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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Diamantes de Sangue

Angola não costuma ser um tema habitual neste blogue. Embora seja um país que muito me interesse e que, como todos os portugueses, esteja bem próximo não é um assunto onde eu sinta que posso acrescentar muito. Mas felizmente há outros cujo conhecimento do terreno, longo historial na luta pelos direitos humanos e a devida preparação prática e teórica o podem fazer muito melhor. E no que toca a Angola, Rafael Marques é o nome inevitável. 

Presentemente, este corajoso jornalista encontra-se a lutar pela liberdade nos tribunais de Angola depois de os generais visados neste livro "Diamantes de Sangue" o terem processado por difamação, entre outras acusações que ainda não estão muito claras.

O livro foi entretanto gentilmente oferecido pela sua editora em Portugal, a Tintas da China, e disponível para download no blogue do autor[1]

É uma leitura complicada. Os repetitivos testemunhos de homicídio, tortura, escravatura, rapto, roubo e todo o tipo de abusos cometidos pelas Forças Armadas Angolanas e pela empresa de segurança privada Teleservice, são de uma escala inimaginável nos dias de hoje. Muito sinceramente, as descrições pareciam retiradas de algo escrito no século XVIII, quando o mundo ainda considerava que a escravidão era algo natural. Não foi surpresa para mim saber que os angolanos sofrem às mãos de um dos mais corruptos governos século XXI. Todos os amigos e família que vivem ou viveram em Angola nos últimos anos trazem testemunhos mais ou menos semelhantes, mas mesmo isso não me preparou para as centenas de vítimas de abusos de um nível bárbaro e sanguinário.

Em alguns momentos do livro pensei que havia algo que faltava no livro. Não existia uma relação directa, um testemunho real de que os generais - que são donos e representantes públicos dessas empresas e organismos que controlam a indústria diamantífera - sabiam do que lá se estava a passar. Mas essas dúvidas dissipam-se quando vemos a reacção destes militares e do regime de José Eduardo dos Santos a este mesmo livro. Em vez de agirem de forma inequívoca para acabarem com o que é nada menos do que uma vergonha nacional e um atentado aos direitos humanos de proporções dantescas, preferiram atacar o escritor. E isso, diz muito.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não, não sou anti-semita!

Às vezes cansa. Cada vez que faço qualquer crítica à actuação do governo de Israel, chovem as acusações de anti-semitismo. Por isso vou tentar ver se consigo deixar a minha posição clara:

- Não desejo mal a ninguém por ser Judeu, Muçulmano, Cristão, Budista, Agnóstico, Ateu ou qualquer outra religião ou falta dela.

- Na realidade não desejo mal a ninguém. Talvez seja uma posição ingénua, mas não tiro prazer do mal que acontece aos outros.

- Nenhum grupo étnico ou religioso se sobrepõe ao indivíduo. Isto significa que nenhum Judeu é individualmente culpado pelo que outra pessoa da sua etnia ou religião fez ou faz. O mesmo é válido para todos os outros credos.

- O Holocausto Nazi existiu e os Judeus as suas principais vítimas. Não foi o único genocídio da história e nem sequer do último século, mas foi o pior de todos eles.

- O anti-semitismo é um crime grave. Tão grave como o racismo, a xenofobia ou a islamofobia.

- Não apoio terrorismo de espécie nenhuma, por nenhum grupo e contra nenhum grupo. Seja ele a Al Qaeda, o Stern Gang, a ETA, o Boko Haram, Al Shabab, FP-25, Baader Meinhof ou Exército Vermelho Japonês.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos seus vizinhos santos. Já públiquei inúmeros artigos sobre isso, sobre a Primavera Árabe, sobre o Egipto, Líbano, Síria e muitos outros.

- Criticar o governo de Israel não significa fazer dos palestinianos santos. Também já escrevi muitas vezes sobre os crimes de Yasser Arafat, do Hamas, sobre os bombistas suicidas entre outros.

- São muitos os Judeus de todo o mundo e até em Israel que criticam também a actuação deste e outros governos de Israel. Incluem sobreviventes do Holocausto, antigos militares, ONGs e até lóbis oficiais.

A única curiosidade é mesmo a forma como a acusação de anti-semitismo é utilizada constantemente como arma para silenciar qualquer oposição à actuação de Israel. O problema é que provavelmente.... "you might just have overplayed your hand".

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Inverno Egípcio

O Egipto tem um lugar especial no Médio Oriente. Não só pela sua história pré-clássica, mas também pela enorme influência que tem nas mentes de todos os árabes. Nos últimos séculos este país criou ou desenvolveu alguns dos pensamentos mais radicais e influentes do mundo árabe, tais como o Pan-Arabismo[1] de Gamal Abdel Nasser, a Irmandade Muçulmana[2] de Hassan al-Banna ou a Primavera Árabe (precedida neste caso pela Túnisia).

Mas não só no campo das ideias tem o Egipto liderado o mundo árabe. A sua população de 85 milhões de pessoas torna-o no mais populoso de todos os países do Médio Oriente, sendo seguido de perto apenas pelo Irão e Turquia, ambos países não-árabes e com as suas próprias línguas e sistemas políticos bastante peculiares. Dados os baixos salários na sua terra natal, encontramos egípcios a trabalhar por todo a região e cobrindo lugares de relevo nas monarquias petrolíferas do golfo, cuja rápida expansão os deixou numa constante necessidade de recursos especializados.
Cairo, 11 de Fevereiro de 2011. Festejos na Praça Tahrir.

