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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Escolha de Inimigos - América confronta o Médio Oriente

Trago-vos hoje mais um livro sobre o Médio Oriente. E mais uma vez de um historiador britânico, embora este seja uma estreia neste blogue: Sir Lawrence Freedman, professor de Estudos de Guerra no King's College London e assessor de Tony Blair. "A Choice of Enemies, America confronts the Middle East" olha para os últimos 50 anos de diplomacia americana no Médio Oriente, do ponto de vista ocidental, i.e. dos seus interesses, medos e ambições. O livre é extremamente frio e em alguns sentidos verdadeiramente amoral, o que é sempre uma forma interessante de olhar para a história. E extremamente difícil de fazer quando nos referimos à história recente.

Se muitos dos livros que aqui trago têm o objectivo explícito de dar a conhecer ao meu público ocidental o que é o Médio Oriente, o Islão e a história deste lugar onde passei praticamente toda a última década, neste caso o livro ajuda a compreender não o Médio Oriente mas as acções dos Estados Unidos. Ao analisar com grande detalhe os processos de decisão norte americanos, o livro consegue também explicar as diferentes personalidades que lideraram a América e os impactos que cada um teve neste mundo. Desde a moralidade e religiosidade de Jimmy Carter à praticalidade de Ronald Reagan; do fim da história de George H. W. Bush até à indiferença de Bill Clinton. E, claro, o atoleiro em que todo o Médio Oriente entrou com a invasão de George W. Bush e Tony Blair (o livro foi publicado em 2008 por isso já não inclui a presidência de Barack Obama).

Se há uma crítica que lhe faço é relativa aos últimos capítulos do livro, onde Freedman parece adivinhar um futuro para o Médio Oriente que está longe de se ter realizado. Onde ele vê um definhamento do movimento islamita, um golpe de  morte na AQAP (Al Qaeda Arabian Peninsula) e na Al Qaeda Iraque (hoje Estado Islâmico / ISIS / ISIL) a realidade mostrou-nos que o seu poder só tinha por onde crescer. Também não viu a necessidade e a vontade de liberdade e democracia no Médio Oriente, que acabou dois anos depois no fim dos regimes da Tunísia, Egipto, Iémen e Líbia, para além de sérias convulsões e guerras civis em vários outros países da região, no que ficou conhecido como a "Primavera Árabe". 

Mas talvez a melhor parte do livro está na descrição das diferentes formas como as administrações americanas lidaram com a questão israelo-palestiniana. Como tentaram, sem grande sucesso, as soluções passo-a-passo (ou seja, tentanto que ambos os lados fossem ganhando a confiança um do outro através de pequenas melhorias na situação geral em termos de segurança, liberdade e representatividade) para as comprehensive solutions que procuram negociar todos os detalhes do problema, permitindo que cada um dos lados pudesse sacrificar áreas importantes por outras vitórias. No final, nunca nenhum resultou. Por muita vontade que alguns dos presidentes americanos tivessem, por muito tempo e dinheiro que investissem, quer do lado de Israel quer da Palestina, existiram sempre demasiados fundamentalistas decididos a destruir qualquer hipótese de paz. Enquanto alguns líderes lutavam pela paz, outros estavam decididos a destruí-la. E ao fim de todas estas décadas, a situação não está melhor e é apenas uma questão de tempo até vermos mais uma intifada, mais uma guerra curta de tipo corta-relva ou mais uma escalada regional generalizada.

Em qualquer caso, este é um livro verdadeiramente sério, que não exige qualquer conhecimento aprofundado prévio e que deve agradar quer a especialistas quer aos que estejam a ler sobre o assunto pela primeira vez. Mais um livro que aconselho, não tanto para compreendermos a história recente do Médio Oriente, mas mais para compreendermos o seu futuro próximo.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quem venceu a guerra do Iraque? O Irão...

Antigamente as guerras tinham ganhos claros: territórios, poder político, ouro, prata e pedras preciosas, escravos, matérias primas e tudo aquilo que o conquistador estivesse interessado. Se nas guerras medievais ou clássicas isso era óbvio, na primeira guerra mundial os efeitos das compensaçõe de guerra, e na segunda guerra mundial voltamos a ver a pilhagem de bancos centrais, roubo de matérias primas e até o uso de escravos por parte das forças do Eixo.

Mas tudo mudou com a guerra fria. As guerras passaram a ser guerras de desgaste, sem derrotados claros e onde as principais potências acabavam por desistir ao fim de uns penosos anos de sangramento de parte a parte. Os conquistados tipicamente sofriam muitíssimo mais, mas no final levavam a melhor. Coreia, Vietnam, Afeganistão, Iraque... Constantemente os invasores acabaram por desistir de continuar e constantemente chegaram ao final a lamber feridas e a ter que pagar os custos da guerra. 

