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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Que esperança para o Médio Oriente?

Iraque, Síria, Líbia e Iémen em guerra civil. Arábia Saudita e os seus aliados do GCC (Gulf Cooperation Council) envolvidos em cada uma destas guerras. Irão enredado com os Houthis no Iémen, com os pés no Iraque, ligado ao Hizbullah libanês (que por sua vez opera com Assad na Síria) e cada vez mais uma peça fundamental no geograficamente limitado governo shiita de Bagdad. O Estado Islâmico controla milhões de civis e territórios extensos e segue parcialmente o estilo franchising da Al Qaeda, com inúmeros grupos e grupelhos a aliarem-se à causa, desde hackers europeus, ex-Al Qaedas no Iémen, Boko Harams na Nigéria e tribos líbias e iraquianas. Em nenhum destes sítios a paz, a democracia ou os direitos humanos fizeram progressos significativos. Pelo contrário, quando algo se alterou, foi para pior.

Em Israel e na Palestina, mantém-se o status quo, com os três actores principais (governo de Israel, Fatah e Hamas) a degradarem-se e digladiarem-se numa guerra semi-fria sem fim à vista. Nada a esperar senão a continuação da divisão palestiniana e as cíclicas guerras sobre Gaza, invasões da Cisjordânia e rockets atirados sobre os civis israelitas.

No Egipto, uma junta militar ilegalizou a Irmandade Muçulmana, prendeu o Presidente da República e elegeu um novo presidente com metade da população sem representação política. As detenções são às dezenas de milhares e as penas de morte aos milhares. Com grande pena minha, a única questão que coloco é quando começará a guerra civil no Egipto. Mesmo com os biliões de dólares que lá estão a ser injectados pelos Estados Unidos, pela Europa e pelas monarquias do Golfo, não tenho grande esperança. Assim que os ventos da economia mudarem, descobriremos que os milhões que votaram em Morsi ainda lá estarão, desta vez provavelmente armados e desiludidos com qualquer tipo de processo democrático.


Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud
Na Arábia Saudita, o recém chegado Rei Salman deserdou o príncipe herdeiro e fez descer uma geração no cargo, sendo o novo príncipe Muhammad bin Nayef - seu sobrinho, e o terceiro em linha o seu próprio filho, Muhammad bin Salman. O histórico príncipe Saud al Faisal, o poderoso ministro dos negócios estrangeiros durante 40 anos, é também uma alteração radical que não pode ser desprezada. O seu nome - e o seu poder - é uma constante em todos estes livros que vamos falando neste espaço. Estas mudanças recentes ainda não estabilizaram totalmente e esperamos para ver como o país e a numerosa família real lida com a situação. Há muito pouco de bom a dizer sobre a Arábia Saudita (em especial no que toca a direitos humanos no seu próprio país), mas se existe um factor que vale a pena mencionar é a sua estabilidade. Questionam-se muitos se, envolvidos em guerras no Iémen, Síria, Iraque e Líbia - todas com poucas esperança de sucesso - e uma passagem de testemunho atabalhoada onde muitos príncipes (literalmente filhos de antigos reis) acabaram de ser atirados para segundo plano, não terá essa estabilidade chegado ao fim. Para compreendermos melhor esta última frase, devo relembrar que os últimos seis reis da Arábia Saudita eram irmãos, todos filhos do fundador do país, Abdulaziz Ibn Saud.

Alguns países têm-se conseguido manter mais ou menos fora do pior da confusão, como a Jordânia, o Líbano e a Tunísia. No entanto, os dois primeiros recebem milhões de refugiados e estão a rebentar pelas costuras sem capacidade para tamanha imigração. O Líbano, já de si uma manta de retalhos de religiões e etnias com o mais peculiar de todos os sistemas supostamente democráticos do mundo, conta agora com 25% da população vinda da Síria. Para um país que nunca conseguiu recuperar totalmente da Naqba palestiniana em 1948 e dos refugiados de 1967, não é difícil imaginar que o pior ainda está para vir. A Jordânia mantém-se na sua inesperada paz, com o apoio ocidental e paz com Israel, mas cuja liderança relativamente iluminada não deve esconder o facto de que continua a estar muito longe de ser um país livre. Mas sobreviveu ao pior e ainda não perdi a esperança neste país sem grande passado mas ao qual o futuro ainda poderá reservar um lugar interessante.


