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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Que esperança para o Médio Oriente?

Iraque, Síria, Líbia e Iémen em guerra civil. Arábia Saudita e os seus aliados do GCC (Gulf Cooperation Council) envolvidos em cada uma destas guerras. Irão enredado com os Houthis no Iémen, com os pés no Iraque, ligado ao Hizbullah libanês (que por sua vez opera com Assad na Síria) e cada vez mais uma peça fundamental no geograficamente limitado governo shiita de Bagdad. O Estado Islâmico controla milhões de civis e territórios extensos e segue parcialmente o estilo franchising da Al Qaeda, com inúmeros grupos e grupelhos a aliarem-se à causa, desde hackers europeus, ex-Al Qaedas no Iémen, Boko Harams na Nigéria e tribos líbias e iraquianas. Em nenhum destes sítios a paz, a democracia ou os direitos humanos fizeram progressos significativos. Pelo contrário, quando algo se alterou, foi para pior.

Em Israel e na Palestina, mantém-se o status quo, com os três actores principais (governo de Israel, Fatah e Hamas) a degradarem-se e digladiarem-se numa guerra semi-fria sem fim à vista. Nada a esperar senão a continuação da divisão palestiniana e as cíclicas guerras sobre Gaza, invasões da Cisjordânia e rockets atirados sobre os civis israelitas.

No Egipto, uma junta militar ilegalizou a Irmandade Muçulmana, prendeu o Presidente da República e elegeu um novo presidente com metade da população sem representação política. As detenções são às dezenas de milhares e as penas de morte aos milhares. Com grande pena minha, a única questão que coloco é quando começará a guerra civil no Egipto. Mesmo com os biliões de dólares que lá estão a ser injectados pelos Estados Unidos, pela Europa e pelas monarquias do Golfo, não tenho grande esperança. Assim que os ventos da economia mudarem, descobriremos que os milhões que votaram em Morsi ainda lá estarão, desta vez provavelmente armados e desiludidos com qualquer tipo de processo democrático.


Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud
Na Arábia Saudita, o recém chegado Rei Salman deserdou o príncipe herdeiro e fez descer uma geração no cargo, sendo o novo príncipe Muhammad bin Nayef - seu sobrinho, e o terceiro em linha o seu próprio filho, Muhammad bin Salman. O histórico príncipe Saud al Faisal, o poderoso ministro dos negócios estrangeiros durante 40 anos, é também uma alteração radical que não pode ser desprezada. O seu nome - e o seu poder - é uma constante em todos estes livros que vamos falando neste espaço. Estas mudanças recentes ainda não estabilizaram totalmente e esperamos para ver como o país e a numerosa família real lida com a situação. Há muito pouco de bom a dizer sobre a Arábia Saudita (em especial no que toca a direitos humanos no seu próprio país), mas se existe um factor que vale a pena mencionar é a sua estabilidade. Questionam-se muitos se, envolvidos em guerras no Iémen, Síria, Iraque e Líbia - todas com poucas esperança de sucesso - e uma passagem de testemunho atabalhoada onde muitos príncipes (literalmente filhos de antigos reis) acabaram de ser atirados para segundo plano, não terá essa estabilidade chegado ao fim. Para compreendermos melhor esta última frase, devo relembrar que os últimos seis reis da Arábia Saudita eram irmãos, todos filhos do fundador do país, Abdulaziz Ibn Saud.

Alguns países têm-se conseguido manter mais ou menos fora do pior da confusão, como a Jordânia, o Líbano e a Tunísia. No entanto, os dois primeiros recebem milhões de refugiados e estão a rebentar pelas costuras sem capacidade para tamanha imigração. O Líbano, já de si uma manta de retalhos de religiões e etnias com o mais peculiar de todos os sistemas supostamente democráticos do mundo, conta agora com 25% da população vinda da Síria. Para um país que nunca conseguiu recuperar totalmente da Naqba palestiniana em 1948 e dos refugiados de 1967, não é difícil imaginar que o pior ainda está para vir. A Jordânia mantém-se na sua inesperada paz, com o apoio ocidental e paz com Israel, mas cuja liderança relativamente iluminada não deve esconder o facto de que continua a estar muito longe de ser um país livre. Mas sobreviveu ao pior e ainda não perdi a esperança neste país sem grande passado mas ao qual o futuro ainda poderá reservar um lugar interessante.


Tataouine, Tunisia
Por fim, a Tunísia, o único local realmente merecedor de verdadeira esperança para o Médio Oriente (embora tecnicamente já estejam bem longe do Médio Oriente propriamente dito). O processo democrático tem-se aprofundado, com os partidos a aceitarem a alternância e sem a habitual utilização das forças de sergurança e serviços secretos para liquidarem a oposição. O Estado Islâmico já mostrou interesse na região, mas a situação está longe de perdida. Enquanto europeu, gostava muito de ver a União Europeia a financiar tanto quanto possível o desenvolvimento do país, sempre com os direitos humanos e políticos como moeda de troca. A democracia não sobrevive se não existir progresso, ordem e liberdade (só faltou esta última na bandeira verde e amarela).

Temo que grande parte do Médio Oriente piorará muito nos próximos anos, antes de começar a melhorar. Talvez um sucesso democrático na Tunísia possa iluminar o caminho para os restantes, mais uma vez. Durante o último ano, pouco temos ouvido da Tunísia. Pas de nouvelle, bonnes nouvelles? 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Médio Oriente: Religião e Petróleo

Grande parte do mundo acredita que a alma do Médio Oriente está na sua religião, o elemento essencial e distintivo do povo e cultura locais. Isto acontece desde os grandes téoricos orientalistas, como Bernard Shaw, até aos populares que muitas vezes não conseguem distinguir um turbante Sikh indiano de um keffyeh palestiniano. Ao contrário de outras partes do mundo, como a Inglaterra ou Portugal, onde a esmagadora maioria dos seus cidadãos têm a mesma religião ou não professa qualquer religião, praticamente todos os países do Médio Oriente têm multiplas religiões, com enormes minorias melhor ou pior representadas e muitas vezes até no poder.

Muitos dos conflitos são rapidamente reduzidos pelos comentadores internacionais aos seus aspectos religiosos, cuja importância é colocada bem acima de outros factores étnicos, políticos ou sociais. No entanto, algumas destas visões simplistas são postas em causa quando olhamos para os problemas um pouco mais de perto. Se a religião é muitíssimo importante, não é certamente o único factor relevante e em muitos casos acredito que nem será o factor central do problema.

