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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Para acabar com todas as guerras

Regessando à literatura da primeira guerra mundial, decidi ler "To End All Wars, A story of Loyalty and Rebellion, 1914-1918" de Adam Hoschschild. O livro é interessante, mostrando a Grande Guerra na perspectiva de um conjunto limitado de personagens, principalmente dos pacifistas, socialistas e líderes anti-guerra ingleses. Não é, por isso, muito detalhado no que toca às grandes batalhas e movimentos táticos, aos diferentes teatros de guerra e aos países mais pequenos que também entraram na guerra (Portugal não aparece uma única vez referenciado no livro).

O que mais apreciei neste livre foi o ponto de vista das suffragettes, as mulheres que lutaram pelo voto da mulher e que no final da guerra acabariam por conseguí-lo, pelos visionários que sonhavam com um mundo pós-capitalista e pós-imperialista melhor e que viram no movimento bolchevique russo uma esperança enorme. A revolução que acabou a odiável império dos Romanov levou muitos destes a mudarem-se para a Rússia nos anos que se seguiram, mas não foram poucos os que rapidamente perceberam a realidade do que significava esta ditadura do proletariado. Muitos outros, que acreditaram até ao fim, provavelmente só perceberam quando - décadas depois - as purgas stalinistas perseguiram, levaram para os Gulags e assassinaram muitos destas "influências estrangeiras" por espionagem em mais uma das suas loucas teorias da conspiração, resultado do seu (não menos insano) complexo de perseguição.

Emmeline Pankhurst 1913
Na luta pelos direitos das mulheres, talvez as histórias mais interessantes sejam as da disfuncional família Pankhurst: Mãe e quatro filhas que lutaram pelos seus direitos enquanto mulheres simultaneamente lutando também entre si e por todo o tipo de objectivos políticos completamente diferentes. Emmeline Pankhurst[1], a matriarca da família, apoiou a guerra e o mesmo Primeiro-Ministro a quem poucos anos insultava publicamente. O seu radicalismo e o apoio ao esforço de guerra ajudou a que as mulheres se tornassem uma parte crucial do esforço de guerra, em especial na sua componente industrial, o que levou ao alargamento do direito de voto às mulheres (e também a muitos homens que não tinham direito devido a não cumprirem os requisitos de propriedade). Também as suas filhas seguiram caminhos historicamente interessantes: Christabel[2] a mais velha das suas filhas, esteve exilada em França antes da guerra, apoio a entrada do Reino Unido na guerra e acaba a sua vida nos Estados Unidos encontrando a paz nas profecias da religião, acreditando na segunda vinda de Cristo. Sylvia[3], outra das suas filhas, ficou horrorizado com o apoio que a irmã mais velha e a mãe deram à guerra. Toda a vida lutou pelos direitos das mulheres e, nas décadas a seguir à guerra pela causa anti-fascista. Adela[4], que iniciou a sua carreira política ao lados das irmãs e da mãe, pelo sufrágio universal, virou para o comunismo, emigrou para a Austrália e virou depois para a extrema direita, defendendo a aproximação da Austrália ao Japão imperial na segunda guerra mundial.

Keir Hardie 1902
Também as histórias de Keir Hardie[5], fundador do que é hoje o partido Trabalhista inglês, amante da jovem Sylvia Pankhurst e profundo activista contra a guerra, nos mostra um lado emocional e desesperado dos que compreenderam que a primeira guerra mundial era um desastre de proporções inimagináveis. Morreu antes do final da guerra profundamente desgostoso do rumo que o seu país levava.

Esta obra de Adam Hoschschild é por isso muito apelativa, mostra-nos a guerra no prisma dos poucos que lutaram contra ela. Do ponto de vista das outras guerras que se lutaram em paralelo, pelos direitos das mulheres, pelos direitos dos trabalhadores, pelos direitos dos povos das colónias inglesas. Como ponto fraco, aponto apenas a dependência que continuamos a ter dos autores ingleses no âmbito da história. Temo que com tantos livros escritos pelos muitos e brilhantes historiadores ingleses, e tão poucos pelos historiadores de outros países, que a própria história acaba por ser reescrita. Que criemos uma ligação demasiado próxima às personagens que são naturalmente alvo dos britânicos e extremamente distante dos que lutaram do outro lado da barricada, ou noutros campos de batalhas mais discretos.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D - 70 anos

Não foi a maior, a mais importante ou a mais sangrenta batalha da história ou sequer da segunda guerra mundial. Mas foi um feito logístico impressionante, um passo crucial para acabar com a guerra e o momento em que a Alemanha Nazi compreendeu que, acontecesse o que acontecesse, o seu destino estava selado. Neste dia, relembramos os involuntários heróis que depois de horas enlatados dentro de pequenos barcos foram atirados contra as praias da normandia onde os esperavam poucos - mas bem armados e veteranos - soldados alemães.