Não é por isso de estranhar que, quando a Primavera Árabe chegou à Praça Tahrir e as manifestações de centenas de milhares de pessoas exigiram e conseguiram a queda do eterno ditador Hosni Mubarak, o mundo parou. Na altura encontrava-me na Palestina. Ninguém tirava os olhos da televisão dia e noite. Toda a gente tinha a Al Jazeera no computador para ouvir os directos enquanto trabalhava e os cafés encheram-se de improvisadas bandeirinhas do Egipto. Por todo o lado respirava-se um ar de esperança como nunca vi em todos os anos da minha vida. Os acontecimentos da Tunísia já tinham deixado toda a gente boquiaberta, mas ver o Egipto a tremer parecia um sonho para todos.

Depois de cinco mil anos de História,
 o Egipto elege democraticamente o seu chefe de estado.
2012 Mohamed Morsi
Depois de muita confusão, avanços e recuos chegaram as imprevisíveis e muito esperadas eleições presidenciais. Em 2012, Mohamed Morsi torna-se no primeiro presidente eleito na história do Egipto, apoiado pela Irmandade Muçulmana. Na realidade, muitos dos que fizeram e apoiaram a revolução na Praça Tahrir de Fevereiro de 2011 não eram conservadores islâmicos. As ínumeras entrevistas feitas na altura, a forma como receberam personalidades pró-ocidentais, o facto de não se ter visto os típicos incêndios de bandeiras israelitas ou americanas, deixam-me com a certeza de que se tratava acima de tudo de uma revolução urbana, pró-democrática e liberal[3]. Durante semanas a Irmandade Muçulmana manteve-se de parte, mas juntou-se à manifestação a tempo de ainda poder colher os frutos de quem escolhe o lado certo da História.

No entanto, o Egipto não é o Cairo, e os dois mais votado da primeira volta são o conservador islâmico - mas aparentemente democrático - Mohamed Morsi e o último Primeiro-Ministro do ditador Mubarak, Ahmed Shafik. Para quem sonhava com um regime democrático e secular, que seguisse o modelo françês ou americano, foi um rude golpe. Não é possível ter a certeza, mas pelo que fui ouvindo dos egípcios que conheço, parece-me que os liberais juntaram os seus votos à Irmandade Muçulmana para impedirem um regresso de Mubarak. O resultado final foi um vitória tangencial de Morsi com 51,73% contra 48,27% de Shafik[4].

Mas Morsi não consegue estar à altura das expectativas. Pouco democrático, começa a concentrar em si todo o poder do estado perdendo rapidamente o apoiou da ala liberal e urbana que derrubara o anterior regime e, directa ou indirectamente, o colocara no poder. As forças armadas, que tinham evitado um banho de sangue na Praça Tahrir um ano e meio antes forçando a queda de Mubarak, voltam a tomar o poder como fizeram no período de transição anterior às eleições. O seu líder, o general Abdel Fatah Al Sisi manda prender Morsi[5] e rapidamente bloqueia[6] e depois ilegaliza a Irmandade Muçulmana[7], que um ano antes juntara mais de 13 milhões de votos.
General Abdul Fatah Al Sisi,
actual Presidente do Egipto

Já em 2014, o mesmo Sisi ganha facilmente umas eleições a que o Partido Liberdade e Justiça (o braço político da Irmandade Muçulmana) é barrado. Lembrando outras famosas eleições na região, o novo Presidente Sisi atinge os 96,91% de votos[8]. Um fenómeno de popularidade que se estende bem para fora do Egipto. Grande parte das monarquias do Golfo[9][10], os Estados Unidos[11] e a Europa[12] rapidamente declaram a sua amizade e confiança no novo governo e presidente. 

Morsi, tal como Mubarak, apodrece na cadeia pelas mesmas acusações de ter causado massacres na praça Tahrir, antes de cair do poder. A ironia é que também Sisi pode um dia juntar-se aos dois anteriores chefes de estado. Segundo o Human Rights Watch, as forças de segurança egípcias mataram intencionalmente pelo menos 817 manifestantes durante o massacre da praça de Rabaa em 2013[13]. Entretanto centenas de penas de morte são decididas em processos judiciais demasiado rápidos para poderem ser honestos[14[15], tudo isto debaixo de enormes protestos de Ban Ki Moon, secretário geral das Nações Unidas[16], assim como os Estados Unidos, alguns governos europeus[17] e várias ONG's[18].

Entretanto, a televisão do Qatar, Al Jazeera vê vários dos seus jornalistas presos e condenados a longas penas de prisão sobre acusações ridículas de terrorismo que chocaram o mundo dos media[19]. Parece-me que ninguém que conheça minimamente a política do Médio Oriente acreditará que esta não é uma apenas uma pequena batalha de uma guerra fria entre a Arábia Saudita e o Qatar, de cujo resto do mundo parece ignorar.


Jornalistas de todo o mundo juntam-se à causa da libertação
 dos jornalistas da Al Jazeera: Peter Grest, Baher Mohamed and Mohamed Fahmy
Por todo o lado ouço que o Egipto está óptimo, cheio de esperança e a crescer num optimismo como há muito não se via. Por todo a região, o assunto parece estar fechado e arrumado. Mas, pergunto eu, alguém acha que se pode ilegalizar os representantes de 12 milhões de votantes, fazer 16.000 presos políticos no espaço de um ano, sentenciar penas de morte a centenas com tribunais fantoche, praticar dezenas de homicídios dentro de esquadras, torturar em larga escala[20] e continuar a ser uma democracia? O Egipto escolheu um caminho do qual dificilmente terá retorno e onde todas as opções são agora demasiado sombrías: ou o ciclo de violência se alastra com os milhões de apoiantes de Morsi a contra-atacarem, correndo até o risco de uma guerra civil; ou Sisi terá que deixar todas as pretensões de ser um presidente democrático e tornar-se num ditador com pulso de ferro.

