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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Terroristas e Filhos da P...

Já imaginaram se um país fizesse uma lei a criminalizar os filhos da p..., cabrões e morcões? À primeira vista talvez até pudesse apelar a um certo sentido de justiça. Afinal de contas todos sofremos à conta desses que constantemente nos ultrapassam no trânsito pela faixa de segurança, que usam o nosso dinheiro de forma indevida, que nos roubam nos trocos, que vivem de explorar o trabalho dos outros, etc. No entanto, é claro que tentar legislar o que as pessoas "são" não funciona dada a sua subjectividade, apenas o que "fazem". A legislação foca-se por isso, na sua generalidade, nos comportamentos das pessoas.

Com o enorme número de leis, decretos, procedimentos e regras em todo o mundo dedicados ao terrorismo, seria de esperar que o conceito de terrorismo (ou de "acções terroristas", ou de "terrorista") fosse claramente definido. Mas a verdade é que não é. Nem especialistas da matéria (como os centros de investigação de Leiden, The Hague, ou do programa START da Maryland University), nem os media, nem os governos, nem o público têm uma definição clara e aceite. De alguma forma, toda essa documentação tem pés de barro, porque constrói sobre uma definição inexistente ou altamente imprecisa. 

No entanto o termo terrorismo é utilizado de forma absoluta e acrítica por tudo e todos, inclusivé por muitos que são considerados por outros de terroristas. O Hamas é uma organização terrorista, quando visto de Israel. Israel é acusado de ser um estado terrorista pelo Hamas. Menachem Begin, líder do grupo terrorista judaico Irgun e mandante do atentado à bomba ao Hotel King David, foi mais tarde Primeiro-Ministro de Israel e recebeu o prémio Nobel da Paz, pelo processo de paz com o Egipto. Yaser Arafat, o super-terrorista cuja Organização para a Libertação da Palestina (OLP) cometeu centenas de ataques terroristas de todos os tipos, incluindo pirataria aérea, atentados bombistas, bombistas suicidas e raptos, acabou por se tornar Presidente eleito da Autoridade Palestiniana e receber também o seu próprio Nobel da Paz. E como estes poderia falar de outros "terroristas", como Nelson Mandela, Xanana Gusmão e outros. A verdade é que não sabemos o que é um terrorista. Não é simplesmente um criminoso, porque existe uma específica componente política no crime. Também não é um revolucionário, porque existe um lado de propagandista de terror que vai para lá do comum revolucionário político.

Muitos investigadores defendem que o terrorismo é sempre originário numa entidade não-estatal, mas temo que isso seja mais resultado da dependência financeira dos centros de investigação aos subsídios estatais do que a uma posição neutra e sincera sobre o tema. É que não nos devemos esquecer que o principal cliente dos estudos sobre o terrorismo são os próprios estados e organizações supra-estatais, tais como a INTERPOL, a União Europeia, etc. Existe também uma certa ironia nesta posição, dada a origem da palavra ser precisamente o de uma política de estado, França no caso, durante o Reino do Terror, de 1793 a 1794. Em sua defesa, a ideia é que os mesmos actos, se cometidos por estados, são simplesmente crimes contra a humanidade. 

Um outro factor que devemos ter em conta, relaciona-se com as vítimas do atentado. Um ataque a uma coluna militar deve ser considerado um ataque terrorista? Não será isso um ataque de guerrilha, ou guerra assimétrica? E se este ataque for feito com um bombista suicida, como o de 1983, em Beirut, que vitimou 241 militares americanos?

E como devemos olhar para a História? Será que existe alguma diferença entre Viriato, George Washington, la Résistance française ou Bin Laden? E seria a luta contra a invasão soviética pelos Mujahedeen (do qual Bin Laden fazia parte) e apoiada pelo Ocidente, um acto de terrorismo ou só de resistência? E quando o mesmo o fez contra a invasão dos EUA e seus aliados em 2001?

