Mostrar mensagens com a etiqueta Estados Unidos da América. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estados Unidos da América. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Escolha de Inimigos - América confronta o Médio Oriente

Trago-vos hoje mais um livro sobre o Médio Oriente. E mais uma vez de um historiador britânico, embora este seja uma estreia neste blogue: Sir Lawrence Freedman, professor de Estudos de Guerra no King's College London e assessor de Tony Blair. "A Choice of Enemies, America confronts the Middle East" olha para os últimos 50 anos de diplomacia americana no Médio Oriente, do ponto de vista ocidental, i.e. dos seus interesses, medos e ambições. O livre é extremamente frio e em alguns sentidos verdadeiramente amoral, o que é sempre uma forma interessante de olhar para a história. E extremamente difícil de fazer quando nos referimos à história recente.

Se muitos dos livros que aqui trago têm o objectivo explícito de dar a conhecer ao meu público ocidental o que é o Médio Oriente, o Islão e a história deste lugar onde passei praticamente toda a última década, neste caso o livro ajuda a compreender não o Médio Oriente mas as acções dos Estados Unidos. Ao analisar com grande detalhe os processos de decisão norte americanos, o livro consegue também explicar as diferentes personalidades que lideraram a América e os impactos que cada um teve neste mundo. Desde a moralidade e religiosidade de Jimmy Carter à praticalidade de Ronald Reagan; do fim da história de George H. W. Bush até à indiferença de Bill Clinton. E, claro, o atoleiro em que todo o Médio Oriente entrou com a invasão de George W. Bush e Tony Blair (o livro foi publicado em 2008 por isso já não inclui a presidência de Barack Obama).

Se há uma crítica que lhe faço é relativa aos últimos capítulos do livro, onde Freedman parece adivinhar um futuro para o Médio Oriente que está longe de se ter realizado. Onde ele vê um definhamento do movimento islamita, um golpe de  morte na AQAP (Al Qaeda Arabian Peninsula) e na Al Qaeda Iraque (hoje Estado Islâmico / ISIS / ISIL) a realidade mostrou-nos que o seu poder só tinha por onde crescer. Também não viu a necessidade e a vontade de liberdade e democracia no Médio Oriente, que acabou dois anos depois no fim dos regimes da Tunísia, Egipto, Iémen e Líbia, para além de sérias convulsões e guerras civis em vários outros países da região, no que ficou conhecido como a "Primavera Árabe". 

Mas talvez a melhor parte do livro está na descrição das diferentes formas como as administrações americanas lidaram com a questão israelo-palestiniana. Como tentaram, sem grande sucesso, as soluções passo-a-passo (ou seja, tentanto que ambos os lados fossem ganhando a confiança um do outro através de pequenas melhorias na situação geral em termos de segurança, liberdade e representatividade) para as comprehensive solutions que procuram negociar todos os detalhes do problema, permitindo que cada um dos lados pudesse sacrificar áreas importantes por outras vitórias. No final, nunca nenhum resultou. Por muita vontade que alguns dos presidentes americanos tivessem, por muito tempo e dinheiro que investissem, quer do lado de Israel quer da Palestina, existiram sempre demasiados fundamentalistas decididos a destruir qualquer hipótese de paz. Enquanto alguns líderes lutavam pela paz, outros estavam decididos a destruí-la. E ao fim de todas estas décadas, a situação não está melhor e é apenas uma questão de tempo até vermos mais uma intifada, mais uma guerra curta de tipo corta-relva ou mais uma escalada regional generalizada.

Em qualquer caso, este é um livro verdadeiramente sério, que não exige qualquer conhecimento aprofundado prévio e que deve agradar quer a especialistas quer aos que estejam a ler sobre o assunto pela primeira vez. Mais um livro que aconselho, não tanto para compreendermos a história recente do Médio Oriente, mas mais para compreendermos o seu futuro próximo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Os cães amestrados de Netanyahu

Depois de muitos artigos a criticar as posições de Benjamin Netanyahu, chegou o dia em que tenha o felicitar. A ocasião foi a sua estrondosa actuação no palco da democracia norte-americana na tarde de ontem. Se na sua visita de 2011, as 28 ovações de pé dos congressistas e senadores ao seu discurso de 47 minutos já me deixaram de boca aberta[1], imaginem a minha reacção quando ontem vi o seu recorde de 1 ovação a cada 100 segundos descer para uns inimagináveis 90 segundos[2], algo que provavelmente nenhum líder estrangeiro alguma vez terá conseguido. Uma imagem realmente digna de ser vista, com a nata dos políticos americanos a comportarem-se ao mais alto nível de uma competição canina ou do partido comunista da Coreia do Norte. 

Que pena ele não aproveitar todo esse capital político para fazer alguma coisa útil pelo seu país e pelo mundo em vez de tentar sabotar tratados de paz...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Lóbi Árabe

Para quem acompanha as compras anuais de armamento por parte da Arábia Saudita e seus mais próximos aliados ou a produção diária de petróleo da região, não é difícil imaginar o poder político que estas compras e vendas de milhares de milhões de dólares necessariamente irão provocar. Nos Estados Unidos da América, os lóbis são entidades legais, aceites pelos cidadãos e que utilizam o seu poder financeiro e influência nos media para conseguirem junto do poder político os mais rentáveis negócios e vantajosa legislação para os seus associados.  

Por todos estes motivos, este livro escrito por Mitchell Bard despertou imediatamente o meu interesse. No entanto, rapidamente esse interesse acabou por se transformar numa enorme desilusão. Era inevitável que uma outra referência fosse feita a "O Lóbi de Israel", da autoria de Mearsheimer e Walt, mas não contava que o livro se resumisse a pouco mais do que uma incapaz resposta a esse livro. 

"O Lóbi Árabe, A aliança invisivel que mina os interesses da América no Médio Oriente" tem vários defeitos graves e que, na minha opinião, arruinaram o livro. Primeiro, Bard parece encontrar em praticamente todos os intervenientes do Médio Oriente um membro do lóbi Árabe. Sejam os missionários cristãos, os professores das universidades americanas de Beirute ou Cairo, as ONGs, os trabalhadores das petrolíferas, os diplomatas americanos, os Judeus não-sionistas, e até todos os países do terceiro mundo, os países da europa e a própria ONU. O autor parece ter dificuldade em compreender porque é que tantas e tão diferentes pessoas - a que ele e outros chamam de Arabistas - pareciam estar de acordo sobre os riscos da criação de Israel e, mais tarde, na posição pouco imparcial dos Estados Unidos em relação a este país. Um a um, ridiculariza cada um dos perigos levantados pelos Arabistas: os direitos das populações originais da Palestina; o risco de perder o acesso ao petróleo; retaliação económica por parte dos povos Árabes; delegitimização da posição Americana; ascensão do fundamentalismo islâmico; empurrar países para a esfera Soviética; guerras e instabilidade política. Todos estes riscos acabaram por se confirmar (embora em diferentes graus e momentos), mas não é assim que Bard vê a história.     

