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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Natal em que os canhões pararam

Na noite de natal, em 1914, grupos de soldados ingleses, franceses e alemães juntaram-se nas trincheiras e beberam, cantaram e jogaram futebol juntos. Por umas horas, um inesperado (e não autorizado) cessar-fogo juntou aqueles que durante 4 anos se dedicaram a matarem-se mutuamente aos milhões.

Um segredo de estado em França e na Alemanha, noticiado no Reino Unido e considerado como traição por todos os líderes, este Natal de 1914 representou uma pequena esperança para os que advogavam um levantamento das classes proletárias contra o imperialismo de ambos os lados.

Infelizmente, o Natal não é todos os dias e em breve a matança de milhões continuou, com métodos cada vez mais mortíferos e terríveis, com armas químicas, tanques, submarinos e aviação a juntarem-se numa combinação nunca vista.

Para a história fica esta imagem, em breve centenária.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O Homicídio de Francisco Fernando

Um século passado sobre o homicídio que permitiu a tantos seguirem os seus sonhos de honra e vitória pela guerra. 4 anos depois, vários impérios desaparecidos, vários reis, imperadores e czares exilados ou assassinados, o mundo emergia dos horrores da primeira guerra mundial jurando para nunca mais, enquanto simultaneamente criava todas as condições para vinte anos depois iniciar uma guerra ainda mais destrutiva e mortal.

No dia 28 de Junho de 1914, o jovem sérvio bósnio Gavrilo Princip de 20 anos, na bela cidade de Sarajevo assassina o Arquiduque Francisco Fernando, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro e a sua esposa Sofia, Duquesa de Hohenberg. A primeira peça do dominó caira.


Francisco Fernando e sua esposa Sofia, em Sarajevo,
minutos antes do seu assassinato (28-Junho-1914)



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Para acabar com todas as guerras

Regessando à literatura da primeira guerra mundial, decidi ler "To End All Wars, A story of Loyalty and Rebellion, 1914-1918" de Adam Hoschschild. O livro é interessante, mostrando a Grande Guerra na perspectiva de um conjunto limitado de personagens, principalmente dos pacifistas, socialistas e líderes anti-guerra ingleses. Não é, por isso, muito detalhado no que toca às grandes batalhas e movimentos táticos, aos diferentes teatros de guerra e aos países mais pequenos que também entraram na guerra (Portugal não aparece uma única vez referenciado no livro).

O que mais apreciei neste livre foi o ponto de vista das suffragettes, as mulheres que lutaram pelo voto da mulher e que no final da guerra acabariam por conseguí-lo, pelos visionários que sonhavam com um mundo pós-capitalista e pós-imperialista melhor e que viram no movimento bolchevique russo uma esperança enorme. A revolução que acabou a odiável império dos Romanov levou muitos destes a mudarem-se para a Rússia nos anos que se seguiram, mas não foram poucos os que rapidamente perceberam a realidade do que significava esta ditadura do proletariado. Muitos outros, que acreditaram até ao fim, provavelmente só perceberam quando - décadas depois - as purgas stalinistas perseguiram, levaram para os Gulags e assassinaram muitos destas "influências estrangeiras" por espionagem em mais uma das suas loucas teorias da conspiração, resultado do seu (não menos insano) complexo de perseguição.

Emmeline Pankhurst 1913
Na luta pelos direitos das mulheres, talvez as histórias mais interessantes sejam as da disfuncional família Pankhurst: Mãe e quatro filhas que lutaram pelos seus direitos enquanto mulheres simultaneamente lutando também entre si e por todo o tipo de objectivos políticos completamente diferentes. Emmeline Pankhurst[1], a matriarca da família, apoiou a guerra e o mesmo Primeiro-Ministro a quem poucos anos insultava publicamente. O seu radicalismo e o apoio ao esforço de guerra ajudou a que as mulheres se tornassem uma parte crucial do esforço de guerra, em especial na sua componente industrial, o que levou ao alargamento do direito de voto às mulheres (e também a muitos homens que não tinham direito devido a não cumprirem os requisitos de propriedade). Também as suas filhas seguiram caminhos historicamente interessantes: Christabel[2] a mais velha das suas filhas, esteve exilada em França antes da guerra, apoio a entrada do Reino Unido na guerra e acaba a sua vida nos Estados Unidos encontrando a paz nas profecias da religião, acreditando na segunda vinda de Cristo. Sylvia[3], outra das suas filhas, ficou horrorizado com o apoio que a irmã mais velha e a mãe deram à guerra. Toda a vida lutou pelos direitos das mulheres e, nas décadas a seguir à guerra pela causa anti-fascista. Adela[4], que iniciou a sua carreira política ao lados das irmãs e da mãe, pelo sufrágio universal, virou para o comunismo, emigrou para a Austrália e virou depois para a extrema direita, defendendo a aproximação da Austrália ao Japão imperial na segunda guerra mundial.