A situação actual é tão confusa que na "moderada" Arábia Saudita, o ateísmo passou a ser definido como um acto de terrorismo! Por outro lado, quando um grupo é considerado como terrorista, toda a sua estrutura passa a ser tido como tal. Por esse motivo, oferecer uma ambulância a Gaza é hoje um acto de financiamento de uma organização terrorista, correndo-se riscos legais gravíssimos caso as força policiais o entendam. E, claro, uma organização colocada na lista de terrorismo não tem sequer acesso às suas contas bancárias, o que a impede de colocar o estado em tribunal para tentar limpar o seu nome.

Sem uma definição clara, toda a legislação associada ao terrorismo está propensa a ser abusada e deturpada conforme as necessidades do momento. E, finalizando, para não ser acusado de só ver o problema, aqui fica a minha definição:

Terrorismo: Acto ou ameaça de violência ilegal, pública e propagandeada sobre civis com objectivos políticos.

E sim... nesta definição, D.Afonso Henriques, George Washington e muitos, muitos outros eram ou foram terroristas. E não ilibo estados.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Califado em Paris

Steven Emerson, auto-proclamado especialista em assuntos dos Médio Oriente e terrorismo islâmico, afirmou esta semana no canal americano Fox News que várias partes de Paris são "no-go-zones" para não-muçulmanos, que isso é comum pela Europa fora com Polícia islâmica Sharia nas ruas e que a cidade de Birmingham (Reino Unido) era 100% muçulmana e onde os não-muçulmanos estão impedidos de entrar[1][2]. O genial comentário levou a uma enorme risada por toda a Europa, um processo em tribunal por parte da cidade de Paris e o inequívoco comentário do Primeiro-Ministro David Cameron de que Emerson é "claramente um completo idiota"[3].

Mas ultrapassando a profundidade de 140 caracteres, a situação é de facto bastante mais grave do que as primeiras gargalhadas nos levam a fazer crer. Steven Emerson não cometeu um lapso momentâneo, resultado das dificuldades e pressões de falar em directo para uma enorme audiência. O que ele afirmou não só é absolutamente irreal mas é algo que ele defendeu consistentemente no seu próprio site, na Fox News em múltiplas entrevistas. A Fox, tornou-se ela própria um antro onde as mais absurdas ideias podem ser defendidas para uma audiência de milhões sem qualquer contraditório e só mesmo o clamor global destas afirmações "over the top" é que levaram ao invulgar pedido de desculpas da estação e do próprio. O mais perigoso de tudo isto, defendo eu, é que este acontecimento não é excepcional, nem inédito, nem inconsequente, o que se revela bastante mais perigoso.

Não é excepcional nem inédito porque Emerson já tinha defendido estas ideias anteriormente, o que significa que não foi um acto irrefletido mas algo que vem defendendo, e sido defendido também por outros (como o governador do Louisiana Bobby Jindal[4] ou a própria entrevistadora Jeanine Pirro que o acompanha e com quem mostra absoluta concordância ou o anterior convidado a que se refere[5]) e que pela força dos mass media vai entrando no "conhecimento" comum, mesmo que não tenha qualquer relação com a realidade.

Aliás, no mesmo comentário, Steven Emerson resolve ir mais longe e afirmar que a Turquia "é um porto seguro para os líderes do Hamas que coordena ataques contra Israel". Acrescenta depois que as mulheres terroristas treinaram no Médio Oriente onde fizeram ataques terroristas misturando depois esta história com a ideia de que o Reino Unido é um lugar onde "em alguns aeroportos - acreditem ou não - elas não precisam de retirar as burkas para serem identificadas pelos controladores dos passaportes". Mais uma afirmação que recebe o intenso apoio de Jeanine Pirro, que confirma que também já o viu. Não faço ideia de que aeroportos eles têm utilizado, mas como frequentador regular de praticamente todos os grandes aeroportos da Europa e Médio-Oriente, nunca vi tal coisa. Mesmo em países onde o hijab e o nikab são habituais, como os Emirados Árabes Unidos, as mulheres têm que mostrar a cara no controlo de passaportes. Têm usualmente também uma espécie de cabine onde podem mostrar a uma mulher polícia em privado se o desejarem. Mas certamente não passam sem serem identificadas, isso é um absurdo e representaria um buraco gigante na segurança de qualquer país. A minha experiência certamente terá as suas limitações, mas já devo ter feito pelos menos uma centena de controlos de passaportes entre Lisboa, Paris, Heathrow (Londres), Frankfurt, Amsterdão, Bruxelas, Istambul, Dubai, Abu Dhabi, Sharja, Aman, Tel Aviv, etc. Convido os meus leitores com experiência nas regiões em causa (Europa e Médio Oriente) a revelarem se alguma vez viram algo parecido com o que Emerson descreve.

