sábado, 24 de janeiro de 2015

Califado em Paris

Steven Emerson, auto-proclamado especialista em assuntos dos Médio Oriente e terrorismo islâmico, afirmou esta semana no canal americano Fox News que várias partes de Paris são "no-go-zones" para não-muçulmanos, que isso é comum pela Europa fora com Polícia islâmica Sharia nas ruas e que a cidade de Birmingham (Reino Unido) era 100% muçulmana e onde os não-muçulmanos estão impedidos de entrar[1][2]. O genial comentário levou a uma enorme risada por toda a Europa, um processo em tribunal por parte da cidade de Paris e o inequívoco comentário do Primeiro-Ministro David Cameron de que Emerson é "claramente um completo idiota"[3].

Mas ultrapassando a profundidade de 140 caracteres, a situação é de facto bastante mais grave do que as primeiras gargalhadas nos levam a fazer crer. Steven Emerson não cometeu um lapso momentâneo, resultado das dificuldades e pressões de falar em directo para uma enorme audiência. O que ele afirmou não só é absolutamente irreal mas é algo que ele defendeu consistentemente no seu próprio site, na Fox News em múltiplas entrevistas. A Fox, tornou-se ela própria um antro onde as mais absurdas ideias podem ser defendidas para uma audiência de milhões sem qualquer contraditório e só mesmo o clamor global destas afirmações "over the top" é que levaram ao invulgar pedido de desculpas da estação e do próprio. O mais perigoso de tudo isto, defendo eu, é que este acontecimento não é excepcional, nem inédito, nem inconsequente, o que se revela bastante mais perigoso.

Não é excepcional nem inédito porque Emerson já tinha defendido estas ideias anteriormente, o que significa que não foi um acto irrefletido mas algo que vem defendendo, e sido defendido também por outros (como o governador do Louisiana Bobby Jindal[4] ou a própria entrevistadora Jeanine Pirro que o acompanha e com quem mostra absoluta concordância ou o anterior convidado a que se refere[5]) e que pela força dos mass media vai entrando no "conhecimento" comum, mesmo que não tenha qualquer relação com a realidade.

Aliás, no mesmo comentário, Steven Emerson resolve ir mais longe e afirmar que a Turquia "é um porto seguro para os líderes do Hamas que coordena ataques contra Israel". Acrescenta depois que as mulheres terroristas treinaram no Médio Oriente onde fizeram ataques terroristas misturando depois esta história com a ideia de que o Reino Unido é um lugar onde "em alguns aeroportos - acreditem ou não - elas não precisam de retirar as burkas para serem identificadas pelos controladores dos passaportes". Mais uma afirmação que recebe o intenso apoio de Jeanine Pirro, que confirma que também já o viu. Não faço ideia de que aeroportos eles têm utilizado, mas como frequentador regular de praticamente todos os grandes aeroportos da Europa e Médio-Oriente, nunca vi tal coisa. Mesmo em países onde o hijab e o nikab são habituais, como os Emirados Árabes Unidos, as mulheres têm que mostrar a cara no controlo de passaportes. Têm usualmente também uma espécie de cabine onde podem mostrar a uma mulher polícia em privado se o desejarem. Mas certamente não passam sem serem identificadas, isso é um absurdo e representaria um buraco gigante na segurança de qualquer país. A minha experiência certamente terá as suas limitações, mas já devo ter feito pelos menos uma centena de controlos de passaportes entre Lisboa, Paris, Heathrow (Londres), Frankfurt, Amsterdão, Bruxelas, Istambul, Dubai, Abu Dhabi, Sharja, Aman, Tel Aviv, etc. Convido os meus leitores com experiência nas regiões em causa (Europa e Médio Oriente) a revelarem se alguma vez viram algo parecido com o que Emerson descreve.

Mas se as alegações de um lunático para uma audiência de milhões já são perigosas, muito mais ficam quando descobrimos que não é só na televisão que as suas mal fundamentadas - senão factualmente erradas - opiniões são recebidas. Para além de uma série de livros escritos sobre os temas do terrorismo e do Islão, foi considerado pelo New York Times como "um especialista em intelligence" e pelo New York Post como "o maior especialista de terrorismo no jornalismo nacional"[6]. Mas o verdadeiro arrepio na espinha acontece quando vemos que foi chamado a inúmeros comités do Congresso dos Estados Unidos, tais como vários de segurança internacional; terrorismo, tecnologia e informação governamental; imigração; judiciário e segurança nacional. Sabendo que os governantes e legisladores americanos ouviram especialistas do calibre de Steven Emerson para os ajudar a tomar decisões como a invasão do Afeganistão e do Iraque, os bombardeamentos com drones no Paquistão ou Yemen, ou como reagir à Primavera Árabe, ajuda a explicar muita coisa.

Não posso esquecer um nome que soava na minha mente enquanto via os vídeos, transcrições e outros sites relacionados com este caso: Edward Said. Se estivesse vivo reconheceria neste ridículo momento de Emerson o expoente máximo do Orientalismo, essa ciência feita de autores que vivem de se confirmarem mutuamente, sem qualquer preocupação com a realidade dos factos. Said aliás, numa entrevista publicada em Agosto de 2001, falava precisamente deste dizendo que "o terrorismo tornou-se numa espécie de imagem criada no final da Guerra Fria por legisladores em Washington assim como um grupo de pessoas como Samuel Huntington e Steven Emerson, que fazem o seu ganha-pão nessa procura. É uma invenção para manter a população receosa e insegura, e para justificar o que os EUA quer fazer globalmente".

Na verdade parece-me que o Islão está hoje, aos olhos de muitos no Ocidente, num processo de "norte-coreianismo", onde o povo aceita com um olhar crédulo toda e qualquer alegação feita sobre "os outros". Achei espectacular a forma como tantos jornais de referência (ou nem por isso...) pelo mundo fora publicaram a história de que o tio do líder norte-coreano Kim Jong Un tinha sido executado por grupo de cães esfaimados. Desde a Fox[7] e a NBC[8] até a jornais mais populares, muitos aceitaram sem qualquer oposição ou descrença as afirmações de um blog perdido na China. Também em relação ao Islão, alguns opinion makers parecem acreditar que podem dizer o que lhes vier à cabeça que ninguém colocará em causa. Em entrevista à BBC[9], Emerson procura aceitar as culpas e alega que as suas fontes estariam erradas, mas recusa-se terminantemente a revelar quem são as fontes. Atrevo-me a dizer que não existem fontes nenhumas, a não ser que conversas de pub ou vídeos de propaganda do You Tube também contem como tal. 

Esperemos que esta gaffe possa trazer algum juízo a quem publica. Todos cometemos erros e nem sempre as nossas fontes são as melhores, mas como é que alguém consegue chegar à televisão e dizer que "a Europa está acabada" porque tem inúmeras "no-go-zones" e tribunais sharia?[10] 

Nota: A imagem não é photoshop. É mesmo MS Paint.




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Religião e Liberdade

2013 Hollande visita a Arábia Saudita
"Existem dois tipos de pessoas: as que têm cérebro, mas não têm religião; e as que têm religião mas não têm cérebro" são as famosas palavras do filósofo Árabe Abu al-Ala' al-Maarii[1]. Se ele fosse Saudita e vivesse nos dias de hoje, estaria a ser chicoteado em praça pública como o blogger Raif Badawi[2] ou correndo o risco de pena de morte[3], no entanto todos pudemos ver o ministro dos negócios estrangeiros Saudita a cumprimentar o presidente de França na sequência dos ataques ao jornal satírico francês, Charlie Hebdo.

O que é curioso na frase com que iniciei este texto, é que foi escrita há mais de um milénio em pleno mundo árabe e muçulmano, na Síria, o seu autor recebia inúmeros estudantes, viveu e viajou em liberdade e morreu com 85 anos na sua terra natal. Como descreve o jornalista Egípcio-Belga Khalid Diab num seu recente e iluminado artigo na Al Jazeera[3], a liberdade de expressão de que gozavam os cidadãos do mundo Árabe durante os primeiros séculos da sua expansão deveriam fazer corar de vergonha muitos líderes árabes nossos contemporâneos, nomeadamente o governo Saudita, auto-proclamados protectores da fé islâmica e seguidores do exemplo de Mohammed e os primeiros califas. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Cruel aproveitamento político

Ainda os restos mortais dos infelizes jornalistas da magazine francesa Charlie Hebdo não tinham esfriado, já o aproveitamento político por parte das mais variadas forças políticas se tinha iniciado. 

