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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A importância do conflito Israelo-Palestiniano

Porque é a questão Israelo-Palestiniana tão importante? O que faz com que pessoas de todo o mundo discutam com tanto pormenor, tantos detalhes históricos, tantas emoções, amor e ódio um assunto que - em muitos sentidos - não é diferente de tantos outros que assolam o mundo? Porque motivo não discutimos todos o problema da Coreia do Norte, a Chechénia ou a Transnístria? Qual a razão para um genocídio no Rwanda, onde centenas de milhares de pessoas morreram de forma selvagem, ter acontecido sem que o mundo mostrasse qualquer preocupação?

Estas não são perguntas retóricas e desafio aqui os meus leitores a darem as suas próprias respostas. 

Não queria focar-me demasiado nos méritos de cada um dos campos, mas na questão da importância que é dada ao conflito. Foi-me dito por um diplomata em Jerusalém que, a qualquer momento existem 600 correspondentes estrangeiros em Israel. Ou seja, sem contar com os que chegam durante os períodos de guerra, em tempo de paz, esta pequena cidade terá provavelmente mais atenção mediática do que metade dos países de África juntos. A questão da importância é utilizada também por uma parte da imprensa pró-Israel para mostrar que por detrás de qualquer crítica a Israel poderá estar um primário anti-semitismo, e não uma questão de direitos humanos, como defende a esquerda.
Manifestação Pró-Palestiniana em Sidney, Australia

Ronald S. Lauder, presidente do World Jewish Congress escreve um artigo para o New York Times (republicado n'O Observador[1]) que, a determinada altura, pega nessa questão dizendo que "Na Europa e nos Estados Unidos, assistimos a manifestações contra as mortes trágicas de palestinianos, utilizados como escudos humanos pelo Hamas, a organização terrorista que controla Gaza. As Nações Unidas conduziram inquéritos e focam a sua raiva em Israel por se defender contra essa mesma organização terrorista. No entanto, o massacre bárbaro de milhares e milhares de cristãos é visto com relativa indiferença." João Marques de Almeida, também n'O Observador[2] questiona "Muitos interrogam-se, com alguma surpresa, por que razão há tantas manifestações contra Israel cada vez que o seu governo usa a força militar para se defender de ataques dos seus vizinhos. E a surpresa aumenta quando se fazem comparações. Alguém viu manifestantes na Embaixada da Síria quando o seu governo matou (e mata) milhares de cidadãos sírios? Não."

O argumento é interessante. Basicamente, quem critica o governo de Israel pelo seu comportamente é anti-semita, caso contrário não estaria a olhar para Israel, mas sim para o Irão, Síria ou Arábia Saudita. Interessante, mas sem mérito. É semelhante a ter um violador que está escandalizado com a sua prisão porque existem pedófilos no mundo. Quanto defendido pelos apoiantes de Israel, este não é um argumento legítimo que se use um crime de terceiros para limpar os seus próprios crimes. Mas eu não apoiei nenhuma das agressões de Israel, e preocupo-me com um possível crescimento do anti-semitismo (e da islamofobia), por isso o assunto interessa-me.

Por outro lado, esta ideia é tão generalizada que convém compreender mesmo qual o verdadeiro motivo (ou combinação de motivos) porque tanta gente se interessa por esta assunto. 

Religião
Jerusalém

Este deveria ser relativamente óbvio para quem já se passeou por Jerusalém ou conheça minimamente a história da região. Num espaço de um ou dois quilómetros quadrados temos alguns dos lugares sagrados dos Judaísmo, Cristianismo e Islão. Em alguns casos, os lugares santos praticamente atropelam-se, como no Muro das Lamentações e a Mesquita de Al Aqsa, sendo que a Igreja do Santo Sepúlcro fica a apenas uns minutos a pé. Para todos os crentes das três religiões monoteístas, existe um interesse natural em tudo o que rodeie esta cidade santa, assim como outras terras bíblicas que a rodeiam, como Bethlehem (Belém), Hebron ou o Rio Jordão. Não poderá no entanto esta ser a única explicação. Afinal de contas, uma grande parte da esquerda e direita seculares levam este conflito muito a sério sem qualquer interesse no seu lado religioso. 

Holocausto
Entrada para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polónia

A vergonha do genocídio cometido nos anos 30 e 40 na Europa sobre os Judeus é, na minha opinião, outro das questões que torna este assunto tão próximo dos Europeus e Americanos. Na Europa, subsiste um sentimento de culpa muito real e vivo devido ao Holocausto, que fica patente quando vemos a proximidade da Alemanha a Israel[3], amizade que só é superada pelos Estados Unidos da América. Mas, obviamente, a Alemanha está longe de ter sido a única culpada da Shoah. França, Itália, Áustria, Holanda, Bélgica, Polónia, Ucrânia, Croácia e muitos outros foram ajudantes preciosos ou até voluntários nas perseguições e homicídios em massa. Para muitos governos, o risco de serem acusados de anti-semitismo é demasiado sério para poderem fazer a mais pequena crítica e a sobrevivência e progresso de Israel acabam por se tornar uma responsabilidade nacional.

Por outro lado, Israel utiliza a memória destes crimes como grande factor de união de todos os Judeus. Arrisco-me a dizer que nas últimas décadas, o Holocausto é a verdadeira raison d'être deste povo, da mesma forma que a Nakba se tornou o verdadeiro ponto fulcral da identidade Palestiniana. 

Propaganda


Há muito que Israel aprendeu as técnicas modernas de propaganda. Utiliza a sua influência junto do Congresso norte-americano através dos seus poderosos lóbis, como a AIPAC ou o World Jewish Congress[4]. A sua máquina dentro e fora do país está afinada para uma audiência global e utilizam todos os trunfos que têm com a qualidade de uma grande agência de marketing. Nesta última guerra, algumas das catch phrases utilizadas eram de grande nível e conseguiam passar imagens muitos simples e fortes tais como "nós usamos sistemas anti-mísseis para proteger os nossos civis, eles usam os seus civis para proteger os seus mísseis. É essa a diferença". Num ou noutro caso, o excesso de simplismo foi tal que destruíu a mensagem, como aconteceu quando quiseram convencer em Assembleia Geral das Nações Unidas que o Irão estava a um par de meses de conseguir a bomba atómica usando um desenho que parecia tirado dos cartoon do coiote. Mas em geral, Israel sabe bem passar a mensagem, fá-lo de forma massiva, cuidada e repetitiva, como deve ser uma propaganda eficaz.

Mas se só um lado soubesse passar a mensagem, não estaríamos todos permanentemente a discutir as origens, soluções e personagens do conflito. Durante muito tempo, os palestinianos não tiveram voz fora do mundo árabe. A ocupação acontecia sem demasiados envolvimentos do resto do mundo, não obstante a azia sentida por muitas capitais do Médio Oriente. Existiram 3 factores que modificaram tudo isto: Arafat, a crise de 73 e a primeira intifada. Separados no tempo, mas visivelmente cumulativos colocaram a questão Palestiniana nas primeiras páginas de todo o mundo. 

