segunda-feira, 3 de agosto de 2015

1942 - O Brasil e a sua guerra quase desconhecida

É relativamente comum encontrar livros de que não gosto pela sua forma ou pelas suas opiniões, mas não é habitual encontrar um livro com tantos erros históricos. Tantos, que inevitavelmente colocamos em dúvida tudo o que de novo encontramos no livro. 

Escrito por João Barone, entusiasta da FEB (Força Expedicionária Brasileira) e filho de um veterano que lutou na segunda guerra mundial na frente italiana este "1942 - O Brasil e a sua guerra quase desconhecida" poderia ser um documento interessantíssimo que desse ao público um maior conhecimento sobre a experiência brasileira na guerra.

Mesmo não sendo eu brasileiro, tive imensa curiosidade em ler o livro assim que o vi. O Brasil lutou na segunda guerra mundial, mas mesmo para quem já tenha lido dezenas de livros e documentários sobre esta guerra, o nome do país praticamente não é referido. A sua importância foi obviamente pequena e a sua participação limitada e tardia, mas o que fez desta guerra uma guerra mundial foi precisamente o facto da sua dimensão ser tal que mesmo países longe dos principais palcos de batalha - Europa, Norte de África, Pacífico e China - foram seriamente afectados. 

Mas o que encontrei foi, infelizmente, um livro confuso e com graves erros. A sequência cronológica é constantemente atropelada o que permite ao autor usar como argumentos situações fora do seu tempo. Se as descrições dos soldados e pequenas unidades são bastante interessantes, a visão macro da guerra parece excessivamente deturpada e pouco clara. A verdade é que a FEB foi enviada para Itália numa altura em que o desembarque da Normandia já tinha sido feito com sucesso e devidamente consolidado. No leste os exércitos de Hitler e seus aliados já tinha sido amargamente derrotados em Stalingrado e em Kursk e estavam a retirar ou a ser cercadas por uma frente que retrocedia centenas de quilómetros. No atlântico, os submarinos alemães estavam a ser dizimados pela frota americana e o Norte de África estava já totalmente limpo de forças do eixo. Numa frase, a guerra estava ganha quando o Brasil efectivamente pega em armas para lutar contra a Alemanha Nazi. E, numa guerra onde morreram muitos milhões de combatentes e ainda mais civis, o Brasil enviou apenas 25 mil homens para o terreno. Por vezes, Barone perde essa perspectiva e procura energicamente mostrar a importância da frente em que os brasileiros combatiam.

Quanto aos erros e imprecisões, deixo aqui alguns que espero que possam ser devidamente corrigidos em posteriores edições do livro: (p116) a ocupação da Guiana Holandesa pelos Estados Unidos em Novembro de 1941 foi feita com o acordo do governo holandês no exílio. Falar apenas de ocupação leva os leitores a (erradamente) pensarem que foi uma invasão. (p128) referir a hipótese de que o governo americano tivesse conhecimento do iminente ataque a Pearl Harbour (algo que é categoricamente desmentido por todos os historiadores) dizendo apenas que foi "algo nunca comprovado" contribui para alimentar a própria ideia. "Não comprovado" é uns graus diferente de "não existe a mais pequena prova nesse sentido". (p168) obviamente a ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação) não executou a sua primeira missão no dia 12 de Novembro de 1945, já que a guerra já tinha acabado à muito por essa altura. (p181) sobre as deserções no FEB, duas em 25 mil são matematicamente menos de um por cento, tal como diz o autor, mas seria mais preciso se dissesse que são menos de 0,01%. É que um por cento de deserções, com a guerra já ganha e os alemães em completa retirada até seria um valor extremamente alto. (p230) Roosevelt não faleceu no início de 1945 como diz Barone mas em 12 de Abril, apenas umas semanas antes do próprio Hitler. (p242) a descrição do levantamento (ou "levante" na forma brasileira) de Varsóvia "que ajudaria a expulsar os nazistas do país e ao mesmo tempo serviria para intimidar a ocupação soviética" está francamente mal explicado. Naquele momento da guerra o objectivo era mesmo a expulsão dos nazis. A tal ajuda que não veio era precisamente dos soviéticos, que atrasaram o seu avanço para dar tempo aos alemães de destruirem totalmente a rebelião. Tirando Churchill que se apercebeu muito cedo das intenções soviéticas, muito poucos foram os que fizeram algo para o evitar. Nota especial para a liderança americana que em momento algum viu nos soviéticos os seus futuros inimigos.