Na Palestina, Muçulmanos e Cristãos lutam lado a lado contra Judeus, onde dois passados diferentes e extremamente violentos - o da Nakba para os Palestinianos e o Holocausto para os Judeus - unem mais do que a própria religião. A PFLP (Popular Front for the Liberation of Palestine), organização terrorista e de extrema esquerda, responsável por muitos ataques de pirataria aérea e bombistas suicidas durante os anos 70, foi fundada e era liderada por um palestiniano cristão, George Habash, ele próprio um sobrevivente da Nakba. Os seus ataques continuam até ao presente, tendo sido o último em Novembro de 2014, num ataque a uma sinagoga onde morreram quatro fieis Judeus e um polícia Druze, para além de sete outros feridos. Naturalmente que os ataques bombistas suicidas cometidos por uma organização comunista liderada por cristãos não encaixa naa propagandeadaa ideias das 42 virgens no céu, mas contra factos não há argumentos. Também o casamento de Arafat com Suha Tawil, uma palestiniana cristã 34 anos mais nova, em 1990 vai contra a ideia dos palestinianos serem todos muçulmanos fanáticos, principalmente quando poucos anos depois Yasser Arafat ganha umas eleições limpas com 88% dos votos.

No Iraque, a organização terrorista Daesh (also known as ISIS, ISIL, Estado Islâmico ou Califado Islâmico) tem como principal adversário as forças paramilitares Curdas - os Peshmerga - igualmente sunitas, mas unidas pela língua e pelo sonho antigo de ter o seu próprio país, o Curdistão, adiado desde o fim do Império Otomano pelos poderes regionais e internacionais durante um século. Também aqui a religião parece explicar apenas um dos lados do conflito, mas não ambos. 

E por todo o Médio Oriente encontramos outros exemplos, como na Líbia onde uma guerra civil tribal e não religiosa continua a propagar-se sem fim à vista, na Síria onde uma coligação governamental com quase todas as minorias étnicas do país e até um grande número de Sunitas lutam contra o mesmo Daesh. No Yemen, onde a Primavera Árabe descambou numa guerra civil que mistura aspectos religiosos e étnicos. Ou até no Bahrain, onde é a falta de representação política e económica da maioria Shiita - e não algum aspecto dogmático religioso - que mantém uma situação de paz podre mantida apenas à custa de uma enorme influência saudita.

Ainda mais relevante do que a Religião, para compreender muito do que se passa no Médio Oriente, devemos olhar na minha opinião, para o Petróleo. Naturalmente, não serão os dois únicos factores a ter em conta e existirão outros que em muitas situações ajudaram a explicar o presente e o passado da região, tais como as invasões militares europeias e americanas, a colonização estrangeira, as guerras regionais, o nacionalismo árabe, outros nacionalismos (Curdo, Palestiniano), etc. Mas o petróleo é, e ainda será durante muito tempo, o combustível que faz rodar o planeta. Grande parte das suas reservas (assim como as de gás natural) estão no Médio Oriente, e são controladas por um pequeno número de países. A ascensão dos Estados Unidos e da Rússia ao topo dos produtores de petróleo, retirando a primeira posição à Arábia Saudita pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, é um factor de enorme importância e cujos impactos não podem ser substimados. Se somarmos a este facto, a recente queda do preço do petróleo cujo barril caiu em poucos meses do seu valor "normal" de 95 a 110 USD para os 50 a 60 USD, ficamos com uma espécie de tempestade perfeita no sector energético que terá ondas de choque políticas e económicas enormes, quer para a região quer para a relação das grandes potências globais.

Vivendo num país que é um dos grandes exportadores de petróleo, não estranho que o assunto seja tratado diariamente pelos media locais mas também pela população, que compreende a importância do petróleo para todos os que aqui vivem. Os governos dos países exportadores de petróleo terão que reduzir drásticamente as suas despesas ou incorrer em enormes déficits orçamentais, uma decisão que não é particularmente urgente para países como o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita ou o Kuwait cujos fundos soberanos de centenas de milhares de milhões de dólares lhes permitem aguentar déficits durante muitos anos.     



Noutros lugares, como o Irão, a Venezuela ou a Rússia, situações orçamentais terão impactos muito mais sérios, mais violentos e obrigando a ajustamentos muito rápidos. Uma teoria interessante que anda nos media norte-americanos é a de que esta queda do petróleo seria provocada pelos Sauditas, numa tentativa de quebrar o Irão e os muito endividados produtores shale oil americanos. É um facto que a Arábia Saudita está em posição de aguentar o preço baixo e que na última reunião da OPEC defenderam (e conseguiram) que não fosse reduzida a produção de petróleo dos países do cartel, mas a verdade é que a Arábia Saudita já não é o maior produtor de petróleo do mundo. Caiu até para terceiro lugar. Quer os EUA quer a Rússia ultrapassaram o Reino. Fizeram-no com custos de exploração altíssimos (que chegam a vinte vezes o custo de produzir no Golfo Pérsico) e investimentos absurdos e arriscados. Agora, os dois líderes produtores procuram convencer o terceiro que existe demasiado petróleo no mercado e pedem-lhe se não se importa de reduzir as suas exportações, para que eles possam sobreviver. Estranha ironia.

Mas independentemente do que causou esta descida do preço, a verdade é que todos se preparam para ficar pelo menos um ou dois anos com preços entre os 40 e os 70 USD. E o Médio Oriente terá necessariamente de mudar. O Daesh depende do petróleo para continuar a sua jihad, o Irão para recuperar o seu lugar na comunidade internacional e levantar-se da crise económica dos últimos anos, as monarquias do Golfo para continuarem a sua ascensão económica e a manutenção de um garantismo estatal de outra forma impensável, o Iraque e a Síria para se levantarem (se é que o vão conseguir fazer na próxima década) e o Curdistão para chegar à tão ambicionada independência, agora que as suas forças militares têm o equipamento e experiência para defenderem o seu território e conquistaram o respeito do mundo ocidental, com as suas tropas mistas e uma sociedade inclusiva que protege as minorias étnicas e religiosos perseguidas pelo Daesh.   



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Atacar para...?

O mesmo mundo que ignorou as centenas de milhares de mortos na Síria, na Ucrânia ou no Iraque prepara-se agora para corajosamente bombardear até à Idade da Pedra, essa enorme ameaça global que é o Estado Islâmico. Isto claro, sem colocar "botas no chão" não vá acontecer alguma desgraça. Para isto, uma coligação semi-formal de mais 50 países juntou-se a um grupo de outros ex/futuros inimigos que também lutam contra o EI, tais como a Síria de Bashar Al Assad (que ainda anteontem ia ser bombardeada pelos EUA e a França) ou o Irão dos Mullahs (que na semana passada era a maior ameaça à segurança mundial).