Yasser Arafat[5], histórico líder palestiniano, foi o primeiro homem a conseguir unir os árabes entre o rio Jordão e o mar. Com uma mistura de mitos, actos de coragem, muito desespero e um toque de ingenuidade, Arafat manteve a sua luta viva. Percorreu capitais, correu atrás da Internacional Socialistas, tentou derrubar governos e aliou-se a tudo e todos que lhe dessem uma palavra de apoio. Segundo Robert Fisk[6], talvez o mais destacado reporter de guerra do Médio Oriente, Arafat tinha ainda uma característica interessante: sempre que chegava algum diplomata internacional ou líder político, ele dava muito mais atenção aos media presentes do que à figura propriamente dita. Com todos os seus defeitos, ele soube desde cedo que as hipóteses do seu povo não estavam numa guerra mas na opinião pública. Em paralelo, não hesitou em utilizar directa ou indirectamente (através da PFLP[7], DFLP[8] entre outras) actos de terrorismo. As técnicas mudaram com os tempos, mas estiveram quase sempre presentes, passando por ataques bombistas, pirataria aérea, bombistas suicidas, etc. O terrorismo foi, enquanto instrumento de propaganda, utilizado extensivamente por Arafat e a sua Organização para a Libertação da Palestina (PLO). Depois do 11 de Setembro de 2001, todo o modelo teve que ser revisto de forma a não ficaram associados a Bin Laden e a sua Al Qaeda.

A crise de 1973 é interessante porque é a primeira vez que o mundo árabe se consegue unir pela causa palestiniana. Este artigo ameaça tornar-se longo, por isso prometo escrever um destes dias só sobre a ligação entre a derrota Árabe de 1967, a derrota (política senão militar) de Israel em 1973 e a primeira das grandes crises petrolíferas. De qualquer forma, é inegável que quando a OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) quadríplicou os preços do petróleo devido à ajuda militar de 2,2 mil milhões de dólares que os Estados Unidos se preparavam para dar (e deram), o problema da Palestina passou a ser um problema do mundo. Embora com o passar das décadas este factor (o de uma unidade árabe temporária) se tenha diluido, foi determinante nos anos 70 para - em conjunto com os ataques terroristas - colocar a história da Palestina nas bocas do mundo.

O terceiro momento - e que será provavelmente o mais decisivo em termos de propaganda - foi a primeira intifada. Este levantamento popular espontâneo apanhou de surpresa as lideranças palestinianas e israelitas. Uma espécie de precursor da Primavera Árabe, uma população não politizada farta da ocupação, dos jogos de bastidores, das promessas de ajuda árabe e da indiferença das grandes potências do mundo lançou-se à rua e desafiou os tanques munidos apenas de pedras. As imagens que o mundo viu mudaram a imagem que este tinha da Palestina, e de Israel. Imagem após imagem, Israel deixou de ser o David para ser o Golias. Um mundo horrorizou-se com o à vontade com que o então Primeiro-Ministro de Israel - Yitzhak Rabin - anuncia que o problema será resolvido com espancamentos generalizados. Desde então, o comportamento de Israel vem sendo escrutinado cada vez mais de perto o que o leva a um progressivo isolamento. É um situação recorrente que já aconteceu noutros lugares do mundo. Timor-Leste, antiga colónia portuguesa e com enormes ligações emocionais e históricas a Portugal, sofreu uma ocupação brutal da Indonésia durante décadas até ao dia em que o mundo viu as imagens do Massacre de Santa Cruz[9]. Demorou mais uma década até a ocupação indonésia acabar, mas desde que as imagens foram mostradas ao mundo que o seu destino estava traçado. Um a um, os líderes mundiais afastaram-se do governo de Suharto e deixaram de considerar a resistência timorense como terrorista. Mas Israel não é a Indonésia e a sua ocupação é muito diferente. Israel não veio para ocupar militarmente mas para criar um país. Para colonizar como se fosse território virgem. Para além de que não tem para onde recuar. Mas, à semelhança da Indonésia, viu a força das imagens de civis mortos pelo seu poderoso exército a retirarem-lhes legitimidade política. Desde a primeira intifada que Israel vem perdendo a sua aura aos olhos do público mundial. Embora espontâneo e imprevisivel, a intifada foi - de longe - o maior golpe de propaganda a favor da causa palestiniana.  

Existe um outro factor (mais lateral, mas bastante curioso) ligado à propaganda que é o ciclo vicioso da informação. Tal como referi anteriormente, um diplomata português na Palestina disse-me em 2011 que, em qualquer período de paz estão em Jerusalém pelo menos 600 correspondentes internacionais. Todos esses jornalistas precisam de justificar o seu salário, o que significa que subitamente, um ataque de pequena dimensão espontâneo, como aconteceu em 2008 com duas vítimas mortais[10] ou a petição do direito de residência de uma família[11] conseguem provocar directos nas maiores televisões de notícias do mundo. Muitos outros lugares do mundo são vítimas de enormes atrocidades, muitas vezes maiores, mas que não está lá ninguém para contar a história.

Refugiados

A questão da Palestina, ou de Israel se preferirem está também intimamente ligada com a questão dos refugiados de 1948, ou seja, a guerra da independência de Israel e 1967. Não pretendo aqui entrar em grande detalhe sobre o que causou os refugiados e os seus impactos, uma vez que já o fiz noutras ocasiões (nomeadamente no post Palestina e os Refugiados e The Ethnic Cleansing of Palestine).

Campo de Refugiados Palestinianos 1948
No que diz respeito à questão da importância do conflito para o resto do mundo, a falta de integração das populações refugiadas da Palestina é um dos seus grandes motivos. Nascidos no Líbano, mas sem passaporte libanês mesmo depois de duas ou três gerações. Nascidos na Síria, mas sem serem sírios. Por todo o Médio Oriente encontro pessoas que se dizem palestinianos, nascidos noutro país e que não têm passaporte. Apenas um documento de refugiados das Nações Unidas. Estas populações, tratadas como cidadãos de segunda em muitos outros países árabes revoltaram-se vezes sem conta tendo causado duas guerras civis (Jordânia e Líbano) e envolvidos em problemas de várias outras. Isto faz com que o problema se mantenha vivo ao longo de gerações.

Para os países que rodeiam Israel e Palestina, este é sem dúvida um factores cruciais para a importância do conflito.

Lóbis
Congresso EUA

Quer Israel, quer a Palestiniana estão totalmente dependentes das ajudas externas. Embora com um potencial turístico fabuloso (não só a religioso, mas também um clima perfeito), inseridos numa região cuja riqueza do petróleo lhes poderia permitir ter enormes investimentos externos e uma multiculturalidade singular, a verdade é que nenhum dos países se aguenta sozinho. Israel recebe ajudas directas americanas anuais de milhares de milhões de dólares, para além de várias ajudas indirectas ao nível militar, científico, académico e económico. A sua economia está excessivamente militarizada, com um programa nuclear de custos incertos, serviço militar obrigatório de longa duração para homens e mulheres, armamento de todo o tipo a ser desenvolvido e produzido internamente (como os tanques Merkava) e constantes guerras que, não obstante o apoio quase total da população judaica, têm um preço elevado em termos de gastos do estado (Netanyahu propôs recentemente cortes de 425 milhões de euros para pagar os 50 dias da operação em Gaza[12]).