Mas se as alegações de um lunático para uma audiência de milhões já são perigosas, muito mais ficam quando descobrimos que não é só na televisão que as suas mal fundamentadas - senão factualmente erradas - opiniões são recebidas. Para além de uma série de livros escritos sobre os temas do terrorismo e do Islão, foi considerado pelo New York Times como "um especialista em intelligence" e pelo New York Post como "o maior especialista de terrorismo no jornalismo nacional"[6]. Mas o verdadeiro arrepio na espinha acontece quando vemos que foi chamado a inúmeros comités do Congresso dos Estados Unidos, tais como vários de segurança internacional; terrorismo, tecnologia e informação governamental; imigração; judiciário e segurança nacional. Sabendo que os governantes e legisladores americanos ouviram especialistas do calibre de Steven Emerson para os ajudar a tomar decisões como a invasão do Afeganistão e do Iraque, os bombardeamentos com drones no Paquistão ou Yemen, ou como reagir à Primavera Árabe, ajuda a explicar muita coisa.

Não posso esquecer um nome que soava na minha mente enquanto via os vídeos, transcrições e outros sites relacionados com este caso: Edward Said. Se estivesse vivo reconheceria neste ridículo momento de Emerson o expoente máximo do Orientalismo, essa ciência feita de autores que vivem de se confirmarem mutuamente, sem qualquer preocupação com a realidade dos factos. Said aliás, numa entrevista publicada em Agosto de 2001, falava precisamente deste dizendo que "o terrorismo tornou-se numa espécie de imagem criada no final da Guerra Fria por legisladores em Washington assim como um grupo de pessoas como Samuel Huntington e Steven Emerson, que fazem o seu ganha-pão nessa procura. É uma invenção para manter a população receosa e insegura, e para justificar o que os EUA quer fazer globalmente".

Na verdade parece-me que o Islão está hoje, aos olhos de muitos no Ocidente, num processo de "norte-coreianismo", onde o povo aceita com um olhar crédulo toda e qualquer alegação feita sobre "os outros". Achei espectacular a forma como tantos jornais de referência (ou nem por isso...) pelo mundo fora publicaram a história de que o tio do líder norte-coreano Kim Jong Un tinha sido executado por grupo de cães esfaimados. Desde a Fox[7] e a NBC[8] até a jornais mais populares, muitos aceitaram sem qualquer oposição ou descrença as afirmações de um blog perdido na China. Também em relação ao Islão, alguns opinion makers parecem acreditar que podem dizer o que lhes vier à cabeça que ninguém colocará em causa. Em entrevista à BBC[9], Emerson procura aceitar as culpas e alega que as suas fontes estariam erradas, mas recusa-se terminantemente a revelar quem são as fontes. Atrevo-me a dizer que não existem fontes nenhumas, a não ser que conversas de pub ou vídeos de propaganda do You Tube também contem como tal. 

