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domingo, 22 de junho de 2014

Iraque - A Trama Adensa-se

Moqtada Al Sadr
Depois de uma demonstração de enorme força do ISIL, que representava a Al Qaeda no Iraque até ter decidido que as fronteiras de Sykes-Picot não se aplicavam a eles, temos um novo (velho) player a mostrar que ainda está em jogo: Moqtada Al Sadr. Ao extremismo sunita, parece que se vai contrapor o extremismo shiita...

Mas comecemos por definir a situação actual: Primeiro, é importante definir a região em causa, e esta claramente não se pode limitar ao Iraque. O Iraque e a Síria representam neste momento um campo de batalha único. A partir do momento que o ISIL (Estado Islâmico do Iraque e Levante) começou a lutar nos dois territórios, temos uma aliança tácita estranha entre dois governos (Bashar Al Assad e Nouri Al Maliki) que têm muito menos em comum do que seria de esperar. Este inimigo comum talvez os una por uma vez, embora provavelmente Maliki não queira ver no Iraque o tipo cenário em que o seu vizinho tem vivido nos últimos anos. As forças governamentais Sírias têm (com a limitada ajuda do Hizbullah libanês, apoio militar e logístico Russo e manifesta incapacidade da comunidade internacional) conquistado terreno e controlam hoje grande parte da Síria, incluindo os portos e a maioria dos principais pontos estratégicos militares e económicos. O Free Syrian Army (a facção rebelde Síria apoiada pelos Estados Unidos da América e grande parte da comunidade internacional) praticamente desapareceu. A Frente Al Nusra (oficialmente a Al Qaeda na Síria) vem perdendo terreno quer para o Exécito de Bashar Al Assad e para o ISIL, e - finalmente - o ISIL controla uma parte considerável do leste da Síria e ocidente do Iraque. Não obstante algumas escaramuças entre o Exército Sírio e a Turquia, incidentes nos Montes Golan ocupados por Israel e ameaças veladas por parte de Obama, uma mistura de sorte, boa diplomacia e apoio Russo e Chinês conseguiram evitar o descalabro de Assad e do seu regime. Pelo contrário, quer internamente quer para o resto do mundo, começa a ser visto como um mal menor, e uma alternativa bem mais razoável do que a Al Qaeda ou o ISIL. Entretanto a maior crise de refugiados dos nossos tempos está a levar ao limite a capacidade logística, financeira e humana do Líbano e da Jordânia, que tentam a todo o custo manter-se fora desta guerra.

A vermelho: Área controlada pelo ISIL
A Amarelo: Área de actuação do ISIL
A Branco: Restante Iraque e Síria
Do outro lado da arbitrária fronteira criada nas mentes dos ministros dos negócios estrangeiros dos impérios britânicos e francês em 1916 (o famoso acordo Sykes-Picot), o ISIL, liderado pelo auto-entitulado Califa, Abu Bakr Al Bagdadi, iniciou nas últimas semanas um espectacular ataque a inúmeros pontos cruciais do Iraque. Tomou a segunda maior cidade do país, Mosul, conseguiu o controlo da maior refinaria do Iraque e a cada dia que passa novas conquistas somam-se ao território já seu. A Al Jazeera anunciava a queda de Qaim, Rawah e Anah na província de Anbar. Com estas vitórias militares, o ISIL aumenta também a sua capacidade de recrutamento. Aparentemente já terá pilhado mais de 500 milhões de dólares nos bancos de Mossul, e se tivermos em conta que controla alguns poços de petróleo no leste da Síria, ao obter também refinarias torna-se perfeitamente independente neste recurso crucial. Muitos sunitas mais seculares mas que se consideram vítimas das políticas étnicas e religiosas de Maliki assim como antigos seguidores de Saddam parecem estar aliados do ISIL, embora seja difícil acreditar que essa aliança possa durar muito tempo.