Desta forma, Israel utiliza os seus lóbis nos EUA e no resto do ocidente[13] para manter o país na agenda política. Enquanto existir no poder americano uma visão clara de que Israel está debaixo de um perigo de vida - e simultaneamente que os apoios financeiros às campanhas dos congressistas e senadores estão dependentes do dinheiro desses lóbis - as ajudas vão continuar a pingar.

A Palestina não tem um lóbi muito forte, mas uma coligação de forças unem-se em seu auxílio e tem ganho força a cada ano que passa (muito devido à percepção de que o moral high ground de Israel se desvanece por cada civil que morre em Gaza nas suas regulares guerras). Sendo a generalidade dos governos e políticas de Israel associadas à direita, a esquerda mundial - em especial a europeia e sul-americana - juntam-se à causa. Isto inclúi vários países com economias enormes, como o Brasil, a França ou a Itália. Com mil milhões de muçulmanos no mundo, incluindo os maiores produtores de petróleo, a generalidade dos seguidores do Islão - sejam eles seculares, moderados, conservadores ou fundamentalistas - encontram-se sempre na linha da frente dos protestos, embora não tenha existido nunca um movimento de militância estrangeira em larga escala (como aconteceu com os mujahedin no Afeganistão ou com Islamic State na Síria e Iraque).

Anti-Semitismo e Islamofobia


Para muitos, este seria o único e verdadeiro motivo que tudo explicaria. Para quem apoia Israel, todos os seus adversários serão anti-semitas. Para quem apoia a Palestina, todos os seus adversários são islamófobos. 

Pelo que vejo nas caixas de comentários deste blogue e na sua página irmã do facebook, até poderia ser verdade. Talvez tudo se resumisse a estes tipos de discriminações racistas. Mas, sinceramente, duvido. Parece-me que mesmo muitos dos que fazem esses tipos de comentários, estão-se a deixar levar por generalizações perigosas e erradas, mas que estas são resultados dos factos de que falei antes e não a sua consequência. Claro que depois de transformadas em dogmas, estas ideias costumam ser tão fortes que ignoram factos e qualquer evento pode ser deturpado até significar precisamente o contrário do que de facto aconteceu. Mas quero acreditar que as esmagadora maioria das pessoas escolhe o seu lado convencida dos méritos do que lhe está a ser vendido.

E agora... a palavra aos meus leitores. Qual é a importância do conflito Israelo-Palestiniano?

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Israel vs Mundo

Quem utiliza bombardeamentos massivos em cima de um território fechado onde a população não tem por onde fugir não pode esperar outra coisa senão a morte de civis. Muitos civis. Desta vez Israel acertou numa escola das Nações Unidas, no campo de refugiados de Jabaliya na faixa de Gaza. Provavelmente não terá sido de propósito (ao contrário do ataque à escola da ONU em Gaza em 2009 com fósforo branco), mas deixou 15 mortos e 200 feridos, subindo os totais para 1360 mortos e 7000 feridos.

Para quê? Que espera a liderança israelita desta guerra? Capitulação? E se o Hamas se rendesse, será Israel daria plenos direitos aos não-judeus? Poderiam os parlamentares israelitas árabes voltar a falar livremente no parlamento? Porderiam integrar o exército israelita? Os milhões de refugiados e descendentes de refugiados palestinianos de todas estas guerras poderiam regressar às suas terras? Tornariam o país plenamente democrático e binacional? Permitiriam uma solução de dois estados? Retirariam o meio milhão de colonos judeus que colocaram na Cisjordânia?

A resposta é sempre não. Israel não quer ser um país democrático e inclusivo. Não quer que exista um país chamado Palestina. Para uma parte considerável dos judeus israelitas, os palestinianos deviam simplesmente deixar de existir. Desaparecer do mapa e ir para longe. Muito longe. E deixarem essas terras todas de Eretz Israel para o povo que Deus escolheu. O objectivo, para estes, é apenas de tornar a vida tão difícil que acabem por se ir todos embora para o Egipto, Jordânia, Síria ou Líbano. 

O problema é que estes países também não os querem. E os palestinianos vêm-se na mesma situação os judeus dos anos 30 e 40. É pena que para a direita ortodoxa israelita a frase "Holocausto nunca mais" se tenha acabado por transformar em "Holocausto - para nós - nunca mais".

PS: Uma palavra especial para os muitos judeus em Israel e nos Estados Unidos que continuam a exigir paz e o fazem abertamente sabendo as repercursões sociais, académicas e profissionais de tal opção.

PS2: Sobre o Hamas: É uma organização política e religiosa cuja liderança e rumo é idiota e primitiva e causadora de inúmeras infelicidades para os povos palestiniano e israelita. O seu sucesso político é resultado directo da incapacidade da Fatah em conseguir concessões de Israel e da sua profunda corrupção. São de culpados de muita coisa, mas não desta guerra.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Genocídio Arménio



Vítimas do Holocausto Arménio
Como as diferentes fases do genocídio dos Arménios por parte do Império Turco-Otomano decorreram há 99 anos atrás. Primeiro a demissão de todos os funcionários públicos de origem arménia: Polícias, bombeiros, militares, até professores. Depois o assassinato selectivo das elites. Depois os homens. As mulheres e as crianças. Toda a propriedade, herança cultural e locais históricos. Tudo. Até não ficar praticamente nada. 

Disse Adolf Hitler uns anos depois: "Quem fala hoje da aniquilação dos Arménios?"[1]. Infelizmente ninguém quis saber. E passadas duas décadas voltou a repetir-se, mas numa escala ainda maior. Prestes a chegar ao centenário de um dos piores crimes alguma vez cometidos, a Turquia não só não admitiu nunca o genocídio como mete na cadeia quem admitir publicamente que o crime alguma vez aconteceu, como o Nobel da Literatura Orhan Pamuk descobriu[2].




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O outro Holocausto

Umas décadas antes do holocausto que constantemente preenche as páginas dos jornais e as telas do cinema, um outro levou à morte de centenas de milhares, senão de milhões, de pessoas. Uma etnia vítima do homicídio industrial e calculado e cuja memória é constantemente esquecida pelo mundo. Inclusivé pelos descendentes dos criminosos que o fizeram, o Império Otomano. Se em alguns países, a negação do holocausto arménio é crime, na moderna Turquia a menção deste crime pode resultar em detenção, como aconteceu ao escritor alemão-turco Dogan Akhanli[1], ou em complicados processos judiciais, como foi o caso do prémio Nobel da literatura Orhan Pamuk[2].

Mas os Arménios são um povo pequeno, pouco influente e sem lóbies poderosos. Deles não dependem eleições das maiores potências do mundo. E a este povo, sobreviventes e descentes do genocídio que em breve será centenário, nunca foram pagas restituições.

A Síria, como o Líbano, a Palestina e outros países do Médio Oriente, receberam involuntariamente muitos dos refugiados durante 1915. Hoje as suas vidas voltam a estar em risco, quando a Síria atravessa uma guerra civil que será lembrada durante muito tempo. Onde as minorias religiosas parecem estar cada vez mais frágeis. E onde estes descendentes de refugiados provavelmente tornar-se-ão refugiados eles próprios.

Deixo aqui mais um artigo de Robert Fisk, no jornal britânico The Independent[3] sobre os Cristãos Arménios Sírios.


Igreja Cristã Arménia de S.Jorge em Allepo, Síria em Outubro 2012 totalmente
queimada depois de combates entre o exército Sírio e forças rebeldes. 


