Mostrar mensagens com a etiqueta Stephen M. Walt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Stephen M. Walt. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Lóbi Árabe

Para quem acompanha as compras anuais de armamento por parte da Arábia Saudita e seus mais próximos aliados ou a produção diária de petróleo da região, não é difícil imaginar o poder político que estas compras e vendas de milhares de milhões de dólares necessariamente irão provocar. Nos Estados Unidos da América, os lóbis são entidades legais, aceites pelos cidadãos e que utilizam o seu poder financeiro e influência nos media para conseguirem junto do poder político os mais rentáveis negócios e vantajosa legislação para os seus associados.  

Por todos estes motivos, este livro escrito por Mitchell Bard despertou imediatamente o meu interesse. No entanto, rapidamente esse interesse acabou por se transformar numa enorme desilusão. Era inevitável que uma outra referência fosse feita a "O Lóbi de Israel", da autoria de Mearsheimer e Walt, mas não contava que o livro se resumisse a pouco mais do que uma incapaz resposta a esse livro. 

"O Lóbi Árabe, A aliança invisivel que mina os interesses da América no Médio Oriente" tem vários defeitos graves e que, na minha opinião, arruinaram o livro. Primeiro, Bard parece encontrar em praticamente todos os intervenientes do Médio Oriente um membro do lóbi Árabe. Sejam os missionários cristãos, os professores das universidades americanas de Beirute ou Cairo, as ONGs, os trabalhadores das petrolíferas, os diplomatas americanos, os Judeus não-sionistas, e até todos os países do terceiro mundo, os países da europa e a própria ONU. O autor parece ter dificuldade em compreender porque é que tantas e tão diferentes pessoas - a que ele e outros chamam de Arabistas - pareciam estar de acordo sobre os riscos da criação de Israel e, mais tarde, na posição pouco imparcial dos Estados Unidos em relação a este país. Um a um, ridiculariza cada um dos perigos levantados pelos Arabistas: os direitos das populações originais da Palestina; o risco de perder o acesso ao petróleo; retaliação económica por parte dos povos Árabes; delegitimização da posição Americana; ascensão do fundamentalismo islâmico; empurrar países para a esfera Soviética; guerras e instabilidade política. Todos estes riscos acabaram por se confirmar (embora em diferentes graus e momentos), mas não é assim que Bard vê a história.     

Na esmagadora maioria dos casos, o autor vai individualmente acusar cada uma destas pessoas de serem anti-semitas, jew haters, negadores do Holocausto ou apoiantes de terrorismo. Algo estranho até percebermos que a sua noção de anti-semitismo inclui toda e qualquer crítica ao governo de Israel ou ao Lóbi de Israel. Nas suas palavras: "[John Foster] Dules [Secretário de Estado de Eisenhower] fez também uma série de afirmações que podem ser consideradas como anti-Semitas. Por exemplo, em Fevereiro de 1957, queixou-se do enorme controlo que os Judeus têm sobre os media (...) e que a embaixada de Israel controlava o Congresso". Bard não parece compreender a diferença entre a crítica ao poder do seu lóbi e o ódio a um povo. Eu certamente não consideraria o estudo do poder do lóbi Árabe como um acto de islamofobia per se, mas seria interessante obter a sua opinião sobre o assunto. 
Sadat, Carter e Begin

Para personagens como Jimmy Carter, antigo presidente americano que conseguiu o processo de paz entre o Egipto e Israel, Mitchell Bard reserva um capítulo inteiro, afirmando que "(...) o anti-Sionismo de Carter estava implícito na sua seita fundamentalista e levou a ler a Bíblia de forma particular de forma a garantir direitos iguais para Judeus e Palestinianos". Acusações profundamente injustas para uma das pessoas que mais fez pela paz no Médio Oriente durante as últimas três décadas e que, não obstante a sua avançada idade, continua a percorrer as capitais todas da região para conseguir o que é aparentemente impossível. A paz no Egipto é fruto do seu trabalho e os prémios Nobel da Paz que Anwar Sadat e Menachem Begin receberam em 1978 bem poderiam ter sido partilhados com Carter, que de qualquer forma acabou por o receber em 2002[1].