Dizia Padmé Amidala: "Então é assim que liberdade morre... com um estrondoso aplauso"[20]. Para o Médio Oriente, essas palavras nunca foram tão verdadeiras como nos dias que correm.




segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Palestina e os refugiados

1948 Coluna de refugiados palestinianos
Uma das questões centrais do problema Israelo-Árabe e de uma futura solução de paz (seja ela de um ou dois estados) é do direito de regresso dos refugiados. E embora exista uma resolução da ONU (Resolução 194 de 1948[1]) que indica claramente que o direito de regresso existe, este continua a ser um dos temas que tem bloqueado muitas das conversações de paz. O grande problema é que depois de tantas guerras, de uma limpeza étnica em larga escala (em 1948[2]) e da não integração dos descendentes de refugiados nos países de acolhimento, existem hoje, segundo as Nações Unidas, mais de 5 milhões de refugiados palestinianos[3].
Ministro israelita dos Negócios Estrangeiros,
 Moshe Sharett, assina o acordo de reparações
 entre Israel e a Alemanha (RFA) em 1952

Dada a quantidade de refugiados, existe um problema claramente financeiro, ou seja, se de um momento para outro regressassem todas estes milhões de palestinianos (ou mesmo uma fracção delas) com direito a reaverem as suas terras, casas, depósitos bancários, bens ou compensações por valor semelhante, isso arruinaria imediatamente o estado de Israel e provavelmente também o da Palestina. Ou seja, é perfeitamente impraticável que tal aconteça, não obstante ser da mais elementar justiça que isso acontecesse. Aliás, o próprio estado de Israel, enquanto auto-entitulado representante de todos os judeus do mundo presentes e passados, recebeu enormes compensações da Alemanha[4] pelos crimes cometidos por esta durante a segunda guerra mundial. Nesse sentido, Israel deveria também arcar com as consequências dos seus actos de 1948 em diante.

No entanto, muitos destes refugiados não nasceram na Palestina ou em Israel. Muitos são filhos ou mesmo netos dos refugiados de 1948 ou 1967[5]. Isto causa alguma estranheza já que em muitos outros lugares do planeta existiram migrações massivas forçadas durante os anos 40 e no entanto não temos hoje um problema grave de refugiados na Ucrânia, na Alemanha ou na Polónia (só para dar alguns exemplos). Na mesma altura, durante a criação do estado de Israel, cerca de 700 mil judeus que viviam em países árabes, desde Marrocos até ao Irão são forçados também a fugir de suas casas. Uma enorme comunidade perfeitamente integrada nas sociedades desses países desde tempos ancestrais, foram subitamente considerados personas non gratas e fugiram para Israel. Marrocos, onde viviam um quarto de milhão de judeus está hoje reduzida a uns insignificantes dois mil. O Iraque, com mais de 100 mil judeus em 1948 tem hoje virtualmente zero e os únicos países que mantêm acima de dez mil judeus é a Turquia e o Irão, mas mesmo assim muito menos do que no final da segunda guerra mundial[6].

A grande diferença entre todos estes refugiados e os refugiados palestinianos está no comportamento dos países de acolhimento. E, devemos sublinhar, países anfitriãos que partilham cultura, língua, religião e história com a esmagadora maioria de pessoas desta vaga de refugiados.

Do outro lado do Jordão, a Jordânia é hoje o mais amigável dos vizinhos quer para israelitas quer para palestinianos. No entanto, nem tudo começou bem e desde a derrota de 1967, na guerra dos 6 dias, os refugiados palestinianos foram mantidos também como cidadãos de segunda. Acabou com o terrível "Setembro Negro"[7], uma guerra civil entre palestinianos e jordanos em grande parte provocada por Yasser Arafat num dos seus inúmeros erros  (e crimes) que resultaram em milhares de vítimas mortais. Muito poderia ter sido salvo se Arafat tivesse aceitado a proposta do Rei Hussein da Jordânia para servir como seu Primeiro-Ministro em 1974[8], o que teria levado à inclusão dos palestinianos como jordanos de pleno direito nessa altura. Infelizmente tal não aconteceu e acabou por fugir com as suas tropas para uma das outras concentrações de refugiados da Palestina: o Líbano.
1982 Yasser Arafat em Beirute

A norte, um Líbano que era supostamente o estado cristão maronita do Médio Oriente, via a sua frágil maioria política a desvanecer-se rapidamente para maior taxa de natalidade dos sunitas, shiitas e druzes[9][10]. O pecado original de, com o apoio da potência colonial gaulesa, terem criado um país com demasiado território e onde a os cristãos detinham mais poder político mas uma maioria demográfica muito ligeira. Desta forma, os palestinianos foram mal vistos e mantidos em guetos sem acesso aos serviços do estado (como educação ou justiça) e, durante décadas, sem terem sequer o direito de transformar as suas barracas em casas. Foram proibidas a utilização de variados materias de construção e o exército libanês mantinha este população de centenas de milhares permanentemente policiada[11][12]. Não é de estranhar que 1975 o país entrasse em guerra, precisamente entre cristãos e palestinianos (teve várias outras fases onde as várias facções regionais foram intervindo, como os sunitas, shiitas, israelitas, sírios e iranianos, para além dos Estados Unidos da América, Itália e França). Até hoje, os palestinianos nascidos no Líbano continuam a não ter passaporte libanês nem têm qualquer representação política[13].