Esperemos que esta gaffe possa trazer algum juízo a quem publica. Todos cometemos erros e nem sempre as nossas fontes são as melhores, mas como é que alguém consegue chegar à televisão e dizer que "a Europa está acabada" porque tem inúmeras "no-go-zones" e tribunais sharia?[10] 

Nota: A imagem não é photoshop. É mesmo MS Paint.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Cruel aproveitamento político

Ainda os restos mortais dos infelizes jornalistas da magazine francesa Charlie Hebdo não tinham esfriado, já o aproveitamento político por parte das mais variadas forças políticas se tinha iniciado. 

A direita europeia mais islamófoba viu neste ataque terrorista a prova final de que o Islão é contra a liberdade de expressão e que não passa de uma religião violenta sem qualquer respeito pela diferença, pela crítica e até pela sátira. Durante os próximos dias, o habitual circo mediático irá provavelmente levar a mais ou menos dissimulados pedidos de guerra, imigração limitada e baseada em racial profiling, e novas explosões de nacionalismo que certamente beneficiará a extrema direita.

Curiosamente, as mesmas pessoas que consideram estes terroristas como fieis representantes dos mil milhões de muçulmanos do mundo, escolhem não reparar nas vítimas muçulmanas. Neste atentado, por coincidência, um dos polícias que faleceu era Ahmed Merabet, françês muçulmano, baleado e depois executado a sangue frio. Em toda a violência do extremismo islâmico, as vítimas em maior número são precisamente os muçulmanos como demonstram os estudos intensivos do programa START (GTD - Global Terrorism Database) da Universidade de Maryland, o maior nesse campo. No Iraque, Argélia, Líbia, Síria, Yemen, Nigéria, Somália, Afeganistão, Paquistão e tantos outros são os muçulmanos as principais vítimas de organizações como o ISIS, Al Qaeda, Taliban, Boko Haram, Al Shabab e muitos outros. No entanto, no Ocidente preferimos sempre considerar os criminosos como representativos destas sociedades, e não as suas vítimas. 

Do outro lado, a esquerda radical europeia não se comporta melhor, vendo sempre apenas o contexto e procurando a absoluta desresponsabilização do indivíduo. A pitoresca Ana Gomes, deputada socialista portuguesa no Parlamento Europeu, partilhou imediatamente um tweet responsabilizando as políticas europeias de austeridade por este acontecimento. Considerar que jovens franceses, que vivem com um estado social e protecção política, religiosa e económica como têm em França, são empurrados para um acto destes pela força da crise é um absurdo. O que eles fizeram não é um acto de desespero de quem não tem saídas, mas sim uma escolha muito clara do que querem para si e para o seu país.

Mas acima de tudo, este foi um ataque à liberdade de imprensa, de opinião e de pensamento. E é aí que temo que serão causados grandes danos. Numa escala diferente o 11 de Setembro mostrou-nos como uma unanimidade global de solidariedade foi rapidamente utilizada para lançar guerras, reduzir direitos civis e até legitimar tortura. Aos 3000 mortos iniciais, somaram-se centenas de milhares de outros no Afeganistão e no Iraque durante mais de uma década, num processo que ainda não finalizou.

Quanto a mim, o único tributo que possa realmente prestar a estes jornalistas e aos polícias que morreram tentando defendê-los é continuar a escrever a minha opinião de forma livre, quer agrade quer desagrade aos meus leitores, e esperar que aqueles que diariamente espalham ódio, vingança e ameaças nestas páginas possam um dia encontrar paz no coração e liberdade no pensamento.