O governo iraquiano, com o apoio dos principais líderes religiosos shiitas e com a benção de Estados Unidos e Irão (the unholy alliance?) estão a recrutar dezenas de milhares de voluntários para cobrirem a defesa de Bagdad, agora a apenas umas dezenas de quilómetros da frente de combate. Os exércitos iraquianos, onde os estados unidos gastaram biliões de dólares, desfazem-se aos primeiros sinais do ISIL e vários generais foram demitidos ou desertaram.

Demonstração de força do Exército Mahdi
 a força paramilitar de Al Sadr em Junho 2014
Neste fim de semana, Moqtada Al Sadr reaparece dos escombros da antiga Saddam City (um bairro pobre shiita de Bagdad rebaptizado de Sadr City pelos Americanos quando invadiram o país em 2003 em honra do grande dissidente Mohammad Mohammad Sadeq Al Sadr - pai de Moqtada Al Sadr). Em fevereiro deste ano, tinha desistido da via política o que permitiu a Maliki uma vitória (um pouco mais) fácil, concentrando o voto shiita, embora até agora não tenha conseguido formar um governo de coligação.

Que Al Sadr se levante para defender a comunidade shiita das forças do ISIL, não é estranho. Mas é verdadeiramente surpreendente o número de militantes afiliados a este. Numa demonstração de força, Al Sadr fez este fim de semana desfilar dezenas de milhares de soldados, bombistas suicidas, carros armados, regimentos de bazookas pelo meio da "sua" cidade. Com milhares de veteranos da guerra contra os americanos, poderão constituir a verdadeira defesa de Bagdad. Mas se isso acontecer (e pode acontecer já nas próximas semanas) resistirá Moqtada à tentação do palácio presidencial? E conseguirá ele parar as aparentemente invencíveis forças do Islamic State of Iraque and Levante?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Islamic State of Iraq and Levant

Bandeira do ISIL
(Al Dawla Al Islamia fil Iraq wa al Sham)
Inimigos de Bashar Al Assad, Nouri al-Maliki, do Hizbullah, do Free Syrian Army e da Al Qaeda, dos Estados Unidos, da Europa e do Irão e, atrevo-me a dizer, inimigos de praticamente toda a humanidade. É difícil imaginar o que significa um grupo terrorista ser considerado pelo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, como "too vicious"...

É impensável imaginar que o Islamic State of Iraq and Levant (ISIL ou ISIS) irão conseguir montar algum tipo de governo contra a vontade das populações locais e de praticamente todos os governos do mundo. Mas até que desapareçam, é provável que ainda tenhamos que chorar muitas vidas. 

A verdadeira pergunta é: isto é um resultado da invasão do Iraque em 2003, da retirada em 2011, do apoio dado às facções anti-Assad ou, (e também temos que colocar esta hipótese de forma séria) nenhuma das acções militares e financeiras do Ocidente tiveram qualquer impacto?

Massacre de voluntários Shiitas iraquianos
publicados em 14-06-2014


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O outro Holocausto

Umas décadas antes do holocausto que constantemente preenche as páginas dos jornais e as telas do cinema, um outro levou à morte de centenas de milhares, senão de milhões, de pessoas. Uma etnia vítima do homicídio industrial e calculado e cuja memória é constantemente esquecida pelo mundo. Inclusivé pelos descendentes dos criminosos que o fizeram, o Império Otomano. Se em alguns países, a negação do holocausto arménio é crime, na moderna Turquia a menção deste crime pode resultar em detenção, como aconteceu ao escritor alemão-turco Dogan Akhanli[1], ou em complicados processos judiciais, como foi o caso do prémio Nobel da literatura Orhan Pamuk[2].

Mas os Arménios são um povo pequeno, pouco influente e sem lóbies poderosos. Deles não dependem eleições das maiores potências do mundo. E a este povo, sobreviventes e descentes do genocídio que em breve será centenário, nunca foram pagas restituições.

A Síria, como o Líbano, a Palestina e outros países do Médio Oriente, receberam involuntariamente muitos dos refugiados durante 1915. Hoje as suas vidas voltam a estar em risco, quando a Síria atravessa uma guerra civil que será lembrada durante muito tempo. Onde as minorias religiosas parecem estar cada vez mais frágeis. E onde estes descendentes de refugiados provavelmente tornar-se-ão refugiados eles próprios.