Na esmagadora maioria dos casos, o autor vai individualmente acusar cada uma destas pessoas de serem anti-semitas, jew haters, negadores do Holocausto ou apoiantes de terrorismo. Algo estranho até percebermos que a sua noção de anti-semitismo inclui toda e qualquer crítica ao governo de Israel ou ao Lóbi de Israel. Nas suas palavras: "[John Foster] Dules [Secretário de Estado de Eisenhower] fez também uma série de afirmações que podem ser consideradas como anti-Semitas. Por exemplo, em Fevereiro de 1957, queixou-se do enorme controlo que os Judeus têm sobre os media (...) e que a embaixada de Israel controlava o Congresso". Bard não parece compreender a diferença entre a crítica ao poder do seu lóbi e o ódio a um povo. Eu certamente não consideraria o estudo do poder do lóbi Árabe como um acto de islamofobia per se, mas seria interessante obter a sua opinião sobre o assunto. 
Sadat, Carter e Begin

Para personagens como Jimmy Carter, antigo presidente americano que conseguiu o processo de paz entre o Egipto e Israel, Mitchell Bard reserva um capítulo inteiro, afirmando que "(...) o anti-Sionismo de Carter estava implícito na sua seita fundamentalista e levou a ler a Bíblia de forma particular de forma a garantir direitos iguais para Judeus e Palestinianos". Acusações profundamente injustas para uma das pessoas que mais fez pela paz no Médio Oriente durante as últimas três décadas e que, não obstante a sua avançada idade, continua a percorrer as capitais todas da região para conseguir o que é aparentemente impossível. A paz no Egipto é fruto do seu trabalho e os prémios Nobel da Paz que Anwar Sadat e Menachem Begin receberam em 1978 bem poderiam ter sido partilhados com Carter, que de qualquer forma acabou por o receber em 2002[1].

Um segundo problema grave deste livro é a tentativa, francamente mal conseguida, de mostrar o lóbi Árabe como algo agregador e representativo da totalidade do mundo Árabe, misturando-o com a causa palestiniana, bem mais alargada em termos de opinião pública e menos financiada do que a primeira. No mínimo estamos a falar de dois lóbis diferentes. Em qualquer caso, esta ideia de um lóbi todo-poderoso não tem bases sólidas. A realidade é bastante diferente. O título está simplesmente errado e dever-se-ia chamar: o lóbi Saudita. É que durante o livro todo não ouvimos uma palavra sobre Marrocos, Argélia, Líbia, Jordânia, Iraque e tantos outros países... Árabes! E quando ouvimos é para descobrir que o "Lóbi Árabe" estava em guerra contra o Egipto de Nasser, contra o Iraque de Saddam ou a Síria de Assad. Talvez para ter um título mais interessante ou para conseguir defender essa fantasia de uma relação muito próxima entre a resistência palestiniana e o dinheiro do petróleo, Mitchell procura que o governo de 27 milhões de Sauditas seja representativo dos mais de 350 milhões de Árabes.

Por outro lado - e embora o autor não queira nem chegar perto destas questões - o Lóbi Saudita esteve ao lado do Lóbi de Israel em muitas destas matérias. Nas guerras contra Nasser (directas no caso de Israel, indirectas - via Yemen - no caso da Arábia Saudita), na confronto com o Irão pós-Revolução Islâmica, nas guerras contra o Iraque de Saddam Hussein e, acima de tudo, na espectacular artimanha que fez com que os mujahedeen repelissem o invasor Soviético. Algo que só foi possível com uma profana aliança de Israel, Arábia Saudita, Paquistão, Estados Unidos e os fundamentalistas islâmicos afegãos (mais tarde chamados de Taliban) e voluntários estrangeiros árabes (mujahedeens, no qual o jovem milionário Osama Bin Laden[2] começava a dar cartas enquanto líder e organizador de grupos de guerrilha e rotas para os combatentes árabes). Claro que na altura não ocorreria a nenhum Ocidental, Árabe ou Israelita chamar a estes de terroristas, mas isso é outra conversa...

Uma terceira questão que coloca relaciona-se com as fontes que Mitchell Bard utiliza. O inqualificável Steve Emerson[3] é uma delas, que é citado pelo autor em algumas acusações sem grande fundamento e ainda menos provas. Quanto às referências mais eruditas, utiliza as ideias de Bernard Lewis[4] como verdade absoluta mas demonstra completo desprezo por Edward Said[5], naquela que é a confirmação de uma visão dogmática sobre o Médio Oriente.

Concluindo, Mitchell deixa-se cair numa visão tendenciosa de quem claramente não é um académico neutro e desinteressado mas um assalariado de um lóbi que tem como objectivo arruinar outro. Mesmo sendo editor do jornal do poderoso lóbi Judeu da AIPAC[6][7][8], esperava muito mais. Uma pena, porque este é um assunto demasiado sério e que deveria ser estudado abertamente, de forma competente e inequivocamente isenta.

Só mesmo a influência de muitos milhões pode explicar como a Arábia Saudita é o único país do mundo onde as mulheres não podem conduzir mas que é tratado publicamente pela liderança ocidental como um país "Árabe moderado". Que bloggers como Raid Badawi sejam presos e chicoteados em praça pública no que é considerado um leal aliado do Ocidente. Que pessoas de outras religiões não posso ter os seus locais de culto ou sequer rezar na sua privacidade de forma legal. Essas leis e tradições só são aceites pela influência política ganha pelas multimilionárias vendas de petróleo e compras de armas. Cá estaremos a esperar ansiosamente pelo livro que será capaz de explicar como realmente funcionam esses círculos de interesse.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Atacar para...?

O mesmo mundo que ignorou as centenas de milhares de mortos na Síria, na Ucrânia ou no Iraque prepara-se agora para corajosamente bombardear até à Idade da Pedra, essa enorme ameaça global que é o Estado Islâmico. Isto claro, sem colocar "botas no chão" não vá acontecer alguma desgraça. Para isto, uma coligação semi-formal de mais 50 países juntou-se a um grupo de outros ex/futuros inimigos que também lutam contra o EI, tais como a Síria de Bashar Al Assad (que ainda anteontem ia ser bombardeada pelos EUA e a França) ou o Irão dos Mullahs (que na semana passada era a maior ameaça à segurança mundial).

Não tenho dúvidas quanto ao nível medieval, fundamentalista e violento desse grupo terrorista e já aqui tive oportunidade de escrever bastante sobre o assunto, mas pergunto-me se esta intervenção trará algo de bom. Até compreendo a noção de que algo tem que ser feito, mas não vejo de que maneira o bombardeamento (que certamente arruinará a economia desse proto-estado e as suas capacidades militares convencionais) poderá levar a algo que não seja o entricheiramento dentro das enormes cidades que ocupam. Alguém acredita ser possível bombardeá-los para fora de uma cidade como Mosul, com quase dois milhões de habitantes sem colocar tropas no terreno ou causar enormes baixas civis "colaterais"?