sábado, 12 de maio de 2012

A loucura e os Jihadistas barbudos

Anders Breivik
Há pouco tempo atrás, causei alguns distúrbios num comentário que fiz no Expresso online, quando sairam as primeiras notícias de que tinha acontecido um atentado numa escola judaica em Toulouse. Na altura ainda não era conhecida a autoria do ataque, mas como tinha sido precedido por um outro onde morreram 3 militares franceses de origem magrebina, havia uma séria hipótese de ter origem em movimentos neo-nazis, para além dos suspeitos habituais, os muçulmanos. O artigo do Expresso começava com a frase "Um louco ou um fundamentalista". O meu comentário foi o de que baseado nas vítimas que teria que ser considerado como fundamentalista e que se as vítimas fossem 16 afegãos, então seria um caso de loucura. Num artigo escrito nesses dias, expliquei melhor a questão e que pode ser visto aqui. Baseado na sabedoria mediática, chegamos à conclusão de que um muçulmano que comete um crime nunca é louco, mas sim fundamentalista. Um cristão/judeu que cometa o mesmo crime nunca o faz por fundamentalismo ideológico ou religioso mas sim por problemas psicológicos. Parece ridículo, mas é precisamente isso que nos está a ser ensinado pelos media e opinion makers.

Durante o julgamento de Anders Breivik (acusado dos atentados que levaram à morte de 77 pessoas) este tem defendido que não tem qualquer problema psicológico e que os seus actos devem ser vistos como políticos. Numa frase particularmente interessante ele diz que "Se eu fosse um jihadista barbudo ninguém poria em causa a minha sanidade". Breivik toca na mesma questão que já tinha referido antes: o ocidente tem dificuldade em aceitar que um dos seus seria capaz de fazer rigorosamente os mesmos crimes que acusamos os "outros" de cometer.

Os nossos crimes são racionalizados de forma a serem transformados em auto-defesa, negados ou atenuados ou - se nada mais houver a fazer - actos de loucura de indivíduos. Provamos que Saddam Hussein era um monstro porque utilizou armas de destruição massiva e torturava, mas as bombas nucleares utilizadas pelos EUA, os bombardeamentos incendiários sobre civis feitos pelos aliados na WWII, a tortura em Guntánamo e Abu Graib, são tudo actos que podem sempre ser explicados ou esquecidos.

Ninguém pergunta se Mohammed Merah (o atirador de Toulouse) tinha algum problema psicológico? Subitamente deixou de ser um françês para ser reduzido à categoria de "nascido em França" como se de um acidente se tratasse. E quanto a Breivik? Vão continuar a tentar convencê-lo de que está louco. É que um cristão branco nunca faria tal coisa. Right...

Outros relacionados (externo):
[1] Público: Primeiro-ministro norueguês diz que Breivik "falhou"
[2] Público: Um ano depois dos ataques de Breivik, a Noruega é "um país mais democrático"

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Detenções Administrativas e Tortura

A questão da greve de fome de milhares de presos palestinianos nas prisões de Israel traz à tona muitas das questões que assombram os problemas da Terra Santa. O assunto, que tanto quanto consigo ver continua a estar totalmente ausente das páginas dos jornais portugueses, relembra-nos a urgência de resolver este que é provavelmente o maior barril de pólvora à face da terra. Desta vez, é Ban Ki-moon que mostra a sua preocupação em relação à situação dos prisioneiros, e um porta-voz das Nações Unidas declarou que "(...) os detidos devem receber as suas acusações e ir a tribunal com todas as garantias judiciais ou ser libertados imediatamente".

Desde 1948 - para não dizer antes - que a região é assolada por guerras, limpezas étnicas, violações de direitos humanos e xenofobia. Em seu nome, muitos outros crimes foram ainda cometidos pelo mundo fora e a cada dia que passa a situação parece piorar. Existem períodos de acalmia, mas parecem-se mais com cessar-fogos do que com uma paz verdadeira.

As "detenções administrativas" foi a forma legal de alguém poder ser preso em Israel e nos territórios ocupados da Palestina sem que tenha que ser alvo de qualquer acusação. E isso significa também que não tem que haver provas, testemunhas, advogados ou julgamentos. Estas detenções duram 6 meses, mas podem ser prolongadas por mais semestres indefinidamente. Isto nunca seria aceite facilmente num país democrático, mas em Israel apenas uma pequena parte da população vê algum problema nestas prisões aparentemente aleatórias. A ideia que nos é vendida é a de que isto só acontece quando existe perigo iminente para a segurança de civis, ou seja, de alguém que está prestes a cometer um ataque terrorista. Assim, as "detenções administrativas" deveriam ser um regime totalmente excepcional e a sua utilização mínima.

