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sábado, 3 de novembro de 2012

Importa-se de repetir Sr. Embaixador?

Ehud Gol - Embaixador de Israel em Portugal
Não admira que homens como Norman Finkelstein falem na existência de uma "indústria do holocausto"[1]. Esta semana o embaixador de Israel em Portugal, Ehud Gol, foi à conferência "Portugal e o Holocausto, aprender com o passado, ensinar para o futuro" para nos presentear com um conjunto de afirmações que roçam o insulto à inteligência e à memória histórica[2]. Em plena Fundação Gulbenkian, Gol afirmou que Portugal "foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias" por morte de Adolf Hitler e acrescentou ainda que "É uma nódoa que para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal". 

Este tipo de chantagem psicológica aparenta ser mais uma das muitas táticas utilizadas pelo lóbi de Israel para conseguir concessões ou pagamentos directos do país, ao estilo dos relatos de John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt[3]. Mas começo por dizer que, tendo os judeus sido vítimas daquele que provavelmente será o maior crime alguma vez cometido, bandeiras a meia haste deveria ser o menor dos seus problemas.

Durante os anos fatídicos de 1933, quando Hitler ascende ao poder, até à sua queda em 1945, o povo judeu foi assassinado aos milhões com a ajuda dos governos fantoches ou legítimos da Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Noruega, Áustria, Checoslováquia, Polónia, Croácia, Itália, Estónia, Letónia, Lituânia, Grécia, etc. Em praticamente toda a europa, as polícias secretas em conjunto com a Gestapo procuravam e deportavam todos os judeus enviando-os para a morte. Portugal, nessa altura, protegeu não só os cidadãos portugueses de religião judaica como também fez vista grossa a milhares de judeus ilegais que entraram no país com vistos falsificados ou produzidos por embaixadas como a de Bordéus cuja validade legal era duvidosa[4]. Tudo isto enquanto o governo de António Oliveira Salazar se via a braços com uma potencial invasão espanhola e/ou alemã de Portugal continental e de uma invasão dos aliados nas ilhas dos Açores pelo que necessitava de manter uma postura o mais neutra possível para evitar ser empurrado para a mais destrutiva guerra de todos os tempos[5]. Se todos os países tivessem tido o mesmo comportamento que Portugal, nem teria existido guerra.

A bandeira a meia haste por Hitler é, obviamente, uma estupidez. A guerra estava decidida e já não havia qualquer interesse em manter a neutralidade. Portugal, aliás, já tinha feito algo bem mais importante do que isso e com efeitos directos na capacidade militar alemã ao proibir finalmente a venda de volfrâmio à Alemanha uns dias antes do Dia D[6]. E, para finalizar o comentário à ridícula conversa da bandeira, atrever-me-ia a dizer que todos ficaríamos muito felizes se Israel em vez de ter expulsado 750 mil palestinanos civis da Palestina e assassinado muitos milhares em 1948 tivesse limitado a sua ação a colocar a sua bandeira a meia haste pela morte de uma qualquer persona non grata dos palestinianos. Estaríamos hoje todos muito melhor.
Aristides Sousa Mendes

Mas como um disparate nunca vem só, o embaixador Ehud Gol acrescenta ainda que lhe foi pedido por parte da Fundação Aristides Sousa Mendes ajuda pelo facto da antiga casa deste estar a ruir. Acrescenta orgulhosamente que não só não ajudará como para não pedirem ajuda aos Estados Unidos. Fiquei um pouco surpreendido por ver um embaixador israelita a falar em nome do governo dos EUA, mas dado o nível de influência do lóbi judeu no congresso americano[7], talvez esta até seja a atitude mais pragmática. Nas suas palavras "Façam vocês algo para promoverem a imagem dos vossos justos". Os justos entre as nações é um título atribuído por Israel e não por Portugal[8]. Nós temos os nossos próprios prémios carreira para os cidadãos portugueses que se distinguem por algum motivo. E somos nós, através dos nossos governos democraticamente eleitos, que decidimos como, quando e a quem apoiaremos dentro das nossas parcas possibilidades. Não cabe ao embaixador de Israel dizer como é que Portugal deve premiar os heróis de Israel. Mais uma vez, o excelentíssimo Ehud Gol parece ter enormes dificuldades em compreender o seu job description. Ele é embaixador de Israel, e não de Portugal ou dos Estados Unidos da América.
Soldados israelitas e o escudo humano