Não tenho dúvidas quanto ao nível medieval, fundamentalista e violento desse grupo terrorista e já aqui tive oportunidade de escrever bastante sobre o assunto, mas pergunto-me se esta intervenção trará algo de bom. Até compreendo a noção de que algo tem que ser feito, mas não vejo de que maneira o bombardeamento (que certamente arruinará a economia desse proto-estado e as suas capacidades militares convencionais) poderá levar a algo que não seja o entricheiramento dentro das enormes cidades que ocupam. Alguém acredita ser possível bombardeá-los para fora de uma cidade como Mosul, com quase dois milhões de habitantes sem colocar tropas no terreno ou causar enormes baixas civis "colaterais"?

Por outro lado, já vimos isto antes: as potências mundiais gastam milhares de milhões de dólares a destruir um país e depois não mostram grande capacidade de o reconstruir ou ajudar no processo de democratização de que tanto falaram inicialmente.

O mais curioso é que não existe melhor exemplo histórico de um conquistador conseguir tornar o conquistado em aliado do que os EUA no final da segunda guerra mundial, quando a Alemanha, Japão e Itália (entre outros), graças a uma ocupação benigna, processos judiciais relativamente limpos (como o Tribunal de Nuremberga) e um investimento massivo por parte do vencedor (o Plano Marshall), colocaram as três potências do Eixo entre os seus melhores amigos no pós-guerra. Ainda mais relevante será o facto de, muito rapidamente, se terem tornado em três super-economias altamente desenvolvidas, tecnologicamente avançadas e pacifistas, algo que nem Iraque, nem Afeganistão, nem Líbia se podem orgulhar.

Infelizmente, tudo indica que esta operação não passará do habitual das últimas décadas. As bombas vão cair e quanto mais tentarem erradicar os fundamentalistas mais vítimas civis provocarão. O Estado Islâmico vai cair enquanto entidade e provavelmente o seu líder será morto. Mas no seu lugar milhares de outros se levantarão dos escombros de um país arruinado e que se auto-convencerãi da perfídia dos americanos e da necessidade de se aproximarem do que acreditam ser o caminho do Profeta, do comunismo mais radical ou qualquer outra forma violenta alternativa.

Talvez existisse uma hipótese de se evitar este inesgotável ciclo de violência se fosse colocado tanto esforço na reconstrução e verdadeira democratização do país como certamente vai ser colocado no seu arrazamento.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Contra o boicote a Israel

Victoria's Secrets é uma das empresas alvo da campanha
de BDS (Boycott, divestment and sactions)
Sou extremamente crítico da governação de Israel e a forma como lida com a questão palestiniana. O cerco a Gaza, a ocupação da Cisjordânia e o estado de apartheid que o os israelitas não judeus vivem em Israel são crimes contra a humanidade que deviam envergonhar todos os israelitas. Isso não faz dos seus inimigos uns santos nem dos seus vizinhos meras vítimas, mas cada um é culpado dos seus próprios pecados, e a conta de Israel não é pequena.

Dada a minha opinião sobre Israel e uma vez que vou publicando diferentes aspectos e detalhes desta nest blogue, recebo regularmente petições e emails para dar o meu apoio a um boicote económico a Israel. Isto significa penalizar as marcas que têm fábricas em Israel ou que têm lá as suas origens. Nos habituais alvos a abater estão a Victoria's Secrets, a Hewlett Packard[1], Motorola[2].


Tirando o fim das ajudas militares, sou absolutamente contra o isolamento comercial de Israel. Tenho a certeza que isso só tornaria o problema muito pior. Sou aliás, regra geral, contra esse tipo de sanções económicas.

Olhemos para outros países que sofreram embargos nas últimas décadas e veremos que todos sofreram imensamente, mas nenhum se tornou militarmente mais fraco, menos violento com a sua população ou mais cumpridor dos direitos humanos. Regra geral, uniram-se à volta dos seus líderes e aumentaram os seus níveis de ódio pelos estrangeiros que tantos danos causaram ao país. Os civis desses países sofrem, mas as suas elites e regimes não. Um tipo de pena colectiva que causa danos em todos menos naqueles que seriam eventualmente os alvos legítimos.
Cuba... hoje!

Em Cuba, meio século de embargo americano não ajudou o regime a cair. O país é pobre, mas aprendeu a não depender do exterior, em especial depois da queda da União Soviética. Julgou-se que nessa altura não haveria futuro para Cuba, mas 25 anos depois o regime não caiu.

Na Coreia do Norte - o mais opressivo de todos os regimes à face da terra - um isolamento quase total a qualquer influência exterior tornou o país paupérrimo mas com um exército monstruoso e aparentemente bem treinado e fanático. A sua tecnologia nuclear e de mísseis é real e um perigo para a humanidade. Em tudo o resto, é pior do que a maioria dos países do terceiro mundo. Mais uma vez, um povo em sofrimento com uma elite e um poder militar capazes de causar terror na região.


Teerão (Irão)
No Irão, 35 anos de sanções e isolamento tornaram uma economia totalmente dependente do petróleo numa economia altamente diversificada. Mesmo quando invadidos pelo Iraque de Saddam Hussein numa das mais violentas guerras que o Médio Oriente já vira e onde o Iraque era apoiado pelas Monarquias do Golfo e pelo Ocidente, o regime não tremeu.

No Iraque, entre 1990 e 2003, o embargo comercial (que incluia produtos médicos e farmaceuticos) foi de tal forma violento que a UNICEF estima que meio milhão de crianças com menos de 5 anos terão morrido à conta deste. O regime, mesmo depois de perder duas guerras e de um quase total isolamento não caiu até à invasão americana de 2003.

Em todos os casos, a população sofreu, mas por si só as sanções económicas e o isolamento não alteraram o rumo político. Pelo menos para melhor. Se hoje em dia quer Israel quer a Palestina estão verdadeiramente preocupados com o que pensa a opinião pública mundial é precisamente porque ambos estão bastante dependentes dela. O isolamento só beneficiará os fanáticos de ambos os lados.

Estou aliás convencido que este problema israelo-palestiniano só se resolve quando tivermos uma combinação de dois factores: (1) absoluta dependência económica de ambos aos EUA e (2) um Presidente americano que os force a chegarem a um compromisso debaixo da ameaça directa de retenção dos fundos. Nessa altura, cada vez que um F-16 israelita atacar Gaza, os fundos ficam retidos mais um mês ou dois. Cada vez que o Hamas lançar um rocket, o dinheiro essencial para pagar os seus funcionários públicos não chega a tempo. Claro que não será fácil para um Presidente conseguir isso e manter a coragem para a fazer cumprir, mas não vejo outra solução.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Califa mostra o seu músculo

As guerras de Israel têm sempre grande atenção mediática. Alguns acreditam que isso acontece porque muita gente é anti-semita e/ou islamofóbica mas, para ser sincero, acho que isso representa uma pequena parte da população mundial. O conflito israelo-árabe é um assunto que tem tudo para captar a atenção de todo o globo. Uma história de David e Golias, onde o judeu já não é David. O último capítulo do colonialismo europeu no mundo árabe. Os lugares santos das três grandes religiões monoteístas do mundo e o berço de duas delas. Só por si, isto é suficiente para que metade do mundo sinta todo o conflito como algo muito próximo.

