Book Review
Fico sempre com sentimentos contraditórios quando vejo livros de História de Portugal escritos por estrangeiros. Por um lado, claro que respeito a liberdade de o fazerem e fico lisonjeado pelo interesse que o meu país lhes causa, para além obviamente de compreender que um espectador estrangeiro será provavelmente mais independente do que um nativo. Por outro, sabendo dos milhares de licenciados em História desempregados que existem em Portugal, não consigo deixar de pensar por que motivo não temos muitíssimos mais livros cobrindo toda a nossa história a serem vendidos pelas muitas livrarias do nosso país.
Neil Lochery escreveu este livro sobre um tema que me fascina: o mundo da espionagem em Portugal durante a segunda guerra mundial. Não tendo sido um dos beligerantes, o nosso país contava-se entre uma das poucas nações onde os refugiados conseguiam abrigo, onde os serviços de inteligência das principais potências procuravam obter informações e introduzir-se nos países inimigos, e onde o lucro fluía fruto dos produtos e informações procurados por todos os lados da guerra.
A guerra do volfrâmio, metal essencial na indústria de armamento alemã, misturou tráfico de ouro nazi e do próprio volfrâmio, alterou o perfil económico do país e testou aos limites os nervos das elites portuguesas (em especial Salazar) que procuravam desesperadamente manter Portugal fora da guerra.
António de Oliveira Salazar é por isso a peça central desta história, tentando agradar a gregos e troianos, jogando com os embaixadores ingleses, alemães e americanos de forma a que cada uma das suas decisões não chegasse nunca a ser considerada como um acto de guerra, mesmo quando algumas delas estavam no limiar disso mesmo. Caso por exemplo da cedência da base das Lages ao Reino Unido, facilitando o tráfego aéreo e a defesa das absolutamente essenciais frotas das américas para a Grã-Bretanha ou, no sentido inverso, a venda de matérias primas à indústria militar nazi. Lochery é claramente um admirador da mestria com que Salazar geriu cada um desses dossiers embora seja crítico da frieza com que o ditador tratou o sofrimento dos refugiados e vítimas civis estrangeiros.
Personagem incontornável desta época será também Aristides de Sousa Mendes e o trabalho que fez ao serviço dos refugiados judeus que se acumularam em Bordéus em fuga do avanço alemão no primeiro semestre de 1940. Mesmo pondo em causa alguns números recorrentemente publicados nos media, Lochery não reduz a importância das acções do Cônsul quer nas vidas dos que beneficiaram dos vistos quer na política e estratégia das várias potências. Espanha, que se encontrava pressionada por Hitler para se juntar ao Eixo tornou a situação para o governo português diplomaticamente complicada, enquanto a Inglaterra fez uma queixa formal por - pelo menos numa ocasião - ter sido pedido dinheiro pelo visto em Bordéus.
Embora seja um livro muito interessante de ler, escrito de forma apelativa para um público mais alargado do que o que habitualmente compra livros de não-ficção - complementado ainda com uma capa lindíssima e fotografias da época bem escolhidas - está longe de ser perfeito. "Lisboa, A guerra nas sombras da cidade da luz, 1939-1945" leva tão a sério a necessidade de agradar o grande público que exagera nas referências às estrelas de cinema, personalidades famosas e ao super espião James Bond, cujo autor - Ian Flemming - serviu como oficial nos serviços secretos ingleses em Lisboa.
Mesmo assim, e depois de horas muito bem passadas a ler o livro, fui obrigado a reler incrédulo o parágrafo final, cuja conclusão discordo totalmente:
Salazar acreditava profundamente que Portugal merecia ser pago pelos bens e serviços que fornecia e que deveria ter permissão para reter os lucros desse comércio após a guerra. Seria um sinal de amadurecimento da democracia portuguesa se as questões relativas ao comércio durante a Segunda Guerra Mundial fossem avaliadas de uma forma crítica menos politizada e mais aberta e justa. Só assim a história de Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial terá um fim real.