No entanto, temos milhares de prisioneiros em greve de fome. O que nos leva a crer que os números poderão estar muito longe de ser raros e que este poderá não ser o único motivo da greve. Os números oficiais são de que Israel tem neste momento cerca de 4500 palestinianos prisioneiros, 310 dos quais em detenção administrativa. Mas talvez estes números não mostrem a dimensão do drama das detenções, por isso talvez valha a pena olhar para o que a investigação do The Guardian concluiu: "Desde a guerra de 1967 estima-se que 1/5 da população palestiniana esteve presa em algum momento". Já me tinha apercebido nos anos que passei na Palestina que a grande maioria dos homens que conheci entre os 30 e 40 anos tinham efectivamente estado presos. Muitos ainda adolescentes tinham estado presos por atirar pedras a tanques e acusações semelhantes, outros não sabiam sequer porquê.

Mas a par das detenções, uma outra questão deve ser levantada: a tortura. São muitos os exemplos de tortura nos interrogatórios do Shin Bet. Nos anos 80 e 90, chegou a ser considerada pratica comum e o aparecimento da comissão Landau legalizou a tortura, em vez de a abolir. Definiu até onde os serviços poderiam ir e o que não poderiam fazer. Mesmo assim, esses limites não foram em muitas ocasiões cumpridas e chegaram ao supremo tribunal de Israel acusações que vão desde a tortura até à sodomização. Daniel Byman (no seu livro A High Price) analisa a questão do contra-terrorismo israelita e chama a atenção para o que os abusos de direitos humanos fazem na suposta legitimação de novos ataques terroristas. Por outro lado, cada ataque terrorista tem precisamente o mesmo efeito, tornando os abusos do lado israelita cada vez mais aceites pela sua população, quando não acabam por provocar invasões como em 2006 (ao sul do Líbano) ou em 2008 (a Gaza).

Quando um terrorista islâmico ataca civis israelitas eu levanto a minha voz. E faço o mesmo quando a situação se inverte. Os direitos humanos são para todos. A tortura é um dos mais bárbaros actos que um ser humano pode cometer, e estarei sempre contra seja nos calabouços do Shin Bet ou da Autoridade Palestiniana.

É triste notar que muitas querem saber quem é a vítima e o agressor antes de darem a sua sentença. É triste ver uma situação péssima a deteriorar-se ainda mais. É triste ouvir o silêncio dos que se dizem defensores dos direitos humanos.       

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Descubra as diferenças

Descubra as diferenças.

Find out the differences.





Não existem. O problema está dos dois lados. A solução também.

There are none. The problem is on both sides. And so is the solution.

domingo, 22 de abril de 2012

A High Price

Book Review

"A High Price, The triumphs and failures of Israeli counterterrorism" é um livro de Daniel Byman, professor da Georgetown University e que trabalhou para o governo norte-americano e na comissão 9/11.

Para além da questão de fundo Israelo-Palestiniana, acredito que é uma área interessante do problema procurarmos saber o que foi feito correcta e incorrectamente pelos serviços secretos e militares israelitas nas suas operações anti-terroristas, já que nenhum país no mundo terá provavelmente sofrido tanto com este tipo de ataques.

Qualquer que seja a nossa posição política ou religiosa, e por muita a ou pouca razão que possa ser dado a cada um dos lados, ninguém terá dúvidas que esta guerra assimétrica entre o judeus israelitas e os árabes que os rodeiam gerou mais ataques terroristas do que qualquer outro conflito desde a segunda guerra mundial.

Não entrarei aqui em grandes questões sobre a definição do que é um acto terrorista aceitando a dada por Byman como sendo "(...) non-state actor's use of or threat of violence against noncombatants for political reasons to produce a broader psycological effect". Tirando a parte do non-state actor (porque acredito que existe que o (terrorismo de estado é um tipo de terrorismo, possivelmente até o mais letal), estou de acordo.

