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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Contra o boicote a Israel

Victoria's Secrets é uma das empresas alvo da campanha
de BDS (Boycott, divestment and sactions)
Sou extremamente crítico da governação de Israel e a forma como lida com a questão palestiniana. O cerco a Gaza, a ocupação da Cisjordânia e o estado de apartheid que o os israelitas não judeus vivem em Israel são crimes contra a humanidade que deviam envergonhar todos os israelitas. Isso não faz dos seus inimigos uns santos nem dos seus vizinhos meras vítimas, mas cada um é culpado dos seus próprios pecados, e a conta de Israel não é pequena.

Dada a minha opinião sobre Israel e uma vez que vou publicando diferentes aspectos e detalhes desta nest blogue, recebo regularmente petições e emails para dar o meu apoio a um boicote económico a Israel. Isto significa penalizar as marcas que têm fábricas em Israel ou que têm lá as suas origens. Nos habituais alvos a abater estão a Victoria's Secrets, a Hewlett Packard[1], Motorola[2].


Tirando o fim das ajudas militares, sou absolutamente contra o isolamento comercial de Israel. Tenho a certeza que isso só tornaria o problema muito pior. Sou aliás, regra geral, contra esse tipo de sanções económicas.

Olhemos para outros países que sofreram embargos nas últimas décadas e veremos que todos sofreram imensamente, mas nenhum se tornou militarmente mais fraco, menos violento com a sua população ou mais cumpridor dos direitos humanos. Regra geral, uniram-se à volta dos seus líderes e aumentaram os seus níveis de ódio pelos estrangeiros que tantos danos causaram ao país. Os civis desses países sofrem, mas as suas elites e regimes não. Um tipo de pena colectiva que causa danos em todos menos naqueles que seriam eventualmente os alvos legítimos.
Cuba... hoje!

Em Cuba, meio século de embargo americano não ajudou o regime a cair. O país é pobre, mas aprendeu a não depender do exterior, em especial depois da queda da União Soviética. Julgou-se que nessa altura não haveria futuro para Cuba, mas 25 anos depois o regime não caiu.

Na Coreia do Norte - o mais opressivo de todos os regimes à face da terra - um isolamento quase total a qualquer influência exterior tornou o país paupérrimo mas com um exército monstruoso e aparentemente bem treinado e fanático. A sua tecnologia nuclear e de mísseis é real e um perigo para a humanidade. Em tudo o resto, é pior do que a maioria dos países do terceiro mundo. Mais uma vez, um povo em sofrimento com uma elite e um poder militar capazes de causar terror na região.


Teerão (Irão)
No Irão, 35 anos de sanções e isolamento tornaram uma economia totalmente dependente do petróleo numa economia altamente diversificada. Mesmo quando invadidos pelo Iraque de Saddam Hussein numa das mais violentas guerras que o Médio Oriente já vira e onde o Iraque era apoiado pelas Monarquias do Golfo e pelo Ocidente, o regime não tremeu.

No Iraque, entre 1990 e 2003, o embargo comercial (que incluia produtos médicos e farmaceuticos) foi de tal forma violento que a UNICEF estima que meio milhão de crianças com menos de 5 anos terão morrido à conta deste. O regime, mesmo depois de perder duas guerras e de um quase total isolamento não caiu até à invasão americana de 2003.

Em todos os casos, a população sofreu, mas por si só as sanções económicas e o isolamento não alteraram o rumo político. Pelo menos para melhor. Se hoje em dia quer Israel quer a Palestina estão verdadeiramente preocupados com o que pensa a opinião pública mundial é precisamente porque ambos estão bastante dependentes dela. O isolamento só beneficiará os fanáticos de ambos os lados.

Estou aliás convencido que este problema israelo-palestiniano só se resolve quando tivermos uma combinação de dois factores: (1) absoluta dependência económica de ambos aos EUA e (2) um Presidente americano que os force a chegarem a um compromisso debaixo da ameaça directa de retenção dos fundos. Nessa altura, cada vez que um F-16 israelita atacar Gaza, os fundos ficam retidos mais um mês ou dois. Cada vez que o Hamas lançar um rocket, o dinheiro essencial para pagar os seus funcionários públicos não chega a tempo. Claro que não será fácil para um Presidente conseguir isso e manter a coragem para a fazer cumprir, mas não vejo outra solução.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quem venceu a guerra do Iraque? O Irão...

Antigamente as guerras tinham ganhos claros: territórios, poder político, ouro, prata e pedras preciosas, escravos, matérias primas e tudo aquilo que o conquistador estivesse interessado. Se nas guerras medievais ou clássicas isso era óbvio, na primeira guerra mundial os efeitos das compensaçõe de guerra, e na segunda guerra mundial voltamos a ver a pilhagem de bancos centrais, roubo de matérias primas e até o uso de escravos por parte das forças do Eixo.

Mas tudo mudou com a guerra fria. As guerras passaram a ser guerras de desgaste, sem derrotados claros e onde as principais potências acabavam por desistir ao fim de uns penosos anos de sangramento de parte a parte. Os conquistados tipicamente sofriam muitíssimo mais, mas no final levavam a melhor. Coreia, Vietnam, Afeganistão, Iraque... Constantemente os invasores acabaram por desistir de continuar e constantemente chegaram ao final a lamber feridas e a ter que pagar os custos da guerra. 

A invasão do Iraque em 2003 é um inequívoco crime contra a humanidade. Baseado em mentiras e deturpações, uma coligação de países no qual Portugal foi orgulhoso subscritor e liderados pelos Estados Unidos da América, esta invasão tinha pelo menos a vantagem de que os países do Ocidente deixariam um regime amigável (alguns dos nossos líderes prometiam até que seria democrático e um modelo para a região) e que ficariam com acesso previligiado a algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Ao contrário de muitos outros países, o Iraque tem os recursos naturais para pagar o seu próprio processo de criação de state institutions e reconstrução física do país.