Tataouine, Tunisia
Por fim, a Tunísia, o único local realmente merecedor de verdadeira esperança para o Médio Oriente (embora tecnicamente já estejam bem longe do Médio Oriente propriamente dito). O processo democrático tem-se aprofundado, com os partidos a aceitarem a alternância e sem a habitual utilização das forças de sergurança e serviços secretos para liquidarem a oposição. O Estado Islâmico já mostrou interesse na região, mas a situação está longe de perdida. Enquanto europeu, gostava muito de ver a União Europeia a financiar tanto quanto possível o desenvolvimento do país, sempre com os direitos humanos e políticos como moeda de troca. A democracia não sobrevive se não existir progresso, ordem e liberdade (só faltou esta última na bandeira verde e amarela).

Temo que grande parte do Médio Oriente piorará muito nos próximos anos, antes de começar a melhorar. Talvez um sucesso democrático na Tunísia possa iluminar o caminho para os restantes, mais uma vez. Durante o último ano, pouco temos ouvido da Tunísia. Pas de nouvelle, bonnes nouvelles? 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Palestina e os refugiados

1948 Coluna de refugiados palestinianos
Uma das questões centrais do problema Israelo-Árabe e de uma futura solução de paz (seja ela de um ou dois estados) é do direito de regresso dos refugiados. E embora exista uma resolução da ONU (Resolução 194 de 1948[1]) que indica claramente que o direito de regresso existe, este continua a ser um dos temas que tem bloqueado muitas das conversações de paz. O grande problema é que depois de tantas guerras, de uma limpeza étnica em larga escala (em 1948[2]) e da não integração dos descendentes de refugiados nos países de acolhimento, existem hoje, segundo as Nações Unidas, mais de 5 milhões de refugiados palestinianos[3].
Ministro israelita dos Negócios Estrangeiros,
 Moshe Sharett, assina o acordo de reparações
 entre Israel e a Alemanha (RFA) em 1952

Dada a quantidade de refugiados, existe um problema claramente financeiro, ou seja, se de um momento para outro regressassem todas estes milhões de palestinianos (ou mesmo uma fracção delas) com direito a reaverem as suas terras, casas, depósitos bancários, bens ou compensações por valor semelhante, isso arruinaria imediatamente o estado de Israel e provavelmente também o da Palestina. Ou seja, é perfeitamente impraticável que tal aconteça, não obstante ser da mais elementar justiça que isso acontecesse. Aliás, o próprio estado de Israel, enquanto auto-entitulado representante de todos os judeus do mundo presentes e passados, recebeu enormes compensações da Alemanha[4] pelos crimes cometidos por esta durante a segunda guerra mundial. Nesse sentido, Israel deveria também arcar com as consequências dos seus actos de 1948 em diante.

No entanto, muitos destes refugiados não nasceram na Palestina ou em Israel. Muitos são filhos ou mesmo netos dos refugiados de 1948 ou 1967[5]. Isto causa alguma estranheza já que em muitos outros lugares do planeta existiram migrações massivas forçadas durante os anos 40 e no entanto não temos hoje um problema grave de refugiados na Ucrânia, na Alemanha ou na Polónia (só para dar alguns exemplos). Na mesma altura, durante a criação do estado de Israel, cerca de 700 mil judeus que viviam em países árabes, desde Marrocos até ao Irão são forçados também a fugir de suas casas. Uma enorme comunidade perfeitamente integrada nas sociedades desses países desde tempos ancestrais, foram subitamente considerados personas non gratas e fugiram para Israel. Marrocos, onde viviam um quarto de milhão de judeus está hoje reduzida a uns insignificantes dois mil. O Iraque, com mais de 100 mil judeus em 1948 tem hoje virtualmente zero e os únicos países que mantêm acima de dez mil judeus é a Turquia e o Irão, mas mesmo assim muito menos do que no final da segunda guerra mundial[6].

A grande diferença entre todos estes refugiados e os refugiados palestinianos está no comportamento dos países de acolhimento. E, devemos sublinhar, países anfitriãos que partilham cultura, língua, religião e história com a esmagadora maioria de pessoas desta vaga de refugiados.

Do outro lado do Jordão, a Jordânia é hoje o mais amigável dos vizinhos quer para israelitas quer para palestinianos. No entanto, nem tudo começou bem e desde a derrota de 1967, na guerra dos 6 dias, os refugiados palestinianos foram mantidos também como cidadãos de segunda. Acabou com o terrível "Setembro Negro"[7], uma guerra civil entre palestinianos e jordanos em grande parte provocada por Yasser Arafat num dos seus inúmeros erros  (e crimes) que resultaram em milhares de vítimas mortais. Muito poderia ter sido salvo se Arafat tivesse aceitado a proposta do Rei Hussein da Jordânia para servir como seu Primeiro-Ministro em 1974[8], o que teria levado à inclusão dos palestinianos como jordanos de pleno direito nessa altura. Infelizmente tal não aconteceu e acabou por fugir com as suas tropas para uma das outras concentrações de refugiados da Palestina: o Líbano.
1982 Yasser Arafat em Beirute

