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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Grande Depressão

Anos 30 - Fila do pão
Iniciada com o crash bolsista de 29 de outubro de 1929[1]a Grande Depressão[2]trouxe ao mundo uma miséria tão repentina e incompreensível que lançou as finanças, a economia e finalmente a sociedade inteira num ciclo vicioso que destruiu tudo o que encontrou pelo caminho. O mais estranho é que as lições aprendidas daquela que foi a mais violenta e global crise do século XX acabaram por ser esquecidas ou - pior do que isso - mal compreendidas. Quando estava na faculdade (num curso de ciências económicas e empresariais), a Grande Depressão não tinha praticamente qualquer expressão no curriculum do curso. Quando este assunto foi brevemente abordado, numa cadeira de história económica, o que nos foi ensinado foi que isso hoje nunca seria possível pois os conhecimentos de economia eram agora infinitamente superiores. Suponho que desde 2007 que já não ensinam tamanho disparate nas universidades...

Para um leigo, não é claro como um crash bolsista provoca uma crise económica e social de grande escala. Lá porque o mercado subitamente resolve avaliar as ações das empresas cotadas em bolsa 25% abaixo, isso não deveria ter um grande impacto na economia, para lá de uma resistência dos detentores de acções em as venderem a um preço tão baixo. Isso não deveria causar uma diminuição directa da capacidade de produção, da qualidade dos produtos ou da procura. E na realidade, directamente, não causa. O verdadeiro problema é o desaparecimento do mercado de dívida. Muitos dos investimentos financeiros (nomeadamente a compra de acções na década de 1920 ou a compra de casas no início do século XXI) é feita com recurso à dívida. Enquanto esses activos continuarem a aumentar de preço, essa dívida é segura, já que qualquer problema pode ser resolvido vendendo o activo e saldando a dívida. O problema começa quando esses activos subitamente valem menos do as dívidas que lhes estão subjacentes. A partir daí entramos numa situação "abaixo da linha de água", o que significa que o cidadão ou empresa que é responsável pela dívida e pelo activo, está agarrado ao activo porque não o pode vender para limpar a dívida e tem que pagar a dívida quer o activo lhe dê o retorno esperado ou não. O financiador, por outro lado, tambem fica numa situação impossível. Sabe que emprestou dinheiro a alguém que terá dificuldades em o pagar de volta e também não quer a penhora do activo porque este vale menos do que a dívida. Quer do lado do devedor quer do lado do emprestador, a tendência será por isso a de controlar os seus gastos de forma a precaver-se contra as previsíveis dificuldades. Isto significa os emprestadores vão parar de emprestar dinheiro enquanto os valores dos activos estão em queda, vão cortar nos empréstimos a outras instituições financeiras por medo que estas estejam ainda mais expostas a crédito malparado e forçam os seus devedores cumpridores a reduzirem a sua exposição. Tudo isto causa uma pressão enorme sobre todos os bancos, que ficam limitados na sua tesouraria, em todas as empresas, cujos investimentos vão ser adiados ou cancelados, e sobre as famílias, que sem acesso ao crédito e com medo do futuro retraem os seu consumo preparando-se para o pior. Nesta altura, todos os agentes da economia entram num ciclo de austeridade do qual ninguém consegue sair sozinho sob pena de ser o primeiro a cair.

Aí, a crise cai em cima da economia propriamente dita. Menos financiamento, menos investimento, menos consumo causam necessariamente mais desemprego, menos produção e cada vez mais dificuldades em pagar as dívidas. Como na história bíblica d'O Sonho do Faraó[3], a única verdadeira solução perfeita para os anos de vacas magras teria passado por poupar durante os anos de vacas gordas. Mas isso, obviamente, já não era possível. Como não é possível hoje.

