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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A senseless squalid war - Voices from Palestine 1945-1948

Estou habituado a ler muita propaganda. Normalmente não vale a pena levá-la demasiado a sério e é facilmente reconhecível a milhas. Por esse motivo, não é tão perigosa, porque só acredita nela quem já acreditava antes de a ouvir. Serve apenas como reforço de ideias pré-estabelecidas ou, se preferirmos, preconceitos no sentido exacto do termo. Para quem aprecia a história recente do Médio Oriente, ser alvo de propaganda é ainda mais comum do que o normal quando lemos história um pouco mais antiga.

Norman Rose é o autor desta brilhante obra de propaganda. Consegue alterar a história sem mentir em nenhum momento. Consegue legitimar crimes imensos apenas brincando com uma lupa. Mostrando o que lhe interessa e fazendo desaparecer da história o que é mais difícil de explicar. Atira para um canto factos indesmentíveis sem pensar duas vezes e quando a a situação é impossível de explicar utiliza uma tática bastante suja de comparar a crimes ainda piores. Uma obra que desaconselho vivamente para quem pretenda compreender o conflito Israelo-Palestiniano num só livro. Para isso outros, bem mais equilibrados e completos serão mais adequados.
David Ben Gurion

No entanto, este é o livro perfeito para quem queira perceber como é possível

alguém ser cúmplice de um dos grandes crimes do século XX e dormir descansadamente durante a noite. Como é se consegue simplificar a história o suficiente para que no final apoiemos e defendamos verdadeiros criminosos responsáveis por homicídios, violações e roubos em larga escala.

Vejamos alguns exemplos. Norman Rose dedica dezenas de páginas a Haj Amin al Husseini[1] o desacreditado Grand Mufti de Jerusalém até 1937 procurando colocá-lo como grande líder Nazi da Palestina. No relato do seu encontro com Hitler em Novembro de 1941, Norman Rose chega ao ponto de colocar sentimentos e pensamentos nas cabeças dos intervenientesl. Refere-se a um "encontro de mentes" e "claramente existia uma química entre os dois". Palavras que o autor sentiu necessidade de acrescentar ao que Haj Amin e Hitler realmente disseram. Haj Amin viveu no exílio desde 1938, passando por vários países, incluindo a Alemanha e a Itália. Depois de na Primeira Guerra Mundial os árabes se terem unido ao Reino Unido para destruir o Império Otomano, para depois verem todas as promessas ficarem por cumprir, alguém achará estranho que tenham tentado bater a outras portas? Em especial depois da Declaração de Balfour[2] e da aliança informal entre o governo britânico e as forças paramilitares judaicas do Haganah durante a revolta de 1938, estranho seria se tornassem a bater-se ao lado dos ingleses. De qualquer forma, esta obcessão por Haj Amin está longe de ser inocente. Como não é inocente o facto de até o museu do Holocausto fazer questão de falar do Mufti[3]: por todas as formas e feitios procuram que os crimes cometidos sobre os palestinianos seja transformados em retribuição. Como não é possível encontrar qualquer culpa dos palestinianos nos crimes do Holocausto, a solução passa por insinuar esse mesmo crime sem que nunca o digam.

Mas se Haj Amin teve direito a inúmeras páginas, o facto do Stern Gang[4], um dos grupos paramilitares judaicos de inspiração fascistas, ter procurado uma aliança com a Alemanha Nazi já em 1940 não mereceu mais do que uma breve referência. Aqui, Rose não sentiu qualquer necessidade de nos falar em "encontro de mentes" ou algo do género.

Para além do Stern Gang e do Haganah, existia um terceiro grupo paramilitar judaico na Palestina que se dedicou a ataques terroristas, o Irgun[5]. O seu mais espectacular ataque terrorista foi no Hotel King David, em Jerusalém (que servia como sede administrativa britânica), no dia 22 de Julho de 1946 causando 91 mortes. O autor desfaz-se em desculpas procurando criar distância entre a liderança política judaica (Ben Gurion) e o Irgun. Mas a realidade é que o ataque foi previamente aprovado pelo conselho judaico. O líder do Irgun, Menachem Begin, longe de ser afastado pela sua comunidade por este acto chegou a primeiro ministro de Israel umas décadas mais tarde.