A norte, um Líbano que era supostamente o estado cristão maronita do Médio Oriente, via a sua frágil maioria política a desvanecer-se rapidamente para maior taxa de natalidade dos sunitas, shiitas e druzes[9][10]. O pecado original de, com o apoio da potência colonial gaulesa, terem criado um país com demasiado território e onde a os cristãos detinham mais poder político mas uma maioria demográfica muito ligeira. Desta forma, os palestinianos foram mal vistos e mantidos em guetos sem acesso aos serviços do estado (como educação ou justiça) e, durante décadas, sem terem sequer o direito de transformar as suas barracas em casas. Foram proibidas a utilização de variados materias de construção e o exército libanês mantinha este população de centenas de milhares permanentemente policiada[11][12]. Não é de estranhar que 1975 o país entrasse em guerra, precisamente entre cristãos e palestinianos (teve várias outras fases onde as várias facções regionais foram intervindo, como os sunitas, shiitas, israelitas, sírios e iranianos, para além dos Estados Unidos da América, Itália e França). Até hoje, os palestinianos nascidos no Líbano continuam a não ter passaporte libanês nem têm qualquer representação política[13].


2014 Palestinianos do campo de refugiados de Yarmouk,
perto de Damasco na Síria. (Imagem da UNRWA,
agência responsável pelos refugiados palestinianos)
Na Síria a situação era semelhante, embora os palestinianos nunca tenham conseguido criar a situação de "estado dentro de um estado", como aconteceu na Jordânia e Líbano. Hoje, muitos palestinianos nascidos na Síria estão novamente em fuga devido à selvagem guerra civil de destrói o país a cada dia que passa.
1948 Campo de Refugiados palestinianos em Gaza

Para sudoeste, numa pequena faixa de território denominada Gaza e praticamente desconhecida do mundo, viviam apenas 80 mil habitantes[14]. Em 1948 chegaram até quase 300 mil habitantes[15]. Com as vagas seguintes de refugiados e o seu crescimento demográfico natural, passa de uma pequena cidade agrícola e piscatória para um dos lugares mais populosos à face da terra. Nas tréguas que se seguiram à guerra da independência de Israel, este território ficou nas mãos do Egipto[16], mas este nunca abriu o território ao Sinai nem permitiu que fossem considerados egípcios. Para todos os efeitos, tal como os restantes vizinhos árabes, o Egipto não queria o preço de absorver a população e queria manter o estatuto de refugiado vivo assim como um problema político grave para Israel. Com a paz conseguida em 1978/1979[17] entre Menachem Begin e Anwar Sadat (respectivamente líderes de Israel e Egipto), a faixa de Gaza e a Cisjordânia deveriam ter recebido a sua autonomia[18] num período de 5 anos, mas Israel nunca permitiu que essa parte do acordo fosse honrada. Como tal Gaza, ficou progressivamente mais isolada, e cada vez mais ocupada por colonos israelitas. Mais recentemente, com a decisão de Ariel Sharon de retirar todos os colonos israelitas de Gaza em 2005[19], o pequeno território de um milhão e oitocentas mil pessoas deixa de ser um sítio isolado para o que teremos de chamar de prisão a céu aberto, com todas as suas fronteiras terrestres, marítimas e aéreas controladas por Israel, com excepção da fronteira do Sinai, em Rafat. Entre Israel e Egipto, o povo de Gaza está hoje fechado num cerco absoluto.

Ou seja, cinco milhões e meio de palestinianos espalhados pelo mundo, tratados como cidadãos de segunda em todo o lado. Muitos conseguiram ser refugiados mais do que uma vez na vida. Histórias que ouço regularmente quando encontro palestinianos que cresceram nos campos de refugiados da Jordânia ou do Líbano, depois conseguiram ir trabalhar para o Kuweit para, depois da Tempestade do Deserto[20] serem expulsos novamente. Uma história que prometo contar com mais detalhe um destes dias. Mais um tiro no pé de Yasser Arafat, depois de apoiar Saddam Hussein na sua invasão do Kuweit[21].

Que fazer? Sinceramente eu só vejo uma solução. Num acordo de paz total entre Israel, Palestina e a Liga Árabe, (1) os refugiados devem ter direito a compensações mas não ao direito de regresso. O mesmo em relação aos refugiados judeus dos países árabes; (2) todos os palestinianos nascidos nos restantes países árabes devem ganhar cidadania automática (percebo que os negociadores da Autoridade Palestiniana não queiram admitir isto porque dependem também das ofertas monetárias de antigos refugiados e muitos países árabes apoiam a causa mas querem livrar-se dos palestinianos, mas não vejo outra forma). Os Estados Unidos da América e a União Europeia, se quiserem ajudar, podem contribuir muito quer na parte diplomática quer financeira. No final, quer Israel quer Palestina, têm que ter as suas fronteiras seguras, viver em liberdade e ter acesso aberto ao mundo. A Palestina independente poderá depois permitir ou promover o regresso dos antigos refugiados à nova Palestina.

