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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Líbano - A Guerra de Julho 2006

Depois do Hizbullah raptar/capturar (podem escolher a palavra dependendo da vossa afiliação ideológica ou religiosa) dois soldados israelitas na fronteira entre Israel e o Líbano, Israel inicia uma invasão do Líbano e um ataque total a toda a infraestrutura do Hizbullah, assim como do governo central libanês.

Líbano, 2006
Nesta entrevista à Sky News, canal de televisão pertença do agora caído em desgraça Rupert Murdoch, o deputado inglês George Gallaway desfaz a entrevistadora que se encontrava em Jerusalém do primeiro ao último segundo. Embora não concorde com tudo o que ele diz, a verdade é que diz uma série de verdades extremamente inconvenientes sobre o sucesso do ataque (mais detalhes sobre o falhanço dos tanques Merkava podem ser vistos aqui) e sobre o facto de a entrevistadora declarar que o ataque israelita é legítimo por o Hizbullah ter recebido misseis de média distância do Irão (ao que Gallaway responde com as ogivas nucleares israelitas, que foram recentemente alvo de grande atenção depois do poema de Gunther Grass disponível aqui).

Não me lembro de ver um entrevistador levar tamanha humilhação em directo...


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Merkava - God's Chariot

Merkava (imagem retirada da internet)
Foi na estrada que fazia a longa descida até ao Mar Morto, em pleno território palestiniano que vi um tanque israelita Merkava ao vivo pela primeira vez. Carregado na parte de trás de um camião, a imagem é impressionante e só conseguimos imaginar no medo que seria o vê-lo a avançar na nossa direcção. A sua dimensão é invulgarmente grande, mesmo para um tanque moderno. Mais tarde voltei a vê-los nos enormes quarteis militares israelitas, estacionados às dezenas lado a lado e posteriormente procurei mais informação sobre aquele tanque que tanto me impressionara. Não conseguia imaginar como era possível que as forças palestinianas pudessem fazer fosse o que fosse a estes Merkava apenas munidos das suas impecavelmente limpas AK-47 e os seus uniformes novinhos em folha.

Orgulho do IDF (Israeli Defense Force), o Merkava representa a superioridade militar de Israel no Médio Oriente e não tem nenhum oponente à altura na região. Com cerca de 2000 tanques contruídos, o investimento nesta arma já terá ultrapassado os 6500 milhões dólares e é alvo de bastante controvérsia no seu país de origem sobre a utilidade do investimento e a sua - até agora - incapacidade de exportação.

Foi criado depois das desilusões da guerra de Yom Kippur de 1973 que travaram contra Egipto e Síria, onde as suas forças blindadas dependiam dos ultrapassados tanques americanos Patton e dos ingleses Centurion. O ataque egípcio atravessando o Canal de Suez para recuperar a província perdida do Sinai, destruíu centenas de tanques israelitas utilizando misseis anti-tanques e forçou Israel a repensar todas as suas estratégias militares.

Com o objectivo de manterem a sua independência territorial sem dependências a terceiros (mesmo em relação aos seus maiores aliados), decidiram criar os seu próprio modelo de tanques. O Merkava foi desenhado para que Israel nunca mais perdesse uma batalha contra os seus vizinhos, os mais óbvios sendo o Egipto e a Síria, já que o Líbano e a Jordânia têm forças armadas bastante mais débeis e sem qualquer hipótese numa uma guerra convencional contra o estado Hebraico.

Desde então, várias versões foram feitas com progressivas melhorias, e embora tenham garantido a suprioridade que procuravam, as últimas guerras em que estiveram envolvidos mostraram que não são adequados a todos as ocasiões. Os acordos de paz com o Egipto e Jordânia, reduziram em muito o seu propósito e a frente da Síria através dos Montes Golan mostraram-se mais estáveis do que poderia ser previsto nos anos 70.

Foram no entanto utilizados na Cisjordânia e Gaza onde causaram enorme destruição mas não conseguiam controlar as populações que lhes respondiam com pedras e cocktails Molotov, com igual ineficiência. Em lutas urbanas, guerrilha e contra-terrorismo a utilização de tanques provou-se não só inútil como consegue promover mais violência. Também nas várias invasões sobre o Líbano mostraram-se capazes de chegar onde queriam, mas não de manter uma ocupação ou fazer algo pelo controlo dos campos de refugiados onde tipicamente se encontravam os seus alvos.