O resultado, no entanto, não foi esse. Hoje temos uma democracia com enormes tiques ditatoriais, dominada pela maioria Shiia, amigável do Irão e que até está neste momento a comercializar armamento ao Irão[1][2]. Os ataques terroristas e a violência entre comunidades não abranda e o Iraque é hoje, a todos os níveis, um estado falhado. Mission Accomplished? Parece mentira não é? Mas quem ganhou a guerra de 2003 foi quem nunca precisou de colocar lá um soldado: o Irão.

Não que fosse novidade, mas não deixa de ser interessante. E certamente nada traz de positivo para o mundo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O outro Holocausto

Umas décadas antes do holocausto que constantemente preenche as páginas dos jornais e as telas do cinema, um outro levou à morte de centenas de milhares, senão de milhões, de pessoas. Uma etnia vítima do homicídio industrial e calculado e cuja memória é constantemente esquecida pelo mundo. Inclusivé pelos descendentes dos criminosos que o fizeram, o Império Otomano. Se em alguns países, a negação do holocausto arménio é crime, na moderna Turquia a menção deste crime pode resultar em detenção, como aconteceu ao escritor alemão-turco Dogan Akhanli[1], ou em complicados processos judiciais, como foi o caso do prémio Nobel da literatura Orhan Pamuk[2].

Mas os Arménios são um povo pequeno, pouco influente e sem lóbies poderosos. Deles não dependem eleições das maiores potências do mundo. E a este povo, sobreviventes e descentes do genocídio que em breve será centenário, nunca foram pagas restituições.

A Síria, como o Líbano, a Palestina e outros países do Médio Oriente, receberam involuntariamente muitos dos refugiados durante 1915. Hoje as suas vidas voltam a estar em risco, quando a Síria atravessa uma guerra civil que será lembrada durante muito tempo. Onde as minorias religiosas parecem estar cada vez mais frágeis. E onde estes descendentes de refugiados provavelmente tornar-se-ão refugiados eles próprios.

Deixo aqui mais um artigo de Robert Fisk, no jornal britânico The Independent[3] sobre os Cristãos Arménios Sírios.


Igreja Cristã Arménia de S.Jorge em Allepo, Síria em Outubro 2012 totalmente
queimada depois de combates entre o exército Sírio e forças rebeldes. 


Nearly a century after the Armenian genocide, these people are still being slaughtered in Syria


And now, almost unmentioned in the media, their holy places are also being desecrated

Just over 30 years ago, I dug the bones and skulls of Armenian genocide victims out of a hillside above the Khabur River in Syria. They were young people – the teeth were not decayed – and they were just a few of the million-and-a-half Armenian Christians slaughtered in the first Holocaust of the 20th century, the deliberate, planned mass destruction of a people by the Ottoman Turks in 1915.
It was difficult to find these bones because the Khabur River – north of the Syrian city of Deir ez-Zour – had changed. So many were the bodies heaped in its flow that the waters moved to the east. The very river had altered its course. But Armenian friends who were with me took the remains and placed them in the crypt of the great Armenian church at Deir ez-Zour, which is dedicated to the memory of those Armenians who were killed – and shame upon the “modern” Turkish state which  still denies this Holocaust – in that industrial mass murder.

And now, almost unmentioned in the media, these ghastly killing fields have become the killing fields of a new war. Upon the bones of the dead Armenians, the Syrian conflict is being fought. And the descendants of the Armenian Christian survivors who found sanctuary in the old Syrian lands have been forced to flee again – to Lebanon, to Europe, to America. The very church in which the bones of the murdered Armenians found their supposedly final resting place has been damaged in the new war, although no one knows the culprits.

Yesterday, I called Bishop Armash Nalbandian of Damascus, who told me that while the church at Deir ez-Zour was indeed damaged, the shrine remained untouched. The church itself, he said, was less important than the memory of the Armenian genocide – and it is this memory which might be destroyed. He is right. But the church – not a very beautiful building, I have to say – is nonetheless a witness, a memorial to the Holocaust of Armenians every bit as sacred as the Yad Vashem memorial to the victims of the Jewish Holocaust in Israel. And although the Israeli state, with a shame equal to the Turks, claims that the Armenian genocide was  not a genocide, Israelis themselves use  the word Shoah – Holocaust – for the Armenian killings.

In Aleppo, an Armenian church has been vandalised by the Free Syrian Army, the “good” rebels fighting Bashar al-Assad’s regime, funded and armed by the Americans as well as the Gulf Sunni Arabs. But in Raqqa, the only regional capital to be totally captured by the opposition in Syria, Salafist fighters trashed the Armenian Catholic Church of the Martyrs and set fire to its furnishings. And – God spare us the thought – many hundreds of Turkish fighters, descendants of the same Turks who tried to destroy the Armenian race in 1915, have now joined the al-Qa’ida-affiliated fighters who attacked the Armenian church. The cross on top of the clock tower was destroyed, to be replaced by the flag of the Islamic State of Iraq and the Levant.

Nor is that all. On 11 November, when the world honoured the dead of the Great War, which did not give the Armenians the state they deserved, a mortar shell fell outside the Holy Translators Armenian National School in Damascus and two other shells fell on school buses. Hovhannes Atokanian and Vanessa Bedros, both Armenian schoolchildren, died. A day later, a bus load of Armenians travelling from Beirut to Aleppo were robbed at gunpoint. Two days later, Kevork Bogasian was killed by a mortar shell in Aleppo. The Armenian death toll in Syria is a mere 65; but I suppose we might make that 1,500,065. More than a hundred Armenians have been kidnapped. The Armenians, of course, like many other Christians in Syria, do not support the revolution against the Assad regime – although they could hardly be called Assad supporters.

Two years from now, they will commemorate the 100th anniversary of their Holocaust. I have met many survivors, all now dead. But the Turkish state, supporting the present revolution in Syria, will be memorialising its victory at Gallipoli that same year, a heroic battle in which Mustafa Kemal Ataturk saved his country from Allied occupation. Armenians also fought in that battle – in the uniform of the Turkish army, of course – but I will wager as many dollars as you want that they will not be remembered in 2015 by the Turkish state which was so soon to destroy their families.

Hitchhikers’ guide to  bad old Iran

While we all bask in the glow of happy relations with Iran, it might be well to read – in four months’ time, unless their publishers have the common sense to bring it forward – a remarkable book by Shane Bauer, Josh Fattal and Sarah Shourd. 