Por outro lado, já vimos isto antes: as potências mundiais gastam milhares de milhões de dólares a destruir um país e depois não mostram grande capacidade de o reconstruir ou ajudar no processo de democratização de que tanto falaram inicialmente.

O mais curioso é que não existe melhor exemplo histórico de um conquistador conseguir tornar o conquistado em aliado do que os EUA no final da segunda guerra mundial, quando a Alemanha, Japão e Itália (entre outros), graças a uma ocupação benigna, processos judiciais relativamente limpos (como o Tribunal de Nuremberga) e um investimento massivo por parte do vencedor (o Plano Marshall), colocaram as três potências do Eixo entre os seus melhores amigos no pós-guerra. Ainda mais relevante será o facto de, muito rapidamente, se terem tornado em três super-economias altamente desenvolvidas, tecnologicamente avançadas e pacifistas, algo que nem Iraque, nem Afeganistão, nem Líbia se podem orgulhar.

Infelizmente, tudo indica que esta operação não passará do habitual das últimas décadas. As bombas vão cair e quanto mais tentarem erradicar os fundamentalistas mais vítimas civis provocarão. O Estado Islâmico vai cair enquanto entidade e provavelmente o seu líder será morto. Mas no seu lugar milhares de outros se levantarão dos escombros de um país arruinado e que se auto-convencerãi da perfídia dos americanos e da necessidade de se aproximarem do que acreditam ser o caminho do Profeta, do comunismo mais radical ou qualquer outra forma violenta alternativa.

Talvez existisse uma hipótese de se evitar este inesgotável ciclo de violência se fosse colocado tanto esforço na reconstrução e verdadeira democratização do país como certamente vai ser colocado no seu arrazamento.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D - 70 anos

Não foi a maior, a mais importante ou a mais sangrenta batalha da história ou sequer da segunda guerra mundial. Mas foi um feito logístico impressionante, um passo crucial para acabar com a guerra e o momento em que a Alemanha Nazi compreendeu que, acontecesse o que acontecesse, o seu destino estava selado. Neste dia, relembramos os involuntários heróis que depois de horas enlatados dentro de pequenos barcos foram atirados contra as praias da normandia onde os esperavam poucos - mas bem armados e veteranos - soldados alemães.

Deixo aqui os links para dois livros excelentes sobre o desembarque que revi neste blog em 2012: "O Dia Mais Longo" de Cornelius Ryan e "Operação Overlord" de Max Hastings.


domingo, 4 de maio de 2014

De volta a Guantánamo

Este artigo de opinião, publicado em Março no site da Al Jazeera e escrito pelo detido número 028 de Guantánamo, Moath Al-Alwi[1], mostra-nos os detalhes da tortura física e psicológica utilizada na mais famosa prisão do mundo. Por mais horrorosos e infames os detalhes, o pior de tudo é saber que para além desta, existem muitas outras. Centenas, milhares de prisões pelo mundo todo e governados por líderes muito piores do que os americanos. Mas se um país livre, democrático e com liberdade de expressão como os Estados Unidos da América têm isto, que se estará a passar cantos esquecidos do planeta, longe do sonho da europa ocidental. Sinto calafrios só de pensar...


March 10, 2014 - I write this letter, as I wrote my last, between bouts of violent vomiting and sharp pains in my stomach caused by this morning's force-feeding session. Reading news articles, you would think that we have stopped striking. Perhaps you might think that our protests had even been sated by government concessions. We may be trapped behind the walls of Guantanamo, but we will not be silenced.

Dúzias de prisioneiros não foram ainda julgados e aguardam libertação
I write this letter to tell you that we are still striking. We will not stop until we get our dignity back in this place and are allowed to return home to our families.

With President Barack Obama's blessing, Colonel Bogdan, the warden at Guantanamo, has instituted humiliating groin searches, especially when we are taken for phone calls with our lawyers or families. He has withheld our medical treatment and confiscated our legal papers and Qurans.

The Colonel has been quoted as saying that he knows how to discipline us because he has children at home. We are not his children and this is certainly not our home. We are grown men with families who no longer know what we look like.

Because I decided to peacefully protest my imprisonment here, the special mattress and medical pillows prescribed for my chronic back pain, all of my underwear, my electric razor, and even my bar of soap and toothbrush have been confiscated.

I, too, am strapped down and force-fed for over an hour every single day. During the session, I am constantly vomiting the feeding solution into my lap. As I am carried back to my cell, I cannot help but vomit on the guards carrying me.

They put a Plexiglas face mask on my head to protect their clothes from my vomit. They tighten the facemask and press down on it, pushing it into my face. I almost suffocate because I am vomiting inside the facemask and am unable to breathe.

As I struggle for air, the guards make fun of me, laughing loudly. Frequently, they lie me down on my stomach in my cell and press my back forcefully, squeezing out any remaining feeding solution from the previous force-feeding session. The lightest of the guards weighs at least 190 lbs, while I weigh only 98 lbs; it is a wonder they do not break me entirely.

Aside from those imprisoned with me, nobody can truly understand how we suffer. The Colonel will not allow media into Guantanamo Bay, claiming he is protecting our privacy. No man here wants privacy from the media. The Colonel fears that if the media comes in and meets with the prisoners, all of this daily brutality will be exposed. Hopefully this letter serves that end.

There are currently 21 prisoners on hunger strike. I am one of the 16 who are being force-fed. The government does not want the American people to know that we are still striking. They try to discourage us with solitary confinement and brutal treatment but we will not abandon our protest.

We will not be silent. They cannot hide us by refusing to report the number of protesters to the public. Refusing sustenance is the only peaceful voice of protest that we have; it is the only way to demand the attention of the US government and the American people to whom it is beholden.

Colonel Bogdan has explained our treatment by saying we are at war. But it has been 12 years and this is not a war. We are unarmed captives. I ask the American people, where is the freedom the US touts? Do you condone what your government is doing to us? I know that governments do not always represent the voices of their people, and I pray that the American people do not want this, and more, that they will do something to stop it.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quem venceu a guerra do Iraque? O Irão...

Antigamente as guerras tinham ganhos claros: territórios, poder político, ouro, prata e pedras preciosas, escravos, matérias primas e tudo aquilo que o conquistador estivesse interessado. Se nas guerras medievais ou clássicas isso era óbvio, na primeira guerra mundial os efeitos das compensaçõe de guerra, e na segunda guerra mundial voltamos a ver a pilhagem de bancos centrais, roubo de matérias primas e até o uso de escravos por parte das forças do Eixo.

Mas tudo mudou com a guerra fria. As guerras passaram a ser guerras de desgaste, sem derrotados claros e onde as principais potências acabavam por desistir ao fim de uns penosos anos de sangramento de parte a parte. Os conquistados tipicamente sofriam muitíssimo mais, mas no final levavam a melhor. Coreia, Vietnam, Afeganistão, Iraque... Constantemente os invasores acabaram por desistir de continuar e constantemente chegaram ao final a lamber feridas e a ter que pagar os custos da guerra. 