Mas o seu grande desafio chegou em 2006, quando tiveram que combater um oponente formidável e determinado, o movimento libanês shiita Hizbullah, que respondeu aos enormes tanques com armas anti-tanques utilizadas a curtíssima distância. Táticas de guerrilha descritas brilhantemente por David Hirst no seu livro "Beware of Small States - Lebanon, Battle of the Middle East", que utilizaram não só estas armas mas túneis, bunkers e milícias bem treinadas. Não só este modern day Blitzkrieg falhou violentamente, sem que os seus objectivos fossem conseguidos (a recuperação dos soldados israelitas raptados na fronteira pelo Hizbullah), como não conseguiu impedir o contra-ataque de bombardeamentos violentos e indiscriminados contra várias cidades israelitas, incluindo Haifa.

A enorme propaganda feita por Israel sobre os seus tanques nas televisões e internet, permitiram ao Hizbullah estudar cuidadosamente o seu inimigo sem sequer precisar de fazer um esforço financeiro significativo. Cuidadosos documentários mostravam o tanque com enorme detalhe e são passados regularmente em canais como o Discovery e o History Channel.  Em 2007, a televisão Al Jazeera fez o seu próprio documentário sobre o Merkava, mostrando os seus sucessos e falhanços. Cobre toda a sua história e os principais conflitos em que teve envolvido, incluindo entrevistas com militares israelitas assim como representantes do Hizbullah (videos do documentário incluídos abaixo).

Numa altura em que uma guerra entre Israel e Irão pode estar prestes a estalar, não será surpreendente se este tanque já quase esquecido pelo mundo volte ao campo de batalha. E com a ligação religiosa, financeira e política entre Hizbullah e Irão, é previsível que um ataque de Israel ao Irão leve a novo confronto nesta longa batalha pelo sul do Líbano. 

Para bem de todos os que terão que ver um Merkava de frente, esperemos que não...




domingo, 22 de abril de 2012

A High Price

Book Review

"A High Price, The triumphs and failures of Israeli counterterrorism" é um livro de Daniel Byman, professor da Georgetown University e que trabalhou para o governo norte-americano e na comissão 9/11.

Para além da questão de fundo Israelo-Palestiniana, acredito que é uma área interessante do problema procurarmos saber o que foi feito correcta e incorrectamente pelos serviços secretos e militares israelitas nas suas operações anti-terroristas, já que nenhum país no mundo terá provavelmente sofrido tanto com este tipo de ataques.

Qualquer que seja a nossa posição política ou religiosa, e por muita a ou pouca razão que possa ser dado a cada um dos lados, ninguém terá dúvidas que esta guerra assimétrica entre o judeus israelitas e os árabes que os rodeiam gerou mais ataques terroristas do que qualquer outro conflito desde a segunda guerra mundial.

Não entrarei aqui em grandes questões sobre a definição do que é um acto terrorista aceitando a dada por Byman como sendo "(...) non-state actor's use of or threat of violence against noncombatants for political reasons to produce a broader psycological effect". Tirando a parte do non-state actor (porque acredito que existe que o (terrorismo de estado é um tipo de terrorismo, possivelmente até o mais letal), estou de acordo.

Daniel Byman fez uma pesquisa bastante completa sobre os acontecimentos, incluindo relatos e entrevistas que tornam o livro interessante pois percebemos não só os factos históricos mas também o que alguns dos seus intervenientes e testemunhas pensaram. O próprio admite que o número de fontes e entrevistas terá sido desequilibrado a favor de Israel, o que é notório na forma como utiliza vezes sem conta a frase "em resposta...". Passo a explicar: Num conflito que dura há mais de 60 anos e cujas origens directas remontam ao final do século XIX e ao movimento Zionista, ou se quisermos até dois milénios atrás durante a expulsão dos judeus pelos Romanos, existe sempre um acontecimento anterior. Todos os ataques, de qualquer um dos lados, são sempre uma resposta a todos os acontecimentos anteriores. Para os fanáticos pró-Palestinianos, cada bombista suicída é um movimento de auto-defesa de resposta a um bombardeamento, targeted killing ou invasão. Para os fanáticos pró-Israelitas, cada ataque é uma resposta um bombista suicida, um atentado à bomba ou um rapto. Qualquer pessoa minimamente fria não deveria ter dificuldade em perceber que há muito que ambos os lados estão carregados de culpas. Qualquer pessoa minimamente conhecedora da situação também saberá que em ambos os lados milhões de pessoas procuraram genuinamente a paz e demasiadas vezes são empurradas para aceitar estas "auto-defesas" por serem vítimas da infindável propaganda feita pelos dois lados para além de muitos interesses terceiros. Infelizmente, o autor cai constantemente no erro de referir os acontecimentos como "Palestiniano fez, Israel respondeu, Palestiniano ataca, Israel responde, etc." pondo em causa a independência e liberdade de pensamento que genuinamente procura seguir em todo o seu livro.