They – and you may not remember this – were the hitchhikers who “strayed” into Iran in 2009 from Iraqi Kurdistan. Sarah (pictured below with Shane) was released first and she called me on the phone to talk about her fiancé, Shane, and to ask if The Independent could help secure the two men’s release. We published some of Shane’s journalism – I made a point of telling the Iranian ambassador in Beirut to read it – and, with or without The Independent’s help, they were both released. I was delighted.

They had been arrested during the presidency of the lunatic Ahmadinejad, and it’s clear from their book that they were lured over the border by Iranian frontier guards. One of them eventually emailed Sarah that this was the case.

But their incarceration, their vicious solitary confinement – a form of torture if ever there was one – and their relations, not just with their fellow condemned prisoners but with their guards, is a remarkable story.

Sarah quickly worked out, back in freedom, that the US government was not their natural friend; there are some sharp words about the “peacemaker” Dennis Ross.  A good book – which I rarely say – and it’s called A Sliver of Light.  A Fisk read.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Farahani - Iraniana e corajosa

Golshifteh Farahani - actriz iraniana exilada em Paris
Durante os meus anos tive oportunidade de conhecer bastantes iranianos. Naturalmente não os suficientes para conhecer o pulsar daquele povo, mas o suficiente para pelo menos colocar em causa as ideias pré-concebidas que trazia comigo. 

A maioria dos que conheci não eram distinguíveis dos europeus. A forma de vestir dos homens era perfeitamente ocidental. Em relação às mulheres tinham, regra geral um ar de italianas. Bem vestidas vaidosas e nada parecidas com as árabes. Num ou noutro caso usavam lenço a tapar o cabelo, mas normalmente nem isso. 

Body of Lies, realizado por Ridley Scott com
Di Caprio, Farahani e Russel Crowe
Foi depois de começar a conhecer casais iranianos que começei a reparar com mais cuidado nas imagens que vinham do Irão. Na rua, notava-se que as mulheres usavam sem excepção hijab (o lenço utilizado para não mostrar o cabelo), mas ao contrário dos países árabes do golfo, os lenços eram coloridos, à semelhança dos utilizados no Levante (Palestina, Líbano, Jordânia e Síria). Também dava para ver que esse uso era fruto de imposição da lei islâmica que (ainda) impera no país. Afinal de contas, o lenço aparecia sempre uns centímetros mais atrás do que devia, deixando umas cuidadas madeixas à frente. A maquilhagem, proibida no país, estava presente em todo o lado, embora suficientemente discreta para poderem fingir que era a sua cor natural.

Fui ficando por isso com a impressão que talvez o povo iraniano já esteja realmente cansado do creativo regime semi teocrático e semi democrático do seu país. A leitura do livro de Shirin Ebadi[1] (prémio Nobel da Paz em 2003) "Iran Awakening" forteleceu-me em muito essa ideia. A recepção que lhe foi feita quando regressou ao Irão, com centenas de milhares de pessoas na rua, mostrou que são muitos os que estão com ela.


Farahani no filme "About Elly"
Entretanto uma nova personagem emerge, a actriz iraniana Golshifteh Farahani[2] que contracenou com Leonardo di Caprio no filme "Body of Lies" de 2008[3]. Desde o início que o regime se mostrou extremamente desconfortável com o à vontade desta. Posteriomente, começa a aparecer em filmes sem o mandatório hijab. Mais tarde revela-se totalmente na revista francesa Madame Le Figaro, onde aparece despida.

A coragem de Farahani é invulgar. Certamente que muitos considerarão que estas fotos não passam de um golpe de publicidade para fomentar a sua carreira. Não dúvido que isso seja verdade. Acontece diariamente no mundo da moda e cinema. O que não acontece todos os dias é alguém de uma teocracia fazê-lo. Os riscos que corre são tudo menos comuns. E a mensagem política que envia é muitíssimo mais forte. Farahani foi, segundo a própria em entrevista ao Der Spiegel[4], avisada de que já não era bem-vinda no seu país e que se arriscava a ser presa. Encontra-se por isso exilada em Paris há 4 anos, sem qualquer esperança de poder voltar à sua terra Natal. Quando li este artigo lembrei-me de algo que aqui escrevi sobre umas imagens de Angela Merkel nua: "No lugar onde cometeu este acto o naturismo era proibido? Cometeu algum crime?". Esta entrevista fez pensar que não deveria ter escrito tal frase. Afinal de contas, no caso de Farahani, ele poderá mesmo ter cometido um crime no seu país. E mesmo assim eu não quero saber e não sou capaz de a criticar por isso.

Espero sinceramente que Farahani possa um dia voltar à sua terra natal. E que o faça sem medo e em liberdade. Com hijab ou sem ele, conforme a sua vontade.

sábado, 5 de outubro de 2013

US cowardice will let Israel’s isolated right off the hook

Mais uma vez, Robert Fisk e a sua experiência única de Médio Oriente num brilhante artigo de opinião no The Independent.


US cowardice will let Israel’s isolated right off the hook



These are hard times for the Israeli right. Used to bullying the US – and especially its present, shallow leader – the Likudists suddenly find that the whole world wants peace in the Middle East rather than war. Brits and Americans didn’t want to go to war in Syria. Now, with the pleasant smile of President Rouhani gracing their television screens, fully accepting the facts of the Jewish Holocaust – unlike his deranged and infantile predecessor – the Americans (75 per cent, if we are to believe the polls) don’t want to go to war with Iran either.

Having, live on television, forced President Obama to grovel to him on his last trip to the White House – Benjamin Netanyahu brusquely told him to forget UN Security Resolution 242, which calls for a withdrawal of Israeli forces from lands occupied after the 1967 war – the Israeli Prime Minister did a little grovelling himself on Monday. He no longer called for a total end to all Iranian nuclear activities. Now it was only Iran’s “military nuclear programme” which must be shut down.
And, of course, like Iraq’s “weapons of mass destruction programme” which President George W Bush had to invent when the weapons themselves turned out to be an invention, we still don’t know if Mr Netanyahu’s version of Iran’s “military nuclear programme” actually exists.
What we do know is that when Mr Rouhani started saying all the things we had been demanding that Iran should say for years, Israel went bananas. Mr Netanyahu condemned him before he had even said a word. “A wolf in sheep’s clothing.” Even when Mr Rouhani spoke of peace and an end to nuclear suspicions, Israel’s “Strategic Affairs” Minister – whatever that means – said time had run out for future negotiations. Yuval Steinitz claimed that “if the Iranians continue to run [their nuclear programme], in another half a year they will have bomb capability”.