A invasão do Iraque em 2003 é um inequívoco crime contra a humanidade. Baseado em mentiras e deturpações, uma coligação de países no qual Portugal foi orgulhoso subscritor e liderados pelos Estados Unidos da América, esta invasão tinha pelo menos a vantagem de que os países do Ocidente deixariam um regime amigável (alguns dos nossos líderes prometiam até que seria democrático e um modelo para a região) e que ficariam com acesso previligiado a algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Ao contrário de muitos outros países, o Iraque tem os recursos naturais para pagar o seu próprio processo de criação de state institutions e reconstrução física do país.

O resultado, no entanto, não foi esse. Hoje temos uma democracia com enormes tiques ditatoriais, dominada pela maioria Shiia, amigável do Irão e que até está neste momento a comercializar armamento ao Irão[1][2]. Os ataques terroristas e a violência entre comunidades não abranda e o Iraque é hoje, a todos os níveis, um estado falhado. Mission Accomplished? Parece mentira não é? Mas quem ganhou a guerra de 2003 foi quem nunca precisou de colocar lá um soldado: o Irão.

Não que fosse novidade, mas não deixa de ser interessante. E certamente nada traz de positivo para o mundo.

sábado, 19 de outubro de 2013

The Eleventh Day

Da autoria do jornalista da BBC Anthony Summers e da sua esposa Robbyn Swan, "The Eleventh Day - The definitive account of 9/11" é um extenso e detalhado trabalho de investigação sobre o atentado de 11 de Setembro de 2001. Este trabalho, que foi finalista do prémio Pulitzer em 2012, é de facto uma obra impressionante. Os autores trataram cada uma das pontas soltas com bastante seriedade e não aceitaram nenhum informação pelo seu valor facial.

Por um lado não se fugiram ao estudo das diversas teorias de conspiração que abundam na internet e na literatura da última década. Infelizmente muitas destas tomaram tais proporções que devem mesmo ser estudadas oficialmente de forma a que se lhes possa ser dada resposta cabal. Milhões de pessoas pelo mundo fora acreditam que o governo americano fez os atentados. Muitas outras defendem que o governo americano teria conhecimento e deixou que acontecesse. Tal como os autores, não acredito em nenhuma dessas hipóteses. Uma conspiração desse tipo exigiria um tipo de organização nunca vista. E certamente nunca visto num governo que nem sequer conseguiu plantar uma bomba no Iraque quando percebeu que afinal não havia lá nada que justificasse o ataque.

De qualquer forma, Summers e Swan correm cada um desses pontos que mais dúvidas têm causado: a inexistência de imagens do avião que bateu no Pentágono e a hipótese de ter sido um missil; a queda do avião na Pennsylvania; a forma como ambas as torres gémeas do World Trade Center ruiram e, umas horas depois, do Edifício 7. Em todas as situações em que tinha algumas dúvidas em relação à história oficial fiquei convencido (no que toca à autoria e formato do ataque).

Mas os autores estão longe de ser o que os apoiantes de Bush gostariam que fossem, e se é verdade que se opõem de forma categórica em relação às principais teorias da conspiração, por outro lado expõe de forma clara a enormidade dos erros cometidos pela administração de George W. Bush, pela do seu antecessor Bill Clinton e ainda pela absoluta incapacidade das várias organizações americanas responsáveis pela segurança do território comunicarem umas com as outras (nomeadamente a CIA, o FBI, a NSA e a FAA).

Embora ainda muita documentação esteja ainda longe dos olhares do público, também ficamos a saber como alguns dos membros da cúpula americana estavam absolutamente obcecados com questões em nada relacionadas com o ataque, em especial o Iraque. No próprio dia, Rumsfeld já procurava motivos para invadir o Iraque quando todas as informações apontavam para Bin Laden. Também percebemos que muitos serviços secretos estrangeiros avisaram que algo estava para acontecer, que Bin Laden estaria na sua origem, que seriam utilizados aviões comerciais e até datas muito aproximadas do que veio a acontecer. Egipto, Arábia Saudita, Alemanha, Jordânia e França foram alguns dos avisaram os Estados Unidos - e em alguns casos pessoalmente George W. Bush - mas foram totalmente ignorados.

Depois do ataque, todas as referências à Arábia Saudita e às provas que ligavam algumas figuras da sua família real à Al Qaeda foram removidas. Muitos dos intervenientes mentiram nos primeiros inquéritos. E, não obstante a inegável incompetência de muitos dos que deveriam estar a assegurar a defesa dos EUA, nem uma pessoa na organização militar, política ou de inteligência foi penalizada pelo sucesso dos atentados.

Um livro interessante e que aconselho. Não alegrará os que fielmente acreditam que o governo americano provocou os ataques, mas parece-me que é até ao momento a visão mais lógica, crítica e realista do que aconteceu nesse dia.