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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Israel, Islão e as vítimas

Sou um crítico acérrimo de algumas das políticas violentas e racistas do governo israelita e do apoio implícito ou explícito que os Estados Unidos da América e as potências ocidentais lhes dão. Conheço muito bem a realidade no terreno e o verdadeiro apartheid instalado nos territórios ocupados da Palestina e em Israel.

Mas é de facto muito estranho porque motivo tantos conflitos muitíssimo mais violentos são perfeitamente desconhecidos da maioria das pessoas quer no médio oriente quer no ocidente. Ninguém fala dos genocídios dos Arménios, da perseguição dos comunistas Indonésios, da guerra Irão-Iraque, da guerra da independência do Bangladesh (Paquistão Oriental), etc.
Restos de um T-62 Iraquiano usado na Guerra Irão-Iraque

O gráfico que se segue faz parte de belíssimo curso online - de graça - do Prof. Ebrahim Afsah[1] sobre os "Desafios constitucionais no mundo islâmico" da Universidade de Copenhaga.

Comparem, no quadro abaixo, as vítimas mortais das guerras entre Israel e os seus vizinhos (a azul), com as guerras no médio oriente e outras zonas de maioria islâmica sem intervenção israelita ou ocidental (a verde). Devo notar que o próprio Afsah considera estes números extremamente conservadores.

Certamente não desculpa nenhum dos crimes cometidos por Israel, Estados Unidos e restantes países ocidentais. Mas coloca-os em perspectiva.


Carregue para ver o gráfico em tamanho aumentado.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Islamofobia

Owen Jones - The Independent
Artigo escrito no jornal inglês "The Independent" por Owen Jones sobre a questão da islamofobia. Talvez o melhor artigo sobre o assunto que tenho lido. A lógica é simples: pegue-se no que é dito diariamente por figuras públicas, líderes de opinião e meros mortais como qualquer de um nós e imagine-se o que aconteceria se substituíssemos a palavra Islão por Judaísmo e muçulmano por judeu. Felizmente o anti-semitismo hoje em dia é residual (para além do insulto fácil utilizado regularmente para quem critica alguma política do governo israelita) mas a islamofobia está viva e de boa saúde. E é assim que líderes populistas e sem escrúpulos conseguem - se tiverem o contexto certo - levar povos inteiros a apoiar e cometer os mais aboníveis crimes, como aconteceu há sete décadas atrás.

Owen Jones: Islamophobia - for Muslims, read Jews. And be shocked


Imagine our alarm if nearly half the UK population said they believed that 'there are too many Jews'

To be a prominent Muslim means suffering a daily diet of bigotry and even outright hatred. This week, Mehdi Hasan – who, other than my colleague Yasmin Alibhai-Brown, is Britain's only prominent Muslim journalist – wrote of how, every day, he is attacked as a "jihadist" and a "terrorist". He has been described as a "dangerous Muslim shithead", a "moderate cockroach", and worse. The message from his critics is clear: Muslims have no legitimate place in public life.
Mehdi Hasan was right to speak out, but it must not be left to Muslims alone to take on this bigotry. A tide of Islamophobia has swept Europe for many years, and – shamefully – all too few have taken a stand. Even many who regard themselves as "progressives" have either remained silent or even indulged anti-Muslim prejudice. It's time for Muslims and non-Muslims alike to join forces against the most widespread – and most acceptable – form of bigotry of our times.

Think I'm exaggerating? Consider that the far-right's main target of choice is no longer Jews or black people: it's Muslims. The BNP portrays itself as a crusade against the "Islamification" of Britain; in the 2010 election, it launched a "Campaign Against Islam". Its leader, Nick Griffin, describes Islam as "wicked" and a "cancer", and has blamed Muslims for problems such as drugs and rape. The English Defence League stages frequent – and often intimidating – street rallies protesting against Muslims.

But anti-Muslim prejudice isn't simply confined to the far-right fringes. I attended a Stockport sixth form with a large Muslim student population. The reality of their lives is all but airbrushed out of existence. When they appear at all, it's generally as fanatics, extremists or a community somehow "harbouring" dangerous extremists. (When do Britain's whites face the absurdity of being called on to crack down on far-right fanatics supposedly in their ranks?) One study took a selection of newspapers in a single week: 91 per cent of reports featuring Muslims were negative.

One of my Muslim fellow students was Dr Leon Moosavi, fast becoming a national authority on Islamophobia. He battles against the widespread denial that anti-Muslim prejudice is a problem. But consider that, in one poll conducted by the Friedrich Ebert Foundation, 45 per cent of Britons agreed that "there are too many Muslims" in Britain. Imagine if nearly half the population admitted to believing that "there are too many Jews" in Britain: how loud would our alarm be?

Of course, it is not just a British problem: the poison of Islamophobia has infected Europe's political mainstream. According to a Pew Research Center survey, nearly six out of 10 Europeans believe that Muslims were "fanatical", and half believed they were "violent". As here, the European far-right aims fire at Muslims above all other groups. In the Netherlands, an anti-Muslim party led by Geert Wilders is the third largest in parliament. Wilders compares the Koran to Mein Kampf, calls Islam a "Trojan Horse" in Europe and demands that the country's 850,000 Muslims be paid to leave the country. Wilders doesn't languish on the fringes: the current Dutch cabinet depended for two years on his party's support.