Nearly a century after the Armenian genocide, these people are still being slaughtered in Syria


And now, almost unmentioned in the media, their holy places are also being desecrated

Just over 30 years ago, I dug the bones and skulls of Armenian genocide victims out of a hillside above the Khabur River in Syria. They were young people – the teeth were not decayed – and they were just a few of the million-and-a-half Armenian Christians slaughtered in the first Holocaust of the 20th century, the deliberate, planned mass destruction of a people by the Ottoman Turks in 1915.
It was difficult to find these bones because the Khabur River – north of the Syrian city of Deir ez-Zour – had changed. So many were the bodies heaped in its flow that the waters moved to the east. The very river had altered its course. But Armenian friends who were with me took the remains and placed them in the crypt of the great Armenian church at Deir ez-Zour, which is dedicated to the memory of those Armenians who were killed – and shame upon the “modern” Turkish state which  still denies this Holocaust – in that industrial mass murder.

And now, almost unmentioned in the media, these ghastly killing fields have become the killing fields of a new war. Upon the bones of the dead Armenians, the Syrian conflict is being fought. And the descendants of the Armenian Christian survivors who found sanctuary in the old Syrian lands have been forced to flee again – to Lebanon, to Europe, to America. The very church in which the bones of the murdered Armenians found their supposedly final resting place has been damaged in the new war, although no one knows the culprits.

Yesterday, I called Bishop Armash Nalbandian of Damascus, who told me that while the church at Deir ez-Zour was indeed damaged, the shrine remained untouched. The church itself, he said, was less important than the memory of the Armenian genocide – and it is this memory which might be destroyed. He is right. But the church – not a very beautiful building, I have to say – is nonetheless a witness, a memorial to the Holocaust of Armenians every bit as sacred as the Yad Vashem memorial to the victims of the Jewish Holocaust in Israel. And although the Israeli state, with a shame equal to the Turks, claims that the Armenian genocide was  not a genocide, Israelis themselves use  the word Shoah – Holocaust – for the Armenian killings.

In Aleppo, an Armenian church has been vandalised by the Free Syrian Army, the “good” rebels fighting Bashar al-Assad’s regime, funded and armed by the Americans as well as the Gulf Sunni Arabs. But in Raqqa, the only regional capital to be totally captured by the opposition in Syria, Salafist fighters trashed the Armenian Catholic Church of the Martyrs and set fire to its furnishings. And – God spare us the thought – many hundreds of Turkish fighters, descendants of the same Turks who tried to destroy the Armenian race in 1915, have now joined the al-Qa’ida-affiliated fighters who attacked the Armenian church. The cross on top of the clock tower was destroyed, to be replaced by the flag of the Islamic State of Iraq and the Levant.

Nor is that all. On 11 November, when the world honoured the dead of the Great War, which did not give the Armenians the state they deserved, a mortar shell fell outside the Holy Translators Armenian National School in Damascus and two other shells fell on school buses. Hovhannes Atokanian and Vanessa Bedros, both Armenian schoolchildren, died. A day later, a bus load of Armenians travelling from Beirut to Aleppo were robbed at gunpoint. Two days later, Kevork Bogasian was killed by a mortar shell in Aleppo. The Armenian death toll in Syria is a mere 65; but I suppose we might make that 1,500,065. More than a hundred Armenians have been kidnapped. The Armenians, of course, like many other Christians in Syria, do not support the revolution against the Assad regime – although they could hardly be called Assad supporters.

Two years from now, they will commemorate the 100th anniversary of their Holocaust. I have met many survivors, all now dead. But the Turkish state, supporting the present revolution in Syria, will be memorialising its victory at Gallipoli that same year, a heroic battle in which Mustafa Kemal Ataturk saved his country from Allied occupation. Armenians also fought in that battle – in the uniform of the Turkish army, of course – but I will wager as many dollars as you want that they will not be remembered in 2015 by the Turkish state which was so soon to destroy their families.

Hitchhikers’ guide to  bad old Iran

While we all bask in the glow of happy relations with Iran, it might be well to read – in four months’ time, unless their publishers have the common sense to bring it forward – a remarkable book by Shane Bauer, Josh Fattal and Sarah Shourd. 

They – and you may not remember this – were the hitchhikers who “strayed” into Iran in 2009 from Iraqi Kurdistan. Sarah (pictured below with Shane) was released first and she called me on the phone to talk about her fiancé, Shane, and to ask if The Independent could help secure the two men’s release. We published some of Shane’s journalism – I made a point of telling the Iranian ambassador in Beirut to read it – and, with or without The Independent’s help, they were both released. I was delighted.

They had been arrested during the presidency of the lunatic Ahmadinejad, and it’s clear from their book that they were lured over the border by Iranian frontier guards. One of them eventually emailed Sarah that this was the case.

But their incarceration, their vicious solitary confinement – a form of torture if ever there was one – and their relations, not just with their fellow condemned prisoners but with their guards, is a remarkable story.

Sarah quickly worked out, back in freedom, that the US government was not their natural friend; there are some sharp words about the “peacemaker” Dennis Ross.  A good book – which I rarely say – and it’s called A Sliver of Light.  A Fisk read.

domingo, 20 de outubro de 2013

Judeus da Dinamarca

O holocausto nazi não foi sempre igual. Não teve sempre o mesmo ritmo. A vergonha não foi sempre a mesma. E a história do genocídio do povo judeu na europa é a história de cada uma das vítimas, mas também de cada um dos sobreviventes. Na Dinamarca passou-se algo muito interessante. Pelo trabalho de dois oficiais nazis, pelo desinteresse de Berlim e pela discreto apoio da Suécia, a quase totalidade dos judeus dinamarquesas conseguiram escapar ao horror dos campos de concentração e extermínio.

É da história desses 7000 judeus e dos que os ajudaram que fala este interessante artigo da revista alemã Spiegel[1] que passo a transcrever.


The Exception: How Denmark Saved Its Jews from the Nazis

By Gerhard Spörl
Denmark was the only European country to save almost all of its Jewish
Georg Ferdinand Duckwitz
residents from the Holocaust. After being tipped off about imminent roundups by prominent Nazis, resisters evacuated the country's 7,000 Jews to Sweden by boat. A new book examines this historical anomaly.

They left at night, thousands of Jewish families, setting out by car, bicycle, streetcar or train. They left the Danish cities they had long called home and fled to the countryside, which was unfamiliar to many of them. Along the way, they found shelter in the homes of friends or business partners, squatted in abandoned summer homes or spent the night with hospitable farmers. "We came across kind and good people, but they had no idea about what was happening at the time," writes Poul Hannover, one of the refugees, about those dark days in which humanity triumphed.

At some point, however, the refugees no longer knew what to do next. Where would they be safe? How were the Nazis attempting to find them? There was no refugee center, no leadership, no organization and exasperatingly little reliable information. But what did exist was the art of improvisation and the helpfulness of many Danes, who now had a chance to prove themselves.

Members of the Danish underground movement emerged who could tell the Jews who was to be trusted. There were police officers who not only looked the other way when the refugees turned up in groups, but also warned them about Nazi checkpoints. And there were skippers who were willing to take the refugees across the Baltic Sea to Sweden in their fishing cutters, boats and sailboats.