Um segundo problema grave deste livro é a tentativa, francamente mal conseguida, de mostrar o lóbi Árabe como algo agregador e representativo da totalidade do mundo Árabe, misturando-o com a causa palestiniana, bem mais alargada em termos de opinião pública e menos financiada do que a primeira. No mínimo estamos a falar de dois lóbis diferentes. Em qualquer caso, esta ideia de um lóbi todo-poderoso não tem bases sólidas. A realidade é bastante diferente. O título está simplesmente errado e dever-se-ia chamar: o lóbi Saudita. É que durante o livro todo não ouvimos uma palavra sobre Marrocos, Argélia, Líbia, Jordânia, Iraque e tantos outros países... Árabes! E quando ouvimos é para descobrir que o "Lóbi Árabe" estava em guerra contra o Egipto de Nasser, contra o Iraque de Saddam ou a Síria de Assad. Talvez para ter um título mais interessante ou para conseguir defender essa fantasia de uma relação muito próxima entre a resistência palestiniana e o dinheiro do petróleo, Mitchell procura que o governo de 27 milhões de Sauditas seja representativo dos mais de 350 milhões de Árabes.

Por outro lado - e embora o autor não queira nem chegar perto destas questões - o Lóbi Saudita esteve ao lado do Lóbi de Israel em muitas destas matérias. Nas guerras contra Nasser (directas no caso de Israel, indirectas - via Yemen - no caso da Arábia Saudita), na confronto com o Irão pós-Revolução Islâmica, nas guerras contra o Iraque de Saddam Hussein e, acima de tudo, na espectacular artimanha que fez com que os mujahedeen repelissem o invasor Soviético. Algo que só foi possível com uma profana aliança de Israel, Arábia Saudita, Paquistão, Estados Unidos e os fundamentalistas islâmicos afegãos (mais tarde chamados de Taliban) e voluntários estrangeiros árabes (mujahedeens, no qual o jovem milionário Osama Bin Laden[2] começava a dar cartas enquanto líder e organizador de grupos de guerrilha e rotas para os combatentes árabes). Claro que na altura não ocorreria a nenhum Ocidental, Árabe ou Israelita chamar a estes de terroristas, mas isso é outra conversa...

Uma terceira questão que coloca relaciona-se com as fontes que Mitchell Bard utiliza. O inqualificável Steve Emerson[3] é uma delas, que é citado pelo autor em algumas acusações sem grande fundamento e ainda menos provas. Quanto às referências mais eruditas, utiliza as ideias de Bernard Lewis[4] como verdade absoluta mas demonstra completo desprezo por Edward Said[5], naquela que é a confirmação de uma visão dogmática sobre o Médio Oriente.

Concluindo, Mitchell deixa-se cair numa visão tendenciosa de quem claramente não é um académico neutro e desinteressado mas um assalariado de um lóbi que tem como objectivo arruinar outro. Mesmo sendo editor do jornal do poderoso lóbi Judeu da AIPAC[6][7][8], esperava muito mais. Uma pena, porque este é um assunto demasiado sério e que deveria ser estudado abertamente, de forma competente e inequivocamente isenta.