Deixo aqui mais um artigo de Robert Fisk, no jornal britânico The Independent[3] sobre os Cristãos Arménios Sírios.


Igreja Cristã Arménia de S.Jorge em Allepo, Síria em Outubro 2012 totalmente
queimada depois de combates entre o exército Sírio e forças rebeldes. 


Nearly a century after the Armenian genocide, these people are still being slaughtered in Syria


And now, almost unmentioned in the media, their holy places are also being desecrated

Just over 30 years ago, I dug the bones and skulls of Armenian genocide victims out of a hillside above the Khabur River in Syria. They were young people – the teeth were not decayed – and they were just a few of the million-and-a-half Armenian Christians slaughtered in the first Holocaust of the 20th century, the deliberate, planned mass destruction of a people by the Ottoman Turks in 1915.
It was difficult to find these bones because the Khabur River – north of the Syrian city of Deir ez-Zour – had changed. So many were the bodies heaped in its flow that the waters moved to the east. The very river had altered its course. But Armenian friends who were with me took the remains and placed them in the crypt of the great Armenian church at Deir ez-Zour, which is dedicated to the memory of those Armenians who were killed – and shame upon the “modern” Turkish state which  still denies this Holocaust – in that industrial mass murder.

And now, almost unmentioned in the media, these ghastly killing fields have become the killing fields of a new war. Upon the bones of the dead Armenians, the Syrian conflict is being fought. And the descendants of the Armenian Christian survivors who found sanctuary in the old Syrian lands have been forced to flee again – to Lebanon, to Europe, to America. The very church in which the bones of the murdered Armenians found their supposedly final resting place has been damaged in the new war, although no one knows the culprits.

Yesterday, I called Bishop Armash Nalbandian of Damascus, who told me that while the church at Deir ez-Zour was indeed damaged, the shrine remained untouched. The church itself, he said, was less important than the memory of the Armenian genocide – and it is this memory which might be destroyed. He is right. But the church – not a very beautiful building, I have to say – is nonetheless a witness, a memorial to the Holocaust of Armenians every bit as sacred as the Yad Vashem memorial to the victims of the Jewish Holocaust in Israel. And although the Israeli state, with a shame equal to the Turks, claims that the Armenian genocide was  not a genocide, Israelis themselves use  the word Shoah – Holocaust – for the Armenian killings.

In Aleppo, an Armenian church has been vandalised by the Free Syrian Army, the “good” rebels fighting Bashar al-Assad’s regime, funded and armed by the Americans as well as the Gulf Sunni Arabs. But in Raqqa, the only regional capital to be totally captured by the opposition in Syria, Salafist fighters trashed the Armenian Catholic Church of the Martyrs and set fire to its furnishings. And – God spare us the thought – many hundreds of Turkish fighters, descendants of the same Turks who tried to destroy the Armenian race in 1915, have now joined the al-Qa’ida-affiliated fighters who attacked the Armenian church. The cross on top of the clock tower was destroyed, to be replaced by the flag of the Islamic State of Iraq and the Levant.

Nor is that all. On 11 November, when the world honoured the dead of the Great War, which did not give the Armenians the state they deserved, a mortar shell fell outside the Holy Translators Armenian National School in Damascus and two other shells fell on school buses. Hovhannes Atokanian and Vanessa Bedros, both Armenian schoolchildren, died. A day later, a bus load of Armenians travelling from Beirut to Aleppo were robbed at gunpoint. Two days later, Kevork Bogasian was killed by a mortar shell in Aleppo. The Armenian death toll in Syria is a mere 65; but I suppose we might make that 1,500,065. More than a hundred Armenians have been kidnapped. The Armenians, of course, like many other Christians in Syria, do not support the revolution against the Assad regime – although they could hardly be called Assad supporters.