Keir Hardie 1902
Também as histórias de Keir Hardie[5], fundador do que é hoje o partido Trabalhista inglês, amante da jovem Sylvia Pankhurst e profundo activista contra a guerra, nos mostra um lado emocional e desesperado dos que compreenderam que a primeira guerra mundial era um desastre de proporções inimagináveis. Morreu antes do final da guerra profundamente desgostoso do rumo que o seu país levava.

Esta obra de Adam Hoschschild é por isso muito apelativa, mostra-nos a guerra no prisma dos poucos que lutaram contra ela. Do ponto de vista das outras guerras que se lutaram em paralelo, pelos direitos das mulheres, pelos direitos dos trabalhadores, pelos direitos dos povos das colónias inglesas. Como ponto fraco, aponto apenas a dependência que continuamos a ter dos autores ingleses no âmbito da história. Temo que com tantos livros escritos pelos muitos e brilhantes historiadores ingleses, e tão poucos pelos historiadores de outros países, que a própria história acaba por ser reescrita. Que criemos uma ligação demasiado próxima às personagens que são naturalmente alvo dos britânicos e extremamente distante dos que lutaram do outro lado da barricada, ou noutros campos de batalhas mais discretos.

sábado, 25 de janeiro de 2014

10 mitos sobre a Grande Guerra

"Leões e Burros - 10 mitos sobre a Grande Guerra" é o título de um curioso artigo da BBC[1] sobre as ideias erradas que existem sobre a guerra de 1914-1918. De acordo com o historiador Dan Snow muito do que julgamos saber sobre este conflito está errado e aponta os dez maiores erros. Aqui fica uma tradução livre deste artigo. Uma vez que o simplifiquei largamente, aconselho vivamente a lerem o artigo original caso fiquem curiosos em relação a alguns dos detalhes históricos sobre as dez ideias.

Tricheiras durante a primeira guerra mundial



1. A Guerra mais sangrenta até então: Falso. Quer em valores absolutos como em percentagem da população.


2. A maioria dos soldados morreram: Falso. "Apenas" cerca de 11,5% morreram, percentagem largamente ultrapassada noutras guerras anteriores.


3. Os homens viviam em trincheiras durante anos: Falso. Tipicamente não mais 10 dias por mês e apenas 3 nas da frente.

4. As classes altas consiguiram fugir à guerra: Falso. As elites foram desproporcionalmente afectadas pela mortalidade das guerras de trincheiras. Inclusivé um filho do Primeiro Ministro inglês Herbert Asquith morreu em combate.

5. "Leões liderados por Burros": Falso. A ideia de que corajosos rapazes eram liderados por generais incompetentes do alto dos seus castelos é errada e injusta. Os tácticas e estratégias adaptaram-se muito rapidamente às tecnologias introduzidas na guerra o que obrigou todos os lados a serem - como se diz hoje - extremamente inovadores. Para além disso mais de 200 generais foram mortos, feridos ou presos o que demonstra uma proximidade muito maior do combate do que se viu nas guerras que se seguiram.

6. Quem lutou em Gallipoli foram os Australianos e os Neozelandezes: Falso. Representando uma das maiores derrotas da história da Inglaterra, não admira que tenham passado as culpas para algumas das tropas coloniais. Mas esta humilhação perante os Turcos Otamanos - entre os quais brilhou o jovem oficial Mustafa Kemal, mais tarde promovido a "Ataturk", i.e. "Pai dos Turcos"[2] - teve uma grande e determinante participação britânica, bastante maior do que a dos soldados da Oceania. Ausente do artigo original está também a intervenção de Churchill, um dos responsáveis pelo desastre[3]

7. As táticas na frente ocidental mantiveram-se alteradas durante toda a guerra: Falso. Os avanços da artilharia, lança chamas, armas químicas, tanques, aviação, rádio entre tantas outras causaram mudanças enormes que se reflectiram no dia-a-dia dos soldados na frente de combate.