Mas, por muito que desgostemos do Hamas e da actuação do governo israelita, a verdade é que existem personagens muito piores no Médio Oriente.


O ISIL utiliza equipamento americano
capturado ao exército iraquiano
De longe, a mais assustadora figura do Médio Oriente actual é Abu Bakr  Al Bagdadi, líder do Califado Islâmico (também conhecido por Estado Islâmico, IS, ISIS ou ISIL). Neste momento controla um terço do Iraque e um terço da Síria. As suas conquistas continuaram no último mês e continua a montar um país à sua imagem e semelhança. Chegam-nos rumores de massacres, centenas de milhares de cristãos e shiitas em fuga e os Peshmerga, as forças armadas do quase-estado Curdistão, a terem que recuar em muitas posições. 

Durante o dia de hoje, o presidente americano Barack Obama anunciou que
Milhares de cristãos fogem para Erbil
depois de lhes ser dada as opções
de se converterem, fugirem ou serem mortos.
utilizaria a aviação para bombardear os movimentos de tropas do ISIL se colocassem em risco os interesses americanos, destacando nesses a embaixada em Bagdad e o consulado em Erbil (capital do Curdistão que fica a 80km de Mosul, a segunda maior cidade iraquiana e que está nas mãos do ISIL).

Quer o governo curdo quer o governo iraquiano têm noção do perigo que correm. Ontem o Primeiro-Ministro iraquiano, Nouri Al Maliki autorizou a aviação iraquiana a ajudar as tropas curdas. Depois de uma década de costas voltadas, talvez seja o ISIL que vai conseguir unir novamente um Iraque que tem tudo para ser desfeito em três países diferentes.

Para mim, o mais estranho de Abu Bakr e seu gangue é que duvido seriamente que tenham um apoio popular real e em larga escala. E a longo prazo, não é possível manter um exército onde grande parte da força é formada por amigos de ocasião, que querem ver Al Maliki cair mas que em nada se revêm nas posições talibans do Estado Islâmico. E, se é verdade que algumas destas conquistas renderam muito dinheiro - só no banco central de Mosul levaram cerca de 500 milhões de dólares - este grupo teve que ser sustentado financeiramente por alguém exterior durante muito tempo. Esses, devem estar hoje preocupados com o monstro que ajudaram a criar... 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Rebranding terrorista

Esta manhã, a organização terrorista Islamic State of Iraq and Levant (ISIL), declarou que o seu nome será, a partir de hoje, simplesmente de Islamic State. Este movimento é interessante. Aliás, toda a declaração feita hoje está repleta de aspectos curiosos e que, considero, devem ser vistos com algum cuidado.

I) Confusão entre ISIL e ISIS

A organização tinha vários nomes, e depois de traduzida, ainda mais. Os vários media internacionais utilizavam indistintamente as iniciais ISIL (Islamic State of Iraq and Levant) ou ISIS (Islamic State of Iraq and Syria). Noutros casos as inicias árabes eram utilizadas, ou seja, Da'Ish ou DAISH.

Numa empresa privada, este confusão de identidades seria considerada grave e motivo suficiente para um rebranding ou por uma campanha de marketing no sentido de clarificar o nome na mente dos consumidores e outros stakeholders. Pelos vistos, para uma organização paramilitar, a importância mantém-se.

A partir de agora, passa a ser unicamente "Islamic State" ou IS.

II) Definição de fronteiras

Como parte da mesma declaração, o IS define as fronteiras actuais do seu "império". Desde Allepo (Síria) até Dyala (Iraque), uma zona predominantemente sunita e debaixo do controlo destes. No entanto, ao retirar a limitação geográfica do seu nome, o Islamic State passa a querer colocar-se como descendente directo dos primeiros califas, que governaram o Império Islâmico logo após a morte do profeta em 632 DC. Ao fazê-lo, devemos assumir que nenhuma fronteira actual deverá ser tida em conta e que a sua agenda está claramente a um nível religioso e nacionalista muito acima das fronteiras definidas por Sykes e Picot há 96 anos atrás. Isto certamente causará muitos calafrios nos estados circundantes, em especial no Líbano e na Jordânia.

III) Título de Califa


Abu Bakr Al Bagdadi
Acrescenta-se ainda que o seu líder, Abu Bakr Al Bagdadi assume o título de Califa e é apresentado como "o Sheikh, o lutador, o académico que pratica o que ensina, o devoto, o líder, o guerreiro, o renovador, o descendente da família do Profeta, o servo de Deus". Bagdadi utiliza assim uma dupla legitimidade: a prática, resultado das suas conquistas; e a divina, fruto da descendência de Mohammed e do trabalho em nome de Allah.

Esta forma não é nova, e praticamente todos os monarcas do mundo islâmico reclamam essa mesma proximidade à família do fundador do Islão.

IV) Obediência absoluta

Continuando, o novo Islamic State declara que exigirá de todos os grupos armados na zona a submissão ao IS. Possivelmente um resultado de hubris, depois de tantas vitórias consecutivas, mas também uma indicação clara à Al Qaeda de quem realmente manda.

V) Construção de um país

Por fim, ao assumir o início de um Califado, o IS está a comprometer-se a construir as instituições que um estado necessita. E isto é muito diferente de gerir uma organização militar. Já tinha dado antes indicações nesse sentido (li há umas duas semanas que tinha criado uma agência de qualidade alimentar por exemplo) mas agora terão que começar a pagar salários, gerir investimentos (poços de petróleo, refinarias e oleodutos), construir estradas, organizar polícia, bombeiros e hospitais, etc. E fazer tudo isto debaixo de fogo e com um mundo inteiro absolutamente hostil. Não parece um trabalho fácil, e não me admirava que muito em breve descubram que estavam bem mais confortáveis a destruir e pilhar do que a gerir um país.  

domingo, 22 de junho de 2014

Iraque - A Trama Adensa-se

Moqtada Al Sadr
Depois de uma demonstração de enorme força do ISIL, que representava a Al Qaeda no Iraque até ter decidido que as fronteiras de Sykes-Picot não se aplicavam a eles, temos um novo (velho) player a mostrar que ainda está em jogo: Moqtada Al Sadr. Ao extremismo sunita, parece que se vai contrapor o extremismo shiita...

