domingo, 5 de agosto de 2012

Dia D

Book Review

Uso este espaço de opinião, entre outras coisas, para a crítica de livros de história. O último livro que li foi "O Dia Mais Longo" escrito por Cornelius Ryan, sobre o dia 6 de Junho de 1944, quando os aliados invadiram a Normandia e viraram definitivamente a guerra contra as forças do Eixo e abriram a tão esperada frente ocidental. Resolvi no entanto não me limitar a analisar este livro do final dos anos 50 isoladamente, mas em comparação a outro, cujo tema é semelhante, intitulado "Operação Overlord - O Dia D e a Batalha da Normandia 1944" da autoria do historiador inglês Max Hastings e escrito já na década de 80.

Ambos são livros muito interessantes e completos. Têm algumas diferenças de âmbito e estilo significativas: Ryan concentra-se no dia 6, e conta a história do ponto de vista das suas testemunhas. Entrevistou milhares de sobreviventes de todos os lados do conflito e mostra-nos o dia do ponto de vista de cada um. O estilo é por isso extremamente pessoal e provocando mudanças de ângulo extremas conforme as personagens que o contam. Hastings pelo contrário faz um trabalho mais frio, mais baseado em documentação e menos nos testemunhos. Também beneficia naturalmente de um maior distanciamento e de todos os trabalhos que o precederam, nomeadamente o próprio "O Dia Mais Longo" que aparece na sua bibliografia. O âmbito incluí não só o famoso Dia D, mas também toda a longa preparação e a batalha completa da Normandia que durou largas semanas.

Clara nos dois livros, é a incompetência militar do alto comando alemão. O regime Nazi tinha nas suas mãos os mais veteranos, bem treinado e competentes líderes operacionais no terreno. Mas entre a loucura de Hitler, a sua convicção de que a Normandia era um engodo e o verdadeiro desembarque seria em Pas-de-Calais, a incapacidade dos que o rodeavam de o aconselharem e o medo terrível dos oficiais superiores de tomarem decisões bloquearam todo o contra-ataque nas horas cruciais. Grande parte dos oficiais responsáveis pela Normandia - a começar pelo seu general Erwin Rommel - estavam em viagens. A Luftwaffe tinha apenas dois (!!!) aviões disponíveis na zona em vez das centenas previstas, devido às suas constantes reorganizações de que era alvo (o livro "The Luftwaffe" de E. R. Hooton revela isso de uma forma inacreditável, com os seus gruppen a serem atirados de um campo de batalha para o outro ao sabor dos medos e caprichos de Berlim). Duas divisões blindadas Panzer ficaram em estado de alerta durante toda a noite (literalmente com os tanques com o motor ligado au ralenti) mas não puderam ser utilizados porque não respondiam ao comando regional mas ao Oberkommando der Wehrmacht, ou seja, ao próprio Hitler - via Marechal Wilhelm Keitel - que ninguem teve coragem de acordar.

Também impressionante, e perfeitamente alinhada nos dois livros, é a capacidade operacional militar dos exércitos ingleses que acumulavam experiência e cujo país tinha uma tradição militar entre as suas elites, que não pode ser encontrada nos EUA, que entre guerras se tornara profundamente isolacionista e onde a carreira militar não encontrava eco junto dos mais ricos, mais educados e mais poderosos. Para compensar, a capacidade logística das forças armadas americanas não tinha igual em nenhuma outra. Conseguiam fabricar mais e mais rápido, colocar tudo no terreno e fazê-lo sem grandes dificuldades mesmo quando se tratava da maior armada alguma vez vista, com 3 milhões de homens, 11 mil aviões e 4 mil navios.

No entanto, embora sejam dois livros que aconselhe sem hesitação, não pude deixar de pensar que "O Dia Mais Longo" é um reflexo claro do seu tempo, ao contrário da obra de Hastings que me parece um pouco mais intemporal. Ryan parece excessivamente correcto e limitado pelas questões geoestratégicas de uns anos 50 em que uma débil Alemanha se tinha tornado a linha da frente para uma possível guerra contra o bloco soviético. Esses mesmo alemães que ele entrevistou e descreveu no livro era na sua grande maioria agora aliados das potências ocidentais e parece existir por isso uma vontade não querer humilhá-los. Não é estranho que numa obra completa sobre uma batalha fulcral entre os aliados e o eixo a palavra Nazi seja virtualmente inexistente? Não encontramos esse género de limitações em "Operação Overlord", em que aparecem descritos os diferentes comportamentos das tropas mais fanáticas hitlerianas em relação às tropas veteranas ou de países aliados da Alemanha. Também os crimes cometidos nesse dia - nomeadamente o assassinato de prisioneiros de guerra - são praticamente ignorados em "O Dia Mais Longo" com uma breve excepção (quando uma das testemunhas encontra um pequeno grupo de prisioneiros degolados atrás de uma duna de uma das praias do desembarque).