8. Ninguém ganhou: Falso. Militarmente falando, as potências ocidentais ganharam claramente a guerra. No final, a acumulação de derrotas em terra e no mar causaram a revolução do povo germânico que não as aguentou mais e derrubou a monarquia.

Versailles 1919
9. O Tratado de Versailles foi demasiado duro: Falso de acordo com Dan Snow (permito-me discordar deste ponto). Segundo este historiador, o tratado retirou apenas 10% do território da Alemanha permitindo manter-se como a nação mais rica da Europa continental.

10. Toda a gente odiou a guerra: Falso. Para muitos, a guerra terá sido uma experiência boa. Aparentemente as condições de comida (em especial a carne), liberdade sexual, acesso a bebidas alcoólicas entre outras conseguiram que o moral se mantivesse elevado durante toda a guerra para os britânicos.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Centenário da Grande Guerra

Embarque das tropas do Gen. Alves Roçadas
para Angola em Outubro de 1914
Este ano celebra-se o centenário do início da Primeira Guerra Mundial. Espero ver, por toda a Europa e em quase todo o mundo um interesse acrescido por esta história de horror. Uma guerra que todos previam rápida, preparada por estrategas que estudaram cuidadosamente as táticas napoleónicas e encontraram uma realidade onde as minas terrestres, os ninhos de metralhadoras, os bunkers e as horrorosas trincheiras eram rainhas. As grandes cargas de cavalaria chegaram ao fim para serem substituidas por uma guerra altamente industrializada, com milhões de mortos, anos de guerra e um profundo redesenho do mundo. Em paralelo, a ascensão do comunismo, o aparecimento dos Estados Unidos da América como potência mundial e a ferida de morte causada aos grandes impérios do século XIX, inclusivé aos vencedores. Por fim, a semente para o que viria ser o maior de todos os conflitos da história: a segunda guerra mundial.






PS1: Chamo aqui a atenção para os ciclos de conferências que estão a ser preparadas pelo ministério da defesa e cuja agenda pode ser consultada em http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt

PS2: Certamente voltaremos a muitos dos temas da Grande Guerra. Mas relembro aqui alguns dos artigos que escrevi anteriormente que são relacionados:


Origens da Grande Guerra

O outro Holocausto

A Grande Guerra pela Civilização

A senseless squalid War


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O outro Holocausto

Umas décadas antes do holocausto que constantemente preenche as páginas dos jornais e as telas do cinema, um outro levou à morte de centenas de milhares, senão de milhões, de pessoas. Uma etnia vítima do homicídio industrial e calculado e cuja memória é constantemente esquecida pelo mundo. Inclusivé pelos descendentes dos criminosos que o fizeram, o Império Otomano. Se em alguns países, a negação do holocausto arménio é crime, na moderna Turquia a menção deste crime pode resultar em detenção, como aconteceu ao escritor alemão-turco Dogan Akhanli[1], ou em complicados processos judiciais, como foi o caso do prémio Nobel da literatura Orhan Pamuk[2].

Mas os Arménios são um povo pequeno, pouco influente e sem lóbies poderosos. Deles não dependem eleições das maiores potências do mundo. E a este povo, sobreviventes e descentes do genocídio que em breve será centenário, nunca foram pagas restituições.

A Síria, como o Líbano, a Palestina e outros países do Médio Oriente, receberam involuntariamente muitos dos refugiados durante 1915. Hoje as suas vidas voltam a estar em risco, quando a Síria atravessa uma guerra civil que será lembrada durante muito tempo. Onde as minorias religiosas parecem estar cada vez mais frágeis. E onde estes descendentes de refugiados provavelmente tornar-se-ão refugiados eles próprios.

Deixo aqui mais um artigo de Robert Fisk, no jornal britânico The Independent[3] sobre os Cristãos Arménios Sírios.


Igreja Cristã Arménia de S.Jorge em Allepo, Síria em Outubro 2012 totalmente
queimada depois de combates entre o exército Sírio e forças rebeldes. 