2014 Palestinianos do campo de refugiados de Yarmouk,
perto de Damasco na Síria. (Imagem da UNRWA,
agência responsável pelos refugiados palestinianos)
Na Síria a situação era semelhante, embora os palestinianos nunca tenham conseguido criar a situação de "estado dentro de um estado", como aconteceu na Jordânia e Líbano. Hoje, muitos palestinianos nascidos na Síria estão novamente em fuga devido à selvagem guerra civil de destrói o país a cada dia que passa.
1948 Campo de Refugiados palestinianos em Gaza

Para sudoeste, numa pequena faixa de território denominada Gaza e praticamente desconhecida do mundo, viviam apenas 80 mil habitantes[14]. Em 1948 chegaram até quase 300 mil habitantes[15]. Com as vagas seguintes de refugiados e o seu crescimento demográfico natural, passa de uma pequena cidade agrícola e piscatória para um dos lugares mais populosos à face da terra. Nas tréguas que se seguiram à guerra da independência de Israel, este território ficou nas mãos do Egipto[16], mas este nunca abriu o território ao Sinai nem permitiu que fossem considerados egípcios. Para todos os efeitos, tal como os restantes vizinhos árabes, o Egipto não queria o preço de absorver a população e queria manter o estatuto de refugiado vivo assim como um problema político grave para Israel. Com a paz conseguida em 1978/1979[17] entre Menachem Begin e Anwar Sadat (respectivamente líderes de Israel e Egipto), a faixa de Gaza e a Cisjordânia deveriam ter recebido a sua autonomia[18] num período de 5 anos, mas Israel nunca permitiu que essa parte do acordo fosse honrada. Como tal Gaza, ficou progressivamente mais isolada, e cada vez mais ocupada por colonos israelitas. Mais recentemente, com a decisão de Ariel Sharon de retirar todos os colonos israelitas de Gaza em 2005[19], o pequeno território de um milhão e oitocentas mil pessoas deixa de ser um sítio isolado para o que teremos de chamar de prisão a céu aberto, com todas as suas fronteiras terrestres, marítimas e aéreas controladas por Israel, com excepção da fronteira do Sinai, em Rafat. Entre Israel e Egipto, o povo de Gaza está hoje fechado num cerco absoluto.

Ou seja, cinco milhões e meio de palestinianos espalhados pelo mundo, tratados como cidadãos de segunda em todo o lado. Muitos conseguiram ser refugiados mais do que uma vez na vida. Histórias que ouço regularmente quando encontro palestinianos que cresceram nos campos de refugiados da Jordânia ou do Líbano, depois conseguiram ir trabalhar para o Kuweit para, depois da Tempestade do Deserto[20] serem expulsos novamente. Uma história que prometo contar com mais detalhe um destes dias. Mais um tiro no pé de Yasser Arafat, depois de apoiar Saddam Hussein na sua invasão do Kuweit[21].

Que fazer? Sinceramente eu só vejo uma solução. Num acordo de paz total entre Israel, Palestina e a Liga Árabe, (1) os refugiados devem ter direito a compensações mas não ao direito de regresso. O mesmo em relação aos refugiados judeus dos países árabes; (2) todos os palestinianos nascidos nos restantes países árabes devem ganhar cidadania automática (percebo que os negociadores da Autoridade Palestiniana não queiram admitir isto porque dependem também das ofertas monetárias de antigos refugiados e muitos países árabes apoiam a causa mas querem livrar-se dos palestinianos, mas não vejo outra forma). Os Estados Unidos da América e a União Europeia, se quiserem ajudar, podem contribuir muito quer na parte diplomática quer financeira. No final, quer Israel quer Palestina, têm que ter as suas fronteiras seguras, viver em liberdade e ter acesso aberto ao mundo. A Palestina independente poderá depois permitir ou promover o regresso dos antigos refugiados à nova Palestina.

A questão dos refugiados não é a única em aberto, mas é uma das mais complexas e provavelmente uma que não tem soluções ideais. Outros assuntos, como o estatuto de Jerusalém e os colonatos na Cisjordânia terão também que ser decididos, e certamente teremos também tempo para falar sobre esse assunto em breve.



sábado, 17 de maio de 2014

O Homem do Tanque

Em Junho de 1989, quase em paralelo com os eventos que acabaram por fazer ruir o comunismo na Europa Ocidental e na União Soviética, um homem só consegue parar toda uma coluna de tanques chineses durante os protestos da Praça Tiananmen em Beijing. Sem dúvida um dos momentos mais impressionantes da história do Século XX. 


Ninguém sabe quem ele é, ou era[1]. Ninguém sabe se era um dos protestantes, ligado de alguma forma às centenas ou milhares que pereceram no dia anterior, ou simplesmente alguém que regressava a casa depois de fazer as compras no supermercado, como os dois sacos que leva na mão parecem indicar. Também ninguém sabe o que lhe aconteceu[2].

Para a história fica uma das mais poderosas imagens pela liberdade da história. Uma que em nada deu, já que a China tremeu, mas não caiu. E se o comunismo desapareceu na China, o regime que o substituiu está muito longe de ser algo sequer próximo de uma democracia.


(Video da CNN, não editado dos 3 minutos que marcam a história da China)




sábado, 10 de maio de 2014

Mandela e a Palestina

Nos anos que antecederam a sua morte, Mandela tornou-se o mais unânime dos líderes mundiais. Esquerda e direita, seculares e religiosos, todos choraram a sua morte. Mas Mandela não fui nunca um homem de consensos. 

Nesta entrevista, ainda o Apartheid Sul-Africano estava de pé (embora já não de boa saúde) Mandela fala da África do Sul, mas também da Palestina e Israel, de Fidel Castro, Arafat e Khadafi, debaixo de entusiásticos aplausos do público americano que o ouvia. Algumas das respostas são invulgarmente politicamente incorrectas, o que revela uma faceta de Mandela que nos habituámos a esquecer... 




domingo, 4 de maio de 2014

De volta a Guantánamo

Este artigo de opinião, publicado em Março no site da Al Jazeera e escrito pelo detido número 028 de Guantánamo, Moath Al-Alwi[1], mostra-nos os detalhes da tortura física e psicológica utilizada na mais famosa prisão do mundo. Por mais horrorosos e infames os detalhes, o pior de tudo é saber que para além desta, existem muitas outras. Centenas, milhares de prisões pelo mundo todo e governados por líderes muito piores do que os americanos. Mas se um país livre, democrático e com liberdade de expressão como os Estados Unidos da América têm isto, que se estará a passar cantos esquecidos do planeta, longe do sonho da europa ocidental. Sinto calafrios só de pensar...