Two years from now, they will commemorate the 100th anniversary of their Holocaust. I have met many survivors, all now dead. But the Turkish state, supporting the present revolution in Syria, will be memorialising its victory at Gallipoli that same year, a heroic battle in which Mustafa Kemal Ataturk saved his country from Allied occupation. Armenians also fought in that battle – in the uniform of the Turkish army, of course – but I will wager as many dollars as you want that they will not be remembered in 2015 by the Turkish state which was so soon to destroy their families.

Hitchhikers’ guide to  bad old Iran

While we all bask in the glow of happy relations with Iran, it might be well to read – in four months’ time, unless their publishers have the common sense to bring it forward – a remarkable book by Shane Bauer, Josh Fattal and Sarah Shourd. 

They – and you may not remember this – were the hitchhikers who “strayed” into Iran in 2009 from Iraqi Kurdistan. Sarah (pictured below with Shane) was released first and she called me on the phone to talk about her fiancé, Shane, and to ask if The Independent could help secure the two men’s release. We published some of Shane’s journalism – I made a point of telling the Iranian ambassador in Beirut to read it – and, with or without The Independent’s help, they were both released. I was delighted.

They had been arrested during the presidency of the lunatic Ahmadinejad, and it’s clear from their book that they were lured over the border by Iranian frontier guards. One of them eventually emailed Sarah that this was the case.

But their incarceration, their vicious solitary confinement – a form of torture if ever there was one – and their relations, not just with their fellow condemned prisoners but with their guards, is a remarkable story.

Sarah quickly worked out, back in freedom, that the US government was not their natural friend; there are some sharp words about the “peacemaker” Dennis Ross.  A good book – which I rarely say – and it’s called A Sliver of Light.  A Fisk read.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

No, you Can't Mr.Obama

Obama prepara-se para escalar mais um degrau no nível de violência que temos na Síria. Estimam-se já em mais de 100.000[1], os mortos desta guerra civil. Os refugiados em mais de dois milhões[2].


Allepo, Síria
Não tenho dúvidas de que ficarmos a olhar enquanto um país se desintegra não é solução. Não acredito no que muitos chamam de "solução síria"[3], que se limita a ser deixar que se matem todos. No Rwanda, na Bósnia, no Líbano, na Somália e muitas outras guerras civis, a matança não acabou só por si. E em muitos casos só acaba passadas décadas de violência, quando a guerra civil já consumiu tudo o que o que o país tinha.

Mas esta guerra não é um problema só dos Sírios. Arábia Saudita[4], Qatar[5] e Emirados Árabes Unidos[6] colocam dinheiro e armas nas mãos dos rebeldes. O Reino da Arábia Saudita, em especial, tem estado a dar um enorme apoio aos rebeldes fundamentalistas de influência wahabista. Quererá Obama ficar como responsável por mais um país nas mãos de uma Arábia Saudita com muito pouca paciência para a liberdade religiosa? E até quando Obama acredita que conseguirá controlar o Reino, quando se prepara uma sucessão com potencial para correr muito mal[7]?

Os relatórios de que a Al Qaeda está presente em larga escala também são mais do que muitos[8]. Embora provavelmente estes grupos sejam mais de inspiração da Al Qaeda do que propriamente ligados à sua liderança real (se é que ainda existe uma), a verdade é que estamos a falar de verdadeiros inimigos do Ocidente, da Democracia e da liberdade religiosa. Depois de ficar para a história como o Presidente que apanhou Osama Bin Laden, será que Obama vai querer ficar também como o homem que deu à Al Qaeda um novo santuário depois de Bush ter destruído o anterior?


A sexta esquadra avança para o Médio Oriente
Mas olhemos para este assunto de outra forma. A situação está tão má na Síria que se compreende que os "polícias do mundo" sintam necessidade de fazer algo. Uma mente mais ingénua do que a minha (e com menos conhecimentos de história do Médio Oriente[9]...) até poderia propor uma invasão, retirar o ditador Al Assad do poder e tornar a Síria num exemplo de democracia para todo a região. Depois todos os outros países imitariam esse belo exemplo e poderiam viver felizes para sempre. Mas também não é isso que Obama quer fazer. Ele assegura-nos já que não haverão tropas americanas no terreno ou, de uma forma mais teatral, no boots on the ground. Teremos por isso uma intervenção mais limitada. A aviação americana destruirá todos os alvos e mais alguns e os misseis de cruzeiro vão limpar os palácios, bunkers e instalações militares mais pesadas. Mas sempre sem tropas no terreno. Que acontecerá depois? (alguém lhe deve ter feito estas questões porque em apenas dois dias já parecem existir dúvidas em relação a essa promessa[10])
Obama prepara a sua "guerra de opção"

