens dos EAU entre os 18 e 23 anos espera receber no primeiro emprego entre 35.000 e 50.000 Dirhams (7.900 e 11.250 euros) mensais. Para além destes, outros 30% têm as suas expectativas acima de 25.000 Dirhams (5600 euros)[10].

Como disse inicialmente, para nós portugueses, tudo isto parece vindo do espaço. Com um salário mínimo abaixo dos 500 euros e um salário médio a rondar os 900 euros[11], é-nos bastante difícil sermos solidários com este tipo de dificuldades sentidas por pessoas que muito pouco têm a temer em relação às suas perspectivas financeiras futuras. Mas não deixa de ser um problema e grave. Que acontecerá quando o petróleo acabar ou for subsituído por outra tecnologia? Que futuro estará reservado (como perguntava o 7 days) aos potenciais Bill Gates e Steve Jobs deste país quando são levados para o conforto de uma vida de privilégio e sossego profissional absoluto? Quem é que irá emigrar, aprender diferentes formas de trabalho, aventurar-se para ambientes altamente competitivos e ganhar com todas essas experiências?

Estão longe de ser estes os nossos problemas, mas não deixam ser questões relevantes e que definirão o futuro da região no longo prazo. E mostra-nos a história que é pelo Médio Oriente que começam e acabam uma parte relevante dos problemas geo-estratégicos do mundo. De qualquer forma, Deus queira que um dia Portugal possa enfrentar este tipo de desafios...