March 10, 2014 - I write this letter, as I wrote my last, between bouts of violent vomiting and sharp pains in my stomach caused by this morning's force-feeding session. Reading news articles, you would think that we have stopped striking. Perhaps you might think that our protests had even been sated by government concessions. We may be trapped behind the walls of Guantanamo, but we will not be silenced.

Dúzias de prisioneiros não foram ainda julgados e aguardam libertação
I write this letter to tell you that we are still striking. We will not stop until we get our dignity back in this place and are allowed to return home to our families.

With President Barack Obama's blessing, Colonel Bogdan, the warden at Guantanamo, has instituted humiliating groin searches, especially when we are taken for phone calls with our lawyers or families. He has withheld our medical treatment and confiscated our legal papers and Qurans.

The Colonel has been quoted as saying that he knows how to discipline us because he has children at home. We are not his children and this is certainly not our home. We are grown men with families who no longer know what we look like.

Because I decided to peacefully protest my imprisonment here, the special mattress and medical pillows prescribed for my chronic back pain, all of my underwear, my electric razor, and even my bar of soap and toothbrush have been confiscated.

I, too, am strapped down and force-fed for over an hour every single day. During the session, I am constantly vomiting the feeding solution into my lap. As I am carried back to my cell, I cannot help but vomit on the guards carrying me.

They put a Plexiglas face mask on my head to protect their clothes from my vomit. They tighten the facemask and press down on it, pushing it into my face. I almost suffocate because I am vomiting inside the facemask and am unable to breathe.

As I struggle for air, the guards make fun of me, laughing loudly. Frequently, they lie me down on my stomach in my cell and press my back forcefully, squeezing out any remaining feeding solution from the previous force-feeding session. The lightest of the guards weighs at least 190 lbs, while I weigh only 98 lbs; it is a wonder they do not break me entirely.

Aside from those imprisoned with me, nobody can truly understand how we suffer. The Colonel will not allow media into Guantanamo Bay, claiming he is protecting our privacy. No man here wants privacy from the media. The Colonel fears that if the media comes in and meets with the prisoners, all of this daily brutality will be exposed. Hopefully this letter serves that end.

There are currently 21 prisoners on hunger strike. I am one of the 16 who are being force-fed. The government does not want the American people to know that we are still striking. They try to discourage us with solitary confinement and brutal treatment but we will not abandon our protest.

We will not be silent. They cannot hide us by refusing to report the number of protesters to the public. Refusing sustenance is the only peaceful voice of protest that we have; it is the only way to demand the attention of the US government and the American people to whom it is beholden.

Colonel Bogdan has explained our treatment by saying we are at war. But it has been 12 years and this is not a war. We are unarmed captives. I ask the American people, where is the freedom the US touts? Do you condone what your government is doing to us? I know that governments do not always represent the voices of their people, and I pray that the American people do not want this, and more, that they will do something to stop it.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Genocídio Arménio



Vítimas do Holocausto Arménio
Como as diferentes fases do genocídio dos Arménios por parte do Império Turco-Otomano decorreram há 99 anos atrás. Primeiro a demissão de todos os funcionários públicos de origem arménia: Polícias, bombeiros, militares, até professores. Depois o assassinato selectivo das elites. Depois os homens. As mulheres e as crianças. Toda a propriedade, herança cultural e locais históricos. Tudo. Até não ficar praticamente nada. 

Disse Adolf Hitler uns anos depois: "Quem fala hoje da aniquilação dos Arménios?"[1]. Infelizmente ninguém quis saber. E passadas duas décadas voltou a repetir-se, mas numa escala ainda maior. Prestes a chegar ao centenário de um dos piores crimes alguma vez cometidos, a Turquia não só não admitiu nunca o genocídio como mete na cadeia quem admitir publicamente que o crime alguma vez aconteceu, como o Nobel da Literatura Orhan Pamuk descobriu[2].




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Israel, Islão e as vítimas

Sou um crítico acérrimo de algumas das políticas violentas e racistas do governo israelita e do apoio implícito ou explícito que os Estados Unidos da América e as potências ocidentais lhes dão. Conheço muito bem a realidade no terreno e o verdadeiro apartheid instalado nos territórios ocupados da Palestina e em Israel.

Mas é de facto muito estranho porque motivo tantos conflitos muitíssimo mais violentos são perfeitamente desconhecidos da maioria das pessoas quer no médio oriente quer no ocidente. Ninguém fala dos genocídios dos Arménios, da perseguição dos comunistas Indonésios, da guerra Irão-Iraque, da guerra da independência do Bangladesh (Paquistão Oriental), etc.
Restos de um T-62 Iraquiano usado na Guerra Irão-Iraque

O gráfico que se segue faz parte de belíssimo curso online - de graça - do Prof. Ebrahim Afsah[1] sobre os "Desafios constitucionais no mundo islâmico" da Universidade de Copenhaga.

Comparem, no quadro abaixo, as vítimas mortais das guerras entre Israel e os seus vizinhos (a azul), com as guerras no médio oriente e outras zonas de maioria islâmica sem intervenção israelita ou ocidental (a verde). Devo notar que o próprio Afsah considera estes números extremamente conservadores.

Certamente não desculpa nenhum dos crimes cometidos por Israel, Estados Unidos e restantes países ocidentais. Mas coloca-os em perspectiva.


Carregue para ver o gráfico em tamanho aumentado.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Uma tragédia afegã

Fiquei bastante impressionado com este artigo do The Independent[1] sobre a pedofilia no seio da (excessivamente) tradicional sociedade afegã. Aparentemente o problema tem crescido depois da invasão de 2001 e, uma vez que a prática de sexo com jovens rapazes tinha sido proibida pelos Talibans, coloca-os numa posição de superioridade moral, o que lhes traz apoio entre os líderes e populações que se insurgem contra esta prática.