Deixo aqui os links para dois livros excelentes sobre o desembarque que revi neste blog em 2012: "O Dia Mais Longo" de Cornelius Ryan e "Operação Overlord" de Max Hastings.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

As Guerras do Bacalhau

Violenta colisão entre o Navio britânico HMS Yarmouth
 e o navio islandês ICGV Thor em Março de 1976
Confesso que até há pouco tempo nunca tinha ouvido falar das Guerras do Bacalhau[1], entre a Islândia e o Reino Unido. Não sei bem o que me chamou à atenção. Talvez as saudades do bacalhau, que me parecem motivo suficiente para alguém iniciar uma guerra. Ou o facto de Portugal, como grande consumidor de bacalhau não estar envolvido. Ou por ser uma guerra entre dois países democráticos, uma raridade histórica. Se as democracias não se inibem de entrar em guerras e até de as iniciar, não é comum que o façam entre elas. Muito menos entre duas democracias estáveis como a Islândia e o Reino Unido da segunda metade do século XX.

O motivo da guerra foram os direitos de pesca nas águas à volta da Islândia. Os sucessivos aumentos da zona exclusiva islandesa, que foram subindo de 12 milhas marítimas até 200 milhas ao longo de vários anos, causaram consternação nas vilas piscatórias inglesas que dependiam desse peixe. A marinha inglesa, incomparavelmente superior à islandesa não deveria dar qualquer hipótese. No entanto ambos os lados temiam a escalada da violência e ambos jogavam com o facto de saberem que o outro também evitaria essa escalada. Teoria dos Jogos de John Nash no seu melhor.

Felizmente esta guerra não levou quaisquer vidas. Mas nem por isso deixou de ter o seu grau de violência. Os navios abalroaram-se mutuamente causando danos significativos e só por acaso não levaram umas quantas vidas. Pelo meio, a opinião pública dos dois países fazia toda a diferença, a apoio das restantes nações também.

Uma última nota para a coragem deste pequeno país, a Islândia, que não teve medo de fazer frente a uma das grandes potências do mundo. Isso é, aliás, o que voltou a fazer quando foi o primeiro dos países a cair com a crise de 2008. Concorde-se ou não com a decisão que tomaram - a de não salvar os bancos e de não assumir quaisquer dívidas desses bancos em relação ao resto do mundo - a verdade é que foi uma atitude corajosa e com um grau de risco elevadíssimo. Poderiam ter sido excluídos da comunidade internacional, a sua moeda ter deixado de ser aceite e, num país tão dependente do exterior em termos de matérias primas e outros recursos básicos, a hipótese de um desastre total era muito possível. Como em 2008, nas Guerras do Bacalhau, o país uniu-se e lutou com um só. Sem medo. E como em 2008, ganhou.








segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A senseless squalid war - Voices from Palestine 1945-1948

Estou habituado a ler muita propaganda. Normalmente não vale a pena levá-la demasiado a sério e é facilmente reconhecível a milhas. Por esse motivo, não é tão perigosa, porque só acredita nela quem já acreditava antes de a ouvir. Serve apenas como reforço de ideias pré-estabelecidas ou, se preferirmos, preconceitos no sentido exacto do termo. Para quem aprecia a história recente do Médio Oriente, ser alvo de propaganda é ainda mais comum do que o normal quando lemos história um pouco mais antiga.

Norman Rose é o autor desta brilhante obra de propaganda. Consegue alterar a história sem mentir em nenhum momento. Consegue legitimar crimes imensos apenas brincando com uma lupa. Mostrando o que lhe interessa e fazendo desaparecer da história o que é mais difícil de explicar. Atira para um canto factos indesmentíveis sem pensar duas vezes e quando a a situação é impossível de explicar utiliza uma tática bastante suja de comparar a crimes ainda piores. Uma obra que desaconselho vivamente para quem pretenda compreender o conflito Israelo-Palestiniano num só livro. Para isso outros, bem mais equilibrados e completos serão mais adequados.
David Ben Gurion

No entanto, este é o livro perfeito para quem queira perceber como é possível

alguém ser cúmplice de um dos grandes crimes do século XX e dormir descansadamente durante a noite. Como é se consegue simplificar a história o suficiente para que no final apoiemos e defendamos verdadeiros criminosos responsáveis por homicídios, violações e roubos em larga escala.