A invasão do Iraque em 2003 é um inequívoco crime contra a humanidade. Baseado em mentiras e deturpações, uma coligação de países no qual Portugal foi orgulhoso subscritor e liderados pelos Estados Unidos da América, esta invasão tinha pelo menos a vantagem de que os países do Ocidente deixariam um regime amigável (alguns dos nossos líderes prometiam até que seria democrático e um modelo para a região) e que ficariam com acesso previligiado a algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Ao contrário de muitos outros países, o Iraque tem os recursos naturais para pagar o seu próprio processo de criação de state institutions e reconstrução física do país.

O resultado, no entanto, não foi esse. Hoje temos uma democracia com enormes tiques ditatoriais, dominada pela maioria Shiia, amigável do Irão e que até está neste momento a comercializar armamento ao Irão[1][2]. Os ataques terroristas e a violência entre comunidades não abranda e o Iraque é hoje, a todos os níveis, um estado falhado. Mission Accomplished? Parece mentira não é? Mas quem ganhou a guerra de 2003 foi quem nunca precisou de colocar lá um soldado: o Irão.

Não que fosse novidade, mas não deixa de ser interessante. E certamente nada traz de positivo para o mundo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Israel, Islão e as vítimas

Sou um crítico acérrimo de algumas das políticas violentas e racistas do governo israelita e do apoio implícito ou explícito que os Estados Unidos da América e as potências ocidentais lhes dão. Conheço muito bem a realidade no terreno e o verdadeiro apartheid instalado nos territórios ocupados da Palestina e em Israel.

Mas é de facto muito estranho porque motivo tantos conflitos muitíssimo mais violentos são perfeitamente desconhecidos da maioria das pessoas quer no médio oriente quer no ocidente. Ninguém fala dos genocídios dos Arménios, da perseguição dos comunistas Indonésios, da guerra Irão-Iraque, da guerra da independência do Bangladesh (Paquistão Oriental), etc.
Restos de um T-62 Iraquiano usado na Guerra Irão-Iraque

O gráfico que se segue faz parte de belíssimo curso online - de graça - do Prof. Ebrahim Afsah[1] sobre os "Desafios constitucionais no mundo islâmico" da Universidade de Copenhaga.

Comparem, no quadro abaixo, as vítimas mortais das guerras entre Israel e os seus vizinhos (a azul), com as guerras no médio oriente e outras zonas de maioria islâmica sem intervenção israelita ou ocidental (a verde). Devo notar que o próprio Afsah considera estes números extremamente conservadores.

Certamente não desculpa nenhum dos crimes cometidos por Israel, Estados Unidos e restantes países ocidentais. Mas coloca-os em perspectiva.


Carregue para ver o gráfico em tamanho aumentado.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Estados Unidos e os seus inimigos

Pensava há uns dias numa possibilidade que hoje parece altamente improvável, e que há um ano seria totalmente impossível. As tropas de Assad a lutarem lado a lado com os americanos. Os amigos e inimigos mudam de década a década, por vezes tornando-se exactamente o oposto em muito pouco tempo.

Depois lembrei-me desta imagem. O Presidente Reagan recebe os líderes Mujaheddin na sala oval da Casa Branca em 1983. Parece impossível não?



sábado, 5 de outubro de 2013

US cowardice will let Israel’s isolated right off the hook

Mais uma vez, Robert Fisk e a sua experiência única de Médio Oriente num brilhante artigo de opinião no The Independent.


US cowardice will let Israel’s isolated right off the hook



These are hard times for the Israeli right. Used to bullying the US – and especially its present, shallow leader – the Likudists suddenly find that the whole world wants peace in the Middle East rather than war. Brits and Americans didn’t want to go to war in Syria. Now, with the pleasant smile of President Rouhani gracing their television screens, fully accepting the facts of the Jewish Holocaust – unlike his deranged and infantile predecessor – the Americans (75 per cent, if we are to believe the polls) don’t want to go to war with Iran either.

Having, live on television, forced President Obama to grovel to him on his last trip to the White House – Benjamin Netanyahu brusquely told him to forget UN Security Resolution 242, which calls for a withdrawal of Israeli forces from lands occupied after the 1967 war – the Israeli Prime Minister did a little grovelling himself on Monday. He no longer called for a total end to all Iranian nuclear activities. Now it was only Iran’s “military nuclear programme” which must be shut down.
And, of course, like Iraq’s “weapons of mass destruction programme” which President George W Bush had to invent when the weapons themselves turned out to be an invention, we still don’t know if Mr Netanyahu’s version of Iran’s “military nuclear programme” actually exists.
What we do know is that when Mr Rouhani started saying all the things we had been demanding that Iran should say for years, Israel went bananas. Mr Netanyahu condemned him before he had even said a word. “A wolf in sheep’s clothing.” Even when Mr Rouhani spoke of peace and an end to nuclear suspicions, Israel’s “Strategic Affairs” Minister – whatever that means – said time had run out for future negotiations. Yuval Steinitz claimed that “if the Iranians continue to run [their nuclear programme], in another half a year they will have bomb capability”.

Mr Netanyahu’s own office joined in the smear campaign.

“One must not be fooled by the Iranian President’s fraudulent words,” one of Mr Netanyahu’s men sneered. “The Iranians are spinning in the media so that the centrifuges can keep on spinning.”
The Rouhani speech was “a honey trap”. Mr Netanyahu himself said Mr Rouhani’s address to the UN, a speech of immense importance after 34 years of total divorce between Iran and the US, was “cynical” and “totally hypocritical”.

Israel Hayom, the Likudist freesheet, dredged up – yet again – the old pre-Second World War appeasement argument that the Israeli right have been reheating for well over 30 years. “A Munich wind blows in the west,” the paper said.
Perhaps it had its effect. If he was not so frightened of Israel – as most US administrations are – President Obama might actually have shaken hands with Mr Rouhani last week; though Mr Rouhani himself might have preferred not to touch the hand of the “Great Satan” too soon. Instead, President Obama settled for a miserable phone call and proved that he knew how to say goodbye in Farsi. Pathetic is the word for it.
In the past, Arab delegates would storm out of the UN General Assembly when Israelis took the stand. When the crazed President Ahmadinejad spoke, Western nations and the Israelis stormed out. But when Mr Rouhani came to speak, Western nations crowded into the chamber to hear him. But Israel stormed out.
“A stupid gesture,” according to that wise old Israeli sage, writer and philosopher Uri Avnery. “As rational and effective as a little boy’s tantrum when his favourite toy is taken away. Stupid because it painted Israel as a spoiler, at a time when the entire world is seized by an attack of optimism after the recent events in Damascus and Tehran. Stupid, because it proclaims the fact that Israel is at present totally isolated.”

Mr Avnery’s contention is Israel wanted two wars, the first against Syria, the second against Iran.