A direita europeia mais islamófoba viu neste ataque terrorista a prova final de que o Islão é contra a liberdade de expressão e que não passa de uma religião violenta sem qualquer respeito pela diferença, pela crítica e até pela sátira. Durante os próximos dias, o habitual circo mediático irá provavelmente levar a mais ou menos dissimulados pedidos de guerra, imigração limitada e baseada em racial profiling, e novas explosões de nacionalismo que certamente beneficiará a extrema direita.

Curiosamente, as mesmas pessoas que consideram estes terroristas como fieis representantes dos mil milhões de muçulmanos do mundo, escolhem não reparar nas vítimas muçulmanas. Neste atentado, por coincidência, um dos polícias que faleceu era Ahmed Merabet, françês muçulmano, baleado e depois executado a sangue frio. Em toda a violência do extremismo islâmico, as vítimas em maior número são precisamente os muçulmanos como demonstram os estudos intensivos do programa START (GTD - Global Terrorism Database) da Universidade de Maryland, o maior nesse campo. No Iraque, Argélia, Líbia, Síria, Yemen, Nigéria, Somália, Afeganistão, Paquistão e tantos outros são os muçulmanos as principais vítimas de organizações como o ISIS, Al Qaeda, Taliban, Boko Haram, Al Shabab e muitos outros. No entanto, no Ocidente preferimos sempre considerar os criminosos como representativos destas sociedades, e não as suas vítimas. 

Do outro lado, a esquerda radical europeia não se comporta melhor, vendo sempre apenas o contexto e procurando a absoluta desresponsabilização do indivíduo. A pitoresca Ana Gomes, deputada socialista portuguesa no Parlamento Europeu, partilhou imediatamente um tweet responsabilizando as políticas europeias de austeridade por este acontecimento. Considerar que jovens franceses, que vivem com um estado social e protecção política, religiosa e económica como têm em França, são empurrados para um acto destes pela força da crise é um absurdo. O que eles fizeram não é um acto de desespero de quem não tem saídas, mas sim uma escolha muito clara do que querem para si e para o seu país.

Mas acima de tudo, este foi um ataque à liberdade de imprensa, de opinião e de pensamento. E é aí que temo que serão causados grandes danos. Numa escala diferente o 11 de Setembro mostrou-nos como uma unanimidade global de solidariedade foi rapidamente utilizada para lançar guerras, reduzir direitos civis e até legitimar tortura. Aos 3000 mortos iniciais, somaram-se centenas de milhares de outros no Afeganistão e no Iraque durante mais de uma década, num processo que ainda não finalizou.

Quanto a mim, o único tributo que possa realmente prestar a estes jornalistas e aos polícias que morreram tentando defendê-los é continuar a escrever a minha opinião de forma livre, quer agrade quer desagrade aos meus leitores, e esperar que aqueles que diariamente espalham ódio, vingança e ameaças nestas páginas possam um dia encontrar paz no coração e liberdade no pensamento.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Netanyahu, de que tens medo?

Depois de ver negado o seu pedido de independência no Conselho de Segurança das Nações Unidas por um voto, a Palestina entregou a documentação para integrar o Tribunal Criminal Internacional (ICC) em Hague. A resposta do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu não se fez esperar: reteve os impostos dos palestinianos (que Israel cobra em nome da Palestina) e já informou publicamente que nenhum soldado israelita "será arrastado para o ICC".

Depois de tantas acusações que fez no passado dos crimes de guerra do Hamas, da Fatah, da PFLP ou da DFLP, é difícil compreender porque motivo Bibi está tão preocupado. Isto deveria ser uma excelente oportunidade para colocar tudo em pratos limpos. Eu não tenho dúvidas de que o Hamas teria (terá?) muitas dificuldades em explicar muitas das suas acções. Pelos vistos, Netanyahu também não se sentirá muito confortável em aclarar as suas...

Médio Oriente: Religião e Petróleo

Grande parte do mundo acredita que a alma do Médio Oriente está na sua religião, o elemento essencial e distintivo do povo e cultura locais. Isto acontece desde os grandes téoricos orientalistas, como Bernard Shaw, até aos populares que muitas vezes não conseguem distinguir um turbante Sikh indiano de um keffyeh palestiniano. Ao contrário de outras partes do mundo, como a Inglaterra ou Portugal, onde a esmagadora maioria dos seus cidadãos têm a mesma religião ou não professa qualquer religião, praticamente todos os países do Médio Oriente têm multiplas religiões, com enormes minorias melhor ou pior representadas e muitas vezes até no poder.

Muitos dos conflitos são rapidamente reduzidos pelos comentadores internacionais aos seus aspectos religiosos, cuja importância é colocada bem acima de outros factores étnicos, políticos ou sociais. No entanto, algumas destas visões simplistas são postas em causa quando olhamos para os problemas um pouco mais de perto. Se a religião é muitíssimo importante, não é certamente o único factor relevante e em muitos casos acredito que nem será o factor central do problema.

Na Palestina, Muçulmanos e Cristãos lutam lado a lado contra Judeus, onde dois passados diferentes e extremamente violentos - o da Nakba para os Palestinianos e o Holocausto para os Judeus - unem mais do que a própria religião. A PFLP (Popular Front for the Liberation of Palestine), organização terrorista e de extrema esquerda, responsável por muitos ataques de pirataria aérea e bombistas suicidas durante os anos 70, foi fundada e era liderada por um palestiniano cristão, George Habash, ele próprio um sobrevivente da Nakba. Os seus ataques continuam até ao presente, tendo sido o último em Novembro de 2014, num ataque a uma sinagoga onde morreram quatro fieis Judeus e um polícia Druze, para além de sete outros feridos. Naturalmente que os ataques bombistas suicidas cometidos por uma organização comunista liderada por cristãos não encaixa naa propagandeadaa ideias das 42 virgens no céu, mas contra factos não há argumentos. Também o casamento de Arafat com Suha Tawil, uma palestiniana cristã 34 anos mais nova, em 1990 vai contra a ideia dos palestinianos serem todos muçulmanos fanáticos, principalmente quando poucos anos depois Yasser Arafat ganha umas eleições limpas com 88% dos votos.

No Iraque, a organização terrorista Daesh (also known as ISIS, ISIL, Estado Islâmico ou Califado Islâmico) tem como principal adversário as forças paramilitares Curdas - os Peshmerga - igualmente sunitas, mas unidas pela língua e pelo sonho antigo de ter o seu próprio país, o Curdistão, adiado desde o fim do Império Otomano pelos poderes regionais e internacionais durante um século. Também aqui a religião parece explicar apenas um dos lados do conflito, mas não ambos. 

E por todo o Médio Oriente encontramos outros exemplos, como na Líbia onde uma guerra civil tribal e não religiosa continua a propagar-se sem fim à vista, na Síria onde uma coligação governamental com quase todas as minorias étnicas do país e até um grande número de Sunitas lutam contra o mesmo Daesh. No Yemen, onde a Primavera Árabe descambou numa guerra civil que mistura aspectos religiosos e étnicos. Ou até no Bahrain, onde é a falta de representação política e económica da maioria Shiita - e não algum aspecto dogmático religioso - que mantém uma situação de paz podre mantida apenas à custa de uma enorme influência saudita.

Ainda mais relevante do que a Religião, para compreender muito do que se passa no Médio Oriente, devemos olhar na minha opinião, para o Petróleo. Naturalmente, não serão os dois únicos factores a ter em conta e existirão outros que em muitas situações ajudaram a explicar o presente e o passado da região, tais como as invasões militares europeias e americanas, a colonização estrangeira, as guerras regionais, o nacionalismo árabe, outros nacionalismos (Curdo, Palestiniano), etc. Mas o petróleo é, e ainda será durante muito tempo, o combustível que faz rodar o planeta. Grande parte das suas reservas (assim como as de gás natural) estão no Médio Oriente, e são controladas por um pequeno número de países. A ascensão dos Estados Unidos e da Rússia ao topo dos produtores de petróleo, retirando a primeira posição à Arábia Saudita pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, é um factor de enorme importância e cujos impactos não podem ser substimados. Se somarmos a este facto, a recente queda do preço do petróleo cujo barril caiu em poucos meses do seu valor "normal" de 95 a 110 USD para os 50 a 60 USD, ficamos com uma espécie de tempestade perfeita no sector energético que terá ondas de choque políticas e económicas enormes, quer para a região quer para a relação das grandes potências globais.

Vivendo num país que é um dos grandes exportadores de petróleo, não estranho que o assunto seja tratado diariamente pelos media locais mas também pela população, que compreende a importância do petróleo para todos os que aqui vivem. Os governos dos países exportadores de petróleo terão que reduzir drásticamente as suas despesas ou incorrer em enormes déficits orçamentais, uma decisão que não é particularmente urgente para países como o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita ou o Kuwait cujos fundos soberanos de centenas de milhares de milhões de dólares lhes permitem aguentar déficits durante muitos anos.     