Mr Netanyahu’s own office joined in the smear campaign.

“One must not be fooled by the Iranian President’s fraudulent words,” one of Mr Netanyahu’s men sneered. “The Iranians are spinning in the media so that the centrifuges can keep on spinning.”
The Rouhani speech was “a honey trap”. Mr Netanyahu himself said Mr Rouhani’s address to the UN, a speech of immense importance after 34 years of total divorce between Iran and the US, was “cynical” and “totally hypocritical”.

Israel Hayom, the Likudist freesheet, dredged up – yet again – the old pre-Second World War appeasement argument that the Israeli right have been reheating for well over 30 years. “A Munich wind blows in the west,” the paper said.
Perhaps it had its effect. If he was not so frightened of Israel – as most US administrations are – President Obama might actually have shaken hands with Mr Rouhani last week; though Mr Rouhani himself might have preferred not to touch the hand of the “Great Satan” too soon. Instead, President Obama settled for a miserable phone call and proved that he knew how to say goodbye in Farsi. Pathetic is the word for it.
In the past, Arab delegates would storm out of the UN General Assembly when Israelis took the stand. When the crazed President Ahmadinejad spoke, Western nations and the Israelis stormed out. But when Mr Rouhani came to speak, Western nations crowded into the chamber to hear him. But Israel stormed out.
“A stupid gesture,” according to that wise old Israeli sage, writer and philosopher Uri Avnery. “As rational and effective as a little boy’s tantrum when his favourite toy is taken away. Stupid because it painted Israel as a spoiler, at a time when the entire world is seized by an attack of optimism after the recent events in Damascus and Tehran. Stupid, because it proclaims the fact that Israel is at present totally isolated.”

Mr Avnery’s contention is Israel wanted two wars, the first against Syria, the second against Iran.

As he wrote last week, when Congress hesitated to strike Damascus, “the hounds of hell were let loose. Aipac (the largest Likudist pro-Israeli lobby group in the US) sent its parliamentary rottweillers to Capitol Hill to tear to pieces any senator or congressman who objected”.

Yet at the White House on Monday, the Israeli Prime Minister had calmed down. I doubt if it will last. Israel, I suspect, will do everything it can to cut down Mr Rouhani’s overtures, whatever American public opinion might say.

For there was President Obama at Monday’s meeting, praising Mr Netanyahu for his support for a two-state solution. And what did President Obama actually say? That there was “a limited amount of time to achieve that goal”.

So why was there only a “limited amount of time”? Not a single scribe asked the poor fellow.

There is, of course, only a “limited amount of time” – in my view, no time at all – to achieve this illusory goal because the Netanyahu government is thieving, against all international law, yet more Palestinian Arab land for Jews and Jews only, at a faster rate than ever, to prevent just such a Palestinian state ever existing.
The Israeli right are well aware of this. And when President Obama can’t even explain this weird “limited amount of time”, the Israelis know that he is still a groveller. This is what real “appeasement” is all about. Fear.

And even if President Obama had the courage to say boo to a goose in his final term in office, you can be sure that Madame Clinton – to quote Sir Thomas More – doesn’t have the spittle for it. For she wants to be the next appeaser-president.

The Likudists have isolated Israel from the world just now but be sure American cowardice will let them off the hook.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

A minha vida é uma arma

Book Review

Da autoria de Christoph Reuter e publicado em Portugal pela editora Antígona, "A minha vida é uma arma, uma história moderna dos bombistas suicidas" leva-nos ao intrigante mundo dos que dão a sua vida por causas que consideram ser maiores do que o seu instinto de sobrevivência. É também, inevitavelmente, uma história do Médio Oriente moderno e do Islão das últimas quatro décadas, mesmo que esse fenómeno não seja um exclusivo nem desta região nem desta religião.

Resolve inúmeros mitos como o grau de religiosidade dos auto proclamados mártires, focando-se sobretudo na motivação destes e nos seus resultados a curto, médio e longo prazo. Acima de tudo, considero que o grande valor do livro está na capacidade de Reuter de fazer as perguntas certas, mesmo quando incómodas. É demasiado fácil - e inútil - considerar simplesmente estas pessoas como fanáticos religiosos que procuram destruir o mundo e ir para um paraíso repleto de virgens à sua disposição. Porque motivo não existiu um único bombista suicida palestiniano desde a criação do estado de Israel (em 1948) até aos anos 80? Porque motivo os atentados não foram constantes mesmo depois de aberto o precedente? O que explica que o Irão tenha utilizado mártires a uma escala de dezenas de milhares numa só batalha contra o Iraque? Qual a relação dos Kamikazes japoneses com tudo isto? Como é que a extremistas religiosos muçulmanos utilizam a via do suicídio quando este é expressamente proibido pelo Corão? Como é que a Al Qaeda (essencialmente Sunita) adquiriu esse fenómeno que era próprio da cultura sacrificial Shiita? Como é que esses métodos são depois "exportados" para o Sri Lanka ou a Tchechenia? Qual a relação entre os processos de paz e estes ataques?

Com apenas 5 bombistas suicidas, o Hizbullah conseguiu causar no início dos anos 80 mais de 500 mortes inimigas, entre americanos, franceses e israelitas. Repeliu para fora do Líbano três dos mais poderosos exércitos do mundo. Desde então, tornou-se numa máquina de propaganda que compreendeu que nenhuma missão é bem sucedida se não for filmada e mostrada ao mundo através da sua televisão Al Manar. Os seus planos de emitir em Hebraico e Inglês mostram a importância que dão a amplificar os seus feitos e causar terror nos seus inimigos.