Bastante interessantes são as suas descrições de como os acontecimentos vão influenciando as várias decisões ao nível operacional, e que hoje se vão tornando comum não só à El Al (companhia aérea israelita), aeroporto Ben Gurion e outras acções de contra-terrorismo e espionagem, mas também ao nível político e militar, em que as forças do IDF (israeli defence force), Mossad (serviços secretos externos) e Shin Bet (serviços secretos para Israel e Palestina) tiveram que alterar profundamente o seu alcance e metodologia.

Diz-se muitas vezes que não há ética na guerra, e os múltiplos conflitos israelo-árabes mostram que efectivamente não terá sido em conta, com todos os lados a cometerem assassinatos de personagens políticas e diplomáticas, mau tratamento e tortura de prisioneiros e acima de tudo vítimas civis em larga escala resultado de ataques directos (por oposição a vítimas colaterais). Pegando apenas nos mais óbvios de ambos os lados, os atentados suicidas e os bombardeamentos indiscriminados são exemplos disso. No entanto, não concordo que a ética e as leis da guerra não sejam factores a considerar e parece-me que terão sido esquecidos vezes demais pelos actores em causa. O fanatismo religioso tem estado a crescer nas últimas décadas quer em Israel quer na Palestina, Líbano, Egipto e Síria. As invasões do Líbano (como a operação Litani e a operação Small/Big Pine) causaram tantas baixas civis que não estavam de forma alguma envolvidas na resistência palestiniana que levaram à criação do Hizbullah (o "Partido de Deus" constituído por libaneses shiitas) e que se tornou rapidamente num opositor muitíssimo mais temível do que a PLO (Palestinian Liberation Organization) alguma vez fora. Por outro lado, os foguetes Qassam lançados pelo Hamas sobre a pequena cidade de Sderat, não obstante a sua fraca capacidade, mostram a vontade do Hamas de procurar baixas civis tornando Sderat numa espécie de "cidade mártir" para os judeus. Ataques suicídas sobre civis são ainda mais devastadores e se é verdade que assustam a população israelita, por outro levam os seus oponentes a procurar políticos e propostas políticas cada vez mais agressivas e opressoras em relação à Palestina aos israelitas de origem árabe. Em ambos os lados, o custo altíssimo da guerra só é aceite porque cada acto ilegal e imoral do inimigo legitíma mais um passo na escalada da violência.

Todas estas questões - da autoridade moral proclamada por cada um dos lados - não são suficientemente exploradas por Daniel Byman. E não haverá paz nem contra-terrorismo que funcione se cada acção que fazemos ajuda a criar mais umas centenas de terroristas e mais uns milhares de apoiantes de regimes mais violentos.

No entanto, parece-me que Byman chega a uma importante conclusão em relação ao contra-terrorismo israelita e com a qual concordo: os sucessos operacionais têm sido postos em causa pelas más decisões políticas.

A decisão de Ariel Sharon de invadir o Líbano (posteriormente forçada ao primeiro ministro Begin) em 1982 para criar uma zona de segurança conseguiu apenas criar o Hizbullah e matar milhares de civis. A vitória pírrica contra a PLO, levando Arafat para o exílio na Tunísia, não impediu a sua continuação nem o seu posterior regresso à Palestina. No final regressaram às fronteiras originais. A última invasão em 2006 com o mesmo objectivo de criar uma zona de segurança unificou o Líbano debaixo da bandeira do Hizbullah. A prisão de dezenas de milhares de crianças e homens durante as Intifadas criou duas gerações de potenciais terroristas e guerrilheiros. A criação do muro evitou certamente muitos ataques, mas por ter definido novas fronteiras e sempre em prejuízo dos palestinianos, criou um novo problema junto da comunidade internacional e reduziu as hipóteses de uma paz duradoura.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Newt Gingrich - III Guerra Mundial

Tenho acompanhado as primárias do Partido Repúblicano americano com alguma preocupação, em especial no que toca a diplomacia a guerra. Um a um, todos vão ao beija-mão à AIPAC, o maior loby judeu nos Estados Unidos e competem para ver quem faz as mais bárbaras e parciais posições sobre o médio oriente e os seus ancestrais problemas. Os Democratas não andam muito longe disto mas o seu nível de ridículo parece ter algum limite.