Mas comecemos por definir a situação actual: Primeiro, é importante definir a região em causa, e esta claramente não se pode limitar ao Iraque. O Iraque e a Síria representam neste momento um campo de batalha único. A partir do momento que o ISIL (Estado Islâmico do Iraque e Levante) começou a lutar nos dois territórios, temos uma aliança tácita estranha entre dois governos (Bashar Al Assad e Nouri Al Maliki) que têm muito menos em comum do que seria de esperar. Este inimigo comum talvez os una por uma vez, embora provavelmente Maliki não queira ver no Iraque o tipo cenário em que o seu vizinho tem vivido nos últimos anos. As forças governamentais Sírias têm (com a limitada ajuda do Hizbullah libanês, apoio militar e logístico Russo e manifesta incapacidade da comunidade internacional) conquistado terreno e controlam hoje grande parte da Síria, incluindo os portos e a maioria dos principais pontos estratégicos militares e económicos. O Free Syrian Army (a facção rebelde Síria apoiada pelos Estados Unidos da América e grande parte da comunidade internacional) praticamente desapareceu. A Frente Al Nusra (oficialmente a Al Qaeda na Síria) vem perdendo terreno quer para o Exécito de Bashar Al Assad e para o ISIL, e - finalmente - o ISIL controla uma parte considerável do leste da Síria e ocidente do Iraque. Não obstante algumas escaramuças entre o Exército Sírio e a Turquia, incidentes nos Montes Golan ocupados por Israel e ameaças veladas por parte de Obama, uma mistura de sorte, boa diplomacia e apoio Russo e Chinês conseguiram evitar o descalabro de Assad e do seu regime. Pelo contrário, quer internamente quer para o resto do mundo, começa a ser visto como um mal menor, e uma alternativa bem mais razoável do que a Al Qaeda ou o ISIL. Entretanto a maior crise de refugiados dos nossos tempos está a levar ao limite a capacidade logística, financeira e humana do Líbano e da Jordânia, que tentam a todo o custo manter-se fora desta guerra.

A vermelho: Área controlada pelo ISIL
A Amarelo: Área de actuação do ISIL
A Branco: Restante Iraque e Síria
Do outro lado da arbitrária fronteira criada nas mentes dos ministros dos negócios estrangeiros dos impérios britânicos e francês em 1916 (o famoso acordo Sykes-Picot), o ISIL, liderado pelo auto-entitulado Califa, Abu Bakr Al Bagdadi, iniciou nas últimas semanas um espectacular ataque a inúmeros pontos cruciais do Iraque. Tomou a segunda maior cidade do país, Mosul, conseguiu o controlo da maior refinaria do Iraque e a cada dia que passa novas conquistas somam-se ao território já seu. A Al Jazeera anunciava a queda de Qaim, Rawah e Anah na província de Anbar. Com estas vitórias militares, o ISIL aumenta também a sua capacidade de recrutamento. Aparentemente já terá pilhado mais de 500 milhões de dólares nos bancos de Mossul, e se tivermos em conta que controla alguns poços de petróleo no leste da Síria, ao obter também refinarias torna-se perfeitamente independente neste recurso crucial. Muitos sunitas mais seculares mas que se consideram vítimas das políticas étnicas e religiosas de Maliki assim como antigos seguidores de Saddam parecem estar aliados do ISIL, embora seja difícil acreditar que essa aliança possa durar muito tempo.

O governo iraquiano, com o apoio dos principais líderes religiosos shiitas e com a benção de Estados Unidos e Irão (the unholy alliance?) estão a recrutar dezenas de milhares de voluntários para cobrirem a defesa de Bagdad, agora a apenas umas dezenas de quilómetros da frente de combate. Os exércitos iraquianos, onde os estados unidos gastaram biliões de dólares, desfazem-se aos primeiros sinais do ISIL e vários generais foram demitidos ou desertaram.

Demonstração de força do Exército Mahdi
 a força paramilitar de Al Sadr em Junho 2014
Neste fim de semana, Moqtada Al Sadr reaparece dos escombros da antiga Saddam City (um bairro pobre shiita de Bagdad rebaptizado de Sadr City pelos Americanos quando invadiram o país em 2003 em honra do grande dissidente Mohammad Mohammad Sadeq Al Sadr - pai de Moqtada Al Sadr). Em fevereiro deste ano, tinha desistido da via política o que permitiu a Maliki uma vitória (um pouco mais) fácil, concentrando o voto shiita, embora até agora não tenha conseguido formar um governo de coligação.

Que Al Sadr se levante para defender a comunidade shiita das forças do ISIL, não é estranho. Mas é verdadeiramente surpreendente o número de militantes afiliados a este. Numa demonstração de força, Al Sadr fez este fim de semana desfilar dezenas de milhares de soldados, bombistas suicidas, carros armados, regimentos de bazookas pelo meio da "sua" cidade. Com milhares de veteranos da guerra contra os americanos, poderão constituir a verdadeira defesa de Bagdad. Mas se isso acontecer (e pode acontecer já nas próximas semanas) resistirá Moqtada à tentação do palácio presidencial? E conseguirá ele parar as aparentemente invencíveis forças do Islamic State of Iraque and Levante?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Islamic State of Iraq and Levant

Bandeira do ISIL
(Al Dawla Al Islamia fil Iraq wa al Sham)
Inimigos de Bashar Al Assad, Nouri al-Maliki, do Hizbullah, do Free Syrian Army e da Al Qaeda, dos Estados Unidos, da Europa e do Irão e, atrevo-me a dizer, inimigos de praticamente toda a humanidade. É difícil imaginar o que significa um grupo terrorista ser considerado pelo líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, como "too vicious"...

É impensável imaginar que o Islamic State of Iraq and Levant (ISIL ou ISIS) irão conseguir montar algum tipo de governo contra a vontade das populações locais e de praticamente todos os governos do mundo. Mas até que desapareçam, é provável que ainda tenhamos que chorar muitas vidas. 

A verdadeira pergunta é: isto é um resultado da invasão do Iraque em 2003, da retirada em 2011, do apoio dado às facções anti-Assad ou, (e também temos que colocar esta hipótese de forma séria) nenhuma das acções militares e financeiras do Ocidente tiveram qualquer impacto?

Massacre de voluntários Shiitas iraquianos
publicados em 14-06-2014


terça-feira, 22 de abril de 2014

Quem venceu a guerra do Iraque? O Irão...

Antigamente as guerras tinham ganhos claros: territórios, poder político, ouro, prata e pedras preciosas, escravos, matérias primas e tudo aquilo que o conquistador estivesse interessado. Se nas guerras medievais ou clássicas isso era óbvio, na primeira guerra mundial os efeitos das compensaçõe de guerra, e na segunda guerra mundial voltamos a ver a pilhagem de bancos centrais, roubo de matérias primas e até o uso de escravos por parte das forças do Eixo.