A questão dos refugiados não é a única em aberto, mas é uma das mais complexas e provavelmente uma que não tem soluções ideais. Outros assuntos, como o estatuto de Jerusalém e os colonatos na Cisjordânia terão também que ser decididos, e certamente teremos também tempo para falar sobre esse assunto em breve.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

A minha vida é uma arma

Book Review

Da autoria de Christoph Reuter e publicado em Portugal pela editora Antígona, "A minha vida é uma arma, uma história moderna dos bombistas suicidas" leva-nos ao intrigante mundo dos que dão a sua vida por causas que consideram ser maiores do que o seu instinto de sobrevivência. É também, inevitavelmente, uma história do Médio Oriente moderno e do Islão das últimas quatro décadas, mesmo que esse fenómeno não seja um exclusivo nem desta região nem desta religião.

Resolve inúmeros mitos como o grau de religiosidade dos auto proclamados mártires, focando-se sobretudo na motivação destes e nos seus resultados a curto, médio e longo prazo. Acima de tudo, considero que o grande valor do livro está na capacidade de Reuter de fazer as perguntas certas, mesmo quando incómodas. É demasiado fácil - e inútil - considerar simplesmente estas pessoas como fanáticos religiosos que procuram destruir o mundo e ir para um paraíso repleto de virgens à sua disposição. Porque motivo não existiu um único bombista suicida palestiniano desde a criação do estado de Israel (em 1948) até aos anos 80? Porque motivo os atentados não foram constantes mesmo depois de aberto o precedente? O que explica que o Irão tenha utilizado mártires a uma escala de dezenas de milhares numa só batalha contra o Iraque? Qual a relação dos Kamikazes japoneses com tudo isto? Como é que a extremistas religiosos muçulmanos utilizam a via do suicídio quando este é expressamente proibido pelo Corão? Como é que a Al Qaeda (essencialmente Sunita) adquiriu esse fenómeno que era próprio da cultura sacrificial Shiita? Como é que esses métodos são depois "exportados" para o Sri Lanka ou a Tchechenia? Qual a relação entre os processos de paz e estes ataques?

Com apenas 5 bombistas suicidas, o Hizbullah conseguiu causar no início dos anos 80 mais de 500 mortes inimigas, entre americanos, franceses e israelitas. Repeliu para fora do Líbano três dos mais poderosos exércitos do mundo. Desde então, tornou-se numa máquina de propaganda que compreendeu que nenhuma missão é bem sucedida se não for filmada e mostrada ao mundo através da sua televisão Al Manar. Os seus planos de emitir em Hebraico e Inglês mostram a importância que dão a amplificar os seus feitos e causar terror nos seus inimigos.

A maioria das histórias deste livro aparecem descritas em muitos outros livros sobre o Líbano, Israel, Palestina, Irão e Iraque. No entanto, há algo diferente aqui, que é o ponto de vista. Reuter procura os traços comuns entre os vários ataque assim como aquilo que os distingue. Entrevista as famílias dos "mártires" e os sobreviventes de ataques falhados e descreve os terramotos políticos causados por estes.

Depois de acabar o livro dou comigo a pensar que, dado o sucesso militar (e terrorista) de muitos destes ataques, que nada impede que os poderemos ver em breve cometidos por pessoas de outras religiões ou sem qualquer religião. O Sri Lanka foi já um exemplo disso. Os comunistas laicos da PFLP (Popular Front for the Liberation of Palestine) também.

Não sobram muitas armas a quem luta numa situação de total desvantagem, e estes atentados são a pura essência do terrorismo moderno: a criação de terror incontrolável em países seus inimigos, conseguindo a vitória sobre potências que numa guerra convencional nunca perderiam. São métodos assustadores para todos nós que assistimos a estes conflitos de longe e ainda mais para as suas vítimas, mas não são inconsequentes nem irreflectidos.



