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sábado, 28 de março de 2015

Iémen, a caminho do abismo

Muitos recordarão com saudades os tempos em que o Iémen era apenas o mais pobre dos países da península arábica. Quando o medo constante da Al Qaeda, os eventuais ataques de drones americanos, a violência dos serviços de segurança e a falta de liberdade política aterrorizavam o país. Tirando as ocasionais referencias em algumas publicações especializadas no Médio Oriente e o comovente e assustador livro "Divorciada aos 10 anos" de Nojoud Ali e Delphine Minoui, este país esteve nas últimas décadas praticamente esquecido do mundo. Para todos os efeitos, o Iémen esteve sempre mais longe das esplendorosas monarquias do Golfo do que New York ou Tokyo.

Mesmo nos inúmeros livros sobre o Médio Oriente e o seu turbulento século XX, este país poucas menções recebe para além de ter sido o campo de batalha no jogo de forças entre a Arábia Saudita e o Egipto de Nasser. Guerra que dividiu o Iémen nos anos 60 e que foi para o mediático presidente egípcio o que o Vietname foi para os Estados Unidos.

Durante a Primavera Árabe, vimos a população Iemenita a reagir de forma semelhante a tantos outras por toda a região. Nas ruas exigiram democracia e liberdade e um futuro sem ditadores sanguinários. Mas como em muitos outros países, da Primavera saltou-se rapidamente para o Outono e, antes que alguém se apercebesse estávamos no pico do Inverno.

Até há pouco tempo, quem imaginaria os Houthis a tomarem a capital Sanaa? A verdade é que ninguém, mesmo estando estes associados ao Irão e já tendo iniciado várias revoluções na última década. Sabíamos que a AQAP (Al Qaeda da Península Arábica) esteve sempre activa em várias partes do Iémen, onde colocava pressão numa desconfortável Arábia Saudita e nos Estados Unidos que controlavam a zona com bombardeamentos de drones. Também era conhecido que a queda do ditador Ali Abdullah Saleh tinha destruído o fraco equilíbrio do país. Mesmo assim, é sabido que os Houthis não têm capacidade (nem representação na população) para conseguir manter o país inteiro debaixo do seu braço por isso teria que existir algum tipo de acordo de partilha de poder, mas os acontecimentos do último fim de semana poderão ter alterado tudo.

No dia 20 de Março, ataques bombistas em duas mesquitas Shiitas (ou seja, ligadas aos Houthi) mataram 142 pessoas e feriram mais 351. O terrível ataque, que inicialmente se pensou ser um acto da AQAP foi assumido pelo Estado Islâmico (ISIS/ISIL), uma surpresa já que até então o EI não tinha mostrado os seus tentáculos nesta região. O modus operandi apontaria para AQAP, mas a própria Al Qaeda se distanciou do ataque.

A entrada deste novo actor e a ascenção do governo alternativo do Presidente Hadi na cidade portuária de Aden (que chegou a estar preso pelos Houthis na capital Sanaa, mas de onde conseguiu fugir entretanto), levaram a um novo avanço dos Houthi em direcção a Aden.

Um par de notícias chamou-me particularmente à atenção nos dias que se seguiram. Primeiro de que o chefe de estado Abedrabbo Mansour Hadi estaria novamente em fuga e já não se encontraria em Aden. Dadas as circunstâncias, uma decisão compreensivel já que provavelmente não conseguiria escapar-se novamente caso caisse nas mãos dos novos senhores do Iémen. A segunda, que me pareceu bastante mais inesperada foi a de que Aden estava a ser bombardeada pelos Houthis. Especificamente, o BBC World Service referia-se a jactos lançando bombas na zona do palácio onde o governo alternativo teria sede. 