A maioria das histórias deste livro aparecem descritas em muitos outros livros sobre o Líbano, Israel, Palestina, Irão e Iraque. No entanto, há algo diferente aqui, que é o ponto de vista. Reuter procura os traços comuns entre os vários ataque assim como aquilo que os distingue. Entrevista as famílias dos "mártires" e os sobreviventes de ataques falhados e descreve os terramotos políticos causados por estes.

Depois de acabar o livro dou comigo a pensar que, dado o sucesso militar (e terrorista) de muitos destes ataques, que nada impede que os poderemos ver em breve cometidos por pessoas de outras religiões ou sem qualquer religião. O Sri Lanka foi já um exemplo disso. Os comunistas laicos da PFLP (Popular Front for the Liberation of Palestine) também.

Não sobram muitas armas a quem luta numa situação de total desvantagem, e estes atentados são a pura essência do terrorismo moderno: a criação de terror incontrolável em países seus inimigos, conseguindo a vitória sobre potências que numa guerra convencional nunca perderiam. São métodos assustadores para todos nós que assistimos a estes conflitos de longe e ainda mais para as suas vítimas, mas não são inconsequentes nem irreflectidos.



   

sábado, 2 de junho de 2012

Hans Blix, Irão e Coreia do Norte

Hans Blix e Mohamed ElBaradei
Numa entrevista à cadeia de televisão russa Russia Today, que emite em inglês, Hans Blix, antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) comenta em dezembro de 2011 uma série de assuntos actuais relativos à proliferação nuclear, com particular destaque para o Irão e Coreia do Norte.

Já aqui escrevi anteriormente sobre o relatório da AIEA de 18 de Novembro de 2011 [1] que é bastante crítico do Irão e que foi utilizado por muitos como prova cabal de que o Irão está a produzir uma bomba nuclear. Falei de um deles, Itamar Rabinovich, em fevereiro, depois de este antigo embaixador de Israel nos Estados Unidos ter publicado um artigo no jornal "O Público" com o título "A globalização da ameaça nuclear iraniana" onde defendia que a finalização de uma bomba nuclear iraniana estaria iminente [2]. Muitos outros, quer em Israel (nomeadamente ligados ao partido Likud de Benjamin Netanyahu) quer nos Estados Unidos seguiram a mesma linha de raciocínio.

Não foi a leitura que fiz do relatório de 19 de Novembro, e pelos vistos não sou o único. Hans Blix, um diplomata sueco que dedicou grande parte das últimas décadas aos problemas nucleares do mundo é referenciado regularmente nas páginas deste blog. Entre outras missões, acompanha Mohamed ElBaradei nas missões da ONU para procurar armas de destruição massiva no Iraque em 2003 e ajudou a União Soviética no evento do desastre nuclear de Chernobyl em 1986.

Sobre este relatório, Blix afirma que continuam a não existir provas, e que as constantes ameaças feitas por Israel e Estados Unidos só conseguem piorar a situação e reafirma a necessidade de acalmar os animos em ambos os lados. Avisa ainda que o aumento contínuo da capacidade de enriquecimento de urânio por parte dos iranianos está a colocar uma pressão tremenda na diplomacia internacional e que estes deveriam ter em conta esses efeitos na normalização das relações diplomáticas entre o Irão e o mundo ocidental.

Em relação a Newt Gingrich relembra as palavras deste ex-candidato às primárias do Partido Republicano, onde ele ameaça com uma mudança de regime no Irão. Blix pergunta ironicamente, se Gingrich pretende uma mudança usando o modelo iraquiano ou o modelo afegão. Este ex-candidato já tinha mostrado anteriormente os seus vastos conhecimentos sobre o médio oriente e a sua posição sobre este quando conseguiu no espaço de semanas referir-se aos palestinianos como "um povo inventado" e depois reduzindo-os a "essa gente [os palestinianos] são terroristas"

A parte mais relevante da entrevista, na minha opinião, refere-se à necessidade de criar um "Nuclear Weapons Free Middle East", i.e. nenhum país do médio oriente ter armas nucleares. Uma solução deste tipo pode tocar um pouco nos possíveis objectivos do Irão, mas é acima de tudo uma lembrança a Israel de que ninguém se esqueceu das ogivas nucleares na sua posse. Não podem exigir aos outros que não as tenham enquanto as guardam para qualquer eventualidade. As armas nucleares israelitas são precisamente o motivo porque o Irão poderia querer ter uma(s). Para procurar um equilíbrio do estilo MAD (Mutual Assured Destruction) semelhante ao que os Estados Unidos e a União Soviética tiveram durante quase meio século. Por outro lado, se o Irão conseguisse efectivamente construir uma, todos os estados árabes do golfo iriam procurar obtê-las também, para se poderem defender de uma possível ameaça do outro lado do golfo. Esta corrida ao armamento é incrivelmente perigosa, em especial quando esta região está numa instabilidade acrescida devido à Primavera Árabe.

Blix analisa também a mudança de liderança na Coreia do Norte e realça a importância de não provocar este país num momento em que o regime se encontra particularmente agitado. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Era da Mentira

Book Review

Eleito livro internacional do ano, o prémio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei leva-nos ao interior das intrigas internacionais no mundo da proliferação nuclear. Revela um conjunto de histórias interessantes e alguns momentos muito pessoais ligados à história recente e que ainda estão bem vivos na memória de todos. Como director da Agência Internacional de Energia Atómica das Nações Unidas (AEIA), esteve directamente ligado aos esforços para controlar a proliferação nuclear militar, assim como na ajuda aos estados membros na construção de capacidade nuclear civil.

Aborda muitos temas quentes, tais como o programa nuclear iraniano, o véu de mentiras que cobriu a invasão do Iraque em 2003, a capacidade nuclear israelita, o programa clandestino da Coreia do Norte e o bazar nuclear de A. Q. Khan. Em todos eles, apercebemos-nos de como a reação da comunidade internacional se revela completamente diferente dependendo não das acções, crimes ou atropelos aos tratados, mas sim pelo nível da relação das principais potências do mundo (em particular os EUA e o Reino Unido) em relação aos prevaricadores.