A Small Country With a Big Heart

Denmark in October 1943 was a small country with a big heart. It had been under Nazi occupation for three-and-a-half years. And although Denmark was too small to have defended itself militarily, it also refused to be subjugated by the Nazis. The Danes negotiated a privileged status that even enabled them to retain their own government. They assessed their options realistically, but they also set limits on how far they were willing to go to cooperate with the Germans.

The small country defended its democracy, while Germany, a large, warmongering country under Hitler, was satisfied with controlling the country from afar and, from then on, viewed Denmark as a "model protectorate." That was the situation until the summer of 1943, when strikes and acts of sabotage began to cause unrest. This prompted the Germans to threaten Denmark with court martials and, in late August, to declare martial law. The Danish government resigned in protest.

At this point, the deportation and murder of European Jews had already been underway for some time in other countries that had submitted to Nazi control. In the Netherlands, Hungary, Greece, Lithuania, Latvia and Poland, the overwhelming majority of Jews, between 70 and 90 percent of the Jewish population, disappeared and were murdered. The Nazis deported and killed close to half of all Jews in Estonia, Belgium, Norway and Romania. About a fifth of French and Italian Jews died. As historian Peter Longerich writes, the Holocaust was dependent, "to a considerable extent, on the practical cooperation and support of an occupied country or territory."

The Danes provided no assistance to the Nazis in their "Jewish campaign" in Denmark. They viewed the Jews as Danes and placed them under their protection, a story documented in "Countrymen," a new book by Danish author Bo Lidegaard. "The history of the rescue of the Danish Jews," writes Lidegaard, "is only a tiny part of the massive history of the Shoah. But it teaches us a lesson, because it is a story about the survival instinct, civil disobedience and the assistance provided by an entire people when, outranged and angry, it rebelled against the deportation of its fellow Danes."

Ten Years Documenting the Danish Resistance

Lidegaard, born in 1958, is a tall intellectual with many talents. As a diplomat, he represented his country in Geneva and Paris. After that, he served as an adviser to two succeeding Danish prime ministers and, in 2009, he organized the United Nations Conference on Climate Change in Copenhagen. He has been the editor-in-chief of Politiken, Denmark's large, left-liberal daily newspaper, since April 2011.

He worked on his book for 10 years. During a conversation in Hamburg, Lidegaard said that he was interested in finding out why Denmark had wanted to save the Jews -- and why the Nazis allowed them to be saved. Two men played a key role in the affair -- two German Nazis, each with his own story.

One of the Germans was named Georg Ferdinand Duckwitz. He was from a merchant's family in the northern port city of Bremen and joined the Nazi Party in 1932. Duckwitz was a Nazi and an anti-Semite out of conviction. He worked for Alfred Rosenberg, one of Hitler's race ideologues, who was sentenced to death in Nuremberg in 1946 and executed.

Duckwitz gradually developed an aversion to the Nazis' brutishness and bloodlust. Because he was familiar with Denmark from his earlier days and had a fondness for the country, he went to Copenhagen in September 1939, working as a shipping expert for the German Reich's Ministry of Transport.

Germany occupied Denmark on April 9, 1940, but the protectorate was allowed to direct its internal affairs. It kept a certain amount of latitude and rejected the Nazis' demand that it introduce the death penalty and segregate Jews. The country asserted itself as much as it could.

Germany declared Denmark a model for the protectorates that Hitler intended to establish in Western Europe after the end of the war. The Nazis initially sent only 89 officials to the country, and they were responsible for 3.8 million Danes. By contrast, Berlin sent 22,000 officials to France. Unlike France, Denmark was small and had only a small Jewish population. The country also had no raw materials of importance to the war effort. Denmark supplied agricultural products to Germany, but its economic role was relatively small.

An Enemy from Within

Duckwitz wrote a manuscript describing his official and unofficial activities in Copenhagen. The document, which remains in the political archive of the German Foreign Ministry today, both complements and contradicts Lidegaard's account.

Part of Duckwitz's job was to manage German ships calling at Danish ports. He signed agreements with Danish government agencies that regulated "the reciprocal use of tonnage." He was also required to report to Berlin when the Danish underground committed acts of sabotage against ships.

In addition, Duckwitz established ties with Social Democrats and young labor leader Hans Hedtoft, and he assisted Danes who had fallen into the Germans' clutches. Duckwitz's office soon became unofficially known as "the office for rescuing people."

A Nazi himself, Duckwitz became an opponent of the Nazis who simultaneously had good connections in Berlin. The Nazis could hardly have failed to notice the change. They threatened to recall him several times but never followed through.

Duckwitz exemplified what the German philosopher Hannah Arendt called "the role played by the German authorities in Denmark, their obvious sabotage of orders from Berlin," a phenomenon that she found astonishing. "It is the only case we know of in which the Nazis met with open native resistance, and the result seems to have been that those exposed to it changed their minds.

The second German was and remained a staunch Nazi and anti-Semite. Werner Best was a senior official at the Reich Main Security Office, where he worked closely with SS leader Heinrich Himmler and Reinhard Heydrich, the head of the agency. But then Best quarreled with Heydrich and fell from favor. He left Berlin and joined the German military administration of France, where he managed the internment and persecution of Jews, earning the nickname "Bloodhound of Paris."

In the summer of 1942, Best was sent to Denmark as Berlin's new plenipotentiary, which made him the highest authority in the protectorate. "Best was to play a key role in the fate of the Danish Jews, but exactly what that role was is still debated today," writes Lidegaard.

Lidegaard believes that Best was an opportunist who, in the fall of 1943, was smart enough to recognize that the war was lost for Germany. He tolerated what Duckwitz was doing, because he assumed that he would be treated more leniently after the war if he had turned a blind eye to Duckwitz's activities. But Duckwitz would have disagreed with Lidegaard. He saw Best as a man who had changed his mind in Copenhagen, in the way Hannah Arendt described.

In his manuscript, Duckwitz writes that the Nazis had intended from the beginning to proceed eventually against the Jews in Denmark. In early September 1943, Best and Duckwitz received word from Berlin that Hitler's cohorts were pushing to have the Danish Jews deported. This prompted Best to take initiative, writes Duckwitz. On Sept. 8, the plenipotentiary sent a telegram to Berlin in which he proposed that the German military, the Wehrmacht, should take action against the Jews in Denmark -- in effect appropriating what had, until then, only been a rumor.

But that was only a trick, suggests the well-meaning Duckwitz, who asserts that Best had believed "that his suggestion to launch a campaign against the Danish Jews would be rejected outright. He saw a great benefit in taking the initiative away from those groups that wanted Hitler to persecute the Jews in Denmark."

As Duckwitz tells it, Best had never meant the Nazis to take up his suggestion. He had bluffed and miscalculated. But Lidegaard doesn't buy that assessment. He believes it was an earnest request.

In any case, the response arrived from Berlin on Sept. 19, 1943. Hitler approved of Best's proposal and had ordered Himmler to execute the plan.

Preempting the 'Jewish Campaign'

Duckwitz promptly notified his Danish informants in the government, among the Social Democrats and within the Jewish community. He traveled to Sweden and told Prime Minister Per Albin Hansson what was about to happen. The Swedish government instructed its envoy in Copenhagen to freely issue passports to Danish Jews and made preparations to accept refugees at home.