Só mesmo a influência de muitos milhões pode explicar como a Arábia Saudita é o único país do mundo onde as mulheres não podem conduzir mas que é tratado publicamente pela liderança ocidental como um país "Árabe moderado". Que bloggers como Raid Badawi sejam presos e chicoteados em praça pública no que é considerado um leal aliado do Ocidente. Que pessoas de outras religiões não posso ter os seus locais de culto ou sequer rezar na sua privacidade de forma legal. Essas leis e tradições só são aceites pela influência política ganha pelas multimilionárias vendas de petróleo e compras de armas. Cá estaremos a esperar ansiosamente pelo livro que será capaz de explicar como realmente funcionam esses círculos de interesse.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O Lóbi de Israel

Book Review

Publicado em Portugal pela Tinta da China e escrito por John J. Mearsheimer e Stephen M. Walt, "O Lóbi de Israel e a Política Externa dos EUA" é um livro fascinante que nos leva ao mundo sinistro da política e da diplomacia.

No nosso país, o próprio termo "lóbi" tem uma tal conotação negativa que é usado quase exclusivamente como um insulto ou no âmbito de processos criminais. Obviamente Portugal também tem grupos de interesse, mas não são organizados e legalizados da mesma forma que nos Estados Unidos. Obviamente, também não têm a sua dimensão nem a mesma capacidade de influenciarem os rumos do mundo.

Um dos grandes méritos do livro é que é sério. Não é anti-semita, anti-judeu ou anti-israelita. Não entra sequer na questão se deveriam ou não existir lóbis, mas limita-se a estudar o fenómeno deste lóbi que é tido por muitos políticos americanos como o mais eficaz e agressivo de todos os grupos de interesse a trabalhar em Washington.

A lógica do livro é explicada logo nas suas primeiras páginas e fica perfeitamente definida no seu índice. A primeira parte trata a relação dos EUA com o Lóbi. Começa por provar a relação especial que existe entre os dois países e o apoio financeiro, diplomático e militar que transforma o estado norte americano no "grande benfeitor" de Israel. Depois desmonta os dois grandes argumentos utilizados para explicar esse apoio: o de trunfo estratégico e o da questão moral.

Estrategicamente, a terra santa não é particularmente interessante para os EUA já que não tem nenhum recurso único, escasso ou fulcral para a economia americana. Também o argumento utilizado durante décadas de que Israel seria o único estado que poderia por travão às ambições soviéticas na região, não só está obsoleto, como mesmo antes de 1989 tinha sérias falhas (já que foi o apoio americano a Israel forçou muitos países a pedirem apoio a Moscovo dadas as dificuldades em travarem o estado judáico). Para além disso, mesmo sendo Israel de longe a maior potência militar do médio oriente o facto de ser um estado-pária na região faz com que os próprios americanos não os queiram como aliados nas guerras em que a América se envolve, pelo risco de provocar uma união entre todos os outros do lado contrário. Isto viu-se por exemplo em 1991, durante a operação Tempestade no Deserto, onde não obstante os misséis Scud iraquianos cairem em grandes números sobre Israel, os EUA pediu para que eles nunca retaliassem. O mesmo aconteceu em 2003, quando os norte americanos regressaram para finalizar o trabalho, em que uma aliança de inúmeros países apoiou os estados unidos mas onde Israel ficou novamente de fora. Por fim, o apoio a Israel tem dificultado grandemente a posição política dos aliados árabes dos EUA devido às populações que consideram os seus líderes como fantoches por não se imporem face à flagrante dualidade de critérios dos EUA entre as acções feitas pelos governos israelita e árabes.

Em termos morais, o argumento também é desfeito de várias formas. Por um lado, são muitos os sinais de que o estado judáico representa muito mais um Apartheid do que um estado democrático ocidental. As leis não são independentes da etnia ou religião, e execução destas muito menos. Se o apoio massivo americano dependesse de uma motivação moral, então ele deveria crescer ou diminuir consoante as suas acções. No entanto essa relação não existe. Podemos ver isso quando novos colonato ilegais são construidos por Israel na Cisjordânia, quando invadiram o Líbano contra a vontade americana, etc. em que não houve qualquer diminuição dos fundos concedidos.