Não resisti a copiar quatro parágrafos que considerei particularmente esclarecedores. Acredito não estar a infringir os direitos de autor e possivelmente até a contribuir para suscitar interesse neste livro cuja compra recomendo vivamente:

O problema mais elementar do regime de não-proliferação nuclear é, em si mesmo, um exemplo de duplo critério: a assimetria inerente, ou desigualdade, entre os que têm nuclear e os que não têm, exacerbada pela contínua dependência dos Estados que têm armas nucleares em relação a estas e a sua falta de progresso no desarmamento nuclear. Mais grave, em vez de agirem no sentido de cumprirem o seu compromisso de desarmamento, a maior parte deles modernizou o seu arsenal e continuou a desenvolver novos tipos de armas. Para países que não têm tais armas, e que não estão abrigo de acordos de protecção nuclear, como a NATO, isto reforça a percepção de a aquisição de armas nucleares é um caminho seguro para o poder e o prestígio, uma apólica de seguro contra ataques.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas também é parte do problema, em parte devido ao poder de veto dos P5, os cinco estados com armas nucleares. O dever do Conselho de Segurança é manter a paz e a segurança internacionais e responder a ameaças contra elas. Certamente nem todas as violações de um acordo de salvaguardas da AIEA são graves o suficiente para chegarem ao Conselho de Segurança. No entanto, nessas raras ocasiões, quando tais violações são encaminhadas, o Conselho deve responder apropriadamente: deve ser ágil, resoluto, enérgico quando é necessário e, acima de tudo, consistente nas suas acções.

De acordo com estes critérios, o registo das actuações do Conselho de Segurança em resposta a ameaças nucleares tem sido insondável. Em 1981, depois de Israel ter destruído o reactor iraquiano de Osirak, o Conselho de Segurança condenou o bombardeamento e também instou Israel a colocar as suas instalações nucleares ao abrigo das salvaguardas da AIEA. Israel ignorou a resolução e o Conselho de Seguranças não fez mais nada em relação ao assunto. Em 1998, depois dos testes nucleares da Índia e do Paquistão, o Conselho de Segurança condenou os testes e pediu a ambos os países que parassem o desenvolvimento de armas nucleares e de sistemas de distribuição. Quando essas resoluções foram ignoradas o Conselho voltou a recuar. No caso da Coreia do Norte, quando a Agência referiu o seu não cumprimento, em 1993, e em 2003, quando o país saiu do TNP, o Conselho não tomou nenhuma acção significativa; em vez disso, deixou que os Estados Unidos tomassem a dianteira através do Quadro Acordado, no anos 90 e, mais tarde, deixou a China liderar as Conversações a Seis.

Por outro lado, em 1990, o Conselho de Segurança impôs sanções ao Iraque que levaram a escandalosas violações dos direitos humanos de milhões de civis iraquianos e que culminaram com a guerra de 2003 sem o consentimento do Conselho. Para agravar ainda mais a situação, o Conselho de Segurança continuou a manter certas sanções contra o Iraque, anos depois da invasão de 2003, quando era claro para todos que o Iraque não tinha qualquer programa de armas nucleares. O Conselho foi incapaz de concordar em como acabar com os mandatos da UNMOVIC e da AIEA no Iraque e fechar o ficheiro das armas de destruição massiva. E, sobrecarregados pela devastação de uma guerra que nunca deveria ter ocorrido, os iraquianos foram obrigados a financiar a UNMOVIC por mais quatro anos, enquanto esta estava parada, em Nova Iorque.


Mubarak não é um ditador

Joe Biden - Vice Presidente dos EUA
A diplomacia dos bons e dos maus. os bons são sempre bons mesmo quando matam, torturam, violam e oprimem. os maus são sempre maus mesmo que não tenhamos qualquer prova.

Por exemplo, Saddam era muito mau porque tinha utilizado armas de destruição massiva em cima do seu próprio povo e porque torturava os adversários, tal como disse Tony Blair no parlamento inglês a 25 de Fevereiro de 2003 (três semanas antes do início da invasão):

(...) the tens of thousands imprisoned, tortured or executed by his barbarity every year. The innocent die every day in Iraq—victims of Saddam—and their plight, too, should be heard.

(...) To those who say we are rushing to war, I say this: we are now 12 years after Saddam was first told by the UN to disarm; nearly six months after President Bush made his speech to the UN accepting the UN route to disarmament; nearly four months on from resolution 1441; and even now, today, we are offering Saddam the prospect of voluntary disarmament through the UN. I detest his regime—I hope most people do—but even now, he could save it by complying with the UN's demand. Even now, we are prepared to go the extra step to achieve disarmament peacefully [1].

Quando as potências ocidentais invadiram o Iraque utilizando urânio empobrecido e torturando em Abu Graib, Guantánamo, Diego Garcia e outras prisões da CIA, não o fazem por serem maus. Fazem-no porque o inimigo é mau e os obriga a isso. É uma lógica retorcida (e que já agora, podia ser utilizada por ambos os lados), mas aparentemente aceite desde o mais comum dos mortais até aos grandes líderes do mundo. Curiosamente o facto de Saddam Hussein ter utilizado armas químicas e biológicas sobre os iranianos de Ayatollah Khomeini (durante a guerra Irão-Iraque nos anos 80 [2]) não é nunca dado como exemplo da vilania do ditador iraquiano. É que afinal de contas, os maus - nessa altura - eram os iranianos. O Saddam era dos bons e tinha o apoio da Arábia Saudita, dos estados do golfo e das potências ocidentais. As armas químicas utilizadas por Saddam tinham sido produzidas com o apoio da Alemanha, Itália, França, Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, Áustria, Singapura, Holanda, Egipto, Índia, Luxemburgo, Espanha e China [3]. Como se pode ver, os telhados de vidro são amplos e cobrem quase todos os cantos do mundo.

Aqui temos mais um caso que demonstra que esta hipocrisia continua viva e de boa saúde. Em plena Primavera Árabe, com um milhão de pessoas na praça Tahrir no Egipto prestes a destituirem o ditador Hosni Mubarak que durante décadas torturou e corrompeu o berço da civilização mundial, o vice presidente americano Joe Biden é alvo da seguinte pergunta:

PBS: (...) should Mubarak be seen as a ditactor?