Noutros lugares, como o Irão, a Venezuela ou a Rússia, situações orçamentais terão impactos muito mais sérios, mais violentos e obrigando a ajustamentos muito rápidos. Uma teoria interessante que anda nos media norte-americanos é a de que esta queda do petróleo seria provocada pelos Sauditas, numa tentativa de quebrar o Irão e os muito endividados produtores shale oil americanos. É um facto que a Arábia Saudita está em posição de aguentar o preço baixo e que na última reunião da OPEC defenderam (e conseguiram) que não fosse reduzida a produção de petróleo dos países do cartel, mas a verdade é que a Arábia Saudita já não é o maior produtor de petróleo do mundo. Caiu até para terceiro lugar. Quer os EUA quer a Rússia ultrapassaram o Reino. Fizeram-no com custos de exploração altíssimos (que chegam a vinte vezes o custo de produzir no Golfo Pérsico) e investimentos absurdos e arriscados. Agora, os dois líderes produtores procuram convencer o terceiro que existe demasiado petróleo no mercado e pedem-lhe se não se importa de reduzir as suas exportações, para que eles possam sobreviver. Estranha ironia.

Mas independentemente do que causou esta descida do preço, a verdade é que todos se preparam para ficar pelo menos um ou dois anos com preços entre os 40 e os 70 USD. E o Médio Oriente terá necessariamente de mudar. O Daesh depende do petróleo para continuar a sua jihad, o Irão para recuperar o seu lugar na comunidade internacional e levantar-se da crise económica dos últimos anos, as monarquias do Golfo para continuarem a sua ascensão económica e a manutenção de um garantismo estatal de outra forma impensável, o Iraque e a Síria para se levantarem (se é que o vão conseguir fazer na próxima década) e o Curdistão para chegar à tão ambicionada independência, agora que as suas forças militares têm o equipamento e experiência para defenderem o seu território e conquistaram o respeito do mundo ocidental, com as suas tropas mistas e uma sociedade inclusiva que protege as minorias étnicas e religiosos perseguidas pelo Daesh.   



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Orientalismo

Edward Said, o mais famoso de todos os académicos palestinianos, simplesmente supera tudo o que li até hoje sobre o Médio Oriente. "Orientalismo", escrito há mais de três décadas, é a sua obra prima, e um dos mais influentes livros na sua área desde a sua publicação. O mais interessante é que o livro não é realmente sobre o Médio Oriente, mas sobre o campo de estudos criado pelos europeus - e mais tarde americanos - que estuda esta região. Conta-nos a história dos grandes escritores orientalistas, arabistas e outros, a forma como foram evoluindo de uma posição mais académica até ao mais puro policy making. Explora as suas limitações e, principalmente, o enorme erro de essencialismo que foi sendo multiplicado ao longo dos tempos, até os resultados do estudo do Oriente não terem qualquer semelhante com a realidade, embora fossem perfeitamente consistentes entre si.

O centro de todo o estudo é precisamente essa ideia de essencialismo: a capacidade de reduzir os orientais, em especial os árabes muçulmanos à sua religião. Como se mais nenhum factor fosse relevante. Como se o facto de se nascer num país super-exportador de petróleo com uma qualidade de vida imensa não fosse relevante para os definir. Ou, outros, viverem como refugiados do dia em que nasceram até à sua morte. Ou sob ocupação. Em liberdade ou numa ditadura. Como se o tempo não influenciasse a forma de pensar dos povos e dos indivíduos. Como se as experiências pessoais não colocassem tantos a desalinharem com a norma do seu povo.

Said está, na minha opinião, absolutamente correcto nesta sua crítica feroz ao essencialismo e ao Orientalismo moderno. E é um erro grave que, para além de apoiado e suportado por pensadores como Bernard Lewis, de quem aqui escrevi recentemente, chega às massas que tão facilmente reduzem cada um dos árabes a essa imagem geral do que é suposto ser um árabe. Um imagem imutável, essencialista e que recusa qualquer individualismo.

Neste mesmo bloque, vejo comentários assustadores de gente que deseja a morte de todos os Muçulmanos, ou noutros casos a defenderem novos Holocaustos sobre os Judeus. Como é possível que alguém defenda crimes dessa dimensão se não se convencer que os "outros" são todos iguais e todos criminosos? Que os bebés de colo estão destinados a serem terroristas ou opressores e que cada adulto está à espera do momento certo para nos atraiçoar?

A partilha de alguma ideias neste blogue durante os últimos anos ensinou-me pouco sobre História, mas bastante sobre o ódio que tantas pessoas sentem por seres que nunca viram e conheçem apenas dos filmes e noticiários. E isso é verdadeiro quer para islamofóbicos quer para anti-semitas. No seu ódio, mostram-se rigorosamente iguais.

A única crítica que faço refere-se à forma violenta como Edward Said vê, por exemplo, o uso de cientistas, historiadores, arqueólogos e burocratas que acompanharam o exército de Napoleão durante a sua invasão do Egipto em 1798. Os objectivos do imperialismo podiam estar totalmente errados, mas o uso da ciência enquanto suporte deste não é, a meu ver, particularmente estranho ou negativo. Quando comparamos com a conquista das américas pelos Espanhois e Portugueses, vemos que estes últimos não tinham o mais pequeno interesse em compreender os povos que lá viviam, as suas religiões, a sua ciência ou a sua história. Embora ainda de uma posição de superioridade - compreensiva já que ele era de facto o conquistador - olho para a atitude de Napoleão como uma demonstração de humildade perante a civilização que encontrava. Mas quanto mais nos aproximamos dos dias de hoje, mais verdadeira é a crítica de Said e mais incompreensível a forma limitada com que o mundo vê outros povos, hoje tão próximos e tão cheios de testemunhos.

Por tudo isso, ler Said é algo que aconselho vivamente a quem já tenha dedicado algum tempo a tentar compreender e pensar o Médio Oriente, mas muito mais para quem acredita já ter todas as respostas e para quem acha que "já escolheu um lado". 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não, não sou anti-semita!

Às vezes cansa. Cada vez que faço qualquer crítica à actuação do governo de Israel, chovem as acusações de anti-semitismo. Por isso vou tentar ver se consigo deixar a minha posição clara:

- Não desejo mal a ninguém por ser Judeu, Muçulmano, Cristão, Budista, Agnóstico, Ateu ou qualquer outra religião ou falta dela.

- Na realidade não desejo mal a ninguém. Talvez seja uma posição ingénua, mas não tiro prazer do mal que acontece aos outros.

- Nenhum grupo étnico ou religioso se sobrepõe ao indivíduo. Isto significa que nenhum Judeu é individualmente culpado pelo que outra pessoa da sua etnia ou religião fez ou faz. O mesmo é válido para todos os outros credos.

- O Holocausto Nazi existiu e os Judeus as suas principais vítimas. Não foi o único genocídio da história e nem sequer do último século, mas foi o pior de todos eles.

- O anti-semitismo é um crime grave. Tão grave como o racismo, a xenofobia ou a islamofobia.

- Não apoio terrorismo de espécie nenhuma, por nenhum grupo e contra nenhum grupo. Seja ele a Al Qaeda, o Stern Gang, a ETA, o Boko Haram, Al Shabab, FP-25, Baader Meinhof ou Exército Vermelho Japonês.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos seus vizinhos santos. Já públiquei inúmeros artigos sobre isso, sobre a Primavera Árabe, sobre o Egipto, Líbano, Síria e muitos outros.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos palestinianos santos. Também já escrevi muitas vezes sobre os crimes de Yasser Arafat, do Hamas, sobre os bombistas suicidas entre outros.

- São muitos os Judeus de todo o mundo e até em Israel que criticam também a actuação deste e outros governos de Israel. Incluem sobreviventes do Holocausto, antigos militares, ONGs e até lóbis oficiais.

A única curiosidade é mesmo a forma como a acusação de anti-semitismo é utilizada constantemente como arma para silenciar qualquer oposição à actuação de Israel. O problema é que provavelmente.... "you might just have overplayed your hand".

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Impunidade Total

Ziad Abu Ein
Se houve algo que aprendi nos anos que passei na Palestina e a lidar com o exército de ocupação de Israel (orweliamente entitulado de Israel Defense Force) é a da inequívoca certeza da total impunidade das forças militares, policiais e serviços secretos que lá operam. Seja no homicídio de crianças e bebés em Gaza, na invasão de casas para verem os jogos da Liga dos Campeões (como relata a ONG israelita Breaking the Silence), na prisão e violência sobre elementos de ONGs de todo o mundo até, agora, à morte de um ministro do governo da Palestina, Ziad Abu Ein. 