Dá para imaginar que isso trará vantagens no terreno aos rebeldes. Mas sem ninguém a controlá-los, deveremos esperar por mais do que aconteceu na Líbia? Eu diria que vai ser muito pior. Uma guerra civil muito mais prolongada, um país mais misturado em termos de religiões, etnias e ideologias, eu esperaria que as vinganças serão terríveis. Espero uma invasão ao estilo soviético em 1945 com massacres atrás de massacres. Aos milhões de refugiados juntar-se-ão muitos mais e o regime (e os sects não-sunitas) lutarão quase até à última bala.

Uma outra hipótese é a silver bullet. Uma bala certeira (ou mais precisamente, uma bomba de várias toneladas.... certeira) que apanhe Assad e a guerra acabe miracolosamente. Por vezes a queda do líder acaba a guerra de uma só vez. Em Angola, décadas de guerra acabaram com a dramática morte de Jonas Savimbi[11], no entanto foi acompanhada de uma vitória militar clara sobre o adversário. Mas aqui, e quando Obama declara à partida que não quer tropas no terreno, a vitória militar vai demorar um pouco mais. E será muito mais descontrolada, mais ao estilo do Afeganistão pós 2001.

A solução - obviamente - passa pela Rússia e pelo Irão. Obama deveria estar sentado à mesa com o novo presidente iraniano e com Putin. Se retirarem as armas aos dois lados do conflito forçam-nos a conversarem uns com os outros. Coloquem-se na posição dos interesses russos e percebam o que têm que lhes oferecer para que estes obriguem Assad a desistir. Seja a inviolabilidade da base da frota russa no mediterrâneo, a vida de Assad em Moscovo ou Teerão ou outra coisa qualquer que seja razoável ceder. Dêm uma oportunidade ao Irão para que junte à comunidade internacional.

O Médio Oriente é já, hoje, uma confusão louca. Todos os problemas estão misturados. Cada problema não resolvido é mais um que se junta à lista de esqueletos no armário. Este é mais um que se prepara para alimentar ainda mais esta loucura da guerra de civilizações que muitas tanto procuram como panaceia para todos os males do mundo.

Há uns anos atrás, todos rejubilamos quando vimos Bush reformar-se. O warmonger estava fora do caminho. Obama era novo, mostrava uma vontade férrea de mudar o mundo e o mundo encheu-se de esperança com ele. Hoje, com Guantánamo ainda a funcionar, a guerra do Afeganistão tão mal como sempre, um Iraque abandonado à sua sorte, uma Primavera Árabe que não recebeu o mais pequeno apoio dos americanos, e os Estados Unidos da América a soarem os tambores de guerra, só me ocorre uma frase...


NO YOU CAN'T MR.OBAMA!


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Síria... serei o único?

Será que sou mesmo a única pessoa que acha altamente suspeito que uns dias depois de o Governo Sírio permitir a entrada de inspectores da ONU no seu território com o propósito específico de verem se algum dos lados está a utilizar armas químicas, que o mesmo governo faça um ataque em larga escala com essas mesmas armas?

Serei o único a achar que antes sequer de se saber qual dos lados as utilizou - se é que algum as utilizou - não se pode avançar com um invasão internacional contra o que foi decidido pela ONU?

Serei o único a achar que se Assad é um déspota sem moral que os fundamentalistas islâmicos que compõe uma parte significativa da oposição são ainda piores?