JB: Look [haaaa....] Mubarak has been an ally of ours in a number of things. He has been very responsible on relative to geo political interest in the region... [haaaa....] [haaaa...] [haaaa...] [he...] middle east peace... [he...] [he..] [ha...] efforts... [he...] [ha...] the actions Egypt is taking relative to [ha...] [ha...] normalize relationship with [ha...] with Israel [hum...] and I... I think that [ha...] [hum...] it would be... I... I would not refer to him as a ditactor.

Obviamente Joe Biden sabe melhor do que qualquer um de nós que Mubarak era mesmo um ditador. Que a sua polícia secreta - a temida Mukhabarat - comete violações dos direitos humanos numa base diária. Que as eleições eram totalmente falsificadas. Que os oponentes políticos eram presos e torturados. Que era líder de um país totalmente corrupto e em que ele próprio era um líder desse mesmo crime organizado. Que tinha uma fortuna acumulada de dezenas de milhares de milhões de dólares que não podem ser explicados pelo salário dele enquanto presidente, etc. Mas era um ditador útil. E por isso não pode ser chamado pelo que ele é. Mesmo quando nesse preciso momento a sua polícia reprimia violentamente manifestações no Cairo, Alexandria, Suez e outros pontos do Egipto com um nível de violência quase ilimitado. 

Esta frase fez-me ainda recordar um momento extremamente infeliz de Franklin D. Roosevelt, presidente americano durante a segunda guerra mundial, que terá dito a seguinte frase sobre o ditador da Nicarágua, e aliado anti-comunista, Somoza, em 1939:

"Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch"

A única coisa que faz sentido na frase de Joe Biden é a dificuldade que ele tem em dizer tamanha mentira. Contei cada uma das hesitações e marquei-a no texto acima com os sons haaaa, he, hahum. São só 62 segundos. Vale a pena ver. E não esquecer.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Merkava - God's Chariot

Merkava (imagem retirada da internet)
Foi na estrada que fazia a longa descida até ao Mar Morto, em pleno território palestiniano que vi um tanque israelita Merkava ao vivo pela primeira vez. Carregado na parte de trás de um camião, a imagem é impressionante e só conseguimos imaginar no medo que seria o vê-lo a avançar na nossa direcção. A sua dimensão é invulgarmente grande, mesmo para um tanque moderno. Mais tarde voltei a vê-los nos enormes quarteis militares israelitas, estacionados às dezenas lado a lado e posteriormente procurei mais informação sobre aquele tanque que tanto me impressionara. Não conseguia imaginar como era possível que as forças palestinianas pudessem fazer fosse o que fosse a estes Merkava apenas munidos das suas impecavelmente limpas AK-47 e os seus uniformes novinhos em folha.

Orgulho do IDF (Israeli Defense Force), o Merkava representa a superioridade militar de Israel no Médio Oriente e não tem nenhum oponente à altura na região. Com cerca de 2000 tanques contruídos, o investimento nesta arma já terá ultrapassado os 6500 milhões dólares e é alvo de bastante controvérsia no seu país de origem sobre a utilidade do investimento e a sua - até agora - incapacidade de exportação.

Foi criado depois das desilusões da guerra de Yom Kippur de 1973 que travaram contra Egipto e Síria, onde as suas forças blindadas dependiam dos ultrapassados tanques americanos Patton e dos ingleses Centurion. O ataque egípcio atravessando o Canal de Suez para recuperar a província perdida do Sinai, destruíu centenas de tanques israelitas utilizando misseis anti-tanques e forçou Israel a repensar todas as suas estratégias militares.

Com o objectivo de manterem a sua independência territorial sem dependências a terceiros (mesmo em relação aos seus maiores aliados), decidiram criar os seu próprio modelo de tanques. O Merkava foi desenhado para que Israel nunca mais perdesse uma batalha contra os seus vizinhos, os mais óbvios sendo o Egipto e a Síria, já que o Líbano e a Jordânia têm forças armadas bastante mais débeis e sem qualquer hipótese numa uma guerra convencional contra o estado Hebraico.

Desde então, várias versões foram feitas com progressivas melhorias, e embora tenham garantido a suprioridade que procuravam, as últimas guerras em que estiveram envolvidos mostraram que não são adequados a todos as ocasiões. Os acordos de paz com o Egipto e Jordânia, reduziram em muito o seu propósito e a frente da Síria através dos Montes Golan mostraram-se mais estáveis do que poderia ser previsto nos anos 70.

Foram no entanto utilizados na Cisjordânia e Gaza onde causaram enorme destruição mas não conseguiam controlar as populações que lhes respondiam com pedras e cocktails Molotov, com igual ineficiência. Em lutas urbanas, guerrilha e contra-terrorismo a utilização de tanques provou-se não só inútil como consegue promover mais violência. Também nas várias invasões sobre o Líbano mostraram-se capazes de chegar onde queriam, mas não de manter uma ocupação ou fazer algo pelo controlo dos campos de refugiados onde tipicamente se encontravam os seus alvos.

Mas o seu grande desafio chegou em 2006, quando tiveram que combater um oponente formidável e determinado, o movimento libanês shiita Hizbullah, que respondeu aos enormes tanques com armas anti-tanques utilizadas a curtíssima distância. Táticas de guerrilha descritas brilhantemente por David Hirst no seu livro "Beware of Small States - Lebanon, Battle of the Middle East", que utilizaram não só estas armas mas túneis, bunkers e milícias bem treinadas. Não só este modern day Blitzkrieg falhou violentamente, sem que os seus objectivos fossem conseguidos (a recuperação dos soldados israelitas raptados na fronteira pelo Hizbullah), como não conseguiu impedir o contra-ataque de bombardeamentos violentos e indiscriminados contra várias cidades israelitas, incluindo Haifa.