   

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Territórios Desocupados da Palestina

Ehud Barak - Ministro da Defesa israelita
Num movimento surpreendente, Israel prepara-se para fazer uma retirada unilateral de parte dos territórios ocupados da Cisjordânia. Pelo menos, é o que nos faz crer uma afirmação de Ehud Barak, Ministro da Defesa israelita nos últimos dias [1]. Embora esta mudança de curso seja inesperada, já que a política oficial israelita dos últimos 3 anos tem sido de congelamento do processo de paz em paralelo com uma acelaração da construção de colonatos judeus no território ocupado, os seus motivos são relativamente óbvios:

Já aqui tínhamos falado anteriormente sobre essa impossibilidade lógica de Israel ser um Estado Judeu e Democrático. Se quer ser um estado judeu, então uma parte dos cidadãos terão que ter menos ou nenhuns direitos. Se quer ser um estado democrático, então todos terão que ser iguais perante a lei independentemente da religião ou etnia. Se este situação é complicada nas fronteiras aceites internacionalmente (dos cerca de oito milhões de habitantes, dois milhões são árabes), então com a inclusão dos territórios ocupados o número de árabes provavelmente excederá rapidamente o da população judaica. Isto, aos olhos dos israelitas, faz com que seja totalmente impossível imaginar uma solução de um estado binacional já que os muçulmanos e cristãos palestinianos teriam a maioria do parlamento, com a complicação acrescida dos israelitas estarem bastante mais divididos em partidos relativamente pequenos enquanto os palestinianos concentram todos os seus votos em apenas dois partidos.

Yitzahk Rabin, prémio Nobel da Paz e Primeiro Ministro de Israel até ao seu assassinato em 1995 às mãos de um extremista judeu, explicou a sua assinatura dos tratados de Oslo de uma forma semelhante. Na sua opinião, não seria possível a Israel manter a sua identidade se tivesse que governar milhões de cidadãos hostis. Ao colocar em causa o bíblico projecto de Eretz Yisrael, as forças mais conservadores do seu país moveram-se para colocar um fim à sua vida. 

Eretz Yisrael - Grande Israel
O pragmatismo demonstrado por Yitzahk Rabin nos acordos de Oslo, por Ehud Barak nos acordos (falhados) de Camp David e até por Ariel Sharon na sua retirada de Gaza vão directamente contra esse sonho de um estado israelita que se estende do Mar Vermelho até ao Golfo Pérsico [2]. Para termos noção do que historiadores como Avron Schmulevic defendem, coloco aqui um mapa do que representa esse Grande Israel. Podemos ver que partes consideráveis do Egipto, incluindo todo o Sinai, assim como da Arábia Saudita, Iraque, Síria e todo o Líbano e Síria estão incluidos nesse sonho.

Já antes Ehud Barak se tinha afastado destas ideias, e numa frase resumiu de forma brilhante a situação de Israel:

"Cada tentativa de manter estas regiões [Gaza e Cisjordânia] (...) leva necessariamente a um estado não-democrático ou a um estado não-judeu. Porque se os palestinianos votarem, isto será um estado bi-nacional, e se não votarem será um apartheid."[3]

Embora compreenda o pensamento do ministro da defesa israelita (e que poderá mesmo significar uma mudança de rumo de todo o governo dada a recente inclusão do partido Kadima no governo de coligação), tenho dúvidas se o unilateralismo será a melhor solução. O Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, acabou por ser a grande vítima da retirada unilateral de Gaza que foi transformada pelo Hamas numa vitória da sua resistência armada contra Israel. Seria provavelmente do interesse de Israel que o equilíbrio de poder na Palestina desequilibrasse para o lado Abbas e uma retirada pacífica, coordenada e acordada entre os dois conseguiria isso mesmo. Para além disso, poderia ser utilizada como um primeiro passo para a retoma do processo de negociação de paz, congelado há 3 anos. 

Um último dado será certamente a Primavera Árabe. A indefinição do futuro próximo dos seus vizinhos é certamente um risco para Israel. O Líbano está tão agitado como sempre, com um Hizbullah que mantém a sua força e acumula stocks de armamento. A Síria está em guerra civil e o resultado é uma interrogação. O Egipto poderá em breve estar totalmente controlado pela Irmandade Muçulmana. Apenas a Jordânia se mantém calma devido à mestria com que o seu monarca tem gerido a Primavera Árabe.

Solucionar a questão Israelo-Palestiniana não é só importante, mas também urgente. Por muita pouca esperança que os intervenientes tenham neste processo de paz, a bem de todos os habitantes da região nenhuma das partes tem o direito de desistir.


     

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Líbano - A Guerra de Julho 2006

Depois do Hizbullah raptar/capturar (podem escolher a palavra dependendo da vossa afiliação ideológica ou religiosa) dois soldados israelitas na fronteira entre Israel e o Líbano, Israel inicia uma invasão do Líbano e um ataque total a toda a infraestrutura do Hizbullah, assim como do governo central libanês.