Daniel Byman fez uma pesquisa bastante completa sobre os acontecimentos, incluindo relatos e entrevistas que tornam o livro interessante pois percebemos não só os factos históricos mas também o que alguns dos seus intervenientes e testemunhas pensaram. O próprio admite que o número de fontes e entrevistas terá sido desequilibrado a favor de Israel, o que é notório na forma como utiliza vezes sem conta a frase "em resposta...". Passo a explicar: Num conflito que dura há mais de 60 anos e cujas origens directas remontam ao final do século XIX e ao movimento Zionista, ou se quisermos até dois milénios atrás durante a expulsão dos judeus pelos Romanos, existe sempre um acontecimento anterior. Todos os ataques, de qualquer um dos lados, são sempre uma resposta a todos os acontecimentos anteriores. Para os fanáticos pró-Palestinianos, cada bombista suicída é um movimento de auto-defesa de resposta a um bombardeamento, targeted killing ou invasão. Para os fanáticos pró-Israelitas, cada ataque é uma resposta um bombista suicida, um atentado à bomba ou um rapto. Qualquer pessoa minimamente fria não deveria ter dificuldade em perceber que há muito que ambos os lados estão carregados de culpas. Qualquer pessoa minimamente conhecedora da situação também saberá que em ambos os lados milhões de pessoas procuraram genuinamente a paz e demasiadas vezes são empurradas para aceitar estas "auto-defesas" por serem vítimas da infindável propaganda feita pelos dois lados para além de muitos interesses terceiros. Infelizmente, o autor cai constantemente no erro de referir os acontecimentos como "Palestiniano fez, Israel respondeu, Palestiniano ataca, Israel responde, etc." pondo em causa a independência e liberdade de pensamento que genuinamente procura seguir em todo o seu livro.

Bastante interessantes são as suas descrições de como os acontecimentos vão influenciando as várias decisões ao nível operacional, e que hoje se vão tornando comum não só à El Al (companhia aérea israelita), aeroporto Ben Gurion e outras acções de contra-terrorismo e espionagem, mas também ao nível político e militar, em que as forças do IDF (israeli defence force), Mossad (serviços secretos externos) e Shin Bet (serviços secretos para Israel e Palestina) tiveram que alterar profundamente o seu alcance e metodologia.

Diz-se muitas vezes que não há ética na guerra, e os múltiplos conflitos israelo-árabes mostram que efectivamente não terá sido em conta, com todos os lados a cometerem assassinatos de personagens políticas e diplomáticas, mau tratamento e tortura de prisioneiros e acima de tudo vítimas civis em larga escala resultado de ataques directos (por oposição a vítimas colaterais). Pegando apenas nos mais óbvios de ambos os lados, os atentados suicidas e os bombardeamentos indiscriminados são exemplos disso. No entanto, não concordo que a ética e as leis da guerra não sejam factores a considerar e parece-me que terão sido esquecidos vezes demais pelos actores em causa. O fanatismo religioso tem estado a crescer nas últimas décadas quer em Israel quer na Palestina, Líbano, Egipto e Síria. As invasões do Líbano (como a operação Litani e a operação Small/Big Pine) causaram tantas baixas civis que não estavam de forma alguma envolvidas na resistência palestiniana que levaram à criação do Hizbullah (o "Partido de Deus" constituído por libaneses shiitas) e que se tornou rapidamente num opositor muitíssimo mais temível do que a PLO (Palestinian Liberation Organization) alguma vez fora. Por outro lado, os foguetes Qassam lançados pelo Hamas sobre a pequena cidade de Sderat, não obstante a sua fraca capacidade, mostram a vontade do Hamas de procurar baixas civis tornando Sderat numa espécie de "cidade mártir" para os judeus. Ataques suicídas sobre civis são ainda mais devastadores e se é verdade que assustam a população israelita, por outro levam os seus oponentes a procurar políticos e propostas políticas cada vez mais agressivas e opressoras em relação à Palestina aos israelitas de origem árabe. Em ambos os lados, o custo altíssimo da guerra só é aceite porque cada acto ilegal e imoral do inimigo legitíma mais um passo na escalada da violência.