As he wrote last week, when Congress hesitated to strike Damascus, “the hounds of hell were let loose. Aipac (the largest Likudist pro-Israeli lobby group in the US) sent its parliamentary rottweillers to Capitol Hill to tear to pieces any senator or congressman who objected”.

Yet at the White House on Monday, the Israeli Prime Minister had calmed down. I doubt if it will last. Israel, I suspect, will do everything it can to cut down Mr Rouhani’s overtures, whatever American public opinion might say.

For there was President Obama at Monday’s meeting, praising Mr Netanyahu for his support for a two-state solution. And what did President Obama actually say? That there was “a limited amount of time to achieve that goal”.

So why was there only a “limited amount of time”? Not a single scribe asked the poor fellow.

There is, of course, only a “limited amount of time” – in my view, no time at all – to achieve this illusory goal because the Netanyahu government is thieving, against all international law, yet more Palestinian Arab land for Jews and Jews only, at a faster rate than ever, to prevent just such a Palestinian state ever existing.
The Israeli right are well aware of this. And when President Obama can’t even explain this weird “limited amount of time”, the Israelis know that he is still a groveller. This is what real “appeasement” is all about. Fear.

And even if President Obama had the courage to say boo to a goose in his final term in office, you can be sure that Madame Clinton – to quote Sir Thomas More – doesn’t have the spittle for it. For she wants to be the next appeaser-president.

The Likudists have isolated Israel from the world just now but be sure American cowardice will let them off the hook.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Síria... serei o único?

Será que sou mesmo a única pessoa que acha altamente suspeito que uns dias depois de o Governo Sírio permitir a entrada de inspectores da ONU no seu território com o propósito específico de verem se algum dos lados está a utilizar armas químicas, que o mesmo governo faça um ataque em larga escala com essas mesmas armas?

Serei o único a achar que antes sequer de se saber qual dos lados as utilizou - se é que algum as utilizou - não se pode avançar com um invasão internacional contra o que foi decidido pela ONU?

Serei o único a achar que se Assad é um déspota sem moral que os fundamentalistas islâmicos que compõe uma parte significativa da oposição são ainda piores?

Eu não sou contra todo e qualquer ataque. Acho mesmo que a ONU e a NATO têm que ser os "polícias do mundo", até que se arranje algo melhor. Mas isso não significa certamente prisões secretas, Guantánamos, ataques com drones em países aliados (como o Yemen e o Paquistão) e invasões em larga ou pequena escala por motivos obscuros e que constantemente tem-se provado errados e contra-producentes.

Depois do Iraque, temos todos não só o direito mas também a obrigação de partirmos do princípio de que o governo americano nos mente a toda a linha. E em relação aos restantes governos, provavelmente a situação será tão má ou pior.

A situação na Síria é péssima, mas tem potencial para piorar muito mais...


Bairro de Al Khalydia, Cidade de Homs, Síria, Março 2012 [Reuters/Yazan Homsy]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Grande Depressão

Anos 30 - Fila do pão
Iniciada com o crash bolsista de 29 de outubro de 1929[1]a Grande Depressão[2]trouxe ao mundo uma miséria tão repentina e incompreensível que lançou as finanças, a economia e finalmente a sociedade inteira num ciclo vicioso que destruiu tudo o que encontrou pelo caminho. O mais estranho é que as lições aprendidas daquela que foi a mais violenta e global crise do século XX acabaram por ser esquecidas ou - pior do que isso - mal compreendidas. Quando estava na faculdade (num curso de ciências económicas e empresariais), a Grande Depressão não tinha praticamente qualquer expressão no curriculum do curso. Quando este assunto foi brevemente abordado, numa cadeira de história económica, o que nos foi ensinado foi que isso hoje nunca seria possível pois os conhecimentos de economia eram agora infinitamente superiores. Suponho que desde 2007 que já não ensinam tamanho disparate nas universidades...

Para um leigo, não é claro como um crash bolsista provoca uma crise económica e social de grande escala. Lá porque o mercado subitamente resolve avaliar as ações das empresas cotadas em bolsa 25% abaixo, isso não deveria ter um grande impacto na economia, para lá de uma resistência dos detentores de acções em as venderem a um preço tão baixo. Isso não deveria causar uma diminuição directa da capacidade de produção, da qualidade dos produtos ou da procura. E na realidade, directamente, não causa. O verdadeiro problema é o desaparecimento do mercado de dívida. Muitos dos investimentos financeiros (nomeadamente a compra de acções na década de 1920 ou a compra de casas no início do século XXI) é feita com recurso à dívida. Enquanto esses activos continuarem a aumentar de preço, essa dívida é segura, já que qualquer problema pode ser resolvido vendendo o activo e saldando a dívida. O problema começa quando esses activos subitamente valem menos do as dívidas que lhes estão subjacentes. A partir daí entramos numa situação "abaixo da linha de água", o que significa que o cidadão ou empresa que é responsável pela dívida e pelo activo, está agarrado ao activo porque não o pode vender para limpar a dívida e tem que pagar a dívida quer o activo lhe dê o retorno esperado ou não. O financiador, por outro lado, tambem fica numa situação impossível. Sabe que emprestou dinheiro a alguém que terá dificuldades em o pagar de volta e também não quer a penhora do activo porque este vale menos do que a dívida. Quer do lado do devedor quer do lado do emprestador, a tendência será por isso a de controlar os seus gastos de forma a precaver-se contra as previsíveis dificuldades. Isto significa os emprestadores vão parar de emprestar dinheiro enquanto os valores dos activos estão em queda, vão cortar nos empréstimos a outras instituições financeiras por medo que estas estejam ainda mais expostas a crédito malparado e forçam os seus devedores cumpridores a reduzirem a sua exposição. Tudo isto causa uma pressão enorme sobre todos os bancos, que ficam limitados na sua tesouraria, em todas as empresas, cujos investimentos vão ser adiados ou cancelados, e sobre as famílias, que sem acesso ao crédito e com medo do futuro retraem os seu consumo preparando-se para o pior. Nesta altura, todos os agentes da economia entram num ciclo de austeridade do qual ninguém consegue sair sozinho sob pena de ser o primeiro a cair.

Aí, a crise cai em cima da economia propriamente dita. Menos financiamento, menos investimento, menos consumo causam necessariamente mais desemprego, menos produção e cada vez mais dificuldades em pagar as dívidas. Como na história bíblica d'O Sonho do Faraó[3], a única verdadeira solução perfeita para os anos de vacas magras teria passado por poupar durante os anos de vacas gordas. Mas isso, obviamente, já não era possível. Como não é possível hoje.