Líbano, 2006
Nesta entrevista à Sky News, canal de televisão pertença do agora caído em desgraça Rupert Murdoch, o deputado inglês George Gallaway desfaz a entrevistadora que se encontrava em Jerusalém do primeiro ao último segundo. Embora não concorde com tudo o que ele diz, a verdade é que diz uma série de verdades extremamente inconvenientes sobre o sucesso do ataque (mais detalhes sobre o falhanço dos tanques Merkava podem ser vistos aqui) e sobre o facto de a entrevistadora declarar que o ataque israelita é legítimo por o Hizbullah ter recebido misseis de média distância do Irão (ao que Gallaway responde com as ogivas nucleares israelitas, que foram recentemente alvo de grande atenção depois do poema de Gunther Grass disponível aqui).

Não me lembro de ver um entrevistador levar tamanha humilhação em directo...


quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Grande Guerra pela Civilização

Book Review

Para alguém que queira comprender o imbróglio em que o Médio Oriente se encontra, não há um livro melhor do que esta obra prima de Robert Fisk. Não é um livro de história, mas também não é um livro de notícias. Fisk escreve na primeira pessoa, descreve o que sente e não se amedronta de confrontar Presidentes, Reis e Sheikhs com os seus actos. Se há conclusão que se tira deste livro, é que não devemos ter o mais pequeno respeito pelos líderes que conduziram toda a esta região a um constante estado de guerra. Desde Blair, Bush, Bin Laden, Arafat, Sharon e Hussein (os vários com este nome...) até aos arquitectos "originais" do Médio Oriente, os grandes diplomatas que dividiram esta região depois da primeira guerra mundial, Fisk não poupa um.

Iniciou a sua carreira de correspondente internacional (ou de guerra, embora ele não goste do título) na revolução portuguesa do 25 de Abril. O seu trabalho levou-o depois a Belfast, capital da Irlanda do Norte, durante uns anos (e sobre o qual escreveu dois livros) e finalmente ao Médio Oriente. 

A viver há mais de três décadas na sua adorada Beirut, este inglês viveu todos os momentos históricos recentes da região (num sentido mais lato que vai desde Marrocos às fronteiras da Índia). Atravessou o Afeganistão numa coluna militar russa durante a invasão soviética. Conversou com Bin Laden nas grutas controladas pelos Mujahedeen, assim como no Sudão. Entrevistou o Ayatollah Khomeni a seguir à revolução islâmica no Irão. Assistiu a inúmeras batalhas da guerra Irão-Iraque dos dois lados do conflito. E naturalmente cobriu a interminável guerra civil libanesa e as várias intervenções sírias e israelitas nesse país.

Umas notas sobre as poucas vezes em que o nome do nosso país aparece nas páginas dos seus livros: achei particularmente interessante a forma como confrontou Ayatollah Khomeni sobre as atrocidades que estavam a ser cometidas imediatamente a seguir à sua chegada ao poder, perguntando-lhe por que motivo a revolução iraniana não poderia seguir o caminho pacífico da revolução portuguesa. Khomeni ter-lhe-á respondido simplesmente "O Irão não é Portugal". Olhando para os últimos 30 anos, e mesmo sabendo as dificuldades porque passámos, não tenho dúvidas que seguimos o caminho certo. Khomeni não.

Numa ocasião menos feliz, Portugal fica associado aos massacres do governo argelino sobre o seu povo através do chamado "Soares Report" de 1998, a missão das Nações Unidas responsável por procurar informação sobre a situação e liderada pelo antigo Presidente português Mário Soares. Sobre esta análise (mais informação no site das Nações Unidas), Fisk é extremamente crítico já que permitiu ao governo argelino continuar a sua actuação criminosa debaixo de uma aprovação implícita da ONU disfarçada de uma guerra ao terrorismo. Fisk não poupa no entanto os grupos islâmicos que lutavam contra o governo e que têm as suas mãos igualmente manchadas de sangue.

É um daqueles livros que quando o compramos parece grande e quando acabamos parece pequeno. Robert Fisk é viciante: depois do primeiro livro, é inevitável que fiquemos todas as semanas à espera do seu próximo artigo no The Independent. E é uma questão de tempo até termos na prateleira o "Pity the Nation: Lebanon at War". Sobre este livro espero ter oportunidade de escrever também um book review em breve.