Desarmado, foi vítima da violência dos soldados israelitas que lhe agarraram no pescoço e bateram com um capacete durante uma demonstração pacífica. Em breve aparecerão certamente relatos de que ele morreu sozinho com um relâmpago, vítima de um ataque do Hamas ou que um ataque de coração. A irrepreensível formação do IDF e a existência de meio milhão de colonos judeus ilegais em território palestiniano também não serão postas em causa. As ajudas americanas também não vão parar. certamente não será colocada em causa. Ao soldado, certamente não acontecerá nada. Depois de uma longuíssima e cuidadosa investigação, o assunto será votado ao esquecimento, como acontece a todos os outros.

Mas, sabendo que tudo isto aconteceu na Cisjordânia e não em Tel Aviv ou Haifa, a pergunta é muito simples: o que estavam lá a fazer os soldados israelitas?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Natal em que os canhões pararam

Na noite de natal, em 1914, grupos de soldados ingleses, franceses e alemães juntaram-se nas trincheiras e beberam, cantaram e jogaram futebol juntos. Por umas horas, um inesperado (e não autorizado) cessar-fogo juntou aqueles que durante 4 anos se dedicaram a matarem-se mutuamente aos milhões.

Um segredo de estado em França e na Alemanha, noticiado no Reino Unido e considerado como traição por todos os líderes, este Natal de 1914 representou uma pequena esperança para os que advogavam um levantamento das classes proletárias contra o imperialismo de ambos os lados.

Infelizmente, o Natal não é todos os dias e em breve a matança de milhões continuou, com métodos cada vez mais mortíferos e terríveis, com armas químicas, tanques, submarinos e aviação a juntarem-se numa combinação nunca vista.

Para a história fica esta imagem, em breve centenária.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Burkas, Abayas e a Mulher Árabe

Se o motivo para as mulheres muçulmanas usarem burkas ou abayas era o de impedirem os seus instintos de vaidade, provavelmente não estará a resultar muito bem. Ao contrário do que imaginava quando cheguei pela primeira vez ao Médio Oriente, o tradicional vestido negro que cobre as árabes locais da cabeça aos pés - e em alguns casos até a totalidade da cara - mostra uma realidade muito mais complexa a uma variedade muito maior.

O uso de roupas que cobrem o corpo todo é, em muitos casos, anterior ao Islão (como é o caso da burka afegã), no entanto acabaram por ficar associados a esta religião por apropriação cultural no momento da sua criação. Sem querer entrar em excessivos detalhes sobre a história e desenvolvimento da religião muçulmana e da cultura árabe, gostava só de apontar um pormenor relevante que distingue o Islão dos dois outros grandes monoteísmos (Judaísmo e Cristianismo): o facto de o seu líder religioso ter-se tornado em vida também como líder político e militar e ter participado na criação do seu império. Isto fez com que o Islão tivesse muito cedo, ainda durante a vida do profeta Mohammed, que definir muitas regras práticas de governação, de justiça, policiamento, estratégia militar e até leis de família. 

É, no meu entender, essa praticalidade que podemos encontrar em muitas das regras que distinguem o Islão de, por exemplo, o Cristianismo[1]. Pode-nos parecer estranho a aversão que esta religião mostra ao álcool, ao jogo ou à carne de porco, mas basta imaginarmos uma época de caos e escravidão, onde as pessoas arruinavam as suas famílias e acabam como escravas pelas suas dependências (será que mudamos assim tanto?) para compreendermos que estas proibições, embora puritanas, são em grande medida também regras de auto-defesa de uma sociedade. A proibição do consumo de carne de porco, inegavelmente associado a inúmeras doenças da altura e sendo um animal profundamente sujo, também não é estranha. Noutros casos, essa necessidade prática pode ter tido benefícios inimagináveis, como por exemplo na obrigação de lavagem (hoje considerada ritual) antes de rezar. Será que não se teria evitado ou limitado a Peste Negra, se calhasse de estar escrito na Bíblia que um banho uma vez por semana agradava a Deus?

O que me leva novamente à questão do uniforme árabe. A lei islâmica não é totalmente clara em relação à roupa, mas defende que as mulheres devem vestir de forma modesta  para que não atraiam uma indevida atenção dos homens. Ou seja, procura-se evitar a atração do sexo oposto e condena-se a vaidade de o tentar fazer. 


Princesa Haya da Jordânia com o seu marido Sheikh Mohamed Al Maktoum,
Primeiro-Ministro dos EAU e Sheikh do Dubai

No entanto, se as mulheres da península arábica tentam seguir a letra da lei, parece-me claro que a cada dia que passa estão mais longe do espírito da lei. Quando fui viver para o Dubai, há quase uma década atrás, as abayas eram quase todas iguais: pretas da cabeça aos pés, e muito raramente com um fio dourado ou diamantes bordados nas mangas ou no hijab (o lenço que cobre a cabeça). Com o tempo, foram-se tornando mais visíveis, com fios pendurados nos ombros, pequenos recortes em azul escuro, dourado ou castanho e com cortes mais à medida. Grandes nomes da moda, como Yves Saint Laurent investem cada vez mais neste mercado e algumas abayas têm agora a marca bem visível. Nos desfiles de moda, como aconteceu na recente inauguração do Yas Mall, em Abu Dhabi, onde os vestidos ocidentais e locais foram mostrados em conjunto na mesma colecção. Não é de descurar também a influência de algumas personalidades, como a Princesa Haya, segunda esposa do Sheikh Mohammed do Dubai, que - tal como o marido - utiliza por vezes roupas tradicionais ou modernas, quer do Médio Oriente como do Ocidente.

Com as mulheres dos Emirados a tomarem conta das universidades e, cada vez mais, a ganharem espaço na vida pública e profissional do país, podemos estar a assistir a uma mudança cultural muito relevante neste país, a da emancipação real das mulheres, onde a roupa é apenas uma pequena parte de tudo o que poderá estar para vir.




[1] Como declaração de interesses, devo informar os leitores que me considero agnóstico, tendo sido educado no cristianismo de Roma.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O que correu mal?

Escrito por aquele que será o mais famoso historiador orientalista do pós-segunda guerra, Bernard Lewis, "What went wrong?" é um livro curto que retrata a lenta decadência do mundo árabe desde o início do seu confronto com a modernidade ocidental, geralmente considerada como a invasão do Egipto por Napoleão Bonaparte. 

Este historiador britânico/americano ainda vivo e do topo dos seus 98 anos é famoso pelas suas visões do Médio Oriente e o conhecimento do Império Otomano, um dos mais interessantes temas da região, no que toca aos últimos 500 anos.

A sua visão é relativamente clara: o mundo islâmico, tendo estado nos primeiros séculos depois da vinda do profeta Mohamed em ascensão constante, vem perdendo força e importância a todos os níveis. Com o fim da idade média, as melhorias técnicas e científicas, a capacidade militar e a organização social do ocidente vão ganhando terreno e quando finalmente confrontadas em larga escala, mostraram estar muito acima das capacidades do que o mundo do Islão conseguia agregar.

Infelizmente, embora repleto de pequenas histórias interessantíssimas e factos e testemunhos que guardarei com cuidado, o livro "What went wrong?" tem profundas falhas. Talvez a mais grave é o tratamento da parte pelo todo e do todo pela parte, o que acontece constantemente ao longo do livro e de forma a que os dados contribuam sempre para a pré-definida conclusão. Por exemplo, a primeira metade do livro é praticamente toda dedicada ao Império Otomano, sendo este comparado sucessivamente com os Impérios Britânicos, Franceses e Russos. No entanto, em múltiplos casos, Lewis salta subitamente desse mundo pré-primeira guerra mundial para comparações do mundo islâmico com os Estados Unidos da América pós-segunda guerra mundial. Ou seja, numa altura em que quer o Império Britânico quer o Império Francês já tinham desaparecido e estes países - tal como a nova Turquia republicana - reduzidos a estados de média dimensão com projecção diplomática e cultural mas sem peso nas grandes decisões do mundo.

Por outro lado, Bernard Lewis reduz o mundo islâmico à pequenas partes deste. Para além do Império Otomano existiam e existem centenas de milhões de muçulmanos espalhados por outros estados, muitos deles em maioria. Considera, para além disso, o Islão como única e fundamental variável para explicar o diferente avanço de cada um dos povos, o que me parece profundamente redutor e que contraria profundamente o que vemos no nosso dia-a-dia no Médio Oriente.

