sexta-feira, 1 de maio de 2015

Que esperança para o Médio Oriente?

Iraque, Síria, Líbia e Iémen em guerra civil. Arábia Saudita e os seus aliados do GCC (Gulf Cooperation Council) envolvidos em cada uma destas guerras. Irão enredado com os Houthis no Iémen, com os pés no Iraque, ligado ao Hizbullah libanês (que por sua vez opera com Assad na Síria) e cada vez mais uma peça fundamental no geograficamente limitado governo shiita de Bagdad. O Estado Islâmico controla milhões de civis e territórios extensos e segue parcialmente o estilo franchising da Al Qaeda, com inúmeros grupos e grupelhos a aliarem-se à causa, desde hackers europeus, ex-Al Qaedas no Iémen, Boko Harams na Nigéria e tribos líbias e iraquianas. Em nenhum destes sítios a paz, a democracia ou os direitos humanos fizeram progressos significativos. Pelo contrário, quando algo se alterou, foi para pior.

Em Israel e na Palestina, mantém-se o status quo, com os três actores principais (governo de Israel, Fatah e Hamas) a degradarem-se e digladiarem-se numa guerra semi-fria sem fim à vista. Nada a esperar senão a continuação da divisão palestiniana e as cíclicas guerras sobre Gaza, invasões da Cisjordânia e rockets atirados sobre os civis israelitas.

No Egipto, uma junta militar ilegalizou a Irmandade Muçulmana, prendeu o Presidente da República e elegeu um novo presidente com metade da população sem representação política. As detenções são às dezenas de milhares e as penas de morte aos milhares. Com grande pena minha, a única questão que coloco é quando começará a guerra civil no Egipto. Mesmo com os biliões de dólares que lá estão a ser injectados pelos Estados Unidos, pela Europa e pelas monarquias do Golfo, não tenho grande esperança. Assim que os ventos da economia mudarem, descobriremos que os milhões que votaram em Morsi ainda lá estarão, desta vez provavelmente armados e desiludidos com qualquer tipo de processo democrático.


Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud
Na Arábia Saudita, o recém chegado Rei Salman deserdou o príncipe herdeiro e fez descer uma geração no cargo, sendo o novo príncipe Muhammad bin Nayef - seu sobrinho, e o terceiro em linha o seu próprio filho, Muhammad bin Salman. O histórico príncipe Saud al Faisal, o poderoso ministro dos negócios estrangeiros durante 40 anos, é também uma alteração radical que não pode ser desprezada. O seu nome - e o seu poder - é uma constante em todos estes livros que vamos falando neste espaço. Estas mudanças recentes ainda não estabilizaram totalmente e esperamos para ver como o país e a numerosa família real lida com a situação. Há muito pouco de bom a dizer sobre a Arábia Saudita (em especial no que toca a direitos humanos no seu próprio país), mas se existe um factor que vale a pena mencionar é a sua estabilidade. Questionam-se muitos se, envolvidos em guerras no Iémen, Síria, Iraque e Líbia - todas com poucas esperança de sucesso - e uma passagem de testemunho atabalhoada onde muitos príncipes (literalmente filhos de antigos reis) acabaram de ser atirados para segundo plano, não terá essa estabilidade chegado ao fim. Para compreendermos melhor esta última frase, devo relembrar que os últimos seis reis da Arábia Saudita eram irmãos, todos filhos do fundador do país, Abdulaziz Ibn Saud.

Alguns países têm-se conseguido manter mais ou menos fora do pior da confusão, como a Jordânia, o Líbano e a Tunísia. No entanto, os dois primeiros recebem milhões de refugiados e estão a rebentar pelas costuras sem capacidade para tamanha imigração. O Líbano, já de si uma manta de retalhos de religiões e etnias com o mais peculiar de todos os sistemas supostamente democráticos do mundo, conta agora com 25% da população vinda da Síria. Para um país que nunca conseguiu recuperar totalmente da Naqba palestiniana em 1948 e dos refugiados de 1967, não é difícil imaginar que o pior ainda está para vir. A Jordânia mantém-se na sua inesperada paz, com o apoio ocidental e paz com Israel, mas cuja liderança relativamente iluminada não deve esconder o facto de que continua a estar muito longe de ser um país livre. Mas sobreviveu ao pior e ainda não perdi a esperança neste país sem grande passado mas ao qual o futuro ainda poderá reservar um lugar interessante.