Voltando ao "A Grande Guerra pela Civilização, A Conquista do Médio Oriente" o resumo é muito simples: leiam. Se julgam que não terão tempo para o ler, experimentem ler as primeiras trinta páginas. A partir daí vai ser muito fácil inventar o tempo necessário para o ler até à última página.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Merkava - God's Chariot

Merkava (imagem retirada da internet)
Foi na estrada que fazia a longa descida até ao Mar Morto, em pleno território palestiniano que vi um tanque israelita Merkava ao vivo pela primeira vez. Carregado na parte de trás de um camião, a imagem é impressionante e só conseguimos imaginar no medo que seria o vê-lo a avançar na nossa direcção. A sua dimensão é invulgarmente grande, mesmo para um tanque moderno. Mais tarde voltei a vê-los nos enormes quarteis militares israelitas, estacionados às dezenas lado a lado e posteriormente procurei mais informação sobre aquele tanque que tanto me impressionara. Não conseguia imaginar como era possível que as forças palestinianas pudessem fazer fosse o que fosse a estes Merkava apenas munidos das suas impecavelmente limpas AK-47 e os seus uniformes novinhos em folha.

Orgulho do IDF (Israeli Defense Force), o Merkava representa a superioridade militar de Israel no Médio Oriente e não tem nenhum oponente à altura na região. Com cerca de 2000 tanques contruídos, o investimento nesta arma já terá ultrapassado os 6500 milhões dólares e é alvo de bastante controvérsia no seu país de origem sobre a utilidade do investimento e a sua - até agora - incapacidade de exportação.

Foi criado depois das desilusões da guerra de Yom Kippur de 1973 que travaram contra Egipto e Síria, onde as suas forças blindadas dependiam dos ultrapassados tanques americanos Patton e dos ingleses Centurion. O ataque egípcio atravessando o Canal de Suez para recuperar a província perdida do Sinai, destruíu centenas de tanques israelitas utilizando misseis anti-tanques e forçou Israel a repensar todas as suas estratégias militares.

Com o objectivo de manterem a sua independência territorial sem dependências a terceiros (mesmo em relação aos seus maiores aliados), decidiram criar os seu próprio modelo de tanques. O Merkava foi desenhado para que Israel nunca mais perdesse uma batalha contra os seus vizinhos, os mais óbvios sendo o Egipto e a Síria, já que o Líbano e a Jordânia têm forças armadas bastante mais débeis e sem qualquer hipótese numa uma guerra convencional contra o estado Hebraico.

Desde então, várias versões foram feitas com progressivas melhorias, e embora tenham garantido a suprioridade que procuravam, as últimas guerras em que estiveram envolvidos mostraram que não são adequados a todos as ocasiões. Os acordos de paz com o Egipto e Jordânia, reduziram em muito o seu propósito e a frente da Síria através dos Montes Golan mostraram-se mais estáveis do que poderia ser previsto nos anos 70.

Foram no entanto utilizados na Cisjordânia e Gaza onde causaram enorme destruição mas não conseguiam controlar as populações que lhes respondiam com pedras e cocktails Molotov, com igual ineficiência. Em lutas urbanas, guerrilha e contra-terrorismo a utilização de tanques provou-se não só inútil como consegue promover mais violência. Também nas várias invasões sobre o Líbano mostraram-se capazes de chegar onde queriam, mas não de manter uma ocupação ou fazer algo pelo controlo dos campos de refugiados onde tipicamente se encontravam os seus alvos.

Mas o seu grande desafio chegou em 2006, quando tiveram que combater um oponente formidável e determinado, o movimento libanês shiita Hizbullah, que respondeu aos enormes tanques com armas anti-tanques utilizadas a curtíssima distância. Táticas de guerrilha descritas brilhantemente por David Hirst no seu livro "Beware of Small States - Lebanon, Battle of the Middle East", que utilizaram não só estas armas mas túneis, bunkers e milícias bem treinadas. Não só este modern day Blitzkrieg falhou violentamente, sem que os seus objectivos fossem conseguidos (a recuperação dos soldados israelitas raptados na fronteira pelo Hizbullah), como não conseguiu impedir o contra-ataque de bombardeamentos violentos e indiscriminados contra várias cidades israelitas, incluindo Haifa.

A enorme propaganda feita por Israel sobre os seus tanques nas televisões e internet, permitiram ao Hizbullah estudar cuidadosamente o seu inimigo sem sequer precisar de fazer um esforço financeiro significativo. Cuidadosos documentários mostravam o tanque com enorme detalhe e são passados regularmente em canais como o Discovery e o History Channel.  Em 2007, a televisão Al Jazeera fez o seu próprio documentário sobre o Merkava, mostrando os seus sucessos e falhanços. Cobre toda a sua história e os principais conflitos em que teve envolvido, incluindo entrevistas com militares israelitas assim como representantes do Hizbullah (videos do documentário incluídos abaixo).

Numa altura em que uma guerra entre Israel e Irão pode estar prestes a estalar, não será surpreendente se este tanque já quase esquecido pelo mundo volte ao campo de batalha. E com a ligação religiosa, financeira e política entre Hizbullah e Irão, é previsível que um ataque de Israel ao Irão leve a novo confronto nesta longa batalha pelo sul do Líbano. 