Nearly a century after the Armenian genocide, these people are still being slaughtered in Syria


And now, almost unmentioned in the media, their holy places are also being desecrated

Just over 30 years ago, I dug the bones and skulls of Armenian genocide victims out of a hillside above the Khabur River in Syria. They were young people – the teeth were not decayed – and they were just a few of the million-and-a-half Armenian Christians slaughtered in the first Holocaust of the 20th century, the deliberate, planned mass destruction of a people by the Ottoman Turks in 1915.
It was difficult to find these bones because the Khabur River – north of the Syrian city of Deir ez-Zour – had changed. So many were the bodies heaped in its flow that the waters moved to the east. The very river had altered its course. But Armenian friends who were with me took the remains and placed them in the crypt of the great Armenian church at Deir ez-Zour, which is dedicated to the memory of those Armenians who were killed – and shame upon the “modern” Turkish state which  still denies this Holocaust – in that industrial mass murder.

And now, almost unmentioned in the media, these ghastly killing fields have become the killing fields of a new war. Upon the bones of the dead Armenians, the Syrian conflict is being fought. And the descendants of the Armenian Christian survivors who found sanctuary in the old Syrian lands have been forced to flee again – to Lebanon, to Europe, to America. The very church in which the bones of the murdered Armenians found their supposedly final resting place has been damaged in the new war, although no one knows the culprits.

Yesterday, I called Bishop Armash Nalbandian of Damascus, who told me that while the church at Deir ez-Zour was indeed damaged, the shrine remained untouched. The church itself, he said, was less important than the memory of the Armenian genocide – and it is this memory which might be destroyed. He is right. But the church – not a very beautiful building, I have to say – is nonetheless a witness, a memorial to the Holocaust of Armenians every bit as sacred as the Yad Vashem memorial to the victims of the Jewish Holocaust in Israel. And although the Israeli state, with a shame equal to the Turks, claims that the Armenian genocide was  not a genocide, Israelis themselves use  the word Shoah – Holocaust – for the Armenian killings.

In Aleppo, an Armenian church has been vandalised by the Free Syrian Army, the “good” rebels fighting Bashar al-Assad’s regime, funded and armed by the Americans as well as the Gulf Sunni Arabs. But in Raqqa, the only regional capital to be totally captured by the opposition in Syria, Salafist fighters trashed the Armenian Catholic Church of the Martyrs and set fire to its furnishings. And – God spare us the thought – many hundreds of Turkish fighters, descendants of the same Turks who tried to destroy the Armenian race in 1915, have now joined the al-Qa’ida-affiliated fighters who attacked the Armenian church. The cross on top of the clock tower was destroyed, to be replaced by the flag of the Islamic State of Iraq and the Levant.

Nor is that all. On 11 November, when the world honoured the dead of the Great War, which did not give the Armenians the state they deserved, a mortar shell fell outside the Holy Translators Armenian National School in Damascus and two other shells fell on school buses. Hovhannes Atokanian and Vanessa Bedros, both Armenian schoolchildren, died. A day later, a bus load of Armenians travelling from Beirut to Aleppo were robbed at gunpoint. Two days later, Kevork Bogasian was killed by a mortar shell in Aleppo. The Armenian death toll in Syria is a mere 65; but I suppose we might make that 1,500,065. More than a hundred Armenians have been kidnapped. The Armenians, of course, like many other Christians in Syria, do not support the revolution against the Assad regime – although they could hardly be called Assad supporters.

Two years from now, they will commemorate the 100th anniversary of their Holocaust. I have met many survivors, all now dead. But the Turkish state, supporting the present revolution in Syria, will be memorialising its victory at Gallipoli that same year, a heroic battle in which Mustafa Kemal Ataturk saved his country from Allied occupation. Armenians also fought in that battle – in the uniform of the Turkish army, of course – but I will wager as many dollars as you want that they will not be remembered in 2015 by the Turkish state which was so soon to destroy their families.

Hitchhikers’ guide to  bad old Iran

While we all bask in the glow of happy relations with Iran, it might be well to read – in four months’ time, unless their publishers have the common sense to bring it forward – a remarkable book by Shane Bauer, Josh Fattal and Sarah Shourd. 

They – and you may not remember this – were the hitchhikers who “strayed” into Iran in 2009 from Iraqi Kurdistan. Sarah (pictured below with Shane) was released first and she called me on the phone to talk about her fiancé, Shane, and to ask if The Independent could help secure the two men’s release. We published some of Shane’s journalism – I made a point of telling the Iranian ambassador in Beirut to read it – and, with or without The Independent’s help, they were both released. I was delighted.