Para convencer o seu público da inabilidade do mundo islâmico, diz-nos que um pequeno país como a Finlândia tem mais exportações do que o mundo árabe tirando o petróleo e derivados. Abstem-se de dizer no entanto que essa Finlândia (o livro foi publicado em 2002) era a sede da Nokia, na altura uma das maiores e mais bem sucedidas empresas do mundo[1]. Em 2000 já representava sozinha 70% do seu mercado de capitais e 21% das exportações do país. Continuou a crescer até chegar aos 41% do mercado mundial de telemóveis. Ao retirar o petróleo da equação, retirou das contas aquele que é o verdadeiro motivo do boom do Médio Oriente, para além de discretamente saltar do mundo islâmico para o mundo árabe, o que retira imediatamente algumas das maiores economias do mundo islâmico, como a Turquia e a Indonésia, ambas economias muito mais diversificadas do que os estados construídos nos inóspitos desertos da península arábica ou no extremo norte do deserto do Sahara.

Bernard Lewis também parece prender-se excessivamente na ideia de que as vitórias militares são suficientes para provar o nível civilizacional de um povo, uma ideia que contesto. Basta olhar para as vitórias dos Mujahedeen sobre os soviéticos, dos Vietcong sobre os Americanos ou da Alemanha Nazi sobre a República Francesa para perceber que existe muito mais para além de guerra, quando queremos definir o nível civilizacional de um povo. Se o Império Otomano, que ele tão bem conhece não estava à altura dos exércitos europeus, por outro lado tinha uma capacidade de integração de minorias étnicas que - a meu ver - deveria ser ainda hoje um caso de estudo cuidado. Basta ver que aos séculos de relativa paz nas mãos dos Otomanos seguiram-se décadas de conflitos constantes aos quais nem as novas superpotências souberam resolver. A situação aliás, só parece piorar com cada nova tentativa de intervenção ocidental.

Outro factor que Lewis não tem em conta refere-se precisamente à influência e intervenção directa do resto do mundo. É extremamente interessante que alguém consiga olhar para o Médio Oriente e não perceber o quanto as potências estrangeiras conseguiram destruir, pilhar e influenciar. Não que todos os problemas sejam exógenos, longe disso. Mas não é possível deixá-los de fora. Curiosamente, Bernard Lewis era um conselheiro da administração Bush, cuja intervenção no Médio Oriente - em especial no Iraque em 2003 - é ainda hoje um dos grandes motivos de ressentimento dos árabes em relação aos Estados Unidos, ao mesmo nível do apoio a Israel e dos golpes patrocinados pela CIA (como o de Mosadegh, no Irão em 1953).

O grande defeito do livro é começar pelo fim, ou seja, por ter uma conclusão definida à qual os dados teriam que encaixar. "O que correu mal?" já pressupõe que tudo correu mal, colocando no mesmo saco estados falhados como o Afeganistão, o Iraque ou a Líbia com alguns dos países mais ricos e seguros do mundo, como os Emirados Árabes Unidos, o Qatar ou o Kuwait. Para além disso, esse mesmo título podia ser utilizado para falar da ascensão e queda de todos os impérios, como o Britânico, o Françês, o Português ou o Japonês.

O mundo islâmico tem de facto um desafio enorme para adaptar muitos dos hábitos ocidentais sem colocar em causa as suas raizes religiosas e culturais. A velha discussão sobre modernidade vs ocidentalidade. É algo porque todos os povos são confrontados diariamente. Diferentes partes desse mundo islâmico trataram o assunto de forma diferente com soluções que passaram desde o secularismo total da Turquia, à semi-democracia teocrática do Irão, à teocracia monárquica da Arábia Saudita, dependendo das suas próprias experiências, dos seus recursos e das suas alianças com os grandes poderes dos mundo.

Posso não concordar com muitas das interpretações do livro, mas isso não altera o prazer que tive a lê-lo e o muito que aprendi sobre o passado e presente desta região.



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Guerra do Mundo

Escrito por um dos meus historiadores favoritos, "A Guerra do Mundo" é um livro sobre a história do ódio no século XX e sobre as vítimas que este causou, passando pelos pogroms, as guerras mundiais, os genocídios judaico, arménio, tutsi, entre outros. A lista de vilões é enorme e os seus actos dignos de alguns dos piores carniceiros de toda a história. Mas "A Guerra do Mundo", numa assumida associação ao livro de ficção de H.G.Wells, acaba por ter um problema grave de âmbito. Ao juntar eventos extremamente complexos como a segunda guerra mundial, a guerra fria, a guerra civil de Angola ou a guerra Russo-Japonesa de 1905, Ferguson acaba por não conseguir dar o detalhe necessário e as explicações necessárias para cada um dos temas.

Mas, não obstante as suas falhas, a "Guerra do Mundo" é um belíssimo livro que consegue captar o ocaso dos Impérios Europeus (Austro-Húngaro, Otomano, Russo, França e Reino Unido) as décadas de ascenção das novas super-potências (Estados Unidos da América e União Soviética) e o movimento de desafio do que poderiam ter sido os novos impérios do mundo (Alemanha, Itália e Japão). No fundo, o séc.XX acaba por ser analisado do ponto de vista da segunda guerra mundial, com 40 anos de precedentes (como o tratado de versailles, a ascenção das novas potências ou a grande depressao) e outros 40 de resultados (como as super-potências, as guerras de independência em África e na Ásia, o conselho de segurança das Nações Unidas ou as guerras do Afeganistão e Angola).

Niall Ferguson é também um verdadeiro comunicador, perfeito nos seus programas de televisão e brilhante na sua escrita. Os seus livros são fáceis de ler e agarram o leitor da primeira à última página. Mas devo dizer que os seus momentos mais espectaculares estão na defesa de realidades históricas alternativas, como no seu "Virtual History: Alternatives and Counterfactuals" de 2000, Esse será provavelmente o seu lado mais único, quando utiliza uma análise histórica para provar que muitas decisões e desfechos poderiam, com uma probabilidade razoável, ter sido bastante diferentes.

Conseguimos ver algum deste brilho em "A Guerra do Mundo", mas o livro peca por um final cada vez mais acelerado, onde os grandes eventos do fim do século, como a ascenção do radicalismo islâmico e os conflitos do Médio Oriente (que de facto tomaram o palco central da política e diplomacia internacional) a serem tratados de forma muito superficial.

Resumindo, um livro interessante e bem escrito que não exige conhecimento prévio especializado sobre os temas tratados e claramente direccionado ao grande público. Aconselho a sua leitura sem quaisquer reservas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Atacar para...?

O mesmo mundo que ignorou as centenas de milhares de mortos na Síria, na Ucrânia ou no Iraque prepara-se agora para corajosamente bombardear até à Idade da Pedra, essa enorme ameaça global que é o Estado Islâmico. Isto claro, sem colocar "botas no chão" não vá acontecer alguma desgraça. Para isto, uma coligação semi-formal de mais 50 países juntou-se a um grupo de outros ex/futuros inimigos que também lutam contra o EI, tais como a Síria de Bashar Al Assad (que ainda anteontem ia ser bombardeada pelos EUA e a França) ou o Irão dos Mullahs (que na semana passada era a maior ameaça à segurança mundial).

Não tenho dúvidas quanto ao nível medieval, fundamentalista e violento desse grupo terrorista e já aqui tive oportunidade de escrever bastante sobre o assunto, mas pergunto-me se esta intervenção trará algo de bom. Até compreendo a noção de que algo tem que ser feito, mas não vejo de que maneira o bombardeamento (que certamente arruinará a economia desse proto-estado e as suas capacidades militares convencionais) poderá levar a algo que não seja o entricheiramento dentro das enormes cidades que ocupam. Alguém acredita ser possível bombardeá-los para fora de uma cidade como Mosul, com quase dois milhões de habitantes sem colocar tropas no terreno ou causar enormes baixas civis "colaterais"?

Por outro lado, já vimos isto antes: as potências mundiais gastam milhares de milhões de dólares a destruir um país e depois não mostram grande capacidade de o reconstruir ou ajudar no processo de democratização de que tanto falaram inicialmente.

O mais curioso é que não existe melhor exemplo histórico de um conquistador conseguir tornar o conquistado em aliado do que os EUA no final da segunda guerra mundial, quando a Alemanha, Japão e Itália (entre outros), graças a uma ocupação benigna, processos judiciais relativamente limpos (como o Tribunal de Nuremberga) e um investimento massivo por parte do vencedor (o Plano Marshall), colocaram as três potências do Eixo entre os seus melhores amigos no pós-guerra. Ainda mais relevante será o facto de, muito rapidamente, se terem tornado em três super-economias altamente desenvolvidas, tecnologicamente avançadas e pacifistas, algo que nem Iraque, nem Afeganistão, nem Líbia se podem orgulhar.