Continuando a sua jihad retórica, o supracitado considera que Portugal tem obrigação de ser um membro e não um observador na task force internacional para a Educação, Memória e Investigação do Holocausto. Para além de estarmos neste momento precisamente a tentar acabar com o "investimento" do estado em inúmeras fundações e observatórios por falta de dinheiro, o estudo do Holocausto não é a prioridade da nossa educação. Felizmente Portugal não teve qualquer envolvimento nesse crime nem, dada a sua dimensão e frágil posição, poderia ter feito algo mais para o impedir. Temos no entanto imensas "nódoas" (para usar mais uma expressão de Gol) no nosso passado que devemos relembrar e fazer todos os possíveis para que não aconteçam nunca mais. Estou a falar por exemplo da tortura ou do racismo de estado que foram cometidos durante séculos no Império Português. Pesadelos que devemos relembrar para que nem nós nem ninguém os volte a repetir. Uma lição que o embaixador poderia até levar para o seu país que sistematicamente viola os direitos humanos, torturando e assassinando os israelitas árabes e os palestinianos[9][10][11][12][13][14].

Por fim, e em jeito de moral da história, temos a afirmação do embaixador de que "(..) os países têm que assumir responsabilidade pelo seu passado". Curiosamente referia-se a Portugal. O meu conselho seria que pegasse nessa lição e a levasse para Tel Aviv para ver se Netanyahu restitui aos palestinianos tudo aquilo que Israel lhes roubou nestes últimos 70 anos[15]

PS: Só faltou mesmo a conversa do ouro nazi, corolário óbvio de toda esta chantagem psicológica. Suponho que essa conversa ficará para quando Portugal tiver mais dinheiro.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Portugueses no Holocausto

Book Review

Da autoria de Esther Mucznik, este livro, cuja primeira edição acaba de ser imprimida, retrata de forma cuidada o envolvimento dos portugueses no holocausto, durante a segunda guerra mundial. Não só dos judeus de origem portuguesa que foram vítimas do holocausto por se encontrarem no país errado, tal como a França, Holanda ou Grécia ocupadas, mas também das origens desses portugueses, muitos deles descendentes de refugiados da inquisição no século XVI. Acrescenta a estes temas, o das movimentações dos diplomatas e políticos portugueses e a posição do governo de então.

António Oliveira Salazar, então presidente do conselho (o equivalente ao actual primeiro ministro) e ditador de Portugal, acumulando ainda as pastas de ministro dos negócios estrangeiros e da defesa, procurou manter Portugal fora da guerra, conseguindo tornar-se um "neutro útil" quer aos aliados (em especial à Inglaterra) quer ao eixo (nomeadamente à Alemanha). Dessa forma, o seu medo de provocar algum dos lados levou-o a indecisões que acabaram por custar a vida a muitos judeus portugueses, mesmo quando todos os países neutros receberam da Alemanha a permissão para retirar os seus nacionais - incluindo os judeus - dos territórios ocupados.

Mas se a política oficial portuguesa era hesitante, foram muitos os diplomatas portugueses que se mostraram extremamente corajosos ao darem vistos, fecharem os olhos a documentos forjados e confrontarem o governo português com as suas indecisões. Aristides de Sousa Mendes será sem dúvida o mais famoso de todos esses benfeitores, tendo salvo mais de 30 mil judeus, conquistando o seu lugar ao lado de Oscar Schindler (retratado no filme "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg) e muitos outros como um "Justo entre as Nações" (uma honra dada a não-judeus pelo estado de Israel para os que arriscaram as suas vidas para salvar judeus durante o holocausto).

Em Portugal, muitos desses judeus refugiados eram levados para longe de Lisboa, para cidades mais pequenas onde foram muito bem recebidos segundo os muitos testemunhos descritos neste livro. Embora muitos ficassem pasmados com o arcaismo de Portugal dos anos 40, a perspectiva da paz, segurança e uma possível viagem para o outro lado do atlântico foi uma dádiva dos deuses para estes judeus perseguidos pela fúria nazi.

Um livro extremamente interessante, de leitura fácil não obstante a seriedade do assunto e que nos ajuda a compreender a posição de Portugal e de muitos portugueses naquele que terá sido o maior crime alguma vez cometido na história da humanidade.

(o lançamento do livro será no dia 29 de Maio, às 18:30 no restaurante do piso 7 do Corte Inglês)