The "Jewish Campaign" began on the night of Oct. 1. The German security forces consisted of 1,300 to 1,400 police officers, together with Danish volunteers and the Schalburg Corps, an SS unit consisting of Danes. Several hundred Jews fell into their hands, and 202 were designated for deportation and taken, along with 150 Danish communists, to the Wartheland, a ship with the capacity to hold 5,000 passengers.

Neither the German Wehrmacht nor the police "proved to be especially eager to help the Gestapo hunt down the Danish Jews," writes Lidegaard. The campaign was declared over at 1 a.m., and Best wrote in his report to Berlin that Denmark had been "de-Jewed."

"De-Jewed?" One can hardly assume that the Nazis failed to notice that only a few hundred people had been transported on the large ship, while at the same time, thousands of Jews were fleeing to the coast in order to escape to Sweden. It is also difficult to imagine that Duckwitz's conspiratorial activities remained completely unnoticed in Berlin. So why didn't the Nazis do anything about it?

Denmark simply wasn't that important to them, Lidegaard said during the conversation in Hamburg. Besides, he added, the Nazis knew that the Danes would protect their Jews from mass deportation. They had opted to present Denmark to the world as a model protectorate, so they decided for once to dispense with violent reprisals.

Aftermath

What about Duckwitz and Best? Lidegaard believes they acted in the knowledge that Berlin had only a moderate interest in Denmark. One of the oddities of the Danish situation, he says, is that Adolf Eichmann traveled to Copenhagen in November 1943 and expressed his satisfaction with the "Jewish Campaign."

In the end, 7,742 Jews were able to flee to Sweden across the Baltic Sea. Each of the refugees received government support in Sweden if it was needed. The Danish government also advocated on behalf of those who had been deported. After negotiations with Himmler, 423 Danes were released from the Theresienstadt concentration camp in early 1945.

How many Danish Jews were killed? An estimated 70, or one percent of the country's Jewish population at the time. Denmark is a shining exception in the history of the European Holocaust.

Both Best and Duckwitz survived the war in Copenhagen. Best was arrested, testified in the Nuremberg War Crimes trial and was later extradited to Denmark. The Copenhagen Municipal Court sentenced him to death on Sep. 20, 1948, but in appeal proceedings his sentence was reduced to 12 years in prison. He was given credit for his behavior in the fall of 1943, and in response to pressure from the new German government in Bonn, he was released on Aug. 24, 1951.

After that, he worked in the office of Ernst Achenbach, a politician with the liberal Free Democratic Party (FDP), for the rehabilitation of former Nazis. He provided the defense with exonerating material in many Nazi trials without making an appearance himself.

Honor, Dishonor

In Germany, Best lived undisturbed for two decades. Only in the late 1960s did documents and witnesses turn up to shed light on his past in the Reich Main Security Office. But his trial was repeatedly postponed for health reasons. Best, an eternally colorful but sinister figure, died in June 1989.

Duckwitz remained in Copenhagen after the war, initially working as a representative of the West German chambers of commerce. He entered the diplomatic service when the Foreign Ministry was rebuilt in West Germany. He returned to Denmark as the West German ambassador in 1955. Ten years later, he chose to retire early, because he disagreed with Bonn's policy of marginalizing East Germany.

But soon Chancellor Willy Brandt brought him back and made him his chief negotiator for the Treaty of Warsaw, which was designed to reconcile Poles and Germans.

Soon after the end of the war, Denmark honored Duckwitz, the converted Nazi, for his role in the rescue campaign. In 1971, two years before his death, Yad Vashem, Israel's memorial to the Jewish victims of the Holocaust, presented him with its "Righteous Among the Nations" award.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Revisionismo Nazi


Foi por mero acaso que me deparei com este documentário no YouTube. É sempre bom encontrar quem discorde das nossas opiniões e ainda melhor se desafiar tudo aquilo que damos por garantido. Este é um documentario assumidamente revisionista, mostrando a Segunda Guerra Mundial pelo lado de Adolf Hitler.

A ideia geral é de que a guerra não foi provocada por Hitler mas sim pelos aliados ocidentais e pela Rússia. Curiosamente a esmagadora maioria dos factos apresentados são reais e - ao contrário do que o título acusa - conhecidos e publicados pelos historiadores.

Adolf Hitler
É um facto que Hitler não pretendia uma guerra com o Reino Unido e a França. Considerava que o seu espaço vital se encontrava a leste, e substimou a ameaça quando decidiu invadir a Polónia. Também é verdade que o comportamento da diplomacia da Polónia no período entre guerras foi deplorável e valeu-lhe muitos poucos amigos. Que a tirania de Stalin não ficava abaixo da de nenhum outro ditador megalómana. 

Também a questão do tratado de Versailles é relevante e conhecida. As decisões dos vencedores da Primeira Guerra Mundial são o motivo número um para o início da Segunda Guerra Mundial. As indemnizações, os novos países criados artificialmente, os impérios desmembrados e, genericamente, a prepotência vingativa dos velhos impérios em relação aos derrotados levou a que fosse uma questão de tempo até que um nova guerra eclodisse.

O que este documentário se esquece de mencionar é o resto: o Holocausto, o tratamento dos prisioneiros russos, as limpezas étnicas, o racismo de estado do movimento Nacional Socialista.

De qualquer forma é relativamente interessante tentar perceber o que vai na cabeça dos revisionistas e quais são os seus argumentos. E aceitar que muitos são válidos mas, no final de contas, cometem o mesmíssimo erro que acusam os historiadores de cometerem. Esquecem-se de mencionar "o resto".



sábado, 3 de novembro de 2012

Importa-se de repetir Sr. Embaixador?

Ehud Gol - Embaixador de Israel em Portugal
Não admira que homens como Norman Finkelstein falem na existência de uma "indústria do holocausto"[1]. Esta semana o embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, foi à conferência "Portugal e o Holocausto, aprender com o passado, ensinar para o futuro" para nos presentear com um conjunto de afirmações que roçam o insulto à inteligência e à memória histórica[2]. Em plena Fundação Gulbenkian, Gol afirmou que Portugal "foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias" por morte de Adolf Hitler e acrescentou ainda que "É uma nódoa que para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal". 

Este tipo de chantagem psicológica aparenta ser mais uma das muitas táticas utilizadas pelo lóbi de Israel para conseguir concessões ou pagamentos directos do país, ao estilo dos relatos de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt[3]. Mas começo por dizer que, tendo os judeus sido vítimas daquele que provavelmente será o maior crime alguma vez cometido, bandeiras a meia haste deveria ser o menor dos seus problemas.

Durante os anos fatídicos de 1933, quando Hitler ascende ao poder, até à sua queda em 1945, o povo judeu foi assassinado aos milhões com a ajuda dos governos fantoches ou legítimos da Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Noruega, Áustria, Checoslováquia, Polónia, Croácia, Itália, Estónia, Letónia, Lituânia, Grécia, etc. Em praticamente toda a europa, as polícias secretas em conjunto com a Gestapo procuravam e deportavam todos os judeus enviando-os para a morte. Portugal, nessa altura, protegeu não só os cidadãos portugueses de religião judaica como também fez vista grossa a milhares de judeus ilegais que entraram no país com vistos falsificados ou produzidos por embaixadas como a de Bordéus cuja validade legal era duvidosa[4]. Tudo isto enquanto o governo de António Oliveira Salazar se via a braços com uma potencial invasão espanhola e/ou alemã de Portugal continental e de uma invasão dos aliados nas ilhas dos Açores pelo que necessitava de manter uma postura o mais neutra possível para evitar ser empurrado para a mais destrutiva guerra de todos os tempos[5]. Se todos os países tivessem tido o mesmo comportamento que Portugal, nem teria existido guerra.

