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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Inverno Egípcio

O Egipto tem um lugar especial no Médio Oriente. Não só pela sua história pré-clássica, mas também pela enorme influência que tem nas mentes de todos os árabes. Nos últimos séculos este país criou ou desenvolveu alguns dos pensamentos mais radicais e influentes do mundo árabe, tais como o Pan-Arabismo[1] de Gamal Abdel Nasser, a Irmandade Muçulmana[2] de Hassan al-Banna ou a Primavera Árabe (precedida neste caso pela Túnisia).

Mas não só no campo das ideias tem o Egipto liderado o mundo árabe. A sua população de 85 milhões de pessoas torna-o no mais populoso de todos os países do Médio Oriente, sendo seguido de perto apenas pelo Irão e Turquia, ambos países não-árabes e com as suas próprias línguas e sistemas políticos bastante peculiares. Dados os baixos salários na sua terra natal, encontramos egípcios a trabalhar por todo a região e cobrindo lugares de relevo nas monarquias petrolíferas do golfo, cuja rápida expansão os deixou numa constante necessidade de recursos especializados.
Cairo, 11 de Fevereiro de 2011. Festejos na Praça Tahrir.

Não é por isso de estranhar que, quando a Primavera Árabe chegou à Praça Tahrir e as manifestações de centenas de milhares de pessoas exigiram e conseguiram a queda do eterno ditador Hosni Mubarak, o mundo parou. Na altura encontrava-me na Palestina. Ninguém tirava os olhos da televisão dia e noite. Toda a gente tinha a Al Jazeera no computador para ouvir os directos enquanto trabalhava e os cafés encheram-se de improvisadas bandeirinhas do Egipto. Por todo o lado respirava-se um ar de esperança como nunca vi em todos os anos da minha vida. Os acontecimentos da Tunísia já tinham deixado toda a gente boquiaberta, mas ver o Egipto a tremer parecia um sonho para todos.

Depois de cinco mil anos de História,
 o Egipto elege democraticamente o seu chefe de estado.
2012 Mohamed Morsi
Depois de muita confusão, avanços e recuos chegaram as imprevisíveis e muito esperadas eleições presidenciais. Em 2012, Mohamed Morsi torna-se no primeiro presidente eleito na história do Egipto, apoiado pela Irmandade Muçulmana. Na realidade, muitos dos que fizeram e apoiaram a revolução na Praça Tahrir de Fevereiro de 2011 não eram conservadores islâmicos. As ínumeras entrevistas feitas na altura, a forma como receberam personalidades pró-ocidentais, o facto de não se ter visto os típicos incêndios de bandeiras israelitas ou americanas, deixam-me com a certeza de que se tratava acima de tudo de uma revolução urbana, pró-democrática e liberal[3]. Durante semanas a Irmandade Muçulmana manteve-se de parte, mas juntou-se à manifestação a tempo de ainda poder colher os frutos de quem escolhe o lado certo da História.

No entanto, o Egipto não é o Cairo, e os dois mais votado da primeira volta são o conservador islâmico - mas aparentemente democrático - Mohamed Morsi e o último Primeiro-Ministro do ditador Mubarak, Ahmed Shafik. Para quem sonhava com um regime democrático e secular, que seguisse o modelo françês ou americano, foi um rude golpe. Não é possível ter a certeza, mas pelo que fui ouvindo dos egípcios que conheço, parece-me que os liberais juntaram os seus votos à Irmandade Muçulmana para impedirem um regresso de Mubarak. O resultado final foi um vitória tangencial de Morsi com 51,73% contra 48,27% de Shafik[4].

Mas Morsi não consegue estar à altura das expectativas. Pouco democrático, começa a concentrar em si todo o poder do estado perdendo rapidamente o apoiou da ala liberal e urbana que derrubara o anterior regime e, directa ou indirectamente, o colocara no poder. As forças armadas, que tinham evitado um banho de sangue na Praça Tahrir um ano e meio antes forçando a queda de Mubarak, voltam a tomar o poder como fizeram no período de transição anterior às eleições. O seu líder, o general Abdel Fatah Al Sisi manda prender Morsi[5] e rapidamente bloqueia[6] e depois ilegaliza a Irmandade Muçulmana[7], que um ano antes juntara mais de 13 milhões de votos.
General Abdul Fatah Al Sisi,
actual Presidente do Egipto

Já em 2014, o mesmo Sisi ganha facilmente umas eleições a que o Partido Liberdade e Justiça (o braço político da Irmandade Muçulmana) é barrado. Lembrando outras famosas eleições na região, o novo Presidente Sisi atinge os 96,91% de votos[8]. Um fenómeno de popularidade que se estende bem para fora do Egipto. Grande parte das monarquias do Golfo[9][10], os Estados Unidos[11] e a Europa[12] rapidamente declaram a sua amizade e confiança no novo governo e presidente. 