Nos anos 30, a solução passou pelo New Deal[4] proposto por Franklin D. Roosevelt[5]. Incentivos do estado em grande escala, construção de grandes obras públicas, definição arbitrária da paridade entre o ouro e a moeda americana conseguiram colocar a máquina da economia americana a carburar novamente. O New Deal não foi no entanto uma solução rápida nem limpa. Custou muitíssimo ao estado americano e quando algum desse "falso" investimento foi retirado a economia caiu novamente em recessão, já nos anos 1936 e 1937. O que acabou definitivamente com a Grande Depressão foi mesmo a segunda guerra mundial[6]. Ao tornar-se no "Arsenal da Democracia"[7], os Estados Unidos da América beneficiaram de emprego total, escoamento de toda a produção e exportações massivas que limparam quase em absoluto as reservas de ouro e moeda forte dos aliados, em especial o Reino Unido como Churchill se queixou amargamente (só em 2006 as dívidas de guerra britânicas aos EUA foram finalmente finalizadas[8]). Mesmo no final da segunda guerra, o espectro de uma nova recessão ainda se encontrava no ar, não se tendo concretizado devido ao que ficou conhecido como o Plano Marshall, que por um lado financiou a reconstrução de vitoriosos e derrotados como também garantiu acordos comerciais extremamente vantajosos para os EUA.

Infelizmente, muitas das soluções aplicadas nessa época não são adequadas nos dias de hoje ou (como é o caso de uma guerra mundial) longe de serem algo que queiramos rever. Ao contrário dos anos 30, o mundo hoje tem fronteiras muito mais ténues e existe uma mobilidade populacional, financeira e económica incomparavelmente superior. Um programa massivo de investimento sustentado por um estado pode ajudar a resolver a falta de liquidez da economia temporariamente, mas a quantidade de dinheiro que se iria escapar do país via importações, remessas de imigrantes e fuga de capitais para offshores seria inevitável e em larga escala. Isto será ainda mais verdadeiro no caso dos países da União Europeia onde as barreiras são totalmente inexistentes. E não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos disto: Portugal conseguiu entre 2000 e 2011 passar de uma dívida pública de 66 mil milhões de euros para 174 mil milhões. Um aumento de 163% no valor da dívida do estado[9], enquanto o PIB sobe de 127 mil milhões de euros para 171 mil milhões[10]. Um aumento do PIB a valores correntes de apenas 35%. Isto dá-nos uma ideia de como o new deal português falhou completamente nos seus efeitos. Quando as dívidas ultrapassaram o nível que os credores consideraram aceitável a queda era inevitável e este doping financeiro na economia deixou de conseguir sustentar uma economia que estaria provavelmente condenada à recessão.

As bases da teoria económica de John Meynard Keynes[11], tão em voga nos anos 30 e que deram as bases para o New Deal de Roosevelt têm o seu calcanhar de Aquiles no longo prazo. Na realidade o próprio previu isso embora não tenha mostrado grande preocupação com essas consequências. Quando lhe perguntaram o que aconteceria no longo prazo, a sua resposta foi "in the long run, we are all dead". Ele estava certo. Quase todas essas pessoas dos anos 30 estão hoje no céu (ou na sua concorrência). Mas nós estamos cá, e ficamos para pagar as contas todas. A economia está longe de ser uma ciência. A economia é ainda um mundo incompreensível cujas variáveis estão muito longe ser entendidas. Precisamos de novas ideias neste campo. Urgentemente.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mubarak não é um ditador

Joe Biden - Vice Presidente dos EUA
A diplomacia dos bons e dos maus. os bons são sempre bons mesmo quando matam, torturam, violam e oprimem. os maus são sempre maus mesmo que não tenhamos qualquer prova.

Por exemplo, Saddam era muito mau porque tinha utilizado armas de destruição massiva em cima do seu próprio povo e porque torturava os adversários, tal como disse Tony Blair no parlamento inglês a 25 de Fevereiro de 2003 (três semanas antes do início da invasão):

(...) the tens of thousands imprisoned, tortured or executed by his barbarity every year. The innocent die every day in Iraq—victims of Saddam—and their plight, too, should be heard.