Nos anos 30, a solução passou pelo New Deal[4] proposto por Franklin D. Roosevelt[5]. Incentivos do estado em grande escala, construção de grandes obras públicas, definição arbitrária da paridade entre o ouro e a moeda americana conseguiram colocar a máquina da economia americana a carburar novamente. O New Deal não foi no entanto uma solução rápida nem limpa. Custou muitíssimo ao estado americano e quando algum desse "falso" investimento foi retirado a economia caiu novamente em recessão, já nos anos 1936 e 1937. O que acabou definitivamente com a Grande Depressão foi mesmo a segunda guerra mundial[6]. Ao tornar-se no "Arsenal da Democracia"[7], os Estados Unidos da América beneficiaram de emprego total, escoamento de toda a produção e exportações massivas que limparam quase em absoluto as reservas de ouro e moeda forte dos aliados, em especial o Reino Unido como Churchill se queixou amargamente (só em 2006 as dívidas de guerra britânicas aos EUA foram finalmente finalizadas[8]). Mesmo no final da segunda guerra, o espectro de uma nova recessão ainda se encontrava no ar, não se tendo concretizado devido ao que ficou conhecido como o Plano Marshall, que por um lado financiou a reconstrução de vitoriosos e derrotados como também garantiu acordos comerciais extremamente vantajosos para os EUA.

Infelizmente, muitas das soluções aplicadas nessa época não são adequadas nos dias de hoje ou (como é o caso de uma guerra mundial) longe de serem algo que queiramos rever. Ao contrário dos anos 30, o mundo hoje tem fronteiras muito mais ténues e existe uma mobilidade populacional, financeira e económica incomparavelmente superior. Um programa massivo de investimento sustentado por um estado pode ajudar a resolver a falta de liquidez da economia temporariamente, mas a quantidade de dinheiro que se iria escapar do país via importações, remessas de imigrantes e fuga de capitais para offshores seria inevitável e em larga escala. Isto será ainda mais verdadeiro no caso dos países da União Europeia onde as barreiras são totalmente inexistentes. E não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos disto: Portugal conseguiu entre 2000 e 2011 passar de uma dívida pública de 66 mil milhões de euros para 174 mil milhões. Um aumento de 163% no valor da dívida do estado[9], enquanto o PIB sobe de 127 mil milhões de euros para 171 mil milhões[10]. Um aumento do PIB a valores correntes de apenas 35%. Isto dá-nos uma ideia de como o new deal português falhou completamente nos seus efeitos. Quando as dívidas ultrapassaram o nível que os credores consideraram aceitável a queda era inevitável e este doping financeiro na economia deixou de conseguir sustentar uma economia que estaria provavelmente condenada à recessão.

As bases da teoria económica de John Meynard Keynes[11], tão em voga nos anos 30 e que deram as bases para o New Deal de Roosevelt têm o seu calcanhar de Aquiles no longo prazo. Na realidade o próprio previu isso embora não tenha mostrado grande preocupação com essas consequências. Quando lhe perguntaram o que aconteceria no longo prazo, a sua resposta foi "in the long run, we are all dead". Ele estava certo. Quase todas essas pessoas dos anos 30 estão hoje no céu (ou na sua concorrência). Mas nós estamos cá, e ficamos para pagar as contas todas. A economia está longe de ser uma ciência. A economia é ainda um mundo incompreensível cujas variáveis estão muito longe ser entendidas. Precisamos de novas ideias neste campo. Urgentemente.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

E porque não em Las Vegas?

Thomas Friedman - New York Times
Thomas Friedman é um escritor e jornalista do New York Times, vencedor de três prémios Pulitzer[1] e reconhecido judeu americano pró-israelita. Durante anos foi uma das vozes que esteve ao lado do massivo apoio financeiro, diplomático e militar a todos os governos israelitas, mas nos últimos anos começou a tornar-se cada vez mais crítico do governo Netanyahu e da interferência contínua dos lóbis israelitas na política americana (em especial o AIPAC).

Com a aproximação das eleições presidenciais americanas, iniciou-se também o humilhante processo que cada candidato tem que fazer para conseguir o apoio do lóbi judeu. Juras de amor eterno, visitas a Israel, promessas de, não só, não interferirem no processo de colonização da Cisjordânia, mas até de o apoiarem (mesmo sendo totalmente ilegal aos olhos das Nações Unidas), e ajudando a bloquear definitivamente o processo de paz. Desta vez é Romney que visita Netanyahu na companhia dos financeiros judeu-americanos (Sheldon Adelson entre outros), mas em breve teremos Obama também a beijar a mão aos padrinhos, um a um. E Friedman pergunta: se isto é mesmo tudo só por dinheiro, porque não reunirem-se em Las Vegas?

(Fonte: New York Time)

Why Not in Vegas?

I’ll make this quick. I have one question and one observation about Mitt Romney’s visit to Israel. The question is this: Since the whole trip was not about learning anything but about how to satisfy the political whims of the right-wing, super pro-Bibi Netanyahu, American Jewish casino magnate Sheldon Adelson, why didn’t they just do the whole thing in Las Vegas? I mean, it was all about money anyway — how much Romney would abase himself by saying whatever the Israeli right wanted to hear and how big a jackpot of donations Adelson would shower on the Romney campaign in return. Really, Vegas would have been so much more appropriate than Jerusalem. They could have constructed a plastic Wailing Wall and saved so much on gas.

The observation is this: Much of what is wrong with the U.S.-Israel relationship today can be found in that Romney trip. In recent years, the Republican Party has decided to make Israel a wedge issue. In order to garner more Jewish (and evangelical) votes and money, the G.O.P. decided to “out-pro-Israel” the Democrats by being even more unquestioning of Israel. This arms race has pulled the Democratic Party to the right on the Middle East and has basically forced the Obama team to shut down the peace process and drop any demands that Israel freeze settlements. This, in turn, has created a culture in Washington where State Department officials, not to mention politicians, are reluctant to even state publicly what is U.S. policy — that settlements are “an obstacle to peace” — for fear of being denounced as anti-Israel. 
      
Add on top of that, the increasing role of money in U.S. politics and the importance of single donors who can write megachecks to “super PACs” — and the fact that the main Israel lobby, Aipac, has made itself the feared arbiter of which lawmakers are “pro” and which are “anti-Israel” and, therefore, who should get donations and who should not — and you have a situation in which there are almost no brakes, no red lights, around Israel coming from America anymore. No wonder settlers now boast on op-ed pages that the game is over, they’ve won, the West Bank will remain with Israel forever — and they don’t care what absorbing all of its Palestinians will mean for Israel’s future as a Jewish democracy. 
      
It is into this environment that Romney wandered to add more pandering and to declare how he will be so much nicer to Israel than big, bad Obama. This is a canard. On what matters to Israel’s survival — advanced weaponry and intelligence — Defense Minister Ehud Barak told CNN on Monday, “I should tell you honestly that this administration under President Obama is doing in regard to our security more than anything that I can remember in the past.” 
      