Mas Norman Rose não se fica por aqui. Do início ao fim, o livro desculpabiliza o Império Britânico. Desde a escolha do título (retirado de uma frase de Winston Churchill, enquanto líder da oposição no pós-guerra) até à descrição dos últimos dias do Mandato, o autor procura mostrar que a culpa não foi realmente dos inlgeses, que estes não passavam de representantes da ONU que não tinham quaisquer ambições na região e procuravam apenas deixar o Levante em melhor estado do que o encontraram. Como bom exercício de propaganda, o livro procura não agredir os sentimentos do alvo da mensagem, o Ocidente.


Nakba 1948 - Refugiados fogem da Palestina
E quanto a Deir Yassin e a todos os outros massacres que deram origem à Nakba, a grande limpeza étnica da Palestina que levou centenas de milhares de muçulmanos e cristãos para fora do território, Rose ignora olimpicamente declarando que os "êxodos são normais em qualquer guerra". Aliás, em várias situações fala na questão da competência e da unidade. Resume o resultado final ao facto de um dos lados estar organizado e o outro estar sem liderança. É uma forma interessante de evitar a questão moral. É que mesmo sendo verdade, será que ele utilizaria os mesmo termos quanto ao próprio Holocausto? Consideraria ele que no conflito entre nazis e judeus, um dos lados mostrou mais liderança e organização, e que a culpa de terem existido tantas vítimas seria exclusivamente da responsabilidade da exilada liderança judaica? Certamente que não. A culpa de um homicídio é do assassino, não do irmão mais velho que não estava presente e deveria ter estado.

O que tinha tudo para ser um livro espectacular torna-se portanto num case study de propaganda política disfarçada de publicação histórica.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

The Battle of Britain - documentário



Ewan McGregor[1], conhecido actor escocês que entrou em filmes como Trainspotting[2] e Star Wars[3] apresenta-nos com o seu irmão Colin, piloto da Royal Air Force, este documentário sobre a Batalha de Inglaterra. The Battle of Britain[4], mostra-nos com bastante detalhe o ponto de vista dos pilotos britânicos sobre a espectacular batalha. Sobre esta, Churchill proclamou a famosa frase: Nunca, na história dos conflitos humanos, tantos deverão tanto a tão poucos. São estes few as estrelas deste documentário da BBC. 

Finda a Batalha de França, em 1940, com uma retumbante vitória para Hitler e um inesperado colapso da França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda, inicia-se em Julho do mesmo ano a Batalha da Grã-Bretanha[5] (ou, como é geralmente conhecida em Portugal, a Batalha de Inglaterra). Depois da humilhante, mas extremamente bem sucedida, retirada do BEF (Força Expedicionária Britânica) de Dunquerque em França, o Reino Unido encontrava-se enfraquecido, sem uma força aérea ou um exército que pudessem contrabalançar o poderio alemão. A sua marinha, a Royal Navy, era nesta altura a mais poderosa da Europa, mas sem um controlo dos céus seria dificil controlar o canal da Mancha. E mesmo essa vantagem poderia estar em risco se a Kriegsmarine tomasse o controlo da força naval francesa, depois da capitulação gaulesa. 
A Batalha da Grã-Bretanha

Cabia portanto a uns poucos e inexperientes pilotos a última defesa da ilha, contra uma Luftwaffe altamente treinada e que já tinha desfeito em pedaços metade das forças aéreas europeias. A estes juntou-se uma brilhante organização que com os mais modernos radares, centenas de telefonistas e dezenas de milhares de observadores com binóculos conseguiram criar um conjunto de vantagens que seriam decisivos na batalha. 