Infelizmente, tudo indica que esta operação não passará do habitual das últimas décadas. As bombas vão cair e quanto mais tentarem erradicar os fundamentalistas mais vítimas civis provocarão. O Estado Islâmico vai cair enquanto entidade e provavelmente o seu líder será morto. Mas no seu lugar milhares de outros se levantarão dos escombros de um país arruinado e que se auto-convencerãi da perfídia dos americanos e da necessidade de se aproximarem do que acreditam ser o caminho do Profeta, do comunismo mais radical ou qualquer outra forma violenta alternativa.

Talvez existisse uma hipótese de se evitar este inesgotável ciclo de violência se fosse colocado tanto esforço na reconstrução e verdadeira democratização do país como certamente vai ser colocado no seu arrazamento.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Quem apoia o Hamas?

Se formos a acreditar nos que consistentemente apoiam toda e qualquer acção violenta do governo de Israel, toda a gente que mostre a mais pequena dúvida em relação à violência de Israel parece ser um apoiante fanático do Hamas. Afinal de contas, só mesmo um militante fundamentalista islâmico é que alguma vez se poderia emocionar com o sofrimento das crianças de Gaza. Alguém mais "humanista", como um comentador de um dos meus recentes artigos diz que "não choro nem um pouco a morte de um terrorista, mesmo que ele tenha 5 anos de idade". 

O nível de desumanidade que tenho encontrado nas caixas de comentários deste blogue tem-me ajudado a abrir os olhos em relação a um fenómeno estranhíssimo: o nível de violência que a generalidade das pessoas apoiam. Quer os que defendem Israel quer os que defendem a Palestina. É comum ver gente a desejar a morte de todos os Judeus, tanto como ver outros a clamarem pela homicídio de todos os Muçulmanos. Nunca quis acreditar que de um lado e doutro as principais motivações sejam algum tipo de instintos primários de anti-semitismo e islamofobia, mas talvez tenha que rever isso um destes dias.

Já aqui escrevi várias vezes sobre o Hamas, mas como alguns leitores insistem em acusar-me de apoiar o Hamas, aqui vai o que eu penso deles: O Hamas é uma organização terrorista. A sua legitimidade democrática (uma vez que ganharam as últimas eleições livres da Palestina) não altera o facto de utilizar tácticas terroristas, ou seja, é um grupo terrorista que não soube dar o salto para ser um partido político de pleno direito, como aconteceu a muitos outros movimentos terroristas espalhados pelo mundo. A execução sumária de várias pessoas acusadas de espiarem para Israel nos últimos meses, sem qualquer julgamento ou oportunidade de provar a sua inocência mostra o total desrespeito pelos mais básicos conceitos de justiça. Também não tenho dúvidas de que a ascensão do Hamas é o resultado directo da incompetência e corrupção da Fatah, o partido de Yasser Arafat, assim como da política de violência indiscriminada de Israel que resultou na primeira intifada.


Shimon Peres e Mahmoud Abbas
O Hamas cresce por cada nova guerra com Israel. Para o mundo árabe, a sua legitimidade enquanto único poder em todo o mundo islâmico que ainda luta contra Israel torna-o especial aos olhos da população árabe e muçulmana. Noutras ocasiões, foi o Hizbullah que conseguiu esse tipo de unanimidade, mas logo a seguir a 2006, quando teve o seu pico de popularidade, a sua energia vem-se perdendo e vê-se agora envolvido na guerra civil Síria do lado do exército de Bashar Al Assad, ou seja, a lutar contra os muçulmanos Sunitas quer moderados quer fundamentalistas. 

Pelo contrário, a Fatah e o seu líder Mahmoud Abbas, vão perdendo apoio enquanto mantém a difícil tarefa de controlar a sua população nestas alturas difíceis em que os palestinianos vêm o seu povo a ser bombardeado em Gaza. São obviamente vistos como colaboracionistas e como fracos, e quando a sua política de apaziguamento é traída pelo anúncio de novos colonatos israelitas na Cisjordânia, onde meio milhão de judeus já se encontram em colonatos ilegais, a sua legitimidade cai por terra.

Se o Hamas beneficia politicamente de cada nova guerra, que é que dá ao Hamas essa oportunidade a cada par de anos senão Israel? Talvez pudesse ser apenas por estupidez e incompetência. Afinal de contas, logo nos primeiros dias de guerra já dava para saber que o Hamas sairia politicamente vitorioso e que o governo de Israel sairia derrotado

Agora lemos os jornais israelitas a atirarem em cima de Benjamin Netanyahu[1], que já teve que despedir um dos seus ministros[2], enquanto do outro lado do muro as sondagens dão agora vitória ao Hamas numa eventual eleição palestiniana[3] algo que não surpreenderá quem viu a festa espontânea feita em Gaza assim que o cessar-fogo foi anunciado.

Se eu, que não tenho qualquer experiência política consegui facilmente e sem quaisquer dúvidas prever este desfecho como é que Netanyahu e o seu governo não o conseguiram? Provavelmente não será estupidez ou incompetência, apenas algum aventureirismo e uma continuação da famosa política de "corte de relva", ou seja, Israel não pretende resolver problema nenhum, apenas manter o status quo, impedir a criação do estado palestiniano, manter o Hamas politicamente forte e militarmente fraco e a Fatah comprometida e desacreditada enquanto lhe vai roubando território, um colonato de cada vez.

Quem apoia o Hamas? Eu não sou de certeza. Israel, a avaliar pelos seus actos, talvez...  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Contra o boicote a Israel

Victoria's Secrets é uma das empresas alvo da campanha
de BDS (Boycott, divestment and sactions)
Sou extremamente crítico da governação de Israel e a forma como lida com a questão palestiniana. O cerco a Gaza, a ocupação da Cisjordânia e o estado de apartheid que o os israelitas não judeus vivem em Israel são crimes contra a humanidade que deviam envergonhar todos os israelitas. Isso não faz dos seus inimigos uns santos nem dos seus vizinhos meras vítimas, mas cada um é culpado dos seus próprios pecados, e a conta de Israel não é pequena.

Dada a minha opinião sobre Israel e uma vez que vou publicando diferentes aspectos e detalhes desta nest blogue, recebo regularmente petições e emails para dar o meu apoio a um boicote económico a Israel. Isto significa penalizar as marcas que têm fábricas em Israel ou que têm lá as suas origens. Nos habituais alvos a abater estão a Victoria's Secrets, a Hewlett Packard[1], Motorola[2].


Tirando o fim das ajudas militares, sou absolutamente contra o isolamento comercial de Israel. Tenho a certeza que isso só tornaria o problema muito pior. Sou aliás, regra geral, contra esse tipo de sanções económicas.

Olhemos para outros países que sofreram embargos nas últimas décadas e veremos que todos sofreram imensamente, mas nenhum se tornou militarmente mais fraco, menos violento com a sua população ou mais cumpridor dos direitos humanos. Regra geral, uniram-se à volta dos seus líderes e aumentaram os seus níveis de ódio pelos estrangeiros que tantos danos causaram ao país. Os civis desses países sofrem, mas as suas elites e regimes não. Um tipo de pena colectiva que causa danos em todos menos naqueles que seriam eventualmente os alvos legítimos.
Cuba... hoje!

Em Cuba, meio século de embargo americano não ajudou o regime a cair. O país é pobre, mas aprendeu a não depender do exterior, em especial depois da queda da União Soviética. Julgou-se que nessa altura não haveria futuro para Cuba, mas 25 anos depois o regime não caiu.

Na Coreia do Norte - o mais opressivo de todos os regimes à face da terra - um isolamento quase total a qualquer influência exterior tornou o país paupérrimo mas com um exército monstruoso e aparentemente bem treinado e fanático. A sua tecnologia nuclear e de mísseis é real e um perigo para a humanidade. Em tudo o resto, é pior do que a maioria dos países do terceiro mundo. Mais uma vez, um povo em sofrimento com uma elite e um poder militar capazes de causar terror na região.


Teerão (Irão)
No Irão, 35 anos de sanções e isolamento tornaram uma economia totalmente dependente do petróleo numa economia altamente diversificada. Mesmo quando invadidos pelo Iraque de Saddam Hussein numa das mais violentas guerras que o Médio Oriente já vira e onde o Iraque era apoiado pelas Monarquias do Golfo e pelo Ocidente, o regime não tremeu.

No Iraque, entre 1990 e 2003, o embargo comercial (que incluia produtos médicos e farmaceuticos) foi de tal forma violento que a UNICEF estima que meio milhão de crianças com menos de 5 anos terão morrido à conta deste. O regime, mesmo depois de perder duas guerras e de um quase total isolamento não caiu até à invasão americana de 2003.

Em todos os casos, a população sofreu, mas por si só as sanções económicas e o isolamento não alteraram o rumo político. Pelo menos para melhor. Se hoje em dia quer Israel quer a Palestina estão verdadeiramente preocupados com o que pensa a opinião pública mundial é precisamente porque ambos estão bastante dependentes dela. O isolamento só beneficiará os fanáticos de ambos os lados.