While Romney had time for a $50,000-a-plate breakfast with American Jewish donors in Jerusalem, with Adelson at his elbow, he did not have two hours to go to Ramallah, the seat of the Palestinian Authority, to meet with its president, Mahmoud Abbas, or to share publicly any ideas on how he would advance the peace process. He did have time, though, to point out to his Jewish hosts that Israelis are clearly more culturally entrepreneurial than Palestinians. Israel today is an amazing beehive of innovation — thanks, in part, to an influx of Russian brainpower, massive U.S. aid and smart policies. It’s something Jews should be proud of. But had Romney gone to Ramallah he would have seen a Palestinian beehive of entrepreneurship, too, albeit small, but not bad for a people living under occupation. Palestinian business talent also built the Persian Gulf states. In short, Romney didn’t know what he was talking about.
On peace, the Palestinians’ diplomacy has been a fractured mess, and I still don’t know if they can be a partner for a secure two-state deal with even the most liberal Israeli government. But I do know this: It is in Israel’s overwhelming interest to test, test and have the U.S. keep testing creative ideas for a two-state solution. That is what a real U.S. friend would promise to do. Otherwise, Israel could be doomed to become a kind of apartheid South Africa. 
      
And here is what I also know: The three U.S. statesmen who have done the most to make Israel more secure and accepted in the region all told blunt truths to every Israeli or Arab leader: Jimmy Carter, who helped forge a lasting peace between Israel and Egypt; Henry Kissinger, who built the post-1973 war disengagement agreements with Syria, Israel and Egypt; and James Baker, who engineered the Madrid peace conference. All of them knew that to make progress in this region you have to get in the face of both sides. They both need the excuse at times that “the Americans made me do it,” because their own politics are too knotted to move on their own. 
      
So how about all you U.S. politicians — Republicans and Democrats — stop feeding off this conflict for political gain. Stop using this conflict as a backdrop for campaign photo-ops and fund-raisers. Stop making things even worse by telling the most hard-line Israelis everything that they want to hear, just to grovel for Jewish votes and money, while blatantly ignoring the other side. There are real lives at stake out there. If you’re not going to do something constructive, stay away. They can make enough trouble for themselves on their own.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Lóbi de Israel

Book Review

Publicado em Portugal pela Tinta da China e escrito por John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt, "O Lóbi de Israel e a Política Externa dos EUA" é um livro fascinante que nos leva ao mundo sinistro da política e da diplomacia.

No nosso país, o próprio termo "lóbi" tem uma tal conotação negativa que é usado quase exclusivamente como um insulto ou no âmbito de processos criminais. Obviamente Portugal também tem grupos de interesse, mas não são organizados e legalizados da mesma forma que nos Estados Unidos. Obviamente, também não têm a sua dimensão nem a mesma capacidade de influenciarem os rumos do mundo.

Um dos grandes méritos do livro é que é sério. Não é anti-semita, anti-judeu ou anti-israelita. Não entra sequer na questão se deveriam ou não existir lóbis, mas limita-se a estudar o fenómeno deste lóbi que é tido por muitos políticos americanos como o mais eficaz e agressivo de todos os grupos de interesse a trabalhar em Washington.

A lógica do livro é explicada logo nas suas primeiras páginas e fica perfeitamente definida no seu índice. A primeira parte trata a relação dos EUA com o Lóbi. Começa por provar a relação especial que existe entre os dois países e o apoio financeiro, diplomático e militar que transforma o estado norte americano no "grande benfeitor" de Israel. Depois desmonta os dois grandes argumentos utilizados para explicar esse apoio: o de trunfo estratégico e o da questão moral.

Estrategicamente, a terra santa não é particularmente interessante para os EUA já que não tem nenhum recurso único, escasso ou fulcral para a economia americana. Também o argumento utilizado durante décadas de que Israel seria o único estado que poderia por travão às ambições soviéticas na região, não só está obsoleto, como mesmo antes de 1989 tinha sérias falhas (já que foi o apoio americano a Israel forçou muitos países a pedirem apoio a Moscovo dadas as dificuldades em travarem o estado judáico). Para além disso, mesmo sendo Israel de longe a maior potência militar do médio oriente o facto de ser um estado-pária na região faz com que os próprios americanos não os queiram como aliados nas guerras em que a América se envolve, pelo risco de provocar uma união entre todos os outros do lado contrário. Isto viu-se por exemplo em 1991, durante a operação Tempestade no Deserto, onde não obstante os misséis Scud iraquianos cairem em grandes números sobre Israel, os EUA pediu para que eles nunca retaliassem. O mesmo aconteceu em 2003, quando os norte americanos regressaram para finalizar o trabalho, em que uma aliança de inúmeros países apoiou os estados unidos mas onde Israel ficou novamente de fora. Por fim, o apoio a Israel tem dificultado grandemente a posição política dos aliados árabes dos EUA devido às populações que consideram os seus líderes como fantoches por não se imporem face à flagrante dualidade de critérios dos EUA entre as acções feitas pelos governos israelita e árabes.

Em termos morais, o argumento também é desfeito de várias formas. Por um lado, são muitos os sinais de que o estado judáico representa muito mais um Apartheid do que um estado democrático ocidental. As leis não são independentes da etnia ou religião, e execução destas muito menos. Se o apoio massivo americano dependesse de uma motivação moral, então ele deveria crescer ou diminuir consoante as suas acções. No entanto essa relação não existe. Podemos ver isso quando novos colonato ilegais são construidos por Israel na Cisjordânia, quando invadiram o Líbano contra a vontade americana, etc. em que não houve qualquer diminuição dos fundos concedidos.

Em seguida, o livro trata do que é o lóbi propriamente dito. Não é uma conspiração, não tem uma liderança única nem controla directamente o governo americano. São um conjunto de instituições judaícas conservadoras complementado pelos sionistas cristãos, os neo-conservadores e muitos outros cidadãos americanos que de uma forma ou outra se juntam à causa de Israel. Nem sempre concordam uns com os outros embora façam um esforço notório para manter as suas diferenças longe do grande público. Nunca criticam Israel independentemente de quem é o governo num determinado momento e trabalham a vários níveis influenciando políticos, o mundo académico e - claro - a opinião pública.

Regra geral, os seus métodos são considerados legais nos Estados Unidos embora em algumas situações tenham ultrapassado as marcas. Tipicamente financiam enormes somas de dinheiro para as eleições de congressistas e senadores depois de estes provarem o seu compromisso para com o lóbi e o estado de Israel. Em casos em que algum membro eleito faz frente ao lóbi, procuram no mercado uma alternativa e encontram investidores de todo o país para promoverem este novo aliado. Noutras situações, acusam publicamente personagens que não lhes são próximas de anti-semitismo, organizam e financiam think-tanks de forma a inundar os jornais de artigos de opinião e notícias que sigam os seus interesses e procuram alterar nomeações de professores e conferencistas que não os agradem. Em muitos casos, os seus alvos são judeus que não seguem o discurso pré-definido internamente.