Mas quantas vezes vimos uma força rebelde com uma força aérea? Mesmo o Estado Islâmico, que conseguiu conquistar inúmeros aeródromos e aeroportos militares, capturou aviões e jactos mas nunca conseguiu fazer operações aéreas. Afinal de contas, é preciso muito mais do que aviões. São necessários pilotos, técnicos, controladores aéroes e engenheiros assim como fuel, óleos e todo o tipo de partes específicas para as aeronaves. Claramente, não é a mesma coisa que capturar uns Humvees ou umas AK-47. 

A resposta acabou por aparecer em outros serviços noticiosos, onde era dito que forças leais ao antigo ditador Saleh estariam a lutar ao lado dos Houthi. Não é fácil sabermos quem exactamente estará incluido mas podemos estar a falar de muito mais do que um pequeno contingente da força aérea.

Por fim, a Arábia Saudita, com o apoio de outros 9 países árabes que incluem algumas potências regionais (como os Emirados, Qatar, Egipto e Paquistão) iniciaram o que chamam de bombardeamentos cirúrgicos (onde é que eu já ouvi isto?) dentro do Iémen, numa coligação apoiada politicamente pelos Estados Unidos e onde a hipótese de uma invasão terrestre está claramente na mesa. A liderança saudita já informou que estaria pronta para incluir uma força de 150.000 militares e mais de 100 aviões de combate na operação.

A operação é resultado de um pedido explícito de ajuda do Presidente eleito Hadi, em Aden, o que lhe dá alguma validade moral, mas o facto é que quando o país for destruído até voltar à idade da pedra já ninguém se lembrará disso. Ou não foi a invasão soviética do Afeganistão também o resultado de um pedido de ajuda?

domingo, 22 de junho de 2014

Iraque - A Trama Adensa-se

Moqtada Al Sadr
Depois de uma demonstração de enorme força do ISIL, que representava a Al Qaeda no Iraque até ter decidido que as fronteiras de Sykes-Picot não se aplicavam a eles, temos um novo (velho) player a mostrar que ainda está em jogo: Moqtada Al Sadr. Ao extremismo sunita, parece que se vai contrapor o extremismo shiita...

Mas comecemos por definir a situação actual: Primeiro, é importante definir a região em causa, e esta claramente não se pode limitar ao Iraque. O Iraque e a Síria representam neste momento um campo de batalha único. A partir do momento que o ISIL (Estado Islâmico do Iraque e Levante) começou a lutar nos dois territórios, temos uma aliança tácita estranha entre dois governos (Bashar Al Assad e Nouri Al Maliki) que têm muito menos em comum do que seria de esperar. Este inimigo comum talvez os una por uma vez, embora provavelmente Maliki não queira ver no Iraque o tipo cenário em que o seu vizinho tem vivido nos últimos anos. As forças governamentais Sírias têm (com a limitada ajuda do Hizbullah libanês, apoio militar e logístico Russo e manifesta incapacidade da comunidade internacional) conquistado terreno e controlam hoje grande parte da Síria, incluindo os portos e a maioria dos principais pontos estratégicos militares e económicos. O Free Syrian Army (a facção rebelde Síria apoiada pelos Estados Unidos da América e grande parte da comunidade internacional) praticamente desapareceu. A Frente Al Nusra (oficialmente a Al Qaeda na Síria) vem perdendo terreno quer para o Exécito de Bashar Al Assad e para o ISIL, e - finalmente - o ISIL controla uma parte considerável do leste da Síria e ocidente do Iraque. Não obstante algumas escaramuças entre o Exército Sírio e a Turquia, incidentes nos Montes Golan ocupados por Israel e ameaças veladas por parte de Obama, uma mistura de sorte, boa diplomacia e apoio Russo e Chinês conseguiram evitar o descalabro de Assad e do seu regime. Pelo contrário, quer internamente quer para o resto do mundo, começa a ser visto como um mal menor, e uma alternativa bem mais razoável do que a Al Qaeda ou o ISIL. Entretanto a maior crise de refugiados dos nossos tempos está a levar ao limite a capacidade logística, financeira e humana do Líbano e da Jordânia, que tentam a todo o custo manter-se fora desta guerra.