Em seguida, o livro trata do que é o lóbi propriamente dito. Não é uma conspiração, não tem uma liderança única nem controla directamente o governo americano. São um conjunto de instituições judaícas conservadoras complementado pelos sionistas cristãos, os neo-conservadores e muitos outros cidadãos americanos que de uma forma ou outra se juntam à causa de Israel. Nem sempre concordam uns com os outros embora façam um esforço notório para manter as suas diferenças longe do grande público. Nunca criticam Israel independentemente de quem é o governo num determinado momento e trabalham a vários níveis influenciando políticos, o mundo académico e - claro - a opinião pública.

Regra geral, os seus métodos são considerados legais nos Estados Unidos embora em algumas situações tenham ultrapassado as marcas. Tipicamente financiam enormes somas de dinheiro para as eleições de congressistas e senadores depois de estes provarem o seu compromisso para com o lóbi e o estado de Israel. Em casos em que algum membro eleito faz frente ao lóbi, procuram no mercado uma alternativa e encontram investidores de todo o país para promoverem este novo aliado. Noutras situações, acusam publicamente personagens que não lhes são próximas de anti-semitismo, organizam e financiam think-tanks de forma a inundar os jornais de artigos de opinião e notícias que sigam os seus interesses e procuram alterar nomeações de professores e conferencistas que não os agradem. Em muitos casos, os seus alvos são judeus que não seguem o discurso pré-definido internamente.

Na segunda parte do livro, os autores mostram como o lóbi se moveu para apoiar financeira, militar e diplomaticamente o estado judaico em diferentes situações tais como o conflito israelo-palestiniano, o Iraque, Síria, Irão e Líbano. Embora todos estes casos estejam muito bem expostos e documentados por Mearsheimer e Walt, o mais interessante na minha opinião foi o da invasão do Iraque de 2003: ao contrário do que muitos defendem, eu próprio já coloquei neste blog o documentário "The Oil Factor: Behind the War on Terror" que segue essa linha de raciocínio, estes autores procuram provar que o motivo estará muito mais na actuação do Lóbi de Israel do que dos Lóbies do Petróleo e Armamento. A sua opinião está extremamente bem defendida e é um dos mais intrigantes capítulos do livro, principalmente porque na época a opinião pública anti-guerra apontou o dedo aos outros dois grupos de interesse referidos.

No seu final, o livro dedica-se às formas que existem para tentar controlar a influência deste lóbi, reverter os danos causados e garantir que os interesses do país (os Estados Unidos no caso) são colocados à frente dos interesses de nações estrangeiras. O caminho que indicam resume-se a:

- identificar os interesses dos EUA no Médio Oriente
- delinear uma estratégia para proteger esses interesses
- desenvolver uma nova relação com Israel
- pôr fim ao conflito israelo-palestiniano (solução de dois estados)
- transformar o lóbi numa força construtiva

Resumindo este novo roteiro, o que se propõe é que os Estados Unidos voltem a comportar-se como árbitro e não como player. Que obrigue - e dada a dependência da ajuda externa quer de Israel quer da Palestina têm isso é possível - a que ambos os lados cedam oferecendo a ambos plena independência e segurança, normalizando as relações de Israel com todos os países árabes (ou seja, pegando novamente no plano saudita entretanto minado e encostado por influência do próprio lóbi). E ainda a criação de novos lóbies judaicos que representem a pluralidade de pensamento que existe na comunidade judaica-americana.

Tudo isto pode parecer utópico, mas como já aqui escrevi inúmeras vezes, não existe outra solução senão continuar a tentar. E pelo menos um raio de esperança nasceu depois da publicação deste livro: em Abril de 2008, um novo lóbi judaico - J Street[1] - tem crescido com ideias muito diferentes dos seus rivais AIPAC, American Jewish Committee, Anti-Defamation League entre outros actores principais do chamado Lóbi de Israel. Este grupo de interesse tem ganho cada vez mais importância e junta a sua voz ao que todo o mundo, incluindo muitos israelitas e palestinanos, pede: paz no Médio Oriente.