Muitos destes problemas poderiam ter sido resolvidos com uma revisão mais profissional antes do texto ser publicado. Enquanto escritor amador (blogger) compreendo perfeitamente que é normal dar erros ridículos, mas um livro em papel não é uma página da internet que é imediata e facilmente corrigível. Um livro, depois de publicado é um projecto fechado e não pode ser lançado numa versão draft.

Numa nota mais positiva, apreciei muito do que aprendi sobre a participação brasileira, sobre a complicada posição política do governo Vargas (lutando ao lado das grandes democracias quando ele próprio era uma ditadura de inspiração fascista), até da absoluta impreparação das forças brasileira que chegaram à frente ainda sem armas (fez-me lembrar Portugal na Grande Guerra) e o pós-guerra dos pracinhas com o silenciamento das suas experiências. O trabalho que João Barone está a fazer é relevante e é necessário que alguém consiga fazer esta ligação entre os historiadores académicos e um público mais vasto. O seu estilo mais leve é importante, mas terá que se preparar melhor no futuro se pretende avançar novamente para uma obra desta envergadura.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Abu Dhabi, da Pobreza à Riqueza

Um dos livros mais curiosos que li nos últimos tempos. Descrevendo com grande cuidado o progresso de Abu Dhabi na segunda metade do séc. XX, Mohammed Al-Fahim escreve na primeira pessoa revelando a absoluta miséria do seu povo até aos anos 60 e a rápida ascensão do Emirado até se tornar numa das mais ricas cidades do mundo.

Al Fahim não é um escritor ou um historiador, mas é filho de um dos conselheiros do fundador dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Zayed, e conhecido empresário local. O seu conhecimento é acima de tudo um testemunho que deveria ser complementado por muitos outros. Infelizmente para nós, que conhecemos e gostamos de Abu Dhabi, não existem muito mais livros escritos sobre essa época e praticamente nada se sabe sobre o que se terá passado antes do início do séc. XX. A excepção são alguns documentos das potências estrangeiras (em especial o Reino Unido) e relatos dos seus navegadores e viajantes.

Onde hoje existe uma cidade de 2.5 milhões de pessoas, no início dos anos 60 do século passado viviam menos de duas mil. Sem acesso a água potável a população bebia água do mar que era naturalmente (mal) filtrada pela própria areia e recolhida em poços dentro da ilha de Abu Dhabi. Durante os meses de maior calor, a população aumentava consideravelmente para se dedicar ao que era a única actividade económica digna de registo: pérolas. Este árduo trabalho consistia em passar 10 a 12 horas por dia a mergulhar para apanhar ostras no fundo do mar para recuperar as suas pérolas durante meses a fio. Os barcos eram pequenos e inseguros e mantinham-se no mar durante toda a temporada. Uma pequena indústria de barcos de transporte de víveres levava os bens mais essenciais até às frotas. Na ilha não existiam quaisquer edifícios, apenas as cabanas de "barasti" (folha de palma) onde a população vivia, sem acesso a electricidade, água corrente, esgotos ou qualquer outra das comodidades já comuns em tantos lugares do mundo.

Finalizada a época das pérolas, grande parte da população mudava-se para Al Ain, um oásis no interior do Emirado (hoje a segunda maior cidade) onde existia água fresca e alguma agricultura e pecuária. A viagem (que hoje fazemos em pouco mais de uma hora) durava então cerca de uma semana e cobrava a vida de muitos dos mais velhos e mais novos.

O livro é verdadeiramente fascinante e obrigou-me a olhar para os Emiratis de uma forma renovada. Olho para os meus colegas e imagino o que os seus pais e avós sofreram e a velocidade a que tiveram que se adaptar quando a enxurrada de petro-dólares chegou. Como ponto fraco deste livro, apenas o facto de este ser apenas um testemunho e um ponto de vista. Seria interessante ter outras vozes a contarem as suas experiências dessa época para ajudar a completar a história desses tempos.

Se não era já óbvio, aconselho "From Rags to Riches, A Story of Abu Dhabi" vivamente a todos os que residem e trabalham em Abu Dhabi e Dubai, assim como aos que mostram interesse pela história do Golfo Pérsico e destes pobres povos nómadas que no tempo de vida de uma pessoa se tornaram na mais rica cidade do globo.

domingo, 21 de junho de 2015

António Costa, Sócrates e Tsipras

A generalidade dos comentadores políticos em Portugal acordaram sobressaltados com a última sondagem da Universidade Católica que dá a coligação PSD/PP ligeiramente à frente do PS de António Costa. 