Tataouine, Tunisia
Por fim, a Tunísia, o único local realmente merecedor de verdadeira esperança para o Médio Oriente (embora tecnicamente já estejam bem longe do Médio Oriente propriamente dito). O processo democrático tem-se aprofundado, com os partidos a aceitarem a alternância e sem a habitual utilização das forças de sergurança e serviços secretos para liquidarem a oposição. O Estado Islâmico já mostrou interesse na região, mas a situação está longe de perdida. Enquanto europeu, gostava muito de ver a União Europeia a financiar tanto quanto possível o desenvolvimento do país, sempre com os direitos humanos e políticos como moeda de troca. A democracia não sobrevive se não existir progresso, ordem e liberdade (só faltou esta última na bandeira verde e amarela).

Temo que grande parte do Médio Oriente piorará muito nos próximos anos, antes de começar a melhorar. Talvez um sucesso democrático na Tunísia possa iluminar o caminho para os restantes, mais uma vez. Durante o último ano, pouco temos ouvido da Tunísia. Pas de nouvelle, bonnes nouvelles? 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Diamantes de Sangue

Angola não costuma ser um tema habitual neste blogue. Embora seja um país que muito me interesse e que, como todos os portugueses, esteja bem próximo não é um assunto onde eu sinta que posso acrescentar muito. Mas felizmente há outros cujo conhecimento do terreno, longo historial na luta pelos direitos humanos e a devida preparação prática e teórica o podem fazer muito melhor. E no que toca a Angola, Rafael Marques é o nome inevitável. 

Presentemente, este corajoso jornalista encontra-se a lutar pela liberdade nos tribunais de Angola depois de os generais visados neste livro "Diamantes de Sangue" o terem processado por difamação, entre outras acusações que ainda não estão muito claras.

O livro foi entretanto gentilmente oferecido pela sua editora em Portugal, a Tintas da China, e disponível para download no blogue do autor[1]

É uma leitura complicada. Os repetitivos testemunhos de homicídio, tortura, escravatura, rapto, roubo e todo o tipo de abusos cometidos pelas Forças Armadas Angolanas e pela empresa de segurança privada Teleservice, são de uma escala inimaginável nos dias de hoje. Muito sinceramente, as descrições pareciam retiradas de algo escrito no século XVIII, quando o mundo ainda considerava que a escravidão era algo natural. Não foi surpresa para mim saber que os angolanos sofrem às mãos de um dos mais corruptos governos século XXI. Todos os amigos e família que vivem ou viveram em Angola nos últimos anos trazem testemunhos mais ou menos semelhantes, mas mesmo isso não me preparou para as centenas de vítimas de abusos de um nível bárbaro e sanguinário.

Em alguns momentos do livro pensei que havia algo que faltava no livro. Não existia uma relação directa, um testemunho real de que os generais - que são donos e representantes públicos dessas empresas e organismos que controlam a indústria diamantífera - sabiam do que lá se estava a passar. Mas essas dúvidas dissipam-se quando vemos a reacção destes militares e do regime de José Eduardo dos Santos a este mesmo livro. Em vez de agirem de forma inequívoca para acabarem com o que é nada menos do que uma vergonha nacional e um atentado aos direitos humanos de proporções dantescas, preferiram atacar o escritor. E isso, diz muito.

sábado, 28 de março de 2015

Iémen, a caminho do abismo

Muitos recordarão com saudades os tempos em que o Iémen era apenas o mais pobre dos países da península arábica. Quando o medo constante da Al Qaeda, os eventuais ataques de drones americanos, a violência dos serviços de segurança e a falta de liberdade política aterrorizavam o país. Tirando as ocasionais referencias em algumas publicações especializadas no Médio Oriente e o comovente e assustador livro "Divorciada aos 10 anos" de Nojoud Ali e Delphine Minoui, este país esteve nas últimas décadas praticamente esquecido do mundo. Para todos os efeitos, o Iémen esteve sempre mais longe das esplendorosas monarquias do Golfo do que New York ou Tokyo.

Mesmo nos inúmeros livros sobre o Médio Oriente e o seu turbulento século XX, este país poucas menções recebe para além de ter sido o campo de batalha no jogo de forças entre a Arábia Saudita e o Egipto de Nasser. Guerra que dividiu o Iémen nos anos 60 e que foi para o mediático presidente egípcio o que o Vietname foi para os Estados Unidos.