Para bem de todos os que terão que ver um Merkava de frente, esperemos que não...




quarta-feira, 14 de março de 2012

Newt Gingrich - III Guerra Mundial

Tenho acompanhado as primárias do Partido Repúblicano americano com alguma preocupação, em especial no que toca a diplomacia a guerra. Um a um, todos vão ao beija-mão à AIPAC, o maior loby judeu nos Estados Unidos e competem para ver quem faz as mais bárbaras e parciais posições sobre o médio oriente e os seus ancestrais problemas. Os Democratas não andam muito longe disto mas o seu nível de ridículo parece ter algum limite.

Newt deixou-me de boca aberta quando se refiriu aos palestinianos com a frase "These people are terrorists" durante um debate dos candidatos republicanos (http://www.guardian.co.uk/world/2011/dec/11/newt-gingrich-palestinian-comments-criticised). Este é normalmente o prelúdio de uma guerra. A milenar frase de que a primeira vítima da guerra é a verdade poderia certamente ser acompanhada pela demonização do povo inimigo. Já o vimos inúmeras vezes: os alemães passam a ser hunos, os americanos yankees, no rwanda eram baratas e chegamos a ter o Primeiro Ministro de Israel - Menachem Begin - a referir-se aos palestinianos como two-legged beasts. Tenho a certeza de que Hitler terá utilizado termos semelhantes em relação aos judeus. E vimos como isso acabou...

Transformar os inimigos em demónios é a forma mais fácil de conseguir que os soldados disparem no momento crucial. Que assassinem civis, velhos e crianças indiscriminadamente e que possam voltar para casa no final e dormir acreditando que fizeram algo de positivo.

Quando Newt resumiu os palestinianos a terroristas (provavelmente nunca terá conhecido nenhum senão teria pelo menos que pensar nas excepções...) preparou o terreno para algo muitíssimo grave: dar carta branca aos israelitas para fazerem o que bem entenderem no médio oriente. Seja no Irão, West Bank, Gaza, Líbano, Jordânia, Egipto, Síria ou no que quer que bem entendam. Talvez eu estivesse a exagerar quando pensei nisso, mas depois encontrei um artigo escrito pelo próprio em 2006 com o título "Third World War" do mesmo e dissipei as minhas dúvidas. Aconselho a leitura completa do artigo de opinião do candidato a candidato presidencial. Aqui fica o link:

http://www.humanevents.com/article.php?id=16065

Neste artigo, a invasão de Israel ao sul do Líbano (normalmente chamada de VI Guerra Israelo-Árabe), que durou 33 dias e que resultou numa das maiores vergonhas militares da história da Israel, a história é invertida e nas suas palavras é o Hizbullah que ataca Israel. O pretexto é uma das muitas escaramuças constantes que existem entre os dois. Naturalmente, o primeiro ministro israelita Olbert já tinha a invasão pronta e esperou apenas pelo próximo incidente para a iniciar um ataque massivo sobre o Líbano. Inicialmente o ataque era só com a força aérea e os seus objectivos eram partir a espinha ao Hizbullah enquanto simultaneamente deixavam todo o país (incluindo as áreas controladas pelos seus próprios aliados Cristãos Maronitas e o Exército Libanês) de volta à idade da pedra. Destruiram 77 pontes, 900 espaços comerciais, 30.000 casas, 31 "public utilities" com estações de tratamento de esgotos e centrais de energia, 2 hospitais e inutilizaram a pista do aeroporto de Beirut (que em momento algum fora controlado pelo Hizbullah). (fonte: David Hirst "Beware of Small States"). Depois invadiram por terra onde sofreram derrotas em Bint Jbeil e Maroun al-Ras. Tudo isto enquanto os líderes ouviam tudo o que se passava no lado israelita por conseguiram descodificar os canais militares israelitas (ao estilo dos ingleses com a Enigma na II Guerra Mundial). Também os famosos tanques israelitas Merkava sofreram mais de 50 baixas às mãos de improvised explosive devices e armas anti-tanque portáteis. Tudo isto Newt ignora, transformando (mais) esta war of choice numa guerra de sobrevivência.

Depois Newt continua com a sua lógica retorcida com um capítulo com o nome "Are We For Civilization or Appeasement?", onde volta à velha história de "ou estás comigo ou contra mim", sendo que neste caso o estarmos com ele significa sermos civilizados e se estivermos pela aproximição deveremos ser certamente traidores e incivilizados.

Felizmente este senhor parece estar fora da corrida. Mas também os outros pretendentes ao trono têm tido algumas declarações interessantes sobre política internacional e diplomacia. Voltaremos a isso sem dúvida...