Uma história triste, praticamente desconhecida e que exigia outro tipo de ajuda por parte das grandes potências do mundo que não hesitaram em gastar triliões de dólares numa guerra mas nunca colocaram muito esforço em ajudar a construir um novo país no Afeganistão.








With the looming withdrawal of Nato troops and a persistent insurgent threat, Afghanistan is in a precarious position. Innumerable tragedies have beleaguered rural Afghans throughout the past decades of conflict — perpetual violence, oppression of women, and crushing poverty have all contributed to the Hobbesian nature of life in the Afghan countryside.
While the Afghan government has been able to address some of these issues since the Taliban's ouster in 2001, archaic social traditions and deep-seated gender norms have kept much of rural Afghanistan in a medieval state of purgatory. Perhaps the most deplorable tragedy, one that has actually grown more rampant since 2001, is the practice of bacha bazi — sexual companionship between powerful men and their adolescent boy conscripts.
This phenomenon presents a system of gender reversal in Afghanistan. Whereas rural Pashtun culture remains largely misogynistic and male-dominated due to deeply-ingrained Islamic values, teenage boys have become the objects of lustful attraction and romance for some of the most powerful men in the Afghan countryside.
Demeaning and damaging, the widespread subculture of paedophilia in Afghanistan constitutes one of the most egregious ongoing violations of human rights in the world. The adolescent boys who are groomed for sexual relationships with older men are bought — or, in some instances, kidnapped — from their families and thrust into a world which strips them of their masculine identity. These boys are often made to dress as females, wear makeup, and dance for parties of men. They are expected to engage in sexual acts with much older suitors, often remaining a man's or group's sexual underling for a protracted period.

Evolution of Bacha Bazi


Occurring frequently across southern and eastern Afghanistan's rural Pashtun belt and with ethnic Tajiks in the northern Afghan countryside, bacha bazi has become a shockingly common practice. Afghanistan's mujahideen warlords, who fought off the Soviet invasion and instigated a civil war in the 1980s, regularly engaged in acts of paedophilia. Keeping one or more “chai boys,” as these male conscripts are called, for personal servitude and sexual pleasure became a symbol of power and social status.
The Taliban had a deep aversion towards bacha bazi, outlawing the practice when they instituted strict nationwide sharia law. According to some accounts, including the hallmark Times article “Kandahar Comes out of the Closet” in 2002, one of the original provocations for the Taliban's rise to power in the early 1990s was their outrage over paedophilia. Once they came to power, bacha bazi became taboo, and the men who still engaged in the practice did so in secret.
When the former mujahideen commanders ascended to power in 2001 after the Taliban's ouster, they brought with them a rekindled culture of bacha bazi. Today, many of these empowered warlords serve in important positions, as governors, line ministers, police chiefs and military commanders.
Since its post-2001 revival, bacha bazi has evolved, and its practice varies across Afghanistan. According to military experts I talked to in Afghanistan, the lawlessness that followed the deposing of the Taliban's in rural Pashtunistan and northern Afghanistan gave rise to violent expressions of paedophilia. Boys were raped, kidnapped and trafficked as sexual predators regained their positions of regional power. As rule of law mechanisms and general order returned to the Afghan countryside, bacha bazi became a normalized, structured practice in many areas.
Many “chai boys” are now semi-formal apprentices to their powerful male companions. Military officials have observed that Afghan families with an abundance of children are often keen to provide a son to a warlord or government official — with full knowledge of the sexual ramifications — in order to gain familial prestige and monetary compensation. Whereas bacha bazi is now largely consensual and non-violent, its evolution into an institutionalized practice within rural Pashtun and Tajik society is deeply disturbing.

Pedophilia and Islam


The fact that bacha bazi, which has normalized sodomy and child abuse in rural Afghan society, developed within a deeply fundamentalist Islamic region of the world is mystifying. According to a 2009 Human Terrain Team study titled “Pashtun Sexuality,” Pashtun social norms dictate that bacha bazi is not un-Islamic or homosexual at all — if the man does not love the boy, the sexual act is not reprehensible, and is far more ethical than defiling a woman.
Sheltered by their pastoral setting and unable to speak Arabic — the language of all Islamic texts — many Afghans allow social customs to trump religious values, including those Quranic verses eschewing homosexuality and promiscuity. Warlords who have exploited Islam for political or personal means have also promulgated tolerance for bacha bazi. The mujahideen commanders are a perfect example of this — they fought communism in the name of jihad and mobilized thousands of men by promoting Islam, while sexually abusing boys and remaining relatively secular themselves.

Tragic Consequences


The rampant paedophilia has a number of far-reaching detrimental consequences on Afghanistan's development into a functional nation. The first — and most obvious — consequence of bacha bazi is the irreparable abuse inflicted on its thousands of victims.
Because it is so common, a significant percentage of the country's male population bears the deep psychological scars of sexual abuse from childhood. Some estimates say that as many as 50 percent of the men in the Pashtun tribal areas of southern Afghanistan take boy lovers, making it clear that paedophilia is a pervasive issue affecting entire rural communities. Many of the prominent Pashtun men who currently engage in bacha bazi were likely abused as children; in turn, many of today's adolescent victims will likely become powerful warlords or government-affiliated leaders with boy lovers of their own, perpetuating the cycle of abuse.
A second corrupting, and perhaps surprising, consequence of bacha bazi is its negative impact on women's rights in Afghanistan. It has become a commonly accepted notion among Afghanistan's latent homosexual male population that “women are for children, and boys are for pleasure.” Passed down through many generations and spurred by the vicious cycle created by the pedophile-victim relationship, many Afghan men have lost their attraction towards the opposite gender. Although social and religious customs still heavily dictate that all men must marry one or more women and have children, these marriages are often devoid of love and affection, and are treated as practical, mandated arrangements.
While the Afghan environment has grown more conducive to improving women's social statuses, the continued normalization of bacha bazi will perpetuate the traditional view of women as second-class citizens — household fixtures meant for child-rearing and menial labor, and undeserving of male attraction and affection.
The third unfortunate consequence of bacha bazi is its detrimental bearing on the perpetual state of conflict in Afghanistan, especially in the southern Pashtun-dominated countryside. Because paedophilia and sodomy were, and remain, a main point of contention between the Islamist Taliban and traditional Pashtun warlords, the widespread nature of bacha bazi likely continues to fuel the Taliban's desire to reassert sharia law. The adolescent victims are vulnerable to Taliban intimidation and may be used to infiltrate the Afghan government and security forces.
The resurgence of bacha bazi since the Taliban's defeat and the significant percentage of government, police, and military officials engaged in the practice has put the United States and its NATO allies in a precarious position. By empowering these sexual predators, the coalition built a government around a “lesser evil,” promoting often-corrupt pedophiles in lieu of the extremist, al-Qaida-linked Taliban. Going forward, the strong Western moral aversion to pedophilia will likely erode the willingness of NATO and international philanthropic agencies to continue their support for Afghanistan's development in the post-transition period. As Joel Brinkley, a reporter for the San Francisco Chronicle, asked: “So, why are American and NATO forces fighting and dying to defend tens of thousands of proud pedophiles, certainly more per capita than any other place on Earth?”