A vermelho: Área controlada pelo ISIL
A Amarelo: Área de actuação do ISIL
A Branco: Restante Iraque e Síria
Do outro lado da arbitrária fronteira criada nas mentes dos ministros dos negócios estrangeiros dos impérios britânicos e francês em 1916 (o famoso acordo Sykes-Picot), o ISIL, liderado pelo auto-entitulado Califa, Abu Bakr Al Bagdadi, iniciou nas últimas semanas um espectacular ataque a inúmeros pontos cruciais do Iraque. Tomou a segunda maior cidade do país, Mosul, conseguiu o controlo da maior refinaria do Iraque e a cada dia que passa novas conquistas somam-se ao território já seu. A Al Jazeera anunciava a queda de Qaim, Rawah e Anah na província de Anbar. Com estas vitórias militares, o ISIL aumenta também a sua capacidade de recrutamento. Aparentemente já terá pilhado mais de 500 milhões de dólares nos bancos de Mossul, e se tivermos em conta que controla alguns poços de petróleo no leste da Síria, ao obter também refinarias torna-se perfeitamente independente neste recurso crucial. Muitos sunitas mais seculares mas que se consideram vítimas das políticas étnicas e religiosas de Maliki assim como antigos seguidores de Saddam parecem estar aliados do ISIL, embora seja difícil acreditar que essa aliança possa durar muito tempo.

O governo iraquiano, com o apoio dos principais líderes religiosos shiitas e com a benção de Estados Unidos e Irão (the unholy alliance?) estão a recrutar dezenas de milhares de voluntários para cobrirem a defesa de Bagdad, agora a apenas umas dezenas de quilómetros da frente de combate. Os exércitos iraquianos, onde os estados unidos gastaram biliões de dólares, desfazem-se aos primeiros sinais do ISIL e vários generais foram demitidos ou desertaram.

Demonstração de força do Exército Mahdi
 a força paramilitar de Al Sadr em Junho 2014
Neste fim de semana, Moqtada Al Sadr reaparece dos escombros da antiga Saddam City (um bairro pobre shiita de Bagdad rebaptizado de Sadr City pelos Americanos quando invadiram o país em 2003 em honra do grande dissidente Mohammad Mohammad Sadeq Al Sadr - pai de Moqtada Al Sadr). Em fevereiro deste ano, tinha desistido da via política o que permitiu a Maliki uma vitória (um pouco mais) fácil, concentrando o voto shiita, embora até agora não tenha conseguido formar um governo de coligação.

Que Al Sadr se levante para defender a comunidade shiita das forças do ISIL, não é estranho. Mas é verdadeiramente surpreendente o número de militantes afiliados a este. Numa demonstração de força, Al Sadr fez este fim de semana desfilar dezenas de milhares de soldados, bombistas suicidas, carros armados, regimentos de bazookas pelo meio da "sua" cidade. Com milhares de veteranos da guerra contra os americanos, poderão constituir a verdadeira defesa de Bagdad. Mas se isso acontecer (e pode acontecer já nas próximas semanas) resistirá Moqtada à tentação do palácio presidencial? E conseguirá ele parar as aparentemente invencíveis forças do Islamic State of Iraque and Levante?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Islamic State of Iraq and Levant

Bandeira do ISIL
(Al Dawla Al Islamia fil Iraq wa al Sham)
Inimigos de Bashar Al Assad, Nouri al-Maliki, do Hizbullah, do Free Syrian Army e da Al Qaeda, dos Estados Unidos, da Europa e do Irão e, atrevo-me a dizer, inimigos de praticamente toda a humanidade. É difícil imaginar o que significa um grupo terrorista ser considerado pelo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, como "too vicious"...

É impensável imaginar que o Islamic State of Iraq and Levant (ISIL ou ISIS) irão conseguir montar algum tipo de governo contra a vontade das populações locais e de praticamente todos os governos do mundo. Mas até que desapareçam, é provável que ainda tenhamos que chorar muitas vidas. 