No contexto do livro ou tendo algum conhecimento sobre a segunda guerra sabemos que isto significa literalmente "Portugal tem de devolver os lucros que teve da venda de volfrâmio porque é ouro nazi". Não podia discordar mais. Sei que outros países já o fizeram, mesmo não estando directamente envolvidos nos crimes nazis, mas não me parece que o lucro da venda de volfrâmio à Alemanha seja ilegítimo. Portugal era um país neutro, fazia troca comerciais com quisesse e não é por um dos lados ter ganho a guerra que tem o direito de exigir indemnizações de guerra a quem nunca participou nela.
Por outro lado, pegando num precedente destes então o mundo inteiro teria contas a ajustar. E não seria preciso ir tão longe como a segunda guerra mundial. Milhares de empresas que tiveram negócios com o Egipto de Mubarak, com a Líbia de Khadafi, com o Iraque de Saddam entre muitos outros teriam que devolver também todo o dinheiro que receberam. Quantas empresas americanas, inglesas e francesas não venderam armas para esses regimes e outros que ainda não caíram? E não estamos sequer a falar de venda de matérias primas, mas de armas. Em muitos casos armas químicas e minas anti pessoal cujos efeitos se sentem por décadas.
Ainda mais insultuoso é Neil Lochery fazer depender a "maturidade da democracia portuguesa" nesta ideia. Porque nesse caso nenhum país do mundo poderia ser considerado democraticamente maduro. Todos tiveram negócios com regimes mais ou menos violentos e muitos deles têm um passado violento em relação aos países vizinhos.
Não faço ideia do que lhe terá dado para escrever um tamanho disparate no final do livro. Talvez queira agradar a alguém. A mim não o fez de certeza.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
CNN e o jornalismo mercenário
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| Amber Lyon - ex âncora da CNN |
Também aqui já declarei a falta de fé que tenho na veracidade de algumas histórias passadas em muitas televisões e jornais, claramente deturpadas por agendas ideológicas ou interesses comerciais. Mas a história que vos trago hoje deveria ser relida vezes sem conta, porque demonstra que tudo aquilo em que acreditamos pode ser simplesmente uma ilusão.
Como a tantos outros países desta região, o ano de 2011 trouxe uma esperança de que algo poderia mudar nas aparentemente eternas ditaduras do Médio Oriente. O povo do minúsculo Bahrain[1], animado pelas conquistas dos seus irmãos tunisinos e egípcios, saiu à rua a protestar pela discriminação entre sunitas e xiitas no seu país[2]. Neste país, uma minoria sunita detêm o poder enquanto a maioria xiita está afastada deste. A revolução é por isso maioritariamente, embora não exclusivamente, xiita. No entanto o Bahrain tem ao seu lado a Arábia Saudita, país profundamente conservador (os termos fundamentalista ou retrógrado seriam igualmente apropriados) controlado pela sua esmagadora maioria sunita e representa a maior potência da península arábica. Aparentemente por pedido do Rei do Bahrain, Shaikh Khalifa, o GCC (Conselho de Cooperação do Golfo, uma espécie de CEE local) enviou um mês depois do início da rebelião uma força militar saudita e emirati para resolver o problema. Recordo-me de na altura ter ficado com a impressão de que o pedido teria sido feito depois, e não antes, da movimentação saudita o que a tornaria de facto uma invasão, como muitos dos protestantes reclamaram na altura[3].
Embora tenha sido largamente ignorada pelos media (não só pelos ocidentais mas também pelos da região), parecem existir planos de tornar o Bahrain em mais uma província saudita, o que resolveria o problema da maioria xiita, que se tornaria irrelevante quando integrada no seu gigantesco estado vizinho.
O país inteiro é, deve-se dizer, praticamente invisível na região e serve para pouco mais do que hospedar a 5th Fleet da marinha americana[4], um grande prémio de F1 por ano[5], receber milhares de sauditas todos os fins de semana (à procura de álcool e prostituição)[6] e permitir a renovação do visto para milhares de expats residentes nos Emirados Árabes Unidos[7].