Looking Forward


Despite the grave nature of the child abuse committed across Afghanistan, this tragic phenomenon has received relatively little global attention. It has been highlighted mainly in sporadic news articles and one Afghan-produced documentary, while other Afghan issues such as women's rights and poverty are center stage.
From a human rights perspective, the pervasive culture of paedophilia deserves substantial international consideration due to its detrimental effects — the immediate and noticeable effects on the young victims, as well as the roadblocks it creates towards achieving gender equality and peace.
The only way to tackle both bacha bazi and gender inequality is to modernize Afghanistan's rule of law system. Afghan officials have been scrutinized in multiple reports by the United Nations' Office of the Special Representative of the Secretary-General for Children and Armed Conflict for their failure to protect children's rights. Although Afghan officials formally agreed to outlaw these practices in response to UN criticism in 2011, the government's ability and willingness to internally enforce laws protecting children has been non-existent.
If a future Afghan government can achieve a balance between the Taliban, who strictly enforced anti-paedophilia laws but harshly oppressed women, and the current administration, which has put an end to the hard-line Islamic subjugation of women but has allowed bacha bazi to reach shocking levels, Afghanistan's dismal human rights record may improve.
An additional strategy for combating bacha bazi is to attack the issue from an ethno-cultural standpoint. Identifying key tribal elders and other local powerbrokers who share the West's revulsion towards such widespread paedophilia is the first step in achieving lasting progress. As is true with women's rights, understanding Afghanistan's complex social terrain and bridging its cultural differences is necessary to safeguard the rights of adolescent boys.
The Afghan government's acknowledgement of bacha bazi and subsequent outreach into rural Pashtun communities, where the legitimacy of the government is often eclipsed by the power of warlords and tribal elders, will also be critical. The most important breakthrough, of course, will come when the Afghan government, police, and military rid themselves of all pedophiles. If the central government can ensure its representatives at the local level will cease their engagement in bacha bazi, the social norms are bound to change as well.
Eliminating this truly damaging practice will finally occur when a paedophile-free Afghan government is able to more closely connect the country's urban centers to its rural countryside. Only then will a progressive social code be established. And if this evolved social code can incorporate the tenets of Islam with social justice and effectively marginalize the archaic and abusive aspects of Pashtun and Tajik warlord culture, there is hope for Afghanistan yet.
Chris Mondloch served as an analyst for the U.S. Marine Corps for five years and directed intelligence production for the Corps' Economic Political Intelligence Cell in Helmand province in 2012


Nelson Mandela 1918-2013


sábado, 26 de outubro de 2013

Obviamente... apoio!

Como é do conhecimento geral, na Arábia Saudita não é permitido às mulheres guiar. É, aliás, o único país do mundo em que isso acontece. Hoje, uma demonstração no país levou muitas mulheres à rua na luta por esse direito tão básico[1].

Já agora, naturalmente que isto não tem nenhuma desculpa de cariz religioso. Existem muitos mais países muçulmanos, vários onde a sharia é lei e no entanto as mulheres guiam. 

Não há muito a acrescentar. Obviamente têm o meu total apoio.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Farahani - Iraniana e corajosa

Golshifteh Farahani - actriz iraniana exilada em Paris
Durante os meus anos tive oportunidade de conhecer bastantes iranianos. Naturalmente não os suficientes para conhecer o pulsar daquele povo, mas o suficiente para pelo menos colocar em causa as ideias pré-concebidas que trazia comigo. 

A maioria dos que conheci não eram distinguíveis dos europeus. A forma de vestir dos homens era perfeitamente ocidental. Em relação às mulheres tinham, regra geral um ar de italianas. Bem vestidas vaidosas e nada parecidas com as árabes. Num ou noutro caso usavam lenço a tapar o cabelo, mas normalmente nem isso. 

Body of Lies, realizado por Ridley Scott com
Di Caprio, Farahani e Russel Crowe
Foi depois de começar a conhecer casais iranianos que começei a reparar com mais cuidado nas imagens que vinham do Irão. Na rua, notava-se que as mulheres usavam sem excepção hijab (o lenço utilizado para não mostrar o cabelo), mas ao contrário dos países árabes do golfo, os lenços eram coloridos, à semelhança dos utilizados no Levante (Palestina, Líbano, Jordânia e Síria). Também dava para ver que esse uso era fruto de imposição da lei islâmica que (ainda) impera no país. Afinal de contas, o lenço aparecia sempre uns centímetros mais atrás do que devia, deixando umas cuidadas madeixas à frente. A maquilhagem, proibida no país, estava presente em todo o lado, embora suficientemente discreta para poderem fingir que era a sua cor natural.