Mas tudo mudou com a guerra fria. As guerras passaram a ser guerras de desgaste, sem derrotados claros e onde as principais potências acabavam por desistir ao fim de uns penosos anos de sangramento de parte a parte. Os conquistados tipicamente sofriam muitíssimo mais, mas no final levavam a melhor. Coreia, Vietnam, Afeganistão, Iraque... Constantemente os invasores acabaram por desistir de continuar e constantemente chegaram ao final a lamber feridas e a ter que pagar os custos da guerra. 

A invasão do Iraque em 2003 é um inequívoco crime contra a humanidade. Baseado em mentiras e deturpações, uma coligação de países no qual Portugal foi orgulhoso subscritor e liderados pelos Estados Unidos da América, esta invasão tinha pelo menos a vantagem de que os países do Ocidente deixariam um regime amigável (alguns dos nossos líderes prometiam até que seria democrático e um modelo para a região) e que ficariam com acesso previligiado a algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Ao contrário de muitos outros países, o Iraque tem os recursos naturais para pagar o seu próprio processo de criação de state institutions e reconstrução física do país.

O resultado, no entanto, não foi esse. Hoje temos uma democracia com enormes tiques ditatoriais, dominada pela maioria Shiia, amigável do Irão e que até está neste momento a comercializar armamento ao Irão[1][2]. Os ataques terroristas e a violência entre comunidades não abranda e o Iraque é hoje, a todos os níveis, um estado falhado. Mission Accomplished? Parece mentira não é? Mas quem ganhou a guerra de 2003 foi quem nunca precisou de colocar lá um soldado: o Irão.

Não que fosse novidade, mas não deixa de ser interessante. E certamente nada traz de positivo para o mundo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Palestinian Refugees: From the Frying Pan into the Fire

Fonte: Uprooted Palestinians

Forced to flee, denied entry to Arab countries, and unable to return to their homeland, former Palestinian residents of Iraq are on the Iraqi-Syrian border, still waiting for somewhere to go.

The appeal arrived via Facebook. It was like a message in a bottle thrown into the sea with little hope. The sender said he was living in a camp on the Iraqi-Syrian border along with some 200 other Palestinian refugees. They had been left stranded on the dangerous frontier between a country that is facing a combined civil war and foreign onslaught, and another that has been occupied and now persecutes them as “Saddam remnants.”

The place is called al-Hol camp. The Palestinian embassy in Lebanon said it knew nothing about these Palestinians. UNRWA said they were not registered with it. How come?

We contacted the young man, named Firas Saidam, to ask. A few days later – the web in Syria is not in good shape – we succeeded. He replied that after Israel occupied Palestine in 1948, the Iraqi government undertook to care for Palestinians in its territory, in return for not contributing to UNRWA.
And so it was.

In the 1970s, after the Baath party came power, the Palestinians were accommodated at public expense in state-owned housing in the al-Baladiyat district and some other parts of Baghdad. But after Iraq was subjected to sanctions in 1990, Firas explained, living conditions worsened badly for Iraqis. Yet Saddam continued to boast of his support for the Palestinians, publicly pledging in 2002, for example, to donate one billion euros to Palestine, at a time when Iraqis were going hungry. “People became very poor,” he said, “and so they started hating us.”

Then came the American occupation, followed by anarchy and the outbreak of sectarian violence, especially after the bombing of Shia shrines. “The Palestinians were in trouble twice over. They were Sunni, and they were ‘Saddam’s pets.’ Either way, we had to escape,” he said.

Did they flee in fear, or actually face reprisals? He sighed and replied: “My dear, out of the two hundred people currently here, 90 percent have had relatives kidnapped or killed.”

Three refugee camps were initially established on the Iraqi-Syrian border: Al-Waleed camp on the Iraqi side; al-Tanf camp in the no-man’s land in between the two countries’ territories, and al-Hol some ten kilometers inside Syria and 50 kilometers east of the town of al-Hasaka.

“We are the left-over people from al-Tanf,” said Firas. He was referring to the closure of the al-Tanf camp by the UN High Commissioner for Refugees (UNHCR) in early 2010, after it arranged for the resettlement of most of the inhabitants to third countries. Others were moved to al-Hol, where 215 people remain today, including around 100 who have no solution to their cases in sight, according to Firas.

As Firas and fellow Palestinian refugees in Iraq were not placed under UNRWA’s jurisdiction in 1948, they are being dealt with by UNHCR. It provides refugees with one of three possible solutions: return to the country they came from, settlement in the host country, or resettlement in a third. Many of the displaced Palestinians in the border camps opted for the third option after 2006, when the Arab League signed an agreement with UNHCR stating that this would not prejudice their right of return to Palestine. But according to Firas, the resettlement program was discontinued when there were only some 200 cases left to process, due to a change of priorities at UNHCR.

What about returning to Iraq? “That would be impossible,” Firas said. “We heard news just a couple of days ago that they were still raiding our homes in al-Baladiyat and other areas ... Our lives are still in danger there. We cannot.”

How about settling in Syria? “We are grateful to the Syrians for hosting us for seven years even though they were not obliged to,” he said. “But Syria in its current state is not a solution.” Al-Hol camp is adjacent to a Syrian army base that recently came under attack from gunmen (on the night of April 28). Residents are in real danger, and living conditions are poor, with plastic sheets used as roofing. They feel abandoned by UNHCR.

According to Firas, the Commission only began paying serious attention to the plight of the refugees at al-Hol after they staged a strike in 2008. Resettlement then began to places like Canada, Australia and Sweden – as no nearer country was prepared to take them. A handful of the al-Hol camp’s residents have been there since 2006, and are still waiting for countries to accept them.

But with the issue of the Iraqi-Palestinian refugees fading from the media and the international public eye, fewer potential host-states countries have been prepared to consider taking them in. More than two thirds of the 215 remaining at al-Hol are women and children.

UNHCR reportedly tried to promote the idea of arranging for them to be moved permanently to Damascus. But this fell through as a result of events in Syria. While it is unclear if the Commission is indeed still seeking such a solution, it is one the remaining refugees themselves strongly oppose – for legal, practical, personal reasons.

Firas charged that the UNHCR had conveyed the false impression that all the cases in the camp had been resolved. In 2010, it offered some of them a chance of going to the United States, but many turned that down because they had been detained by US forces during the occupation, and for other reasons related to immigration procedures. He said the refugees had tried to reason with UNHCR, but facing an unknown future and worsening conditions, they decided to stage an open-ended protest, possibly leading to a hunger strike.