Morsi, tal como Mubarak, apodrece na cadeia pelas mesmas acusações de ter causado massacres na praça Tahrir, antes de cair do poder. A ironia é que também Sisi pode um dia juntar-se aos dois anteriores chefes de estado. Segundo o Human Rights Watch, as forças de segurança egípcias mataram intencionalmente pelo menos 817 manifestantes durante o massacre da praça de Rabaa em 2013[13]. Entretanto centenas de penas de morte são decididas em processos judiciais demasiado rápidos para poderem ser honestos[14[15], tudo isto debaixo de enormes protestos de Ban Ki Moon, secretário geral das Nações Unidas[16], assim como os Estados Unidos, alguns governos europeus[17] e várias ONG's[18].

Entretanto, a televisão do Qatar, Al Jazeera vê vários dos seus jornalistas presos e condenados a longas penas de prisão sobre acusações ridículas de terrorismo que chocaram o mundo dos media[19]. Parece-me que ninguém que conheça minimamente a política do Médio Oriente acreditará que esta não é uma apenas uma pequena batalha de uma guerra fria entre a Arábia Saudita e o Qatar, de cujo resto do mundo parece ignorar.


Jornalistas de todo o mundo juntam-se à causa da libertação
 dos jornalistas da Al Jazeera: Peter Grest, Baher Mohamed and Mohamed Fahmy
Por todo o lado ouço que o Egipto está óptimo, cheio de esperança e a crescer num optimismo como há muito não se via. Por todo a região, o assunto parece estar fechado e arrumado. Mas, pergunto eu, alguém acha que se pode ilegalizar os representantes de 12 milhões de votantes, fazer 16.000 presos políticos no espaço de um ano, sentenciar penas de morte a centenas com tribunais fantoche, praticar dezenas de homicídios dentro de esquadras, torturar em larga escala[20] e continuar a ser uma democracia? O Egipto escolheu um caminho do qual dificilmente terá retorno e onde todas as opções são agora demasiado sombrías: ou o ciclo de violência se alastra com os milhões de apoiantes de Morsi a contra-atacarem, correndo até o risco de uma guerra civil; ou Sisi terá que deixar todas as pretensões de ser um presidente democrático e tornar-se num ditador com pulso de ferro.

Dizia Padmé Amidala: "Então é assim que liberdade morre... com um estrondoso aplauso"[20]. Para o Médio Oriente, essas palavras nunca foram tão verdadeiras como nos dias que correm.




terça-feira, 26 de junho de 2012

O caminho das pedras

A Praça Tahrir enche-se para celebrar a vitória de Morsi
As eleições presidenciais no Egipto entregaram o poder a Mohamed Morsi, candidato apoiado pela Irmandade Muçulmana, no entanto não existe uma constituição aprovada e para já não estão definidos os poderes do presidente egípcio. Ahmed Shafik perde por uma margem mínima e continua a ser o homem de confiança do aparelho construído por Mubarak durante décadas. Esse mesmo aparelho, em especial o SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas) continua agarrado firmemente ao poder e dissolveu o parlamento, o único orgão com alguma representatividade democrática e que poderia colocar as forças armadas no lugar deles - nos quarteis. Entretanto, Hosni Mubarak é dado como morte e logo a seguir como vivo mas em coma. Chegam-nos relatórios de que os cristãos coptas, representando cerca de 10% da população do país [1] estão aterrorizados com a hipótese de que o Egipto siga uma via teocrática ao estilo do Irão pós-revolucionário.

Falei aqui recentemente deste beco sem saída, um país sem constituição, sem parlamento, com umas forças armadas altamente politizadas e onde dezenas de milhares de pessoas têm esqueletos no armário fruto do trabalho da temida polícia secreta - Mukhabarat - durante três décadas [2].

O discurso de vitória de Morsi [3] procurou trazer alguma calma a todo o processo. Construiu uma imagem tranquila daquilo que procura fazer em termos nacionais, sem colocar de lado as minorias étnicas e religiosas, e defendendo uma via democrática clara. Em termos regionais e internacionais, pretende defender o acordo de paz com Israel assinado ainda pelo falecido presidente Anwar Sadat em 1981 (assassinado durante uma parada militar, com Mubarak sentado ao seu lado) e uma normalização das relações diplomáticas com o Irão. Este último item foi mal visto pela comunidade internacional, mas mostra a meu ver uma boa decisão em termos de política interna e procura um equilíbrio entre a influência da Arábia Saudita e outras forças regionais no país.