Todas estas questões - da autoridade moral proclamada por cada um dos lados - não são suficientemente exploradas por Daniel Byman. E não haverá paz nem contra-terrorismo que funcione se cada acção que fazemos ajuda a criar mais umas centenas de terroristas e mais uns milhares de apoiantes de regimes mais violentos.

No entanto, parece-me que Byman chega a uma importante conclusão em relação ao contra-terrorismo israelita e com a qual concordo: os sucessos operacionais têm sido postos em causa pelas más decisões políticas.

A decisão de Ariel Sharon de invadir o Líbano (posteriormente forçada ao primeiro ministro Begin) em 1982 para criar uma zona de segurança conseguiu apenas criar o Hizbullah e matar milhares de civis. A vitória pírrica contra a PLO, levando Arafat para o exílio na Tunísia, não impediu a sua continuação nem o seu posterior regresso à Palestina. No final regressaram às fronteiras originais. A última invasão em 2006 com o mesmo objectivo de criar uma zona de segurança unificou o Líbano debaixo da bandeira do Hizbullah. A prisão de dezenas de milhares de crianças e homens durante as Intifadas criou duas gerações de potenciais terroristas e guerrilheiros. A criação do muro evitou certamente muitos ataques, mas por ter definido novas fronteiras e sempre em prejuízo dos palestinianos, criou um novo problema junto da comunidade internacional e reduziu as hipóteses de uma paz duradoura.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Hipocrisia

Não sou o primeiro e não serei certamente o último a escrever sobre este grave problema que temos nos media ocidentais, e por arrasto, em toda a cultura mainstream do ocidente.

A pretensa superioridade moral do Ocidente chegou a um tal ponto que conseguimos desculpar todos os "nossos" erros como crises de loucura de um indivíduo, danos colaterais, falta de formação, escudos humanos e coisas do género. Os crimes dos "outros" (em especial quando os outros são muçulmanos) são, pelo contrário, sempre resultado de uma cultura/religião atrasada, malvada e dominadora.

Já o tínhamos visto centenas de vezes em massacres como Kana I e II, Sabra e Chatila, em inúmeras ocasiões nas últimas guerras do Iraque e Afeganistão, onde cada vez que morrem civis passamos sempre pelo mesmo processo mediático: negação, suspeita de escudo humano, danos colaterais, erro logistíco/formação e finalmente loucura. Em momento algum somos nós - cristãos - a ter atitutes imorais contra muçulmanos.

Em Abu Graib voltamos a ver algo semelhante. Torturas desumanas que vão completamente contra a carta dos direitos do Homem que foram primeiro negadas e depois consideradas distúrbios psicológicos.

Por outro lado, o regime de Assad é acusado pelo ocidente de ser um regime malvado (o golpe de marketing utilizado foi a suposta pertença no recém imaginado Axis of Evil) precisamente por bombardear civis e torturar pessoas (precisamente o que a NATO tem feito sem qualquer tipo de vergonha durante os últimos 10 anos).

No espaço de duas semanas temos mais dois casos exemplificativos:

1) Um soldado americano no Afeganistão assassina 16 pessoas incluindo crianças e é considerado como um homem com problemas mentais.

2) Um françês de origem argelina assassina 7 pessoas incluindo crianças e é considerado um fundamentalista islâmico e um ataque do próprio Islão à civilização Judaico-Cristã.

O mais curioso é a velocidade com que o Ocidente inteiro aceita esta contradição em real time. Não é o resultado de análises psicológicas aos indivíduos ou um longo processo em tribunal. É simplesmente um dogma:

Quando um cristão/judeu comete um crime é um indivíduo louco. Quando um muçulmano comete um crime é resultado de uma religião criminosa.