A bandeira a meia haste por Hitler é, obviamente, uma estupidez. A guerra estava decidida e já não havia qualquer interesse em manter a neutralidade. Portugal, aliás, já tinha feito algo bem mais importante do que isso e com efeitos directos na capacidade militar alemã ao proibir finalmente a venda de volfrâmio à Alemanha uns dias antes do Dia D[6]. E, para finalizar o comentário à ridícula conversa da bandeira, atrever-me-ia a dizer que todos ficaríamos muito felizes se Israel em vez de ter expulsado 750 mil palestinanos civis da Palestina e assassinado muitos milhares em 1948 tivesse limitado a sua ação a colocar a sua bandeira a meia haste pela morte de uma qualquer persona non grata dos palestinianos. Estaríamos hoje todos muito melhor.
Aristides Sousa Mendes

Mas como um disparate nunca vem só, o embaixador Ehud Gol acrescenta ainda que lhe foi pedido por parte da Fundação Aristides Sousa Mendes ajuda pelo facto da antiga casa deste estar a ruir. Acrescenta orgulhosamente que não só não ajudará como para não pedirem ajuda aos Estados Unidos. Fiquei um pouco surpreendido por ver um embaixador israelita a falar em nome do governo dos EUA, mas dado o nível de influência do lóbi judeu no congresso americano[7], talvez esta até seja a atitude mais pragmática. Nas suas palavras "Façam vocês algo para promoverem a imagem dos vossos justos". Os justos entre as nações é um título atribuído por Israel e não por Portugal[8]. Nós temos os nossos próprios prémios carreira para os cidadãos portugueses que se distinguem por algum motivo. E somos nós, através dos nossos governos democraticamente eleitos, que decidimos como, quando e a quem apoiaremos dentro das nossas parcas possibilidades. Não cabe ao embaixador de Israel dizer como é que Portugal deve premiar os heróis de Israel. Mais uma vez, o excelentíssimo Ehud Gol parece ter enormes dificuldades em compreender o seu job description. Ele é embaixador de Israel, e não de Portugal ou dos Estados Unidos da América.
Soldados israelitas e o escudo humano

Continuando a sua jihad retórica, o supracitado considera que Portugal tem obrigação de ser um membro e não um observador na task force internacional para a Educação, Memória e Investigação do Holocausto. Para além de estarmos neste momento precisamente a tentar acabar com o "investimento" do estado em inúmeras fundações e observatórios por falta de dinheiro, o estudo do Holocausto não é a prioridade da nossa educação. Felizmente Portugal não teve qualquer envolvimento nesse crime nem, dada a sua dimensão e frágil posição, poderia ter feito algo mais para o impedir. Temos no entanto imensas "nódoas" (para usar mais uma expressão de Gol) no nosso passado que devemos relembrar e fazer todos os possíveis para que não aconteçam nunca mais. Estou a falar por exemplo da tortura ou do racismo de estado que foram cometidos durante séculos no Império Português. Pesadelos que devemos relembrar para que nem nós nem ninguém os volte a repetir. Uma lição que o embaixador poderia até levar para o seu país que sistematicamente viola os direitos humanos, torturando e assassinando os israelitas árabes e os palestinianos[9][10][11][12][13][14].

Por fim, e em jeito de moral da história, temos a afirmação do embaixador de que "(..) os países têm que assumir responsabilidade pelo seu passado". Curiosamente referia-se a Portugal. O meu conselho seria que pegasse nessa lição e a levasse para Tel Aviv para ver se Netanyahu restitui aos palestinianos tudo aquilo que Israel lhes roubou nestes últimos 70 anos[15]

PS: Só faltou mesmo a conversa do ouro nazi, corolário óbvio de toda esta chantagem psicológica. Suponho que essa conversa ficará para quando Portugal tiver mais dinheiro.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Noite

Book Review

Escrito por Elie Wiesel e publicado em Portugal pela Texto, "Noite" conta como este judeu romeno foi atirado para o horror dos campos de concentração nazis de Auschwitz e Buchenwald ainda adolescente.

Como todos os testemunhos reais sobre o holocausto, o livro é impressionante, comovente e assustador. Apetece-nos gritar às personagens para que fujam antes que seja tarde demais. Para que não acreditem que tudo vai correr bem. Mas infelizmente não nos ouvem. Não trazendo nada de completamente diferente de outras descrições como a Primo Levi ou mesmo a versão cinematográfica de "A Lista de Schindler" de Spielberg, não deixa de ser um testemunho relevante e que deve ser lembrado.

Sinceramente o que me estragou o livro é saber mais sobre quem é realmente Elie Wiesel. Página a página, perguntava-me continuamente como é que alguém que passou por tudo isto consegue ser tão frio em relação ao sofrimento dos outros. Este mesmo homem é incapaz de dizer uma palavra quando se fala da expulsão de centenas de milhares de palestinianos, resumindo o problema à seguinte frase:

"Para mim, como judeu, Jerusalém está acima da política. Ela pertence ao povo judeu e é muito mais do que uma cidade. É o que liga um judeu a todos os outros de uma forma que é difícil de explicar"[1].

Wiesel mostra um fundamentalismo religioso perigoso, onde o sofrimento do povo judeu deve ser relembrado por todos, mas qualquer mal causado por um judeu não pode ser recordado.

Piora a sua argumentação usando a cartada religiosa: "[Jerusalém] está mencionada nas escrituras [judaicas] mais de 600 vezes e nem uma vez no Corão"[2].

Ou seja, para Wiesel, a diplomacia internacional deve ser baseada nos livros sagrados. Por algum motivo, não nos diz quantas vezes Jerusalém aparece no Novo Testamento. É que utilizando o mesmo argumento, então provavelmente Jerusalém deveria ser a capital de um estado cristão, e não de Israel.

Wiesel, prémio Nobel da Paz em 1986, utiliza o seu sofrimento e o dos seus para se colocar num patamar diferente de todos os outros. Em vez de lutar para que estes crimes desapareçam todos de vez da face da terra, usa-os para ignorar todos os outros. Inclusivé o dos milhões de deficientes mentais, ciganos, polacos, russos, comunistas, sociais democratas e todos os que cairam nas garras no regime nazi. E isso estraga o livro. Não o seu conteúdo, mas a sua utilização para fins ilícitos.

A Indústria do Holocausto

Book Review

Já ouvira que Norman Finkelstein era um radical[1], um self hating jew[2] entre muitos outros insultos. Conhecia o ódio de que é alvo por parte dos lóbis judeus americanos. Já estava por isso preparado para ouvir algo de diferente da boca deste americano, filho de sobreviventes do holocausto nazi e promotor feroz da independência da Palestina e dos direitos humanos nos territórios ocupados. Mesmo assim, nada me tinha preparado para o que iria encontrar neste livro.