Morsi terá que ser extremamente habilidoso a lidar com o SCAF, procurando um apoio constante do povo egípcio. Terá que manter um equilíbrio difícil na região evitando a excessiva influência dos salafistas apoiados pela Arábia Saudita e estados do golfo pérsico. Terá que acalmar os medos israelitas que viram a vitória de Morsi como o fim de todas as esperanças de paz entre os dois países (algumas capas de jornais incluiam títulos como "Trevas no Egipto" e "O Temor tornou-se realidade). E os medos em Israel tendem a transformar-se em terror nos EUA e sangue na região.

O mais triste disto tudo é que Morsi deveria ocupar o seu tempo a tentar democratizar o país e colocá-lo no caminho do progresso económico, cultural, judicial e educacional de que tanto precisa. Mas dificilmente terá tempo para isso pois estará mais preocupado com a sua sobrevivência. Política... e física.

domingo, 3 de junho de 2012

Egipto - Um beco sem saída?

Mubarak durante a leitura da sentença
Quando achávamos que a situação do Egipto estava complicada, um novo factor se acrescenta tornando toda a situação ainda mais dramática. Nesta semana, Hosni Mubarak é considerado culpado em tribunal de primeira instância de não ter evitado o massacre ocorrido na praça Tahrir, Alexandria e outros lugares há um ano atrás, e onde morreram centenas de egípcios. A condenação, que num primeiro momento agradou todos aqueles que foram vítimas do regime, acabou com cenas de violência no tribunal, quando os seus filhos Alaa e Gamal Mubarak receberam o veredicto de inocência (não serão no entanto libertados pois estão já indiciados num crime económico relacionado subornos na venda de gas para Israel). Dezenas de milhares voltaram à famosa praça pedindo justiça, o que na opinião destes seria nada menos do que a pena de morte para Mubarak, os seus filhos e os seus ajudantes.

A contribuir para uma desconfiança total no sistema judiciário está ainda a questão de Mubarak ter sido considerado culpado apenas de não ter evitado os massacres, quando a generalidade da população acredita que ele foi o mandante. Que o seu crime não é de negligência, mas premeditado e ordenado pessoalmente.

Na realidade, todo o sistema da era Mubarak ainda se mantém de pé. A sua polícia secreta (mukhabarat), os seus tribunais, toda a economia, forças militares e polícias são as mesmas que das últimas três décadas. Não admira por isso que Mubarak não tenha ainda passado uma noite na cadeia. Todo este tempo, desde a sua detenção até hoje, foi passado num hospital de Sharm El Sheikh devido à necessidade de cuidados de saúde. Este, como seria de imaginar, torna o descrédito ainda maior.

Em paralelo, as eleições presidenciais resumem-se a apenas dois candidatos: Mohamed Morsi do Partido Liberdade e Justiça (ou seja a Irmandade Muçulmana) e Ahmed Shafik, independente, mas conotado com o regime de Mubarak e último primeiro ministro deste. Ou seja, a democracia egípcia tem apenas dois caminhos que são o de voltar atrás ou de avançar para um regime dominado na presidência e no parlamento pelos conservadores islâmicos (não utilizo o termo fundamentalista porque ainda temos os salafistas que fazem a irmandade parecer liberal).

Para todos os cristão, ateus, muçumanos moderados ou seculares, ter que fazer uma escolha destas é quase tão mau como quando não eram sequer chamados a decidir o seu líder.

O facto do ditador egípcio não ter recebido a pena de morte que todos esperavam, acrescido de nem sequer estar a ser julgado pelos crimes cometidos pelo seu regime durante três décadas, pode ser visto ainda como uma forma de ganhar tempo até que Shafik ganhe as eleições, altura em que o poderá eventualmente salvar de toda esta humilhação. O sistema é poderoso, rígido e antigo e combate a mudança - qualquer que ela seja - com todas as suas forças.

Esta história não ficará por aqui. Os militares não parecem ter qualquer vontade de entregar o poder a civis e mesmo depois das eleições poderão tentar aguentar a sua junta militar no poder até que uma constituição esteja escrita e aprovada no parlamento, o que poderá demorar algum tempo.

O maior dos sonhos do mundo árabe poderá transformar-se num pesadelo se as forças militares egípcias e a irmandade muçulmano não souberem estar à altura do momento histórico que vivem.

Enquanto olhava para as imagens de Hosni Mubarak atrás das grades, no tribunal do Cairo, lembrei-me das últimas palavras de Khalid Islambouli, o homem que assassinou o anterior presidente do Egipto, Anwar Sadat, durante uma parada militar em 1981: "Morte ao Faraó". Neste país, estas palavras têm muita força. Um Faraó é alguém que se julga Deus, que concentra em si o poder absoluto. Perguntei-me em silêncio se Mubarak teria sido o último. Ou só mais um.