Estou aliás convencido que este problema israelo-palestiniano só se resolve quando tivermos uma combinação de dois factores: (1) absoluta dependência económica de ambos aos EUA e (2) um Presidente americano que os force a chegarem a um compromisso debaixo da ameaça directa de retenção dos fundos. Nessa altura, cada vez que um F-16 israelita atacar Gaza, os fundos ficam retidos mais um mês ou dois. Cada vez que o Hamas lançar um rocket, o dinheiro essencial para pagar os seus funcionários públicos não chega a tempo. Claro que não será fácil para um Presidente conseguir isso e manter a coragem para a fazer cumprir, mas não vejo outra solução.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A importância do conflito Israelo-Palestiniano

Porque é a questão Israelo-Palestiniana tão importante? O que faz com que pessoas de todo o mundo discutam com tanto pormenor, tantos detalhes históricos, tantas emoções, amor e ódio um assunto que - em muitos sentidos - não é diferente de tantos outros que assolam o mundo? Porque motivo não discutimos todos o problema da Coreia do Norte, a Chechénia ou a Transnístria? Qual a razão para um genocídio no Rwanda, onde centenas de milhares de pessoas morreram de forma selvagem, ter acontecido sem que o mundo mostrasse qualquer preocupação?

Estas não são perguntas retóricas e desafio aqui os meus leitores a darem as suas próprias respostas. 

Não queria focar-me demasiado nos méritos de cada um dos campos, mas na questão da importância que é dada ao conflito. Foi-me dito por um diplomata em Jerusalém que, a qualquer momento existem 600 correspondentes estrangeiros em Israel. Ou seja, sem contar com os que chegam durante os períodos de guerra, em tempo de paz, esta pequena cidade terá provavelmente mais atenção mediática do que metade dos países de África juntos. A questão da importância é utilizada também por uma parte da imprensa pró-Israel para mostrar que por detrás de qualquer crítica a Israel poderá estar um primário anti-semitismo, e não uma questão de direitos humanos, como defende a esquerda.
Manifestação Pró-Palestiniana em Sidney, Australia

Ronald S. Lauder, presidente do World Jewish Congress escreve um artigo para o New York Times (republicado n'O Observador[1]) que, a determinada altura, pega nessa questão dizendo que "Na Europa e nos Estados Unidos, assistimos a manifestações contra as mortes trágicas de palestinianos, utilizados como escudos humanos pelo Hamas, a organização terrorista que controla Gaza. As Nações Unidas conduziram inquéritos e focam a sua raiva em Israel por se defender contra essa mesma organização terrorista. No entanto, o massacre bárbaro de milhares e milhares de cristãos é visto com relativa indiferença." João Marques de Almeida, também n'O Observador[2] questiona "Muitos interrogam-se, com alguma surpresa, por que razão há tantas manifestações contra Israel cada vez que o seu governo usa a força militar para se defender de ataques dos seus vizinhos. E a surpresa aumenta quando se fazem comparações. Alguém viu manifestantes na Embaixada da Síria quando o seu governo matou (e mata) milhares de cidadãos sírios? Não."

O argumento é interessante. Basicamente, quem critica o governo de Israel pelo seu comportamente é anti-semita, caso contrário não estaria a olhar para Israel, mas sim para o Irão, Síria ou Arábia Saudita. Interessante, mas sem mérito. É semelhante a ter um violador que está escandalizado com a sua prisão porque existem pedófilos no mundo. Quanto defendido pelos apoiantes de Israel, este não é um argumento legítimo que se use um crime de terceiros para limpar os seus próprios crimes. Mas eu não apoiei nenhuma das agressões de Israel, e preocupo-me com um possível crescimento do anti-semitismo (e da islamofobia), por isso o assunto interessa-me.

Por outro lado, esta ideia é tão generalizada que convém compreender mesmo qual o verdadeiro motivo (ou combinação de motivos) porque tanta gente se interessa por esta assunto. 

Religião
Jerusalém

Este deveria ser relativamente óbvio para quem já se passeou por Jerusalém ou conheça minimamente a história da região. Num espaço de um ou dois quilómetros quadrados temos alguns dos lugares sagrados dos Judaísmo, Cristianismo e Islão. Em alguns casos, os lugares santos praticamente atropelam-se, como no Muro das Lamentações e a Mesquita de Al Aqsa, sendo que a Igreja do Santo Sepúlcro fica a apenas uns minutos a pé. Para todos os crentes das três religiões monoteístas, existe um interesse natural em tudo o que rodeie esta cidade santa, assim como outras terras bíblicas que a rodeiam, como Bethlehem (Belém), Hebron ou o Rio Jordão. Não poderá no entanto esta ser a única explicação. Afinal de contas, uma grande parte da esquerda e direita seculares levam este conflito muito a sério sem qualquer interesse no seu lado religioso. 

Holocausto
Entrada para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polónia

A vergonha do genocídio cometido nos anos 30 e 40 na Europa sobre os Judeus é, na minha opinião, outro das questões que torna este assunto tão próximo dos Europeus e Americanos. Na Europa, subsiste um sentimento de culpa muito real e vivo devido ao Holocausto, que fica patente quando vemos a proximidade da Alemanha a Israel[3], amizade que só é superada pelos Estados Unidos da América. Mas, obviamente, a Alemanha está longe de ter sido a única culpada da Shoah. França, Itália, Áustria, Holanda, Bélgica, Polónia, Ucrânia, Croácia e muitos outros foram ajudantes preciosos ou até voluntários nas perseguições e homicídios em massa. Para muitos governos, o risco de serem acusados de anti-semitismo é demasiado sério para poderem fazer a mais pequena crítica e a sobrevivência e progresso de Israel acabam por se tornar uma responsabilidade nacional.

Por outro lado, Israel utiliza a memória destes crimes como grande factor de união de todos os Judeus. Arrisco-me a dizer que nas últimas décadas, o Holocausto é a verdadeira raison d'être deste povo, da mesma forma que a Nakba se tornou o verdadeiro ponto fulcral da identidade Palestiniana. 

Propaganda


Há muito que Israel aprendeu as técnicas modernas de propaganda. Utiliza a sua influência junto do Congresso norte-americano através dos seus poderosos lóbis, como a AIPAC ou o World Jewish Congress[4]. A sua máquina dentro e fora do país está afinada para uma audiência global e utilizam todos os trunfos que têm com a qualidade de uma grande agência de marketing. Nesta última guerra, algumas das catch phrases utilizadas eram de grande nível e conseguiam passar imagens muitos simples e fortes tais como "nós usamos sistemas anti-mísseis para proteger os nossos civis, eles usam os seus civis para proteger os seus mísseis. É essa a diferença". Num ou noutro caso, o excesso de simplismo foi tal que destruíu a mensagem, como aconteceu quando quiseram convencer em Assembleia Geral das Nações Unidas que o Irão estava a um par de meses de conseguir a bomba atómica usando um desenho que parecia tirado dos cartoon do coiote. Mas em geral, Israel sabe bem passar a mensagem, fá-lo de forma massiva, cuidada e repetitiva, como deve ser uma propaganda eficaz.

Mas se só um lado soubesse passar a mensagem, não estaríamos todos permanentemente a discutir as origens, soluções e personagens do conflito. Durante muito tempo, os palestinianos não tiveram voz fora do mundo árabe. A ocupação acontecia sem demasiados envolvimentos do resto do mundo, não obstante a azia sentida por muitas capitais do Médio Oriente. Existiram 3 factores que modificaram tudo isto: Arafat, a crise de 73 e a primeira intifada. Separados no tempo, mas visivelmente cumulativos colocaram a questão Palestiniana nas primeiras páginas de todo o mundo. 

Yasser Arafat[5], histórico líder palestiniano, foi o primeiro homem a conseguir unir os árabes entre o rio Jordão e o mar. Com uma mistura de mitos, actos de coragem, muito desespero e um toque de ingenuidade, Arafat manteve a sua luta viva. Percorreu capitais, correu atrás da Internacional Socialistas, tentou derrubar governos e aliou-se a tudo e todos que lhe dessem uma palavra de apoio. Segundo Robert Fisk[6], talvez o mais destacado reporter de guerra do Médio Oriente, Arafat tinha ainda uma característica interessante: sempre que chegava algum diplomata internacional ou líder político, ele dava muito mais atenção aos media presentes do que à figura propriamente dita. Com todos os seus defeitos, ele soube desde cedo que as hipóteses do seu povo não estavam numa guerra mas na opinião pública. Em paralelo, não hesitou em utilizar directa ou indirectamente (através da PFLP[7], DFLP[8] entre outras) actos de terrorismo. As técnicas mudaram com os tempos, mas estiveram quase sempre presentes, passando por ataques bombistas, pirataria aérea, bombistas suicidas, etc. O terrorismo foi, enquanto instrumento de propaganda, utilizado extensivamente por Arafat e a sua Organização para a Libertação da Palestina (PLO). Depois do 11 de Setembro de 2001, todo o modelo teve que ser revisto de forma a não ficaram associados a Bin Laden e a sua Al Qaeda.