Eu não sou contra todo e qualquer ataque. Acho mesmo que a ONU e a NATO têm que ser os "polícias do mundo", até que se arranje algo melhor. Mas isso não significa certamente prisões secretas, Guantánamos, ataques com drones em países aliados (como o Yemen e o Paquistão) e invasões em larga ou pequena escala por motivos obscuros e que constantemente tem-se provado errados e contra-producentes.

Depois do Iraque, temos todos não só o direito mas também a obrigação de partirmos do princípio de que o governo americano nos mente a toda a linha. E em relação aos restantes governos, provavelmente a situação será tão má ou pior.

A situação na Síria é péssima, mas tem potencial para piorar muito mais...


Bairro de Al Khalydia, Cidade de Homs, Síria, Março 2012 [Reuters/Yazan Homsy]

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Que Ditador Árabe Sou Eu?

Um bocadinho diferente dos meus posts habituais... mas espero que gostem.

Filme "O Ditador" com Sacha Baron Cohen 
Com a chegada da Primavera Árabe apercebemos-nos de como os diferentes ditadores do Médio Oriente reagiram perante a pressão pública, os media internacionais, as grandes potências do mundo e a religião. Todos tiveram comportamentos diferentes, e os resultados - para os próprios e para os seus povos - também não são iguais...







quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Syrian war of lies and hypocrisy

Artigo de Robert Fisk, no "The Independent" sobre a hipocrisia e as mentiras que rodeiam a guerra civil síria. Simplesmente brilhante.

Robert Fisk: Syrian war of lies and hypocrisy

The West's real target here is not Assad's brutal regime but his ally, Iran, and its chemical weapons

Robert Fisk - The Independent
Has there ever been a Middle Eastern war of such hypocrisy? A war of such cowardice and such mean morality, of such false rhetoric and such public humiliation? I'm not talking about the physical victims of the Syrian tragedy. I'm referring to the utter lies and mendacity of our masters and our own public opinion – eastern as well as western – in response to the slaughter, a vicious pantomime more worthy of Swiftian satire than Tolstoy or Shakespeare.

While Qatar and Saudi Arabia arm and fund the rebels of Syria to overthrow Bashar al-Assad's Alawite/Shia-Baathist dictatorship, Washington mutters not a word of criticism against them. President Barack Obama and his Secretary of State, Hillary Clinton, say they want a democracy in Syria. But Qatar is an autocracy and Saudi Arabia is among the most pernicious of caliphate-kingly-dictatorships in the Arab world. Rulers of both states inherit power from their families – just as Bashar has done – and Saudi Arabia is an ally of the Salafist-Wahabi rebels in Syria, just as it was the most fervent supporter of the medieval Taliban during Afghanistan's dark ages.

Indeed, 15 of the 19 hijacker-mass murderers of 11 September, 2001, came from Saudi Arabia – after which, of course, we bombed Afghanistan. The Saudis are repressing their own Shia minority just as they now wish to destroy the Alawite-Shia minority of Syria. And we believe Saudi Arabia wants to set up a democracy in Syria?

Then we have the Shia Hezbollah party/militia in Lebanon, right hand of Shia Iran and supporter of Bashar al-Assad's regime. For 30 years, Hezbollah has defended the oppressed Shias of southern Lebanon against Israeli aggression. They have presented themselves as the defenders of Palestinian rights in the West Bank and Gaza. But faced with the slow collapse of their ruthless ally in Syria, they have lost their tongue. Not a word have they uttered – nor their princely Sayed Hassan Nasrallah – about the rape and mass murder of Syrian civilians by Bashar's soldiers and "Shabiha" militia.

Then we have the heroes of America – La Clinton, the Defence Secretary Leon Panetta, and Obama himself. Clinton issues a "stern warning" to Assad. Panetta – the same man who repeated to the last US forces in Iraq that old lie about Saddam's connection to 9/11 – announces that things are "spiralling out of control" in Syria. They have been doing that for at least six months. Has he just realised? And then Obama told us last week that "given the regime's stockpile of chemical weapons, we will continue to make it clear to Assad … that the world is watching". Now, was it not a County Cork newspaper called the Skibbereen Eagle, fearful of Russia's designs on China, which declared that it was "keeping an eye … on the Tsar of Russia"? Now it is Obama's turn to emphasise how little clout he has in the mighty conflicts of the world. How Bashar must be shaking in his boots.