Em ambos, o Dia D é apresentado como o momento mais importante da Segunda Guerra Mundial. Talvez seja, mas isso não será claro. Midway ou Estalinegrado certamente poderiam disputar essa honra. Mas ambos os livros foram escritos durante a guerra fria. Quando a URSS já não era aliada, mas sim um perigo muito maior do que a Alemanha Nazi e o Japão Imperial alguma vez foram. 

Em qualquer caso são dois livros que nos relembram como de vez em quando, em alguns momentos da história, um pequeno conjunto de homens carregam nos seus ombros o peso de toda a humanidade. Não são heróis porque são melhores do que todos os outros, porque tenham alguma capacidade especial ou uma preparação extraordinária. Simplesmente foram atirados para uma situação única onde não tinham outra opção senão serem heróis e morrerem, ou simplesmente morrerem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

E porque não em Las Vegas?

Thomas Friedman - New York Times
Thomas Friedman é um escritor e jornalista do New York Times, vencedor de três prémios Pulitzer[1] e reconhecido judeu americano pró-israelita. Durante anos foi uma das vozes que esteve ao lado do massivo apoio financeiro, diplomático e militar a todos os governos israelitas, mas nos últimos anos começou a tornar-se cada vez mais crítico do governo Netanyahu e da interferência contínua dos lóbis israelitas na política americana (em especial o AIPAC).

Com a aproximação das eleições presidenciais americanas, iniciou-se também o humilhante processo que cada candidato tem que fazer para conseguir o apoio do lóbi judeu. Juras de amor eterno, visitas a Israel, promessas de, não só, não interferirem no processo de colonização da Cisjordânia, mas até de o apoiarem (mesmo sendo totalmente ilegal aos olhos das Nações Unidas), e ajudando a bloquear definitivamente o processo de paz. Desta vez é Romney que visita Netanyahu na companhia dos financeiros judeu-americanos (Sheldon Adelson entre outros), mas em breve teremos Obama também a beijar a mão aos padrinhos, um a um. E Friedman pergunta: se isto é mesmo tudo só por dinheiro, porque não reunirem-se em Las Vegas?

(Fonte: New York Time)

Why Not in Vegas?

I’ll make this quick. I have one question and one observation about Mitt Romney’s visit to Israel. The question is this: Since the whole trip was not about learning anything but about how to satisfy the political whims of the right-wing, super pro-Bibi Netanyahu, American Jewish casino magnate Sheldon Adelson, why didn’t they just do the whole thing in Las Vegas? I mean, it was all about money anyway — how much Romney would abase himself by saying whatever the Israeli right wanted to hear and how big a jackpot of donations Adelson would shower on the Romney campaign in return. Really, Vegas would have been so much more appropriate than Jerusalem. They could have constructed a plastic Wailing Wall and saved so much on gas.

The observation is this: Much of what is wrong with the U.S.-Israel relationship today can be found in that Romney trip. In recent years, the Republican Party has decided to make Israel a wedge issue. In order to garner more Jewish (and evangelical) votes and money, the G.O.P. decided to “out-pro-Israel” the Democrats by being even more unquestioning of Israel. This arms race has pulled the Democratic Party to the right on the Middle East and has basically forced the Obama team to shut down the peace process and drop any demands that Israel freeze settlements. This, in turn, has created a culture in Washington where State Department officials, not to mention politicians, are reluctant to even state publicly what is U.S. policy — that settlements are “an obstacle to peace” — for fear of being denounced as anti-Israel. 
      
Add on top of that, the increasing role of money in U.S. politics and the importance of single donors who can write megachecks to “super PACs” — and the fact that the main Israel lobby, Aipac, has made itself the feared arbiter of which lawmakers are “pro” and which are “anti-Israel” and, therefore, who should get donations and who should not — and you have a situation in which there are almost no brakes, no red lights, around Israel coming from America anymore. No wonder settlers now boast on op-ed pages that the game is over, they’ve won, the West Bank will remain with Israel forever — and they don’t care what absorbing all of its Palestinians will mean for Israel’s future as a Jewish democracy. 
      
It is into this environment that Romney wandered to add more pandering and to declare how he will be so much nicer to Israel than big, bad Obama. This is a canard. On what matters to Israel’s survival — advanced weaponry and intelligence — Defense Minister Ehud Barak told CNN on Monday, “I should tell you honestly that this administration under President Obama is doing in regard to our security more than anything that I can remember in the past.” 
      