A enorme propaganda feita por Israel sobre os seus tanques nas televisões e internet, permitiram ao Hizbullah estudar cuidadosamente o seu inimigo sem sequer precisar de fazer um esforço financeiro significativo. Cuidadosos documentários mostravam o tanque com enorme detalhe e são passados regularmente em canais como o Discovery e o History Channel.  Em 2007, a televisão Al Jazeera fez o seu próprio documentário sobre o Merkava, mostrando os seus sucessos e falhanços. Cobre toda a sua história e os principais conflitos em que teve envolvido, incluindo entrevistas com militares israelitas assim como representantes do Hizbullah (videos do documentário incluídos abaixo).

Numa altura em que uma guerra entre Israel e Irão pode estar prestes a estalar, não será surpreendente se este tanque já quase esquecido pelo mundo volte ao campo de batalha. E com a ligação religiosa, financeira e política entre Hizbullah e Irão, é previsível que um ataque de Israel ao Irão leve a novo confronto nesta longa batalha pelo sul do Líbano. 

Para bem de todos os que terão que ver um Merkava de frente, esperemos que não...




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Gunther Grass - O que tem que ser dito

Aqui fica o poema de Gunther Grass publicado recentemente e que já foi recebido com a habitual crítica de "anti-semitismo". Naturalmente, como falou daquele elefante na sala que todos fingem ignorar (as bombas nucleares de Israel), o veredicto dos media não poderia ser outro. Como a isso se associa ainda a hipocrisia dos media ocidentais e o complexo de culpa alemão, a situação só poderia mesmo piorar...

O que há a dizer
(tradução "Jornal de Negócios")

Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atómica.

Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel] onde há anos
- ainda que mantido em segredo –
se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a qualquer controlo,
já que é inacessível a qualquer inspecção?

O silêncio geral sobre esse facto,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coacção que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“anti-semitismo” se chama a condenação.

Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.

Por que me calei até agora?
Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse facto, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.

Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?
Porque há que dizer
o que amanhã poderá ser demasiado tarde,
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa quota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.

Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causante desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controlo permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelita
e das instalações nucleares iranianas.

Só assim poderemos ajudar todos,
israelitas e palestinianos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.




What must be said
(tradução "themovingsilent")

Why I am silent, silent for too much time,
how much is clear and we made it
in war games, where, as survivors,
we are just the footnotes

That is the claimed right to the formal preventive aggression
which could erase the Iranian people
dominated by a bouncer and moved to an organized jubilation,
because in the area of his competence there is
the construction of the atomic bomb

And then why do I avoid myself
to call the other country with its name,
where since years – even if secretly covered -
there is an increasing nuclear power,
without control, because unreachable
by every inspection?

I feel the everybody silence on this state of affairs,
which my silence is slave to,
as an oppressive lie and an inhibition that presents punishment
we don’t pay attention to;
the verdict “anti-Semitism” is common

Now, since my country,
from time to time touched by unique and exclusive crimes,
obliged to justify itself,
again for pure business aims – even if
with fast tongue we call it “reparation” -
should deliver another submarine to Israel,
with the specialty of addressing
annihilating warheads where the
existence of one atomic bomb is not proved
but it wants evidence as a scarecrow,
I say what must be said

Why did I stay silent until now?
Because the thought about my origin,
burdened by an unclearing stain,
had avoiding to wait this fact
like a truth declared by the State of Israel
that I want to be connected to

Why did I say it only now,
old and with the last ink:
the nuclear power of Israel
threat the world peace?
Because it must be said
what tomorrow will be too late;
Because – as Germans and with
enough faults on the back -
we might also become deliverers of a predictable
crime, and no excuse would erase our complicity

And I admit: I won’t be silent
because I had enough of the Western hypocrisy;
Because I wish that many will want
to get rid of the silence,
exhorting the cause of a recognizable
risk to the abdication, asking that a free and permanent control
of the Israel atomic power
and the Iran nuclear bases
will be made by both the governments
with an international supervision

Only in this way, Israelis, Palestinians, and everybody,
all people living hostile face to face in that
country occupied by the craziness,
will have a way out,
so us too

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Propaganda pela Guerra

Um artigo do Público de 16.02.2012 de Itamar Rabinovich, presenteia-nos com a habitual teoria de atacar o Irão antes que eles mandem uma bomba nuclear em cima de todos nós.

Chamo a atenção para alguns pormenores:

"Isto foi instigado em parte pela descoberta da Agência Internacional de Energia Atómica, em Novembro de 2011, de que o Irão está de facto a desenvolver uma arma nuclear, e que está a ficar perigosamente perto de atravessar a “linha vermelha”"

Este professor universitário de Tel Aviv e Nova York e antigo embaixador de Israel nos EUA sabe tão bem como eu que o único documento que foi utilizado pela agência era anónimo, sem data, com erros de Farsi e - segundo os próprios - obtidos a partir de... Israel!

Escrevi sobre esse assunto no mês passado: http://oreivaivestido.blogspot.com/2012/01/e-agora-e-o-irao.html

Outro parágrafo terrivelmente interessante diz o seguinte:

"O actual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem estado menos preocupado que Sharon sobre o papel apercebido de Israel. Está muito ocupado a empenhar-se directamente na tentativa de eliminar a ameaça mortífera que um Irão com armas nucleares colocaria ao estado judeu"

Gosto sempre quando falam da "ameaça mortífera". Um único estado no médio oriente tem armas nucleares, que é Israel. Esse mesmo estado já invadiu em dezenas de ocasiões o Líbano, Palestina, Síria, Egipto e Jordânia. Para além disso, o senhor Itamar sabe sem margem para dúvida que uma bomba nuclear atirada em cima de Israel causaria tantas vítimas árabes muçulmanas como judias. Mais de um milhão de pessoas no território de Israel são árabes muçulmanos (embora não tenham cidadania israelita) e a distância entre Ramallah e Jerusalém é inferior ao raio de acção de uma bomba nuclear.

Eu não tenho qualquer prazer em ver mais um estado com bombas atómicas. Muito menos um estado liderado por um louco como é o caso do Irão. Mas isso não significa que dou carta branca a quem quiser mais uma guerra lunática no médio oriente causando mais umas centenas de milhares de mortos sem qualquer prova.

http://www.publico.pt/ProjectSyndicate/Itamar%20Rabinovich/a-globalizacao-da-ameaca-nuclear-iraniana-1534087