Their principal demand is to be resettled in countries where they have relatives – mostly outside the Arab world, as the supposedly “fellow” Arab states have refused to receive them, and they cannot go back to their occupied homeland.

In the meantime, they want to be moved to a safe location outside Syria, where having already fled persecution and death in Iraq, they now face new dangers.

Their case, incidentally, has not been taken up by any Palestinian agency, official or unofficial.




Published Wednesday, June 6, 2012



sábado, 2 de junho de 2012

Hans Blix, Irão e Coreia do Norte

Hans Blix e Mohamed ElBaradei
Numa entrevista à cadeia de televisão russa Russia Today, que emite em inglês, Hans Blix, antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) comenta em dezembro de 2011 uma série de assuntos actuais relativos à proliferação nuclear, com particular destaque para o Irão e Coreia do Norte.

Já aqui escrevi anteriormente sobre o relatório da AIEA de 18 de Novembro de 2011 [1] que é bastante crítico do Irão e que foi utilizado por muitos como prova cabal de que o Irão está a produzir uma bomba nuclear. Falei de um deles, Itamar Rabinovich, em fevereiro, depois de este antigo embaixador de Israel nos Estados Unidos ter publicado um artigo no jornal "O Público" com o título "A globalização da ameaça nuclear iraniana" onde defendia que a finalização de uma bomba nuclear iraniana estaria iminente [2]. Muitos outros, quer em Israel (nomeadamente ligados ao partido Likud de Benjamin Netanyahu) quer nos Estados Unidos seguiram a mesma linha de raciocínio.

Não foi a leitura que fiz do relatório de 19 de Novembro, e pelos vistos não sou o único. Hans Blix, um diplomata sueco que dedicou grande parte das últimas décadas aos problemas nucleares do mundo é referenciado regularmente nas páginas deste blog. Entre outras missões, acompanha Mohamed ElBaradei nas missões da ONU para procurar armas de destruição massiva no Iraque em 2003 e ajudou a União Soviética no evento do desastre nuclear de Chernobyl em 1986.

Sobre este relatório, Blix afirma que continuam a não existir provas, e que as constantes ameaças feitas por Israel e Estados Unidos só conseguem piorar a situação e reafirma a necessidade de acalmar os animos em ambos os lados. Avisa ainda que o aumento contínuo da capacidade de enriquecimento de urânio por parte dos iranianos está a colocar uma pressão tremenda na diplomacia internacional e que estes deveriam ter em conta esses efeitos na normalização das relações diplomáticas entre o Irão e o mundo ocidental.

Em relação a Newt Gingrich relembra as palavras deste ex-candidato às primárias do Partido Republicano, onde ele ameaça com uma mudança de regime no Irão. Blix pergunta ironicamente, se Gingrich pretende uma mudança usando o modelo iraquiano ou o modelo afegão. Este ex-candidato já tinha mostrado anteriormente os seus vastos conhecimentos sobre o médio oriente e a sua posição sobre este quando conseguiu no espaço de semanas referir-se aos palestinianos como "um povo inventado" e depois reduzindo-os a "essa gente [os palestinianos] são terroristas"

A parte mais relevante da entrevista, na minha opinião, refere-se à necessidade de criar um "Nuclear Weapons Free Middle East", i.e. nenhum país do médio oriente ter armas nucleares. Uma solução deste tipo pode tocar um pouco nos possíveis objectivos do Irão, mas é acima de tudo uma lembrança a Israel de que ninguém se esqueceu das ogivas nucleares na sua posse. Não podem exigir aos outros que não as tenham enquanto as guardam para qualquer eventualidade. As armas nucleares israelitas são precisamente o motivo porque o Irão poderia querer ter uma(s). Para procurar um equilíbrio do estilo MAD (Mutual Assured Destruction) semelhante ao que os Estados Unidos e a União Soviética tiveram durante quase meio século. Por outro lado, se o Irão conseguisse efectivamente construir uma, todos os estados árabes do golfo iriam procurar obtê-las também, para se poderem defender de uma possível ameaça do outro lado do golfo. Esta corrida ao armamento é incrivelmente perigosa, em especial quando esta região está numa instabilidade acrescida devido à Primavera Árabe.

Blix analisa também a mudança de liderança na Coreia do Norte e realça a importância de não provocar este país num momento em que o regime se encontra particularmente agitado. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Era da Mentira

Book Review

Eleito livro internacional do ano, o prémio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei leva-nos ao interior das intrigas internacionais no mundo da proliferação nuclear. Revela um conjunto de histórias interessantes e alguns momentos muito pessoais ligados à história recente e que ainda estão bem vivos na memória de todos. Como director da Agência Internacional de Energia Atómica das Nações Unidas (AEIA), esteve directamente ligado aos esforços para controlar a proliferação nuclear militar, assim como na ajuda aos estados membros na construção de capacidade nuclear civil.

Aborda muitos temas quentes, tais como o programa nuclear iraniano, o véu de mentiras que cobriu a invasão do Iraque em 2003, a capacidade nuclear israelita, o programa clandestino da Coreia do Norte e o bazar nuclear de A. Q. Khan. Em todos eles, apercebemos-nos de como a reação da comunidade internacional se revela completamente diferente dependendo não das acções, crimes ou atropelos aos tratados, mas sim pelo nível da relação das principais potências do mundo (em particular os EUA e o Reino Unido) em relação aos prevaricadores.

Não resisti a copiar quatro parágrafos que considerei particularmente esclarecedores. Acredito não estar a infringir os direitos de autor e possivelmente até a contribuir para suscitar interesse neste livro cuja compra recomendo vivamente:

O problema mais elementar do regime de não-proliferação nuclear é, em si mesmo, um exemplo de duplo critério: a assimetria inerente, ou desigualdade, entre os que têm nuclear e os que não têm, exacerbada pela contínua dependência dos Estados que têm armas nucleares em relação a estas e a sua falta de progresso no desarmamento nuclear. Mais grave, em vez de agirem no sentido de cumprirem o seu compromisso de desarmamento, a maior parte deles modernizou o seu arsenal e continuou a desenvolver novos tipos de armas. Para países que não têm tais armas, e que não estão abrigo de acordos de protecção nuclear, como a NATO, isto reforça a percepção de a aquisição de armas nucleares é um caminho seguro para o poder e o prestígio, uma apólica de seguro contra ataques.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas também é parte do problema, em parte devido ao poder de veto dos P5, os cinco estados com armas nucleares. O dever do Conselho de Segurança é manter a paz e a segurança internacionais e responder a ameaças contra elas. Certamente nem todas as violações de um acordo de salvaguardas da AIEA são graves o suficiente para chegarem ao Conselho de Segurança. No entanto, nessas raras ocasiões, quando tais violações são encaminhadas, o Conselho deve responder apropriadamente: deve ser ágil, resoluto, enérgico quando é necessário e, acima de tudo, consistente nas suas acções.