Na segunda parte do livro, os autores mostram como o lóbi se moveu para apoiar financeira, militar e diplomaticamente o estado judaico em diferentes situações tais como o conflito israelo-palestiniano, o Iraque, Síria, Irão e Líbano. Embora todos estes casos estejam muito bem expostos e documentados por Mearsheimer e Walt, o mais interessante na minha opinião foi o da invasão do Iraque de 2003: ao contrário do que muitos defendem, eu próprio já coloquei neste blog o documentário "The Oil Factor: Behind the War on Terror" que segue essa linha de raciocínio, estes autores procuram provar que o motivo estará muito mais na actuação do Lóbi de Israel do que dos Lóbies do Petróleo e Armamento. A sua opinião está extremamente bem defendida e é um dos mais intrigantes capítulos do livro, principalmente porque na época a opinião pública anti-guerra apontou o dedo aos outros dois grupos de interesse referidos.

No seu final, o livro dedica-se às formas que existem para tentar controlar a influência deste lóbi, reverter os danos causados e garantir que os interesses do país (os Estados Unidos no caso) são colocados à frente dos interesses de nações estrangeiras. O caminho que indicam resume-se a:

- identificar os interesses dos EUA no Médio Oriente
- delinear uma estratégia para proteger esses interesses
- desenvolver uma nova relação com Israel
- pôr fim ao conflito israelo-palestiniano (solução de dois estados)
- transformar o lóbi numa força construtiva

Resumindo este novo roteiro, o que se propõe é que os Estados Unidos voltem a comportar-se como árbitro e não como player. Que obrigue - e dada a dependência da ajuda externa quer de Israel quer da Palestina têm isso é possível - a que ambos os lados cedam oferecendo a ambos plena independência e segurança, normalizando as relações de Israel com todos os países árabes (ou seja, pegando novamente no plano saudita entretanto minado e encostado por influência do próprio lóbi). E ainda a criação de novos lóbies judaicos que representem a pluralidade de pensamento que existe na comunidade judaica-americana.

Tudo isto pode parecer utópico, mas como já aqui escrevi inúmeras vezes, não existe outra solução senão continuar a tentar. E pelo menos um raio de esperança nasceu depois da publicação deste livro: em Abril de 2008, um novo lóbi judaico - J Street[1] - tem crescido com ideias muito diferentes dos seus rivais AIPAC, American Jewish Committee, Anti-Defamation League entre outros actores principais do chamado Lóbi de Israel. Este grupo de interesse tem ganho cada vez mais importância e junta a sua voz ao que todo o mundo, incluindo muitos israelitas e palestinanos, pede: paz no Médio Oriente.



sábado, 2 de junho de 2012

Dennis Kucinich - Patriot Act

Dennis Kucinich - Partido Democrata
Europeus e americanos parecem por vezes vir de planetas diferentes. O que um conservador europeu pensa, muitas vezes encontra-se à esquerda do que um liberal americano defende. E o que a esquerda europeia diz, é aos olhos dos americanos um crime de traição e a procura da implementação de um estado soviético.

Em 2008, o partido Democrático americano iniciava as suas eleições primárias que levariam à escolha do seu candidato presidencial. À medida que foi avançando, os candidados cairam até ficarem apenas dois: Hillary Clinton e Barack Obama. O final desta história é conhecido por todos, dando a vitória a Obama que depois de se tornar presidente dos EUA chama a senhora Clinton para a pasta dos negócios estrangeiros.

Este video que aqui vos trago hoje, é de um dos primeiro debates das primárias, com todos os 8 candidatos ainda na corrida (entre eles Joe Biden, que seria depois escolhido por Obama para Vice Presidente e do qual falei aqui recentemente). Concentra-se nas perguntas e respostas feitas a um único dos candidatos, Dennis Kucinich, personagem desconhida na europa, mas que em tudo parece europeia. As suas propostas são um decalque do que é uma social democracia europeia: saúde e educação universal, política de imigração que não vá contra os imigrantes, legalização dos imigrantes ilegais, sindicatos com força, etc. Não achei possível ouvir um político americano falar desta forma.

Mas o motivo porque escolhi este video, foi para relembrar algo que ainda está activo, que continua a causar vítimas, mas que está esquecido e que é um ataque aos direitos do homem, o Patriot Act de Outubro de 2001[1] criado no fervor vingativo pós 11 de Setembro.

Wolf Blitz da CNN, que conduz o debate, pergunta:

I believe you were the only person on this stage that had the
chance to vote against the Patriot Act.

E a resposta imediata de Kucinich:

That's because I read it!

Esta legislação foi extendida em 2011 por Obama por mais 4 anos, o que significa que deve ser tida em consideração ainda hoje, mais de uma década depois do 11 de Setembro de 2001. Através desta lei, o estado americano permite-se a detenções por tempo indefinidas (semelhantes à detenção administrativa usada por Israel), entrada e pesquisa em domicílios e estabelicimentos comerciais sem o conhecimento dos seus proprietários e utilização de escutas de telefone, email e contas bancárias sem uma autorização judicial. Vários tribunais federais consideraram várias das actuações feitas ao abrigo desta lei como inconstitucionais, mas a verdade é que esta se mantém vigente.


quinta-feira, 22 de março de 2012

Empire - Al Jazeera

Empire é um programa semanal da estação de televisão do Qatar Al Jazeera, apresentado por Marwan Bishara e que contém alguns dos mais interessantes debates sobre assuntos diplomáticos e políticos do Médio Oriente.

Tenho-o acompanhado nos últimos anos quer pela sua qualidade como também pelo hábito que adquiri de procurar ouvir as mesmas notícias em canais diferentes. Tipicamente RTP, SIC Notícias, BBC, CNN e Al Jazeera. Os canais portugueses são invulgarmente isentos em relação ao panorama internacional. BBC é interessante mas politicamente correcta e evita entrar em grandes conflitos. A CNN mostra um ponto de vista parcial pró-Americano em tudo o que apresenta mas tem consideração pelos factos e pelas realidades que mostra (quando perco a paciência com a CNN tento ver 20 minutos da FOX News e volto logo a gostar da CNN...). Por fim, a Al Jazeera é uma excelente televisão que, não sendo imparcial porque mostra sempre o ponto de vista Árabe, incluí excelentes reportagens e entrevistas e é a única televisão do mundo Árabe que vale a pena ver. O seu único ponto fraco é o próprio Qatar: quem assistir a este canal durante doze meses chega à conclusão de que falta um país no Médio Oriente (o próprio Qatar), já que a sua isenção e capacidade de reportagem chega a todo lado (Israel incluído) mas nunca ao seu próprio país.

Deixo aqui o link para o canal do You Tube que inclui todos os programas desde 2008:

http://www.youtube.com/show?p=Qd0_-6PCq3M&tracker=show_av

Um episódio que gostei especialmente data do final de 2010 e trata da corrida mundial ao armamento e os gastos astronómicos que lhe estão associados. Incluí alguns temas extremamente relevantes como os inimigos reais e imaginários e a forma como estes são amplificados pelos media e pelos políticos, compras militares feitas pelo congresso americano contra a vontade das forças armadas (mais tarde acabei por ver vários artigos de jornais americanos a apontarem decisões semelhantes), da venda de armas, etc. Para termos uma ideia do ponto a que chegamos, os EUA gastam hoje em armamento o dobro do que gastavam em qualquer momento da guerra fria.