A verdadeira pergunta é: isto é um resultado da invasão do Iraque em 2003, da retirada em 2011, do apoio dado às facções anti-Assad ou, (e também temos que colocar esta hipótese de forma séria) nenhuma das acções militares e financeiras do Ocidente tiveram qualquer impacto?

Massacre de voluntários Shiitas iraquianos
publicados em 14-06-2014


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O outro Holocausto

Umas décadas antes do holocausto que constantemente preenche as páginas dos jornais e as telas do cinema, um outro levou à morte de centenas de milhares, senão de milhões, de pessoas. Uma etnia vítima do homicídio industrial e calculado e cuja memória é constantemente esquecida pelo mundo. Inclusivé pelos descendentes dos criminosos que o fizeram, o Império Otomano. Se em alguns países, a negação do holocausto arménio é crime, na moderna Turquia a menção deste crime pode resultar em detenção, como aconteceu ao escritor alemão-turco Dogan Akhanli[1], ou em complicados processos judiciais, como foi o caso do prémio Nobel da literatura Orhan Pamuk[2].

Mas os Arménios são um povo pequeno, pouco influente e sem lóbies poderosos. Deles não dependem eleições das maiores potências do mundo. E a este povo, sobreviventes e descentes do genocídio que em breve será centenário, nunca foram pagas restituições.

A Síria, como o Líbano, a Palestina e outros países do Médio Oriente, receberam involuntariamente muitos dos refugiados durante 1915. Hoje as suas vidas voltam a estar em risco, quando a Síria atravessa uma guerra civil que será lembrada durante muito tempo. Onde as minorias religiosas parecem estar cada vez mais frágeis. E onde estes descendentes de refugiados provavelmente tornar-se-ão refugiados eles próprios.

Deixo aqui mais um artigo de Robert Fisk, no jornal britânico The Independent[3] sobre os Cristãos Arménios Sírios.


Igreja Cristã Arménia de S.Jorge em Allepo, Síria em Outubro 2012 totalmente
queimada depois de combates entre o exército Sírio e forças rebeldes. 


Nearly a century after the Armenian genocide, these people are still being slaughtered in Syria


And now, almost unmentioned in the media, their holy places are also being desecrated

Just over 30 years ago, I dug the bones and skulls of Armenian genocide victims out of a hillside above the Khabur River in Syria. They were young people – the teeth were not decayed – and they were just a few of the million-and-a-half Armenian Christians slaughtered in the first Holocaust of the 20th century, the deliberate, planned mass destruction of a people by the Ottoman Turks in 1915.
It was difficult to find these bones because the Khabur River – north of the Syrian city of Deir ez-Zour – had changed. So many were the bodies heaped in its flow that the waters moved to the east. The very river had altered its course. But Armenian friends who were with me took the remains and placed them in the crypt of the great Armenian church at Deir ez-Zour, which is dedicated to the memory of those Armenians who were killed – and shame upon the “modern” Turkish state which  still denies this Holocaust – in that industrial mass murder.

And now, almost unmentioned in the media, these ghastly killing fields have become the killing fields of a new war. Upon the bones of the dead Armenians, the Syrian conflict is being fought. And the descendants of the Armenian Christian survivors who found sanctuary in the old Syrian lands have been forced to flee again – to Lebanon, to Europe, to America. The very church in which the bones of the murdered Armenians found their supposedly final resting place has been damaged in the new war, although no one knows the culprits.

Yesterday, I called Bishop Armash Nalbandian of Damascus, who told me that while the church at Deir ez-Zour was indeed damaged, the shrine remained untouched. The church itself, he said, was less important than the memory of the Armenian genocide – and it is this memory which might be destroyed. He is right. But the church – not a very beautiful building, I have to say – is nonetheless a witness, a memorial to the Holocaust of Armenians every bit as sacred as the Yad Vashem memorial to the victims of the Jewish Holocaust in Israel. And although the Israeli state, with a shame equal to the Turks, claims that the Armenian genocide was  not a genocide, Israelis themselves use  the word Shoah – Holocaust – for the Armenian killings.