Vejamos alguns exemplos. Norman Rose dedica dezenas de páginas a Haj Amin al Husseini[1] o desacreditado Grand Mufti de Jerusalém até 1937 procurando colocá-lo como grande líder Nazi da Palestina. No relato do seu encontro com Hitler em Novembro de 1941, Norman Rose chega ao ponto de colocar sentimentos e pensamentos nas cabeças dos intervenientesl. Refere-se a um "encontro de mentes" e "claramente existia uma química entre os dois". Palavras que o autor sentiu necessidade de acrescentar ao que Haj Amin e Hitler realmente disseram. Haj Amin viveu no exílio desde 1938, passando por vários países, incluindo a Alemanha e a Itália. Depois de na Primeira Guerra Mundial os árabes se terem unido ao Reino Unido para destruir o Império Otomano, para depois verem todas as promessas ficarem por cumprir, alguém achará estranho que tenham tentado bater a outras portas? Em especial depois da Declaração de Balfour[2] e da aliança informal entre o governo britânico e as forças paramilitares judaicas do Haganah durante a revolta de 1938, estranho seria se tornassem a bater-se ao lado dos ingleses. De qualquer forma, esta obcessão por Haj Amin está longe de ser inocente. Como não é inocente o facto de até o museu do Holocausto fazer questão de falar do Mufti[3]: por todas as formas e feitios procuram que os crimes cometidos sobre os palestinianos seja transformados em retribuição. Como não é possível encontrar qualquer culpa dos palestinianos nos crimes do Holocausto, a solução passa por insinuar esse mesmo crime sem que nunca o digam.

Mas se Haj Amin teve direito a inúmeras páginas, o facto do Stern Gang[4], um dos grupos paramilitares judaicos de inspiração fascistas, ter procurado uma aliança com a Alemanha Nazi já em 1940 não mereceu mais do que uma breve referência. Aqui, Rose não sentiu qualquer necessidade de nos falar em "encontro de mentes" ou algo do género.

Para além do Stern Gang e do Haganah, existia um terceiro grupo paramilitar judaico na Palestina que se dedicou a ataques terroristas, o Irgun[5]. O seu mais espectacular ataque terrorista foi no Hotel King David, em Jerusalém (que servia como sede administrativa britânica), no dia 22 de Julho de 1946 causando 91 mortes. O autor desfaz-se em desculpas procurando criar distância entre a liderança política judaica (Ben Gurion) e o Irgun. Mas a realidade é que o ataque foi previamente aprovado pelo conselho judaico. O líder do Irgun, Menachem Begin, longe de ser afastado pela sua comunidade por este acto chegou a primeiro ministro de Israel umas décadas mais tarde.

Mas Norman Rose não se fica por aqui. Do início ao fim, o livro desculpabiliza o Império Britânico. Desde a escolha do título (retirado de uma frase de Winston Churchill, enquanto líder da oposição no pós-guerra) até à descrição dos últimos dias do Mandato, o autor procura mostrar que a culpa não foi realmente dos inlgeses, que estes não passavam de representantes da ONU que não tinham quaisquer ambições na região e procuravam apenas deixar o Levante em melhor estado do que o encontraram. Como bom exercício de propaganda, o livro procura não agredir os sentimentos do alvo da mensagem, o Ocidente.


Nakba 1948 - Refugiados fogem da Palestina
E quanto a Deir Yassin e a todos os outros massacres que deram origem à Nakba, a grande limpeza étnica da Palestina que levou centenas de milhares de muçulmanos e cristãos para fora do território, Rose ignora olimpicamente declarando que os "êxodos são normais em qualquer guerra". Aliás, em várias situações fala na questão da competência e da unidade. Resume o resultado final ao facto de um dos lados estar organizado e o outro estar sem liderança. É uma forma interessante de evitar a questão moral. É que mesmo sendo verdade, será que ele utilizaria os mesmo termos quanto ao próprio Holocausto? Consideraria ele que no conflito entre nazis e judeus, um dos lados mostrou mais liderança e organização, e que a culpa de terem existido tantas vítimas seria exclusivamente da responsabilidade da exilada liderança judaica? Certamente que não. A culpa de um homicídio é do assassino, não do irmão mais velho que não estava presente e deveria ter estado.

O que tinha tudo para ser um livro espectacular torna-se portanto num case study de propaganda política disfarçada de publicação histórica.