De acordo com estes critérios, o registo das actuações do Conselho de Segurança em resposta a ameaças nucleares tem sido insondável. Em 1981, depois de Israel ter destruído o reactor iraquiano de Osirak, o Conselho de Segurança condenou o bombardeamento e também instou Israel a colocar as suas instalações nucleares ao abrigo das salvaguardas da AIEA. Israel ignorou a resolução e o Conselho de Seguranças não fez mais nada em relação ao assunto. Em 1998, depois dos testes nucleares da Índia e do Paquistão, o Conselho de Segurança condenou os testes e pediu a ambos os países que parassem o desenvolvimento de armas nucleares e de sistemas de distribuição. Quando essas resoluções foram ignoradas o Conselho voltou a recuar. No caso da Coreia do Norte, quando a Agência referiu o seu não cumprimento, em 1993, e em 2003, quando o país saiu do TNP, o Conselho não tomou nenhuma acção significativa; em vez disso, deixou que os Estados Unidos tomassem a dianteira através do Quadro Acordado, no anos 90 e, mais tarde, deixou a China liderar as Conversações a Seis.

Por outro lado, em 1990, o Conselho de Segurança impôs sanções ao Iraque que levaram a escandalosas violações dos direitos humanos de milhões de civis iraquianos e que culminaram com a guerra de 2003 sem o consentimento do Conselho. Para agravar ainda mais a situação, o Conselho de Segurança continuou a manter certas sanções contra o Iraque, anos depois da invasão de 2003, quando era claro para todos que o Iraque não tinha qualquer programa de armas nucleares. O Conselho foi incapaz de concordar em como acabar com os mandatos da UNMOVIC e da AIEA no Iraque e fechar o ficheiro das armas de destruição massiva. E, sobrecarregados pela devastação de uma guerra que nunca deveria ter ocorrido, os iraquianos foram obrigados a financiar a UNMOVIC por mais quatro anos, enquanto esta estava parada, em Nova Iorque.


Mubarak não é um ditador

Joe Biden - Vice Presidente dos EUA
A diplomacia dos bons e dos maus. os bons são sempre bons mesmo quando matam, torturam, violam e oprimem. os maus são sempre maus mesmo que não tenhamos qualquer prova.

Por exemplo, Saddam era muito mau porque tinha utilizado armas de destruição massiva em cima do seu próprio povo e porque torturava os adversários, tal como disse Tony Blair no parlamento inglês a 25 de Fevereiro de 2003 (três semanas antes do início da invasão):

(...) the tens of thousands imprisoned, tortured or executed by his barbarity every year. The innocent die every day in Iraq—victims of Saddam—and their plight, too, should be heard.

(...) To those who say we are rushing to war, I say this: we are now 12 years after Saddam was first told by the UN to disarm; nearly six months after President Bush made his speech to the UN accepting the UN route to disarmament; nearly four months on from resolution 1441; and even now, today, we are offering Saddam the prospect of voluntary disarmament through the UN. I detest his regime—I hope most people do—but even now, he could save it by complying with the UN's demand. Even now, we are prepared to go the extra step to achieve disarmament peacefully [1].

Quando as potências ocidentais invadiram o Iraque utilizando urânio empobrecido e torturando em Abu Graib, Guantánamo, Diego Garcia e outras prisões da CIA, não o fazem por serem maus. Fazem-no porque o inimigo é mau e os obriga a isso. É uma lógica retorcida (e que já agora, podia ser utilizada por ambos os lados), mas aparentemente aceite desde o mais comum dos mortais até aos grandes líderes do mundo. Curiosamente o facto de Saddam Hussein ter utilizado armas químicas e biológicas sobre os iranianos de Ayatollah Khomeini (durante a guerra Irão-Iraque nos anos 80 [2]) não é nunca dado como exemplo da vilania do ditador iraquiano. É que afinal de contas, os maus - nessa altura - eram os iranianos. O Saddam era dos bons e tinha o apoio da Arábia Saudita, dos estados do golfo e das potências ocidentais. As armas químicas utilizadas por Saddam tinham sido produzidas com o apoio da Alemanha, Itália, França, Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, Áustria, Singapura, Holanda, Egipto, Índia, Luxemburgo, Espanha e China [3]. Como se pode ver, os telhados de vidro são amplos e cobrem quase todos os cantos do mundo.

Aqui temos mais um caso que demonstra que esta hipocrisia continua viva e de boa saúde. Em plena Primavera Árabe, com um milhão de pessoas na praça Tahrir no Egipto prestes a destituirem o ditador Hosni Mubarak que durante décadas torturou e corrompeu o berço da civilização mundial, o vice presidente americano Joe Biden é alvo da seguinte pergunta:

PBS: (...) should Mubarak be seen as a ditactor?

JB: Look [haaaa....] Mubarak has been an ally of ours in a number of things. He has been very responsible on relative to geo political interest in the region... [haaaa....] [haaaa...] [haaaa...] [he...] middle east peace... [he...] [he..] [ha...] efforts... [he...] [ha...] the actions Egypt is taking relative to [ha...] [ha...] normalize relationship with [ha...] with Israel [hum...] and I... I think that [ha...] [hum...] it would be... I... I would not refer to him as a ditactor.

Obviamente Joe Biden sabe melhor do que qualquer um de nós que Mubarak era mesmo um ditador. Que a sua polícia secreta - a temida Mukhabarat - comete violações dos direitos humanos numa base diária. Que as eleições eram totalmente falsificadas. Que os oponentes políticos eram presos e torturados. Que era líder de um país totalmente corrupto e em que ele próprio era um líder desse mesmo crime organizado. Que tinha uma fortuna acumulada de dezenas de milhares de milhões de dólares que não podem ser explicados pelo salário dele enquanto presidente, etc. Mas era um ditador útil. E por isso não pode ser chamado pelo que ele é. Mesmo quando nesse preciso momento a sua polícia reprimia violentamente manifestações no Cairo, Alexandria, Suez e outros pontos do Egipto com um nível de violência quase ilimitado. 

Esta frase fez-me ainda recordar um momento extremamente infeliz de Franklin D. Roosevelt, presidente americano durante a segunda guerra mundial, que terá dito a seguinte frase sobre o ditador da Nicarágua, e aliado anti-comunista, Somoza, em 1939:

"Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch"

A única coisa que faz sentido na frase de Joe Biden é a dificuldade que ele tem em dizer tamanha mentira. Contei cada uma das hesitações e marquei-a no texto acima com os sons haaaa, he, hahum. São só 62 segundos. Vale a pena ver. E não esquecer.