But what US administration would really want to see Bashar's atrocious archives of torture opened to our gaze? Why, only a few years ago, the Bush administration was sending Muslims to Damascus for Bashar's torturers to tear their fingernails out for information, imprisoned at the US government's request in the very hell-hole which Syrian rebels blew to bits last week. Western embassies dutifully supplied the prisoners' tormentors with questions for the victims. Bashar, you see, was our baby.

Then there's that neighbouring country which owes us so much gratitude: Iraq. Last week, it suffered in one day 29 bombing attacks in 19 cities, killing 111 civilian and wounding another 235. The same day, Syria's bloodbath consumed about the same number of innocents. But Iraq was "down the page" from Syria, buried "below the fold", as we journalists say; because, of course, we gave freedom to Iraq, Jeffersonian democracy, etc, etc, didn't we? So this slaughter to the east of Syria didn't have quite the same impact, did it? Nothing we did in 2003 led to Iraq's suffering today. Right?

And talking of journalism, who in BBC World News decided that even the preparations for the Olympics should take precedence all last week over Syrian outrages? British newspapers and the BBC in Britain will naturally lead with the Olympics as a local story. But in a lamentable decision, the BBC – broadcasting "world" news to the world – also decided that the passage of the Olympic flame was more important than dying Syrian children, even when it has its own courageous reporter sending his despatches directly from Aleppo.

Then, of course, there's us, our dear liberal selves who are so quick to fill the streets of London in protest at the Israeli slaughter of Palestinians. Rightly so, of course. When our political leaders are happy to condemn Arabs for their savagery but too timid to utter a word of the mildest criticism when the Israeli army commits crimes against humanity – or watches its allies do it in Lebanon – ordinary people have to remind the world that they are not as timid as the politicians. But when the scorecard of death in Syria reaches 15,000 or 19,000 – perhaps 14 times as many fatalities as in Israel's savage 2008-2009 onslaught on Gaza – scarcely a single protester, save for Syrian expatriates abroad, walks the streets to condemn these crimes against humanity. Israel's crimes have not been on this scale since 1948. Rightly or wrongly, the message that goes out is simple: we demand justice and the right to life for Arabs if they are butchered by the West and its Israeli allies; but not when they are being butchered by their fellow Arabs.

And all the while, we forget the "big" truth. That this is an attempt to crush the Syrian dictatorship not because of our love for Syrians or our hatred of our former friend Bashar al-Assad, or because of our outrage at Russia, whose place in the pantheon of hypocrites is clear when we watch its reaction to all the little Stalingrads across Syria. No, this is all about Iran and our desire to crush the Islamic Republic and its infernal nuclear plans – if they exist – and has nothing to do with human rights or the right to life or the death of Syrian babies. Quelle horreur!

(Fonte: The Independent)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A perda da inocência

Muitas revoluções começam por ser um levantamento popular genuíno em que o povo procura legitimamente maiores liberdades, honestidade na política, transparência nos serviços policiais e secretos, uma justiça cega e um estado de direito. Considero que, na sua generalidade, a Primavera Árabe representou, para as ruas do Cairo, Damasco, Tunis e muitas outras capitais, essa inocência e verdade de objectivos.

Mas a outra face da inocência e honestidade é a ingenuidade. E quando o sangue começa a banhar as ruas dessas mesmas cidades, os cálculos tornam-se mais frios e bárbaros. Como um predador em cativeiro desde a nascença, o perigo está em que conheça o sabor a sangue, transformando-o naquilo que na sua essência, ainda é. E o ser humano também o é: um animal selvagem que depois de conheçer o sabor do sangue dificilmente se livra desse instinto.

Tunísia e Egipto cairam rapidamente. Suficientemente depressa para os revoltosos conseguirem manter a sua inocência intacta. Mantiveram-se na posição de vítimas nunca deixando que crescessem para o lugar de opressores eles mesmos. No Yemen, Líbia e Síria, a situação prolongou-se até que os mais cínicos, pragmáticos e violentos dos revoltosos tomassem conta da revolta. O poder passou dos idealistas para os generais anti-governo.