Durante a Primavera Árabe, vimos a população Iemenita a reagir de forma semelhante a tantos outras por toda a região. Nas ruas exigiram democracia e liberdade e um futuro sem ditadores sanguinários. Mas como em muitos outros países, da Primavera saltou-se rapidamente para o Outono e, antes que alguém se apercebesse estávamos no pico do Inverno.

Até há pouco tempo, quem imaginaria os Houthis a tomarem a capital Sanaa? A verdade é que ninguém, mesmo estando estes associados ao Irão e já tendo iniciado várias revoluções na última década. Sabíamos que a AQAP (Al Qaeda da Península Arábica) esteve sempre activa em várias partes do Iémen, onde colocava pressão numa desconfortável Arábia Saudita e nos Estados Unidos que controlavam a zona com bombardeamentos de drones. Também era conhecido que a queda do ditador Ali Abdullah Saleh tinha destruído o fraco equilíbrio do país. Mesmo assim, é sabido que os Houthis não têm capacidade (nem representação na população) para conseguir manter o país inteiro debaixo do seu braço por isso teria que existir algum tipo de acordo de partilha de poder, mas os acontecimentos do último fim de semana poderão ter alterado tudo.

No dia 20 de Março, ataques bombistas em duas mesquitas Shiitas (ou seja, ligadas aos Houthi) mataram 142 pessoas e feriram mais 351. O terrível ataque, que inicialmente se pensou ser um acto da AQAP foi assumido pelo Estado Islâmico (ISIS/ISIL), uma surpresa já que até então o EI não tinha mostrado os seus tentáculos nesta região. O modus operandi apontaria para AQAP, mas a própria Al Qaeda se distanciou do ataque.

A entrada deste novo actor e a ascenção do governo alternativo do Presidente Hadi na cidade portuária de Aden (que chegou a estar preso pelos Houthis na capital Sanaa, mas de onde conseguiu fugir entretanto), levaram a um novo avanço dos Houthi em direcção a Aden.

Um par de notícias chamou-me particularmente à atenção nos dias que se seguiram. Primeiro de que o chefe de estado Abedrabbo Mansour Hadi estaria novamente em fuga e já não se encontraria em Aden. Dadas as circunstâncias, uma decisão compreensivel já que provavelmente não conseguiria escapar-se novamente caso caisse nas mãos dos novos senhores do Iémen. A segunda, que me pareceu bastante mais inesperada foi a de que Aden estava a ser bombardeada pelos Houthis. Especificamente, o BBC World Service referia-se a jactos lançando bombas na zona do palácio onde o governo alternativo teria sede. 

Mas quantas vezes vimos uma força rebelde com uma força aérea? Mesmo o Estado Islâmico, que conseguiu conquistar inúmeros aeródromos e aeroportos militares, capturou aviões e jactos mas nunca conseguiu fazer operações aéreas. Afinal de contas, é preciso muito mais do que aviões. São necessários pilotos, técnicos, controladores aéroes e engenheiros assim como fuel, óleos e todo o tipo de partes específicas para as aeronaves. Claramente, não é a mesma coisa que capturar uns Humvees ou umas AK-47. 

A resposta acabou por aparecer em outros serviços noticiosos, onde era dito que forças leais ao antigo ditador Saleh estariam a lutar ao lado dos Houthi. Não é fácil sabermos quem exactamente estará incluido mas podemos estar a falar de muito mais do que um pequeno contingente da força aérea.

Por fim, a Arábia Saudita, com o apoio de outros 9 países árabes que incluem algumas potências regionais (como os Emirados, Qatar, Egipto e Paquistão) iniciaram o que chamam de bombardeamentos cirúrgicos (onde é que eu já ouvi isto?) dentro do Iémen, numa coligação apoiada politicamente pelos Estados Unidos e onde a hipótese de uma invasão terrestre está claramente na mesa. A liderança saudita já informou que estaria pronta para incluir uma força de 150.000 militares e mais de 100 aviões de combate na operação.

A operação é resultado de um pedido explícito de ajuda do Presidente eleito Hadi, em Aden, o que lhe dá alguma validade moral, mas o facto é que quando o país for destruído até voltar à idade da pedra já ninguém se lembrará disso. Ou não foi a invasão soviética do Afeganistão também o resultado de um pedido de ajuda?