Newt deixou-me de boca aberta quando se refiriu aos palestinianos com a frase "These people are terrorists" durante um debate dos candidatos republicanos (http://www.guardian.co.uk/world/2011/dec/11/newt-gingrich-palestinian-comments-criticised). Este é normalmente o prelúdio de uma guerra. A milenar frase de que a primeira vítima da guerra é a verdade poderia certamente ser acompanhada pela demonização do povo inimigo. Já o vimos inúmeras vezes: os alemães passam a ser hunos, os americanos yankees, no rwanda eram baratas e chegamos a ter o Primeiro Ministro de Israel - Menachem Begin - a referir-se aos palestinianos como two-legged beasts. Tenho a certeza de que Hitler terá utilizado termos semelhantes em relação aos judeus. E vimos como isso acabou...

Transformar os inimigos em demónios é a forma mais fácil de conseguir que os soldados disparem no momento crucial. Que assassinem civis, velhos e crianças indiscriminadamente e que possam voltar para casa no final e dormir acreditando que fizeram algo de positivo.

Quando Newt resumiu os palestinianos a terroristas (provavelmente nunca terá conhecido nenhum senão teria pelo menos que pensar nas excepções...) preparou o terreno para algo muitíssimo grave: dar carta branca aos israelitas para fazerem o que bem entenderem no médio oriente. Seja no Irão, West Bank, Gaza, Líbano, Jordânia, Egipto, Síria ou no que quer que bem entendam. Talvez eu estivesse a exagerar quando pensei nisso, mas depois encontrei um artigo escrito pelo próprio em 2006 com o título "Third World War" do mesmo e dissipei as minhas dúvidas. Aconselho a leitura completa do artigo de opinião do candidato a candidato presidencial. Aqui fica o link:

http://www.humanevents.com/article.php?id=16065

Neste artigo, a invasão de Israel ao sul do Líbano (normalmente chamada de VI Guerra Israelo-Árabe), que durou 33 dias e que resultou numa das maiores vergonhas militares da história da Israel, a história é invertida e nas suas palavras é o Hizbullah que ataca Israel. O pretexto é uma das muitas escaramuças constantes que existem entre os dois. Naturalmente, o primeiro ministro israelita Olbert já tinha a invasão pronta e esperou apenas pelo próximo incidente para a iniciar um ataque massivo sobre o Líbano. Inicialmente o ataque era só com a força aérea e os seus objectivos eram partir a espinha ao Hizbullah enquanto simultaneamente deixavam todo o país (incluindo as áreas controladas pelos seus próprios aliados Cristãos Maronitas e o Exército Libanês) de volta à idade da pedra. Destruiram 77 pontes, 900 espaços comerciais, 30.000 casas, 31 "public utilities" com estações de tratamento de esgotos e centrais de energia, 2 hospitais e inutilizaram a pista do aeroporto de Beirut (que em momento algum fora controlado pelo Hizbullah). (fonte: David Hirst "Beware of Small States"). Depois invadiram por terra onde sofreram derrotas em Bint Jbeil e Maroun al-Ras. Tudo isto enquanto os líderes ouviam tudo o que se passava no lado israelita por conseguiram descodificar os canais militares israelitas (ao estilo dos ingleses com a Enigma na II Guerra Mundial). Também os famosos tanques israelitas Merkava sofreram mais de 50 baixas às mãos de improvised explosive devices e armas anti-tanque portáteis. Tudo isto Newt ignora, transformando (mais) esta war of choice numa guerra de sobrevivência.

Depois Newt continua com a sua lógica retorcida com um capítulo com o nome "Are We For Civilization or Appeasement?", onde volta à velha história de "ou estás comigo ou contra mim", sendo que neste caso o estarmos com ele significa sermos civilizados e se estivermos pela aproximição deveremos ser certamente traidores e incivilizados.

Felizmente este senhor parece estar fora da corrida. Mas também os outros pretendentes ao trono têm tido algumas declarações interessantes sobre política internacional e diplomacia. Voltaremos a isso sem dúvida...