Publicado em Portugal pela Antígona, "A Indústria do Holocausto - Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus" pega num estudo de Peter Novick "The Holocaust in American Life" e leva-o mais longe, transformando-o numa acusação directa à Indústria do Holocausto que Finkelstein distingue do verdadeiro e factual holocausto nazi. Este último refere-se aos milhões de pessoas que foram assassinadas de forma sistemática pelo regime Nazi enquanto o primeiro é não mais do que a forma como essa memória tem sido utilizada para extorquir dinheiro e influência para um conjunto de instituições.

Historicamente o holocausto foi esquecido durante décadas. Os filmes e a literatura dos anos 40, 50 e 60 do século passado ingnoram a sua existência embora toda a gente tivesse conhecimento do que acontecera. Só depois da guerra dos 6 dias em 1967, é que os judeus americanos, nesse momento de força inequívoca do estado de Israel em relação aos seus vizinhos, descobrem Israel. Subitamente a própria sobrevivência do Estado de Israel era gritada aos ventos e os sobreviventes do holocausto estavam a passar enormes dificuldades. Com estes argumentos iniciou-se um processo de dupla extorsão: por um lado o lóbi judeu americano usou a sua influência junto dos governadores, congressistas e senadores americanos para forçar países como a Suíça, a Alemanha e a Polónia a pagarem indemnizações pelos eventos da segunda guerra mundial (mesmo quando em alguns casos já se tinha chegado a acordos e pago os mesmos imediatamente a seguir à guerra). Por outro, esse dinheiro, em grande parte, não chegou efectivamente aos sobreviventes e familiares das vítimas dos campos de extermínio nazis espalhados pelos vários países ocupados para além da própria Alemanha.

Finkelstein defende de forma clara que a ideia de que o extermínio dos judeus pelo regime Nazi não deve ser colocado numa categoria à parte. Embora seja um crime enorme e hediondo, não é único e as regras que aplicamos para procurar justiça para este deve ser utilizado também para outros. Seja o holocausto arménio, a escravatura em todo o mundo, a limpeza étnica dos palestinianos entre outros. Também o extermínio de ciganos e doentes mentais (os outros dois grupos sociais alvo dos nazis) durante o mesmo holocausto nazi deve ser tratado da mesma forma. E levanta ainda a questão de extremo mau gosto de o governo americano financiar inúmeros museus do holocausto e pergunta "o que aconteceria se a Alemanha fizesse um sem número de museus a demonstrar a escravatura dos negros nos EUA ou a limpeza étnica dos nativos americanos?".

Um livro provocador, bem escrito e corajoso de um homem que não se deixa silenciar. E ainda bem que é judeu, porque qualquer outra pessoa que trouxesse os mesmos argumentos seria simplesmente atirada para um canto e esquecido debaixo do argumento de "anti-semita".

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Portugueses no Holocausto

Book Review

Da autoria de Esther Mucznik, este livro, cuja primeira edição acaba de ser imprimida, retrata de forma cuidada o envolvimento dos portugueses no holocausto, durante a segunda guerra mundial. Não só dos judeus de origem portuguesa que foram vítimas do holocausto por se encontrarem no país errado, tal como a França, Holanda ou Grécia ocupadas, mas também das origens desses portugueses, muitos deles descendentes de refugiados da inquisição no século XVI. Acrescenta a estes temas, o das movimentações dos diplomatas e políticos portugueses e a posição do governo de então.

António Oliveira Salazar, então presidente do conselho (o equivalente ao actual primeiro ministro) e ditador de Portugal, acumulando ainda as pastas de ministro dos negócios estrangeiros e da defesa, procurou manter Portugal fora da guerra, conseguindo tornar-se um "neutro útil" quer aos aliados (em especial à Inglaterra) quer ao eixo (nomeadamente à Alemanha). Dessa forma, o seu medo de provocar algum dos lados levou-o a indecisões que acabaram por custar a vida a muitos judeus portugueses, mesmo quando todos os países neutros receberam da Alemanha a permissão para retirar os seus nacionais - incluindo os judeus - dos territórios ocupados.

Mas se a política oficial portuguesa era hesitante, foram muitos os diplomatas portugueses que se mostraram extremamente corajosos ao darem vistos, fecharem os olhos a documentos forjados e confrontarem o governo português com as suas indecisões. Aristides de Sousa Mendes será sem dúvida o mais famoso de todos esses benfeitores, tendo salvo mais de 30 mil judeus, conquistando o seu lugar ao lado de Oscar Schindler (retratado no filme "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg) e muitos outros como um "Justo entre as Nações" (uma honra dada a não-judeus pelo estado de Israel para os que arriscaram as suas vidas para salvar judeus durante o holocausto).

Em Portugal, muitos desses judeus refugiados eram levados para longe de Lisboa, para cidades mais pequenas onde foram muito bem recebidos segundo os muitos testemunhos descritos neste livro. Embora muitos ficassem pasmados com o arcaismo de Portugal dos anos 40, a perspectiva da paz, segurança e uma possível viagem para o outro lado do atlântico foi uma dádiva dos deuses para estes judeus perseguidos pela fúria nazi.

Um livro extremamente interessante, de leitura fácil não obstante a seriedade do assunto e que nos ajuda a compreender a posição de Portugal e de muitos portugueses naquele que terá sido o maior crime alguma vez cometido na história da humanidade.

(o lançamento do livro será no dia 29 de Maio, às 18:30 no restaurante do piso 7 do Corte Inglês)

Primo

Nesta semana deparei-me com um filme num dos canais por cabo do qual não estava à espera. Para começar era teatro televisivo, do qual eu estou longe de ser um apreciador. Depois, nunca tinha ouvido falar deste filme, gravado em 2005, embora conhecesse a história de Primo Levi, um judeu italiano que durante a segunda guerra mundial foi enviado para o campo de concentração de Auschwitz na Polónia, e que veio a tornar-se num dos grandes escritores sobre o holocausto judeu. Por fim, não conhecia o actor principal (e único), Antony Sher.

Num palco extremamente simples, e utilizando as câmeras de forma brilhante, olhando o tele-espectador directamente nos olhos em grande parte da peça, Sher retrata num monólogo cativante a história do livro "Se isto é um homem" desde o momento em que é preso até à sua libertação quando o Exército Vermelho liberta o campo.

São tantos os momentos altos, desde a descrição do andar dos presos, a luta pela comida, a angústia de todo o processo, as esperanças do fim da guerra, os rumores, a vergonha da nudez, a revolta para com os outros presos que roubavam a comida e os sapatos até aos heróicos actos de Lorenzo Perrone que demonstrou que mesmo num verdadeiro inferno existem almas capazes de o mais belo dos actos de caridade.

Durante 90 minutos ouvimos e vemos um único actor, praticamente sem efeitos sonoros, com uma roupa discreta, palcos modestos e um jogo de sombras que se vai adaptando constantemente à história. E nem por um segundo ficamos aborrecidos. Depois de o ver a primeira vez, vi uma segunda, e depois uma terceira.

Não achei possível alguém conseguir descrever o holocausto numa peça de teatro. Antony Sher conseguiu-o de forma brilhante. Como se estivéssemos a falar mesmo com um sobrevivente de Auschwitz. Absolutamente perfeito.