(...) To those who say we are rushing to war, I say this: we are now 12 years after Saddam was first told by the UN to disarm; nearly six months after President Bush made his speech to the UN accepting the UN route to disarmament; nearly four months on from resolution 1441; and even now, today, we are offering Saddam the prospect of voluntary disarmament through the UN. I detest his regime—I hope most people do—but even now, he could save it by complying with the UN's demand. Even now, we are prepared to go the extra step to achieve disarmament peacefully [1].

Quando as potências ocidentais invadiram o Iraque utilizando urânio empobrecido e torturando em Abu Graib, Guantánamo, Diego Garcia e outras prisões da CIA, não o fazem por serem maus. Fazem-no porque o inimigo é mau e os obriga a isso. É uma lógica retorcida (e que já agora, podia ser utilizada por ambos os lados), mas aparentemente aceite desde o mais comum dos mortais até aos grandes líderes do mundo. Curiosamente o facto de Saddam Hussein ter utilizado armas químicas e biológicas sobre os iranianos de Ayatollah Khomeini (durante a guerra Irão-Iraque nos anos 80 [2]) não é nunca dado como exemplo da vilania do ditador iraquiano. É que afinal de contas, os maus - nessa altura - eram os iranianos. O Saddam era dos bons e tinha o apoio da Arábia Saudita, dos estados do golfo e das potências ocidentais. As armas químicas utilizadas por Saddam tinham sido produzidas com o apoio da Alemanha, Itália, França, Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, Áustria, Singapura, Holanda, Egipto, Índia, Luxemburgo, Espanha e China [3]. Como se pode ver, os telhados de vidro são amplos e cobrem quase todos os cantos do mundo.

Aqui temos mais um caso que demonstra que esta hipocrisia continua viva e de boa saúde. Em plena Primavera Árabe, com um milhão de pessoas na praça Tahrir no Egipto prestes a destituirem o ditador Hosni Mubarak que durante décadas torturou e corrompeu o berço da civilização mundial, o vice presidente americano Joe Biden é alvo da seguinte pergunta:

PBS: (...) should Mubarak be seen as a ditactor?

JB: Look [haaaa....] Mubarak has been an ally of ours in a number of things. He has been very responsible on relative to geo political interest in the region... [haaaa....] [haaaa...] [haaaa...] [he...] middle east peace... [he...] [he..] [ha...] efforts... [he...] [ha...] the actions Egypt is taking relative to [ha...] [ha...] normalize relationship with [ha...] with Israel [hum...] and I... I think that [ha...] [hum...] it would be... I... I would not refer to him as a ditactor.

Obviamente Joe Biden sabe melhor do que qualquer um de nós que Mubarak era mesmo um ditador. Que a sua polícia secreta - a temida Mukhabarat - comete violações dos direitos humanos numa base diária. Que as eleições eram totalmente falsificadas. Que os oponentes políticos eram presos e torturados. Que era líder de um país totalmente corrupto e em que ele próprio era um líder desse mesmo crime organizado. Que tinha uma fortuna acumulada de dezenas de milhares de milhões de dólares que não podem ser explicados pelo salário dele enquanto presidente, etc. Mas era um ditador útil. E por isso não pode ser chamado pelo que ele é. Mesmo quando nesse preciso momento a sua polícia reprimia violentamente manifestações no Cairo, Alexandria, Suez e outros pontos do Egipto com um nível de violência quase ilimitado. 

Esta frase fez-me ainda recordar um momento extremamente infeliz de Franklin D. Roosevelt, presidente americano durante a segunda guerra mundial, que terá dito a seguinte frase sobre o ditador da Nicarágua, e aliado anti-comunista, Somoza, em 1939:

"Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch"

A única coisa que faz sentido na frase de Joe Biden é a dificuldade que ele tem em dizer tamanha mentira. Contei cada uma das hesitações e marquei-a no texto acima com os sons haaaa, he, hahum. São só 62 segundos. Vale a pena ver. E não esquecer.