While Romney had time for a $50,000-a-plate breakfast with American Jewish donors in Jerusalem, with Adelson at his elbow, he did not have two hours to go to Ramallah, the seat of the Palestinian Authority, to meet with its president, Mahmoud Abbas, or to share publicly any ideas on how he would advance the peace process. He did have time, though, to point out to his Jewish hosts that Israelis are clearly more culturally entrepreneurial than Palestinians. Israel today is an amazing beehive of innovation — thanks, in part, to an influx of Russian brainpower, massive U.S. aid and smart policies. It’s something Jews should be proud of. But had Romney gone to Ramallah he would have seen a Palestinian beehive of entrepreneurship, too, albeit small, but not bad for a people living under occupation. Palestinian business talent also built the Persian Gulf states. In short, Romney didn’t know what he was talking about.
On peace, the Palestinians’ diplomacy has been a fractured mess, and I still don’t know if they can be a partner for a secure two-state deal with even the most liberal Israeli government. But I do know this: It is in Israel’s overwhelming interest to test, test and have the U.S. keep testing creative ideas for a two-state solution. That is what a real U.S. friend would promise to do. Otherwise, Israel could be doomed to become a kind of apartheid South Africa. 
      
And here is what I also know: The three U.S. statesmen who have done the most to make Israel more secure and accepted in the region all told blunt truths to every Israeli or Arab leader: Jimmy Carter, who helped forge a lasting peace between Israel and Egypt; Henry Kissinger, who built the post-1973 war disengagement agreements with Syria, Israel and Egypt; and James Baker, who engineered the Madrid peace conference. All of them knew that to make progress in this region you have to get in the face of both sides. They both need the excuse at times that “the Americans made me do it,” because their own politics are too knotted to move on their own. 
      
So how about all you U.S. politicians — Republicans and Democrats — stop feeding off this conflict for political gain. Stop using this conflict as a backdrop for campaign photo-ops and fund-raisers. Stop making things even worse by telling the most hard-line Israelis everything that they want to hear, just to grovel for Jewish votes and money, while blatantly ignoring the other side. There are real lives at stake out there. If you’re not going to do something constructive, stay away. They can make enough trouble for themselves on their own.

A rota suicida do futebol


Sou um amante do futebol. Não sou um especialista no assunto, não leio os jornais desportivos diariamente, não quero que o meu clube ganhe a qualquer preço, mas sofro durante umas horas por semana e tenho os ataques de alegria e tristeza próprios de quem é apaixonado por este desporto.

É por isso que vejo com grande tristeza os clubes portugues (e não só...) a manterem um caminho que os levará inevitavelmente à ruína. Os líderes dos pequenos e grandes clubes portugueses comportam-se como se as receitas televisivas fossem aumentar para sempre, quando na realidade já cairam; como se a os juros fossem ficar baixos para sempre, quando os spreads já são altíssimos; como se os compradores estrangeiros dos passes dos jogadores fossem continuar a pagar mais e mais, quando na realidade já só uns poucos clubes detidos por sheikhs árabes mantêm esse tipo de saúde financeira.

Serei só eu que acho que os clubes portugueses têm que começar a vender enquanto os jogadores ainda têm valor? A crise que atravessa a europa, e Portugal em particular, vai inevitavelmente chegar ao futebol. Os bancos têm menos dinheiro para emprestar e o que emprestam é mais caro. Os adeptos estão mais cautelosos por terem visto os seus rendimentos decrescerem e as nuvens negras persistirem no horizonte. E o mercado das receitas televisivas caiu desenfreadamente pois as empresas estão a apertar o cinto, nomeadamente nos custos não-operacionais como é a publicidade.

Mesmo que isso custe desportivamente, os clubes portugueses - grandes e pequenos - têm urgentemente que colocar um travão no caminho da dívida descontrolada. Não é a primeira vez que o fazem, mas em melhores períodos o povo português apoiou (ou forçou) o Estado a intervir com perdões duvidosos aos clubes. Neste momento, tenho sérias dúvidas de que o povo exigisse isso. Pelo contrário. Eu - e acredito que milhões de outros portugueses pensarão da mesma forma - preferia ver o meu clube a afundar-se até aos distritais a ver o estado a derreter mais umas largas centenas de mihões de euros para garantir que continuamos a ter aqui alguns dos melhores clubes e jogadores do mundo.

Neste momento, muitos dos jogadores dos clubes nacionais ainda têm bastante valor de mercado. Mas bastam algumas notícias declarando a iminente falência de um deles para os seus jogadores entrarem em saldo. E alguém têm dúvidas de que isso pode acontecer? Reduzam o ritmo e valor das compras, mantenham as vendas e apostem na formação de jogadores. Já!

Onde estão hoje o Campomaiorense, o Boavista, o Salgueiros e o Estrela da Amadora? Infelizmente não ficarei surpreendido quando um dos três grandes se juntar a esta lista.