In Aleppo, an Armenian church has been vandalised by the Free Syrian Army, the “good” rebels fighting Bashar al-Assad’s regime, funded and armed by the Americans as well as the Gulf Sunni Arabs. But in Raqqa, the only regional capital to be totally captured by the opposition in Syria, Salafist fighters trashed the Armenian Catholic Church of the Martyrs and set fire to its furnishings. And – God spare us the thought – many hundreds of Turkish fighters, descendants of the same Turks who tried to destroy the Armenian race in 1915, have now joined the al-Qa’ida-affiliated fighters who attacked the Armenian church. The cross on top of the clock tower was destroyed, to be replaced by the flag of the Islamic State of Iraq and the Levant.

Nor is that all. On 11 November, when the world honoured the dead of the Great War, which did not give the Armenians the state they deserved, a mortar shell fell outside the Holy Translators Armenian National School in Damascus and two other shells fell on school buses. Hovhannes Atokanian and Vanessa Bedros, both Armenian schoolchildren, died. A day later, a bus load of Armenians travelling from Beirut to Aleppo were robbed at gunpoint. Two days later, Kevork Bogasian was killed by a mortar shell in Aleppo. The Armenian death toll in Syria is a mere 65; but I suppose we might make that 1,500,065. More than a hundred Armenians have been kidnapped. The Armenians, of course, like many other Christians in Syria, do not support the revolution against the Assad regime – although they could hardly be called Assad supporters.

Two years from now, they will commemorate the 100th anniversary of their Holocaust. I have met many survivors, all now dead. But the Turkish state, supporting the present revolution in Syria, will be memorialising its victory at Gallipoli that same year, a heroic battle in which Mustafa Kemal Ataturk saved his country from Allied occupation. Armenians also fought in that battle – in the uniform of the Turkish army, of course – but I will wager as many dollars as you want that they will not be remembered in 2015 by the Turkish state which was so soon to destroy their families.

Hitchhikers’ guide to  bad old Iran

While we all bask in the glow of happy relations with Iran, it might be well to read – in four months’ time, unless their publishers have the common sense to bring it forward – a remarkable book by Shane Bauer, Josh Fattal and Sarah Shourd. 

They – and you may not remember this – were the hitchhikers who “strayed” into Iran in 2009 from Iraqi Kurdistan. Sarah (pictured below with Shane) was released first and she called me on the phone to talk about her fiancé, Shane, and to ask if The Independent could help secure the two men’s release. We published some of Shane’s journalism – I made a point of telling the Iranian ambassador in Beirut to read it – and, with or without The Independent’s help, they were both released. I was delighted.

They had been arrested during the presidency of the lunatic Ahmadinejad, and it’s clear from their book that they were lured over the border by Iranian frontier guards. One of them eventually emailed Sarah that this was the case.

But their incarceration, their vicious solitary confinement – a form of torture if ever there was one – and their relations, not just with their fellow condemned prisoners but with their guards, is a remarkable story.

Sarah quickly worked out, back in freedom, that the US government was not their natural friend; there are some sharp words about the “peacemaker” Dennis Ross.  A good book – which I rarely say – and it’s called A Sliver of Light.  A Fisk read.

sábado, 19 de outubro de 2013

The Eleventh Day

Da autoria do jornalista da BBC Anthony Summers e da sua esposa Robbyn Swan, "The Eleventh Day - The definitive account of 9/11" é um extenso e detalhado trabalho de investigação sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001. Este trabalho, que foi finalista do prémio Pulitzer em 2012, é de facto uma obra impressionante. Os autores trataram cada uma das pontas soltas com bastante seriedade e não aceitaram nenhum informação pelo seu valor facial.