E é aí que começam as minha dúvidas. Quando não temos um claro inocente na história. Quando da oposição pode sair algo igual ou pior do que o já lá está. E devemos ter sempre em conta que não existe nenhuma situação tão má que não possa ser piorada. Viu-se isso no Irão, onde depois de um corrupto bárbaro ser deposto do poder (o Xã e a sua família) um "homem santo" ascendeu à direcção dos destinos do país (o Ayatollah Khomeini) mostrando imediatamente uma face ainda mais déspota e sanguinária do que a do seu antecessor.

Tal como defende a ONG Avaaz, acredito que é necessário iniciar imediatamente um embargo de armas total ao governo sírio e à oposição. Criar uma no-fly zone sobre todo o território e se nada mais funcionar, seguir o exemplo da Bósnia fazendo uma intervenção directa da ONU, com tropas de vários países nomeadamente dos russos e americanos. Assad não tem nem nunca teve qualquer legitimidade para estar à frente do seu país, no entanto é preciso garantir que a sua deposição não é seguida de um ajuste de contas sobre as muitas minorias étnicas e religiosas existentes na Síria.

Perdeu-se o momento em que a revolução na Síria poderia ter corrido realmente bem. Bashar Al Assad não o permitiu e entrou num jogo de tudo ou nada que dificilmente ganhará.

Para o resto do mundo, e em especial para o Conselho de Segurança da ONU, agora é uma questão de tentar controlar os danos, não permitir que os massacres continuem e evitar que a guerra civil continue a escalar e eventualmente chegue aos países vizinhos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Hipocrisia

Não sou o primeiro e não serei certamente o último a escrever sobre este grave problema que temos nos media ocidentais, e por arrasto, em toda a cultura mainstream do ocidente.

A pretensa superioridade moral do Ocidente chegou a um tal ponto que conseguimos desculpar todos os "nossos" erros como crises de loucura de um indivíduo, danos colaterais, falta de formação, escudos humanos e coisas do género. Os crimes dos "outros" (em especial quando os outros são muçulmanos) são, pelo contrário, sempre resultado de uma cultura/religião atrasada, malvada e dominadora.

Já o tínhamos visto centenas de vezes em massacres como Kana I e II, Sabra e Chatila, em inúmeras ocasiões nas últimas guerras do Iraque e Afeganistão, onde cada vez que morrem civis passamos sempre pelo mesmo processo mediático: negação, suspeita de escudo humano, danos colaterais, erro logistíco/formação e finalmente loucura. Em momento algum somos nós - cristãos - a ter atitutes imorais contra muçulmanos.

Em Abu Graib voltamos a ver algo semelhante. Torturas desumanas que vão completamente contra a carta dos direitos do Homem que foram primeiro negadas e depois consideradas distúrbios psicológicos.

Por outro lado, o regime de Assad é acusado pelo ocidente de ser um regime malvado (o golpe de marketing utilizado foi a suposta pertença no recém imaginado Axis of Evil) precisamente por bombardear civis e torturar pessoas (precisamente o que a NATO tem feito sem qualquer tipo de vergonha durante os últimos 10 anos).

No espaço de duas semanas temos mais dois casos exemplificativos:

1) Um soldado americano no Afeganistão assassina 16 pessoas incluindo crianças e é considerado como um homem com problemas mentais.

2) Um françês de origem argelina assassina 7 pessoas incluindo crianças e é considerado um fundamentalista islâmico e um ataque do próprio Islão à civilização Judaico-Cristã.

O mais curioso é a velocidade com que o Ocidente inteiro aceita esta contradição em real time. Não é o resultado de análises psicológicas aos indivíduos ou um longo processo em tribunal. É simplesmente um dogma:

Quando um cristão/judeu comete um crime é um indivíduo louco. Quando um muçulmano comete um crime é resultado de uma religião criminosa.