A crise de 1973 é interessante porque é a primeira vez que o mundo árabe se consegue unir pela causa palestiniana. Este artigo ameaça tornar-se longo, por isso prometo escrever um destes dias só sobre a ligação entre a derrota Árabe de 1967, a derrota (política senão militar) de Israel em 1973 e a primeira das grandes crises petrolíferas. De qualquer forma, é inegável que quando a OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) quadríplicou os preços do petróleo devido à ajuda militar de 2,2 mil milhões de dólares que os Estados Unidos se preparavam para dar (e deram), o problema da Palestina passou a ser um problema do mundo. Embora com o passar das décadas este factor (o de uma unidade árabe temporária) se tenha diluido, foi determinante nos anos 70 para - em conjunto com os ataques terroristas - colocar a história da Palestina nas bocas do mundo.

O terceiro momento - e que será provavelmente o mais decisivo em termos de propaganda - foi a primeira intifada. Este levantamento popular espontâneo apanhou de surpresa as lideranças palestinianas e israelitas. Uma espécie de precursor da Primavera Árabe, uma população não politizada farta da ocupação, dos jogos de bastidores, das promessas de ajuda árabe e da indiferença das grandes potências do mundo lançou-se à rua e desafiou os tanques munidos apenas de pedras. As imagens que o mundo viu mudaram a imagem que este tinha da Palestina, e de Israel. Imagem após imagem, Israel deixou de ser o David para ser o Golias. Um mundo horrorizou-se com o à vontade com que o então Primeiro-Ministro de Israel - Yitzhak Rabin - anuncia que o problema será resolvido com espancamentos generalizados. Desde então, o comportamento de Israel vem sendo escrutinado cada vez mais de perto o que o leva a um progressivo isolamento. É um situação recorrente que já aconteceu noutros lugares do mundo. Timor-Leste, antiga colónia portuguesa e com enormes ligações emocionais e históricas a Portugal, sofreu uma ocupação brutal da Indonésia durante décadas até ao dia em que o mundo viu as imagens do Massacre de Santa Cruz[9]. Demorou mais uma década até a ocupação indonésia acabar, mas desde que as imagens foram mostradas ao mundo que o seu destino estava traçado. Um a um, os líderes mundiais afastaram-se do governo de Suharto e deixaram de considerar a resistência timorense como terrorista. Mas Israel não é a Indonésia e a sua ocupação é muito diferente. Israel não veio para ocupar militarmente mas para criar um país. Para colonizar como se fosse território virgem. Para além de que não tem para onde recuar. Mas, à semelhança da Indonésia, viu a força das imagens de civis mortos pelo seu poderoso exército a retirarem-lhes legitimidade política. Desde a primeira intifada que Israel vem perdendo a sua aura aos olhos do público mundial. Embora espontâneo e imprevisivel, a intifada foi - de longe - o maior golpe de propaganda a favor da causa palestiniana.  

Existe um outro factor (mais lateral, mas bastante curioso) ligado à propaganda que é o ciclo vicioso da informação. Tal como referi anteriormente, um diplomata português na Palestina disse-me em 2011 que, em qualquer período de paz estão em Jerusalém pelo menos 600 correspondentes internacionais. Todos esses jornalistas precisam de justificar o seu salário, o que significa que subitamente, um ataque de pequena dimensão espontâneo, como aconteceu em 2008 com duas vítimas mortais[10] ou a petição do direito de residência de uma família[11] conseguem provocar directos nas maiores televisões de notícias do mundo. Muitos outros lugares do mundo são vítimas de enormes atrocidades, muitas vezes maiores, mas que não está lá ninguém para contar a história.

Refugiados

A questão da Palestina, ou de Israel se preferirem está também intimamente ligada com a questão dos refugiados de 1948, ou seja, a guerra da independência de Israel e 1967. Não pretendo aqui entrar em grande detalhe sobre o que causou os refugiados e os seus impactos, uma vez que já o fiz noutras ocasiões (nomeadamente no post Palestina e os Refugiados e The Ethnic Cleansing of Palestine).

Campo de Refugiados Palestinianos 1948
No que diz respeito à questão da importância do conflito para o resto do mundo, a falta de integração das populações refugiadas da Palestina é um dos seus grandes motivos. Nascidos no Líbano, mas sem passaporte libanês mesmo depois de duas ou três gerações. Nascidos na Síria, mas sem serem sírios. Por todo o Médio Oriente encontro pessoas que se dizem palestinianos, nascidos noutro país e que não têm passaporte. Apenas um documento de refugiados das Nações Unidas. Estas populações, tratadas como cidadãos de segunda em muitos outros países árabes revoltaram-se vezes sem conta tendo causado duas guerras civis (Jordânia e Líbano) e envolvidos em problemas de várias outras. Isto faz com que o problema se mantenha vivo ao longo de gerações.

Para os países que rodeiam Israel e Palestina, este é sem dúvida um factores cruciais para a importância do conflito.

Lóbis
Congresso EUA

Quer Israel, quer a Palestiniana estão totalmente dependentes das ajudas externas. Embora com um potencial turístico fabuloso (não só a religioso, mas também um clima perfeito), inseridos numa região cuja riqueza do petróleo lhes poderia permitir ter enormes investimentos externos e uma multiculturalidade singular, a verdade é que nenhum dos países se aguenta sozinho. Israel recebe ajudas directas americanas anuais de milhares de milhões de dólares, para além de várias ajudas indirectas ao nível militar, científico, académico e económico. A sua economia está excessivamente militarizada, com um programa nuclear de custos incertos, serviço militar obrigatório de longa duração para homens e mulheres, armamento de todo o tipo a ser desenvolvido e produzido internamente (como os tanques Merkava) e constantes guerras que, não obstante o apoio quase total da população judaica, têm um preço elevado em termos de gastos do estado (Netanyahu propôs recentemente cortes de 425 milhões de euros para pagar os 50 dias da operação em Gaza[12]).

Desta forma, Israel utiliza os seus lóbis nos EUA e no resto do ocidente[13] para manter o país na agenda política. Enquanto existir no poder americano uma visão clara de que Israel está debaixo de um perigo de vida - e simultaneamente que os apoios financeiros às campanhas dos congressistas e senadores estão dependentes do dinheiro desses lóbis - as ajudas vão continuar a pingar.

A Palestina não tem um lóbi muito forte, mas uma coligação de forças unem-se em seu auxílio e tem ganho força a cada ano que passa (muito devido à percepção de que o moral high ground de Israel se desvanece por cada civil que morre em Gaza nas suas regulares guerras). Sendo a generalidade dos governos e políticas de Israel associadas à direita, a esquerda mundial - em especial a europeia e sul-americana - juntam-se à causa. Isto inclúi vários países com economias enormes, como o Brasil, a França ou a Itália. Com mil milhões de muçulmanos no mundo, incluindo os maiores produtores de petróleo, a generalidade dos seguidores do Islão - sejam eles seculares, moderados, conservadores ou fundamentalistas - encontram-se sempre na linha da frente dos protestos, embora não tenha existido nunca um movimento de militância estrangeira em larga escala (como aconteceu com os mujahedin no Afeganistão ou com Islamic State na Síria e Iraque).

Anti-Semitismo e Islamofobia


Para muitos, este seria o único e verdadeiro motivo que tudo explicaria. Para quem apoia Israel, todos os seus adversários serão anti-semitas. Para quem apoia a Palestina, todos os seus adversários são islamófobos. 

Pelo que vejo nas caixas de comentários deste blogue e na sua página irmã do facebook, até poderia ser verdade. Talvez tudo se resumisse a estes tipos de discriminações racistas. Mas, sinceramente, duvido. Parece-me que mesmo muitos dos que fazem esses tipos de comentários, estão-se a deixar levar por generalizações perigosas e erradas, mas que estas são resultados dos factos de que falei antes e não a sua consequência. Claro que depois de transformadas em dogmas, estas ideias costumam ser tão fortes que ignoram factos e qualquer evento pode ser deturpado até significar precisamente o contrário do que de facto aconteceu. Mas quero acreditar que as esmagadora maioria das pessoas escolhe o seu lado convencida dos méritos do que lhe está a ser vendido.

E agora... a palavra aos meus leitores. Qual é a importância do conflito Israelo-Palestiniano?