Durante meses os dois lados lutaram avidamente pelos céus do sul de Inglaterra. Milhares morreram dos dois lados. Muitos mais civis perderam a vida quando Hitler e Churchill mudaram os alvos dos seus bombardeiros de alvos militares para alvos civis.
Colin e Ewan McGregor

Faço uma crítica a este documentário. A mesma que fiz a muitos outros sobre o mesmo assunto e até ao filme "Battle of Britain" de 1969 cujo artigo espero escrever em breve: a Operação Sea Lion[6], a invasão do Reino Unido por parte da Alemanha, nunca esteve tão próxima de acontecer como nos gostam de fazer crer. A Alemanha não tinha nem nunca teve um exército preparado para isso. Nunca teve um número de lanchas de desembarque significativo. Para além disso, Hitler e o alto comando Nazi consideravam que o seu espaço natural seria o leste, a abertura dos territórios entre a Alemanha e os montes Urais. 




quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Churchill 1940-1945 Os Melhores Anos

Max Hastings, autor deste livro publicado pela Civilização, assim como de outros que já aqui trouxe anteriormente (Operação Overlord) merece sem qualquer dúvida o título de um dos melhores historiadores contemporâneos. Não é fácil escrever um livro sobre Churchill quando 70 anos passaram e já tanto foi escrito. Para além disso, Winston Churchill será provavelmente uma das personagens com mais escritos livro sobre si em toda a história. 

Primeiro-Ministro inglês durante a segunda guerra mundial e líder do mundo livre durante um período em que a noite nazi caía sobre toda a europa central, Churchill aparece-nos aqui como uma personagem ainda mais complexa, desequilibrada e genial do que é habitual. Tive oportunidade de ler as memórias de Sir Winston, um livro magnífico que lhe valeu o Prémio Nobel da Literatura em 1953 [1], e a impressão com que fiquei dele era a de um homem brilhante, carregado de certezas e de alguma forma amargurado por ter perdido as eleições já mesmo no final da guerra na europa. Não pude deixar de notar também um certo tom apologético em relação a algumas das suas decisões, que foram escrutinadas ao detalhe durante e a seguir à guerra. Desde o desastre de Dunquerque, a perda da frota inglesa no índico, os erros na Grécia até à frustração da perda da Polónia para o bloco comunista (país cuja liberdade foi afinal de contas o motivo porque o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha), todos esses eventos foram explicados por Churchill numa tentativa de limpar a sua imagem das muitas falhas cometidas pela sua liderança.

Sir Max Hastings no entanto não tem as limitações que Churchill tem a escrever sobre o assunto. Não necessita de dedicar demasiado tempo a explicar o porquê dos erros e tem o distanciamento temporal necessário para não ter que manter nada escondido (Churchill não pode revelar assuntos que eram ainda segredos de estado, tais como a descodificação do ULTRA, os códigos secretos das famosas máquinas Enigma da Alemanha). Para além de ser um historiador extremamente competente, é ainda um escritor de grande nível e um conhecedor profundo da realidade da segunda guerra mundial.

Churchill era um homem completamente fora do seu tempo. E ainda mais seria do nosso. Imperialista convicto, imaginava o lugar do Reino Unido no mundo e o seu na história. A famosa frase de Shakespeare "All the world's a stage" aplica-se melhor a este líder do que provavelmente qualquer outra pessoa antes ou depois dele. Acreditava na vitória em 1940, quando em todo o mundo a derrocada da Inglaterra era dada como garantida, desafiou Hitler a partir da sua pequena ilha e motivou os britânicos para uma vitória impossível, armou o país para lá de todas as suas capacidades humanas e financeiras e envolveu-se em todos os pormenores da guerra de forma obcecada. Cansava-se do jogo político rapidamente, não obstante ser um dos mais brilhantes oradores de que há memória e procurava pessoalmente a frente de batalha contra todas os avisos dos seus conselheiros. Foi o primeiro líder político a voar para a Normandia, dias depois do desembarque. Correu o mundo em conferências com os outros líderes, a animar as tropas e a tentar desbloquear situações militares e logísticas. Procurou batalhas mesmo quando sabia que não havia hipóteses reais de as ganhar, preocupado com o veredicto que a história lhe faria. 