Fui ficando por isso com a impressão que talvez o povo iraniano já esteja realmente cansado do creativo regime semi teocrático e semi democrático do seu país. A leitura do livro de Shirin Ebadi[1] (prémio Nobel da Paz em 2003) "Iran Awakening" forteleceu-me em muito essa ideia. A recepção que lhe foi feita quando regressou ao Irão, com centenas de milhares de pessoas na rua, mostrou que são muitos os que estão com ela.


Farahani no filme "About Elly"
Entretanto uma nova personagem emerge, a actriz iraniana Golshifteh Farahani[2] que contracenou com Leonardo di Caprio no filme "Body of Lies" de 2008[3]. Desde o início que o regime se mostrou extremamente desconfortável com o à vontade desta. Posteriomente, começa a aparecer em filmes sem o mandatório hijab. Mais tarde revela-se totalmente na revista francesa Madame Le Figaro, onde aparece despida.

A coragem de Farahani é invulgar. Certamente que muitos considerarão que estas fotos não passam de um golpe de publicidade para fomentar a sua carreira. Não dúvido que isso seja verdade. Acontece diariamente no mundo da moda e cinema. O que não acontece todos os dias é alguém de uma teocracia fazê-lo. Os riscos que corre são tudo menos comuns. E a mensagem política que envia é muitíssimo mais forte. Farahani foi, segundo a própria em entrevista ao Der Spiegel[4], avisada de que já não era bem-vinda no seu país e que se arriscava a ser presa. Encontra-se por isso exilada em Paris há 4 anos, sem qualquer esperança de poder voltar à sua terra Natal. Quando li este artigo lembrei-me de algo que aqui escrevi sobre umas imagens de Angela Merkel nua: "No lugar onde cometeu este acto o naturismo era proibido? Cometeu algum crime?". Esta entrevista fez pensar que não deveria ter escrito tal frase. Afinal de contas, no caso de Farahani, ele poderá mesmo ter cometido um crime no seu país. E mesmo assim eu não quero saber e não sou capaz de a criticar por isso.

Espero sinceramente que Farahani possa um dia voltar à sua terra natal. E que o faça sem medo e em liberdade. Com hijab ou sem ele, conforme a sua vontade.

sábado, 20 de julho de 2013

The Ethnic Cleansing of Palestine

Não admira que Illan Pape tenha sido considerado como o mais corajoso de todos os novos historiadores israelitas. O seu livro "The Ethnic Cleansing of Palestine"[1] desfaz categoricamente os mitos de que o milhão de refugiados de 1948 eram simplesmente o resultado colateral da guerra de independência. Um dos muitos males provocados naturalmente pelas guerras, como vemos hoje na Síria por exemplo. Os factos apontam para uma verdade bem mais sinistra. A vaga de refugiados de 1948 é o corolário de uma acção preparada e implementada durante muitos anos por Ben Gurian e a liderança zionista e obedece a um plano muito claro, o Plano Dalet[2].

Como parte deste plano, as aldeias e cidades do mandato da Palestina foram catalogados segundo as suas etnias, os nomes dos seus líderes locais e todos aqueles suspeitos de envolvimento nas revoltas dos anos 30 registados cuidadosamente. O plano tinha como objectivo explícito a conquista de todas estas cidades, o homicídio da sua liderança e a prisão indiscriminadas de homens em "idade militar", ou seja, entre os 10 (!!!) e os 60 anos. Incluia também a expulsão de todos os seus habitantes para fora do que os zionistas consideravam que deveria ser o seu estado e por fim a destruição metódica das aldeias até que nada sobrasse delas.

É um livro pesado, relatando cuidadosamente as violações, homicídios e destruições uma após a outra. Aldeia após aldeia. Cidade após cidade. Muitos destes massacres foram feitos ainda antes da saída dos britânicos. Em diversos casos, foram até ajudados por estes. Grande parte da limpeza étnica foi feita muito antes dos exércitos árabes declararem guerra ao novo estado de Israel, e curiosamente, o esforço de guerra foi tão pouco de parte a parte que nem sequer teve influência no calendário da limpeza étnica que continuou o seu curso sem problemas.


Explica-nos ainda porque motivo algumas cidades foram poupadas. Como as cidades santas cristãs, quando os zionistas temeram que o mundo se virasse contra ele já que muitas dessas cidades eram de maioria cristã. E como a Legiões Árabe jordana, o mais formidável dos exércitos árabes envolvidos, manteve o seu território mesmo quando o Rei Abdullah da Jordânia dividia os despojos da Palestina com a liderança zionista.

Por fim, mostra que o exército paramilitar judaico (denominado Haganah, que mais tarde se tornou no IDF) e as suas unidades de elite, a Palmach, trabalharam lado a lado com organizações terroristas judaicas, como o Stern Gang e o Irgun. Com estes, fizeram atentados bombistas, assassinaram líderes políticos e procederam ao Plano Dalet, tal como programado. Mais de 500 aldeias desapareceram do mapa. Muitos refugiados e os seus descendentes, ainda hoje esquecidos no Líbano e Jordânia sem documentos ou nacionalidade, mantém as chaves de casas há muito dinamitadas, como nos conta Robert Fisk[3].

Em discussões sobre o conflito Israelo-Palestiniano, existe sempre um momento em que um dos pró-israelitas pergunta se estamos a colocar em causa a existência do estado de Israel. A resposta é simples. Ele nunca deveria ter sido criado. Agora, até aceito que terá que existir, mas isso não altera o facto de que é um estado que está a ser montado por atropelo diário aos direitos humanos. Que praticamente todos os crimes que um estado pode cometer sobre uma população indígena estão a ser ali cometidos. E isso iniciou-se há 65 anos mais ainda não parou. Só mudou em intensidade e  estilo.