Depois de 4 anos terríveis, de aperto de cinto como ninguém tinha memória, com o país constantemente acossado pelos mercados de capitais, as visitas da troika e agências de rating, era de esperar que este governo tivesse de ser substituido por sangue novo, ou pelo menos com caras diferentes. Se isto já era elementar quando António José Seguro era secretário-geral do PS, ainda mais seria depois de António Costa lhe conquistar a liderança. Costa tinha tudo o que faltava a Seguro: carisma, experiência governativa, boa imprensa, linhas de comunicação à esquerda e uma retumbante vitória eleitoral recente.

Existiam apenas três variáveis que podiam colocar em causa uma vitória fácil do PS de António Costa, mas apenas uma tempestada perfeita podia sincronizar todas elas. Para mal do PS, as péssimas decisões de António Costa e os acasos do destino fizeram com que as três se estejam a formar no horizonte.

Crescimento Económico

A grande esperança da coligação governamental era a de que por esta altura os indicadores económicos já dessem bons sinais de recuperação. O pior já parece ter passado, a economia está novamente a crescer, o fenómeno da emigração aliviou o desemprego e a necessidade de subsídios e aumentou as remessas, e os juros baixaram para níveis históricos. Mesmo com a violenta queda do Banco Espírito Santo, a situação vai melhorando. Os próximos meses dirão se teremos uma recaída ou se a recuperação se vai começar a sentir mais no bolso dos portugueses. Tudo isto seria uma incógnita em termos eleitorais (Churchill perdeu as eleições depois de ganhar a guerra...), mas quando é o próprio secretário-geral do PS a defendê-lo na famosa reunião com a comunidade chinesa em Portugal, torna-se uma arma política. Na retórica do PSD/PP - e que acaba por ser confirmada por Costa - o país que o PS deixou em queda-livre está agora melhor e cada vez melhor.

Syriza

Já há muitos anos que era óbvio para quem quisesse ver que Alexis Tsipras e o seu partido radical de esquerda eram um perigo para a Grécia e para a Europa[1]. Quando chegaram ao poder, Tsipras, Varoufakis e seus companheiros revolucionários mudaram o rumo e a retórica, e com estes a tímida recuperação que se começava a fazer sentir no país. Tudo isto poderia estar relativamente estanque - em termos político-partidários portugueses - se António Costa não tivesse cometido o erro crasso de se associar à vitória do Syriza (numa traição ao PASOK que deixou muitos boquiabertos) quando afirmou que "a vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha". Claro que entretanto já se tentou afastar das suas próprias declarações, mas o facto é que os acontecimentos na Grécia (e podemos estar a dias ou semanas de um desastre total) estão agora ligados ao PS. E a cada dia que passa, a cada mil milhões de Euros que desaparecem do sistema financeiro grego, é natural que os portugueses se perguntem se é mesmo Costa que pretendem para chefiar Portugal nos próximos 4 anos.

Sócrates

A detenção do ex-primeiro-ministro é um acontecimento com enormes repercursões políticas. Não faço a mais pequena ideia por que motivo alguém acredita que consegue separar este evento das eleições legislativas, do Partido Socialista e de António Costa. Sócrates não foi preso por pedofilia ou por violência doméstica, mas por suspeitas sérias de ter recebido milhões por actos ilegais e imorais feitos enquanto primeiro-ministro. O crime de que estará a ser acusado não é uma questão pessoal. A alegada corrupção de um primeiro-ministro obviamente que mancha quem com ele trabalhou. Afinal de contas, será que José Sócrates decidia sozinho para quem iam as obras? Não existiam conselhos de ministros? Onde estavam as equipas de trabalho e acompanhamento destas propostas? Quem assinava as adjudicações? Pondo a questão de forma muito simples: se António Costa era o número dois do PS no momento em Sócrates estaria a cometer esses crimes de corrupção, seria ele parte envolvida ou estaria incompetentemente abstraído de tudo o que se passava à sua volta? A confiança de Costa em Sócrates é notória, já que assim que chegou à liderança do PS, iniciou a redenção de José Sócrates (processo em que Ferro Rodrigues também está fortemente envolvido). Finalmente, enquanto antigo ministro da Justiça, não tem Costa nada a dizer quanto às fugas de informação, a demora nos processos, as prisões preventivas eternas?

A generalidade dos comentadores mostra algumas reticências em falar do óbvio por isso deixem-me dizê-lo sem meias palavras: António Costa está profundamente ligado ao destino de Alexis Tsipras e José Sócrates. E os próximos meses poderão trazer o fim do Euro na Grécia e o início do processo de acusação a José Sócrates. Quanto ao anterior líder, António José Seguro, é curioso que nunca mostrou grande interesse no Syriza e é uma das poucas pessoas do Partido Socialista com um currículo anti-Sócrates. Mas até isso não deve servir de alento a nenhum socialista já que Costa não pretende ter Seguro no seu executivo.