Não obstante a sua pouca importância, o Bahrain é um aliado do ocidente e não coloca quaisquer entraves à presença da frota americana enquanto paralelamente investe massivamente em relações públicas nos media ocidentais procurando investimento directo estrangeiro, já que ao contrário de muitos dos seus vizinhos, não tem petróleo nem gás natural. A CNN, a mais vista de todas as televisões de notícias em língua inglesa em todo a região, é um dos grandes beneficiários deste investimento fazendo programas partilhados com as autoridades locais, muitas vezes disfarçadas de reportagens noticiosas e sem mostrar o patrocinador do programa[8].
Em Junho de 2011, durante a filmagem de um documentário da CNN intitulado de iRevolution, a âncora Amber Lyon encontrou uma verdadeira revolução e mostrou um conjunto alargado de violações de direitos humanos por parte do governo do Bahrain. Muitas das pessoas que pretendiam entrevistar foram entretanto presas ou desapareceram, outras foram presas pouco tempo depois, muitas mostraram as marcas de tortura e brutalidade policial e incluiu no seu documentário filmagens que mostram claramente as autoridades a dispararem indiscriminadamente sobre manifestantes desarmados e pacíficos. A CNN, depois de ter gasto mais de 100.000 USD na produção deste documentário resolveu - alegadamente por decisão editorial[9] - não o mostrar e Amber Lyon foi despedida no início de 2012, durante uma reestruturação da CNN[10], depois de uma guerra entre esta e as chefias da CNN precisamente devido ao iRevolution. A bem da verdade, uma pequena parte de 13 minutos do documentário foi publicado online no YouTube onde está (por enquanto) disponível[11].
Toda esta dualidade de critérios editorial e a sua relação com os patrocínios é demonstrada cuidadosamente por Glenn Greenwald do The Guardian, no seu artigo de 4 de Setembro de 2012 "Why didn't CNN's international arm air its own documentary on Bahrain's Arab Spring repression?"[12].
Durante o último ano assistimos quase diariamente como a Rússia tem sido acusada de apoiar o criminoso regime de Bashar Al Assad devido à existência de uma base naval russa em território sírio[13]. Aparentemente, o comportamento das potências ocidentais não é muito diferente...
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Wings of the Luftwaffe - Fw 190
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| Focke-Wulf Fw 190 Würger |
No entanto, os documentários já existiam muito antes destas tecnologias estarem disponíveis. A segunda guerra mundial, em particular, beneficiando de ter acontecido quando o cinema já tinha entrado numa fase madura, prencheu milhares de horas de documentários utilizando as imagens filmadas por todos os intervenientes. Estes programas são em muitos sentidos mais realistas do que os mais actuais, já que não tinham outra opção senão o uso de filmagens reais. Por outro lado, nessa época (anos 80 e 90) muitos intervenientes da segunda guerra mundial estavam ainda vivos e conseguiram contribuir para os documentários com entrevistas.
Foi por coincidência que me cruzei com este documentário do Discovery Channel, do início dos anos 90, quando procurava informação sobre o Focke-Wulf Fw 190[1], um avião alemão da 2GM que por algum motivo ficou para história escondido na sombra do Messerschmitt Bf 109[2]. É verdade que o Bf 109 sobreviveu à guerra, tendo sido utilizado ainda durante umas décadas na Força Aérea Espanhola enquanto o Fw 190 acabou junto com o regime nazi que o criou. Também em números produzidos, o Bf 109 ganha. Mas o facto é no final da guerra toda a produção estava concentrado no Focke Wulf e era, regra geral, o caça de eleições dos pilotos alemães embora alguns dos maiores ases se tivessem mantido fieis ao Messerschmitt[3].
Felizmente para todos nós cujo estudo amador da história é um prazer assumido, a colecção completa do programa Wings of the Luftwaffe[4] está disponível no You Tube. Deixo aqui o programa sobre o Fw 190, num documentário sem imagens digitais, apenas historiadores, testemunhos reais e imagens da época.
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