They had been arrested during the presidency of the lunatic Ahmadinejad, and it’s clear from their book that they were lured over the border by Iranian frontier guards. One of them eventually emailed Sarah that this was the case.

But their incarceration, their vicious solitary confinement – a form of torture if ever there was one – and their relations, not just with their fellow condemned prisoners but with their guards, is a remarkable story.

Sarah quickly worked out, back in freedom, that the US government was not their natural friend; there are some sharp words about the “peacemaker” Dennis Ross.  A good book – which I rarely say – and it’s called A Sliver of Light.  A Fisk read.

domingo, 14 de abril de 2013

Origens da Grande Guerra

Book Review


Que livro! O Coronel David Martelo analisa  a forma como as grandes potências do mundo cairam na loucura da primeira guerra mundial, então conhecida como "A Grande Guerra". É difícil descrever este livro, mas digo-vos com toda a sinceridade que fiquei várias vezes sem fôlego enquanto o lia. Como um bom filme de terror e suspense do qual sabemos que grande parte das personagens terão um fim trágico, também neste livro temos vontade de gritar aos principais actores e rogar-lhes para que corrigam o caminho.  Chegamos ao final com a sensação de que o deveríamos começar a ler novamente do início, mas tendo a consciência de que o sabor já não será o mesmo. 

Compreensivelmente, este militar de carreira consegue-nos explicar claramente os erros táticos e estratégicos cometidos pelas diversas forças armada com enorme facilidade, nomeadamente a formma como todos os lados tinham a certeza de que a guerra seria curta e de movimento, com a cavalaria a ter um papel fundamental. As recentes guerras dos Boeres, na África do Sul e a guerra Russo-Japonesa também foram olimpicamente ignoradas, sendo que estas já davam indicações de que o poder de fogo das metralhadores modernas, juntamente com a invenção das minas terrestres e do arame farpado, colocava os defesas em enorme vantagem sobre os atacantes. Também a distância e precisão do tiro tinham aumentado muitíssimo e as novas armas permitiam a sua utilização com os soldados deitados, o que mais uma vez fortalecia as defesas. Por fim a utilização de comunicações terrestres (telefone com fios, já que o sem fios era demasiado pesado para campanha e era usado apenas nos barcos) abriu o caminho para que a artilharia de longo alcance actuasse em conjunto com observadores próximos do alvo, ajudando-os a corrigir a posição. Enquanto tudo isto acontecia, a generalidade dos exércitos - em especial o que era considerado o melhor de todos, o françês - falavam apenas de honra e da importância do combate decisivo. Apoiando-se nas brilhantes teorias militares napoleónicas, considerava-se que as guerras se ganhavam quebrando o ânimo do adversário, tipicamente numa única batalha enorme e decisiva. Enquanto isso, os alemães preparavam uma estratégia de ataque com táticas de defesa, ou seja, segundo o plano Schlieffen, uma enorme manobra de envolvimento através da Bélgica (i.e. violando a neutralidade da Bélgica) procuraria fechar os exércitos franceses e ir directo a Paris. Em simultâneo, quando encontravam adversários preparavam imediatamente trincheiras, sendo que a pá (talvez a arma mais importante de toda a guerra...) fazia parte do kit standard dos soldados alemães.

Mas se na sua vertente militar e tecnológica, David Martelo é obviamente um especialista, devo admitir que fiquei surpreendido com a qualidade e profundidade da sua análise da política e diplomacia da época. É clara, bem documentada e lógica. Desde as ambições dos novos impérios da europa, como a Alemanha, a Itália e até a Sérvia com as suas ambições de unir os eslavos do sul (o que mais tarde se veio a chamar de Jugoslávia), até ao movimento esperado dos velhos impérios de manter a sua posição, tal como o Reino Unido, a Rússia czarista e o império Austro-Húngaro.

Um livro interessantíssimo, bem escrito e que não exige qualquer conhecimento prévio sobre o assunto.


Título: Origens da Grande Guerra
Subtítulo: Rumo às trincheiras. Percurso político-militar (1871-1914)
Autor: David Martelo
Editora: Edições Sílabo

PS (2013-04-19): A editora Sílabo teve a amabilidade de disponibilizar no seu site o primeiro capítulo do livro. Aqui fica o link