Por um lado não se fugiram ao estudo das diversas teorias de conspiração que abundam na internet e na literatura da última década. Infelizmente muitas destas tomaram tais proporções que devem mesmo ser estudadas oficialmente de forma a que se lhes possa ser dada resposta cabal. Milhões de pessoas pelo mundo fora acreditam que o governo americano fez os atentados. Muitas outras defendem que o governo americano teria conhecimento e deixou que acontecesse. Tal como os autores, não acredito em nenhuma dessas hipóteses. Uma conspiração desse tipo exigiria um tipo de organização nunca vista. E certamente nunca visto num governo que nem sequer conseguiu plantar uma bomba no Iraque quando percebeu que afinal não havia lá nada que justificasse o ataque.

De qualquer forma, Summers e Swan correm cada um desses pontos que mais dúvidas têm causado: a inexistência de imagens do avião que bateu no Pentágono e a hipótese de ter sido um missil; a queda do avião na Pennsylvania; a forma como ambas as torres gémeas do World Trade Center ruiram e, umas horas depois, do Edifício 7. Em todas as situações em que tinha algumas dúvidas em relação à história oficial fiquei convencido (no que toca à autoria e formato do ataque).

Mas os autores estão longe de ser o que os apoiantes de Bush gostariam que fossem, e se é verdade que se opõem de forma categórica em relação às principais teorias da conspiração, por outro lado expõe de forma clara a enormidade dos erros cometidos pela administração de George W. Bush, pela do seu antecessor Bill Clinton e ainda pela absoluta incapacidade das várias organizações americanas responsáveis pela segurança do território comunicarem umas com as outras (nomeadamente a CIA, o FBI, a NSA e a FAA).

Embora ainda muita documentação esteja ainda longe dos olhares do público, também ficamos a saber como alguns dos membros da cúpula americana estavam absolutamente obcecados com questões em nada relacionadas com o ataque, em especial o Iraque. No próprio dia, Rumsfeld já procurava motivos para invadir o Iraque quando todas as informações apontavam para Bin Laden. Também percebemos que muitos serviços secretos estrangeiros avisaram que algo estava para acontecer, que Bin Laden estaria na sua origem, que seriam utilizados aviões comerciais e até datas muito aproximadas do que veio a acontecer. Egipto, Arábia Saudita, Alemanha, Jordânia e França foram alguns dos avisaram os Estados Unidos - e em alguns casos pessoalmente George W. Bush - mas foram totalmente ignorados.

Depois do ataque, todas as referências à Arábia Saudita e às provas que ligavam algumas figuras da sua família real à Al Qaeda foram removidas. Muitos dos intervenientes mentiram nos primeiros inquéritos. E, não obstante a inegável incompetência de muitos dos que deveriam estar a assegurar a defesa dos EUA, nem uma pessoa na organização militar, política ou de inteligência foi penalizada pelo sucesso dos atentados.

Um livro interessante e que aconselho. Não alegrará os que fielmente acreditam que o governo americano provocou os ataques, mas parece-me que é até ao momento a visão mais lógica, crítica e realista do que aconteceu nesse dia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Al Qaeda - A História do Islamismo Radical

Book Review

Nos meses que se seguiram ao 11 de Setembro de 2011, inúmeros livros foram publicados sobre Bin Laden e a sua Al Qaeda. Aproveitando a onda de interesse, editores e autores apressaram-se a escrever qualquer coisa com os poucos dados que eram conhecidos, sabendo que o sucesso dessas edições estava garantido à partida. Foi por isso que na altura recusei comprar um único desses livros. As minha expectativas eram simplesmente demasiado baixas. Como nota lateral, lembro-me de uma semana depois dos atentados, em entrevista a uma das televisões portuguesas um responsável por uma das lojas de livros em Portugal explicava que tiveram que adaptar a sua oferta aos novos interesses, detalhando que "as pessoas de baixo nível cultural compravam Nostradamus enquanto as de um nível superior procuravam o Al Corão". Mas com o tempo mais informação foi sendo desclassificada e um sem número de reporteres de guerra lançaram a sua atenção nesta organização e nos países que a albergaram e defenderam durante anos. Um destes foi Jason Burke, que nos trouxe este magnífico "Al Qaeda - A História do Islamismo Radical" publicado em Portugal pela Quetzal Editores. Este inglês, redator chefe do Observer, esteve no terreno nos vários teatros de guerra em que a Al Qaeda controlava operações ou influenciava os movimentos locais e publicou este livro em 2003 embora o seu trabalho já o tivesse anteriormente levado ao Afeganistão e Paquistão anteriormente.