E, em paralelo, acordava todas as manhãs com ideias novas e mirabolantes das quais grande parte foi vetada pelo seu gabinete ou pelos chefes de estado maior garantindo ao mundo livre uma esperança mesmo quando toda a lógica apontava em contrário. Se houve uma faceta  que me ficou marcada pela leitura deste livro, foi a de que Churchill simplesmente não permitia que a lógica lhe causasse quaisquer dúvidas na certeza da vitória. Em qualquer outra situação da vida, isto seria um erro tremendo. Possivelmente, temos ainda hoje que lhe agradecer o facto de na europa não vivermos debaixo de uma tirania nazi. Não fosse a sua voz e os seus actos e o mundo seria hoje muito diferente. E provavelmente para pior.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vencer a Guerra

George Marshall - Prémio Nobel da Paz 1953
Olhando para a história dos últimos 100 anos, fica claro que foram muitos os líderes que souberam como começar guerras, mas muito poucos que souberam como as acabar. Vários conflitos arrastaram-se por muitos anos ou décadas (Índia-Paquistão, Coreias, Israelo-Árabe, Angola, URSS-Afeganistão, Irão-Iraque, etc.), outros foram mais curtos mas com perdas humanas e materiais de dimensões nunca vistas como a primeira e segunda guerras mundiais.

Em todos essas guerras, podemos dizer que existem sempre perdedores, mas nem sempre vencedores. A Grande Guerra de 1914-1918 vê vários países a serem desfeitos e outros criados. Mas mesmo os supostos vencedores acabaram por se ver envolvidos em nova guerra mundial. Os erros do tratado de Versailles criaram uma bomba relógio que iria explodir duas décadas depois na forma do Nazismo alemão. Como disse o grande general francês Ferdinand Foch "Isto não é paz, mas um cessar-fogo de 20 anos". Uma guerra sem vencedores.

A segunda guerra mundial teve 3 grandes vencedores, mas as suas vitórias não são iguais. O Reino Unido que durante anos lutou só contra uma europa continental dominada por Berlim, foi bravo e desafiador. Mas no final da guerra começou a perder as suas colónias uma a uma e perdeu o seu estatuto de super-potência. A União Soviética, garantiu não só a sua sobrevivência, mas trouxe para debaixo da sua esfera de influência toda a europa de leste, incluindo uma parte substancial da Alemanha e um seu velho inimigo, a Polónia. Mas essa vitória trouxe também as sementes para o fim do comunismo soviético. Foi nessa mesma Polónia, no muro de Berlim e em Praga que a queda da super potência começou. Mas o grande vencedor terá sido mesmo os Estados Unidos. Conseguiu não só a vitória militar, como a vitória política total. Todos os estados por si ocupados na Europa e Ásia formaram regimes duradouros que seguiram o formato democrático americano e tornaram-se aliados verdadeiros. Japão, Itália e Alemanha (RFA) serão os principais exemplos.

De todas as guerras desde essa época até hoje, será difícil encontrarmos uma situação em que a potência derrotada fica ligada de forma tão honesta e amigável ao vencedor. Conseguimos sequer imaginar o Iraque ou o Afeganistão a pararem de resistir aos aliados? A juntarem-se a estes num mundo democrático, livre e de direito? Ou o Irão, se for o próximo nessa longa lista de conflitos que ainda seremos obrigados a assistir?

Para mim, a diferença não está nos povos, nas religiões ou na raça. O que mudou foi a liderança dos vencedores. Não temos homens como Churchill, Roosevelt ou Marshall há frente destes países. E por isso, mesmo que os militares ganhem as guerras, os políticos vão garantir que estas são perdidas na mesma. Em vez de programas de reconstrução (como o plano Marshall), vemos pilhagens medievais aos recursos locais. E com isso garantem o ódio eterno dos que já sofreram com os ditadores, depois com a invasão e depois com a pilhagem. Afeganistão e Iraque foram guerras ganhas rapidamente por guerreiros, mas quase tão rapidamente perdidas pelos seus políticos.

Que fazer? Escolher líderes menos messiânicos e mais pragmáticos. Que tenham lido uns livros e ouçam o que as pessoas desinteressadas dizem, em vez de serem fantoches dos lobbies e os seus orçamentos multi-milionários.

Assim... não ganham uma guerra.