A forma como descreve a Al Qaeda é interessante, mas provavelmente ainda mais relevante é a forma como esta organização se foi transformando ao longo do tempo. Já em 2003 Jason Burke colocava a Al Qaeda ao nível mais de uma ideia do que de uma organização formal. Já nesta altura mostrava que Bin Laden se tinha transformado mais num símbolo do que num líder operacional, que em muitos sentidos nunca fora. Ideias que só foram aceites e compreendidas muitos anos depois, quando inúmeros grupos terroristas se começaram a auto-denominar Al Qaeda. Na realidade, para se ser Al Qaeda, basta declará-lo e estar minimamente alinhado nos seus princípios.

No pós 11 de Setembro ou, para ser mais rigoroso, com o colapso do governo Taliban, a Al Qaeda perde toda a sua estrutura formal e passa a um estado de clandestinidade. Os seus campos de treino são bombardeados, os seus financiadores sauditas e dos reinos do golfo pérsico afugentados, os seus protectores afegãos perseguidos. No entanto, a sua imagem de mártires e de vingadores dos povos muçulmanos oprimidos fica mais forte do que nunca. Bin Laden cresce para um estatuto de lenda, muito mais do que Mohammed Atta e outros que de facto criaram e levaram a operação até ao fim.

Antes disso, uma combinação de eventos e características pessoais levam Bin Laden a tornar-se neste ponto central do financiamento do terrorismo islâmico internacional: a invasão soviética do Afeganistão cria uma onda de apoio entre os milionários e governos árabes no sentido de parar o avanço do comunismo ateísta. Bin Laden, de uma família multimilionária Saudita de origem no Yemen tinha, para além de dinheiro, uma vida simples e sem luxos enquanto voluntário Mujahedeen. Isto levava a que fosse visto como a pessoa perfeita para canalizar o dinheiro árabe para a luta armada. Não tinha necessidade dele porque era rico e o seu estilo de vida garantia que o dinheiro seria utilizado para os fins a que se propunha. Desta forma a Al Qaeda (que durante muito tempo não tinha sequer nome) funcionava mais como uma fundação, que subsidia bons projectos e dá-lhes as condições financeiras, logísticas e humanas para que sejam bem sucedidos. Houve por isso diferentes graus de envolvimento da Al Qaeda com os actos a que está ligada. Por vezes organização tudo do princípio ao fim, com todos os detalhes tratados e garantidos por si, enquanto noutras situações só deram dinheiro e treino para projectos que estavam totalmente desenhados e planeados.

Este livro é, naturalmente, muito anterior à captura e morte de Bin Laden. É também anterior a alguns dos actos a que a Al Qaeda aparece associada, como a guerra na Síria e Líbia. No entanto, não posso dizer que o livro esteja ultrapassado. Jason Burke escreve o caminho que Al Qaeda seguiu e previu com muita exactidão aquilo em que esta se iria tornar nos anos após o atentado de 11 de Setembro. Um livro que provavelmente cairá no esquecimento, mas que li com enorme interesse e que certamente consultarei de vez em quando para compreender um pouco melhor esta "Guerra contra o Terror", que teve data de início mas - não obstante já não se falar muito - não tem ainda data de fim.