Or take sleepy Switzerland, where the Swiss People's Party (SVP) is the biggest party in the country's Federal Assembly. The SVP won a referendum on the banning of minarets, which the party's general secretary described as "symbols of Islamic power". During the vote, Geneva's mosque was repeatedly vandalised. Farhad Afshar, the president of the Coordination of Islamic Organisations, had no doubt what signal was sent by this vote: "that Muslims do not feel accepted as a religious community". But it gets even darker than that. In June, the Zurich-based SVP politician Alexander Müller was forced to stand down after tweeting: "Maybe we need another Kristallnacht… this time for mosques." The parallels with anti-Semitism could not be more overt.

In France – where recently 42 per cent polled for Le Monde believed that the presence of Muslims was a "threat" to their national identity – a record number voted for the anti-Muslim National Front in April's presidential elections. Denmark's third largest party is the People's Party, which rails against "Islamisation" and demands the end of all non-Western immigration. The anti-Muslim Vlaams Belang flourishes in Flemish Belgium. But those who take a stand against Islamophobia are often demanded to qualify it with a condemnation of extremism. When is this ever asked of other stands against prejudice? When we condemn anti-Semitic hate, must we criticise repressive Israeli policies in the same breath? It would be absurd – they are completely separate issues, and indeed millions of Jews across the world oppose the actions of Israel's government.

Anti-Muslim hate is a European pandemic. I'm proud to stand with Mehdi Hasan and other Muslims facing Islamophobia. But – I implore, I beg fellow non-Muslims – stand with them too, before this hatred spirals further out of control.

(fonte: theindependent)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Mais um nó cego?

Mais umas eleições e mais uma situação de desequilíbrio político na Grécia. Ao contrário do que previ no mês passado, o Syriza não ganhou as eleições embora tenha estado muito perto de o fazer. Os conservadores pró-Troika da Nova Democracia ganharam por uma unha negra mas não conseguem a maioria absoluta mesmo com o prémio de 50 deputados dados ao partido mais votado. O Pasok (Partido Socialista) poderia compor uma maioria absoluta mas já avisou que só entra num governo de coligação se o Syriza também o fizer.

Agora alguém terá que ceder. Ou teremos um governo minoritário, que acabaria por cair mais ano menos ano, ou o Pasok volta atrás na sua palavra e teremos uma maioria estável que terá que governar contra os 60% a 70% de gregos que votaram contra a austeridade ou, por fim, o Syriza aceite entrar num governo pró-Troika o que seria um harakiri político.

Nada mudou desde o início de Maio. O mesmo nó cego, a mesma impossibilidade de formação de um governo estável e o interesse das várias partes em conflito tal que as cedências dificilmente se tornam opções. Mas algo mudou e muito: hoje a Grécia tem menos um mês para resolver os seus problemas. E se tiverem que ir novamente a eleições é provável que vejam os cofres do tesouro vazios antes de terem um governo feito.

Márcia Rodrigues da RTP tem-nos mostrado o rápido colapso da sociedade grega numa sequência brilhante de entrevistas e peças jornalísticas. Há apenas uns dias revelou-nos que as fármacias tinham filas à porta desde a madrugada, não estão a ter reposição de stocks e todos os remédios deixaram de ser comparticipados.

Vejamos agora as próximas horas. Para bem de todos nós, e em especial dos gregos, que consigam chegar a um acordo, formar um governo e começar a trabalhar todos juntos no sentido da estabilidade política, económica e social. Não há dinheiro que resolva o problema se estas três componentes não voltarem a seguir o caminho do progresso.  

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Gunther Grass - A Vergonha da Europa

Depois do seu polémico poema sobre Israel e a sua capacidade nuclear, o mais conhecido poeta alemão vivo está de volta com um poema violento sobre a europa e a necessidade de esta ser solidária para com a Grécia. É muito fácil para nós (portugueses, gregos e irlandeses) que estamos na posição de devedores pedirmos ajuda e mais dinheiro. Quando isto é dito por um alemão a opinião deve ser considerada com mais cuidado. É que serão precisamente os cidadãos alemães os que maior fatia terão que pagar da factura para que os restantes se aguentem de pé.

Acima de tudo, temos que respeitar quem se disponibiliza a ser solidário.

Europe's shame
A poem by Günter Grass

Close to chaos, because the market is not just,
you're way out of the country that lent you the cradle.

What with the soul searching, you found was,
is now considered, appraised at scrap value.

As a debtor placed naked on the pillory, suffer a country
owe a thank you to you was saying.

Poverty doomed country whose wealth
adorn museums maintained: kept from you loot.

With the force of arms the inselgesegnete country
ravaged wore the uniform Hölderlin in his knapsack.

Barely tolerated country whose colonels of you
were once tolerated as an ally.

Loses right country to which the power law partner
buckled his belt tighter and tighter.

Antigone defying you wearing black and nationwide
mourning clothes, the people whose guest you have.

However, the country has to wake Croesus related
all that glitters golden hoarded in your vaults.

Sauf finally, drink! scream of Commissioners cheerleaders,
but anger is Socrates you back the cup to the brim.

Cursing in the choir, which is characteristic of you are, the gods,
to disown their Olympus Thy will be required.

You'll waste away mindlessly without the country,
whose mind you, Europe devised.


(tradução inglesa: corfublues)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A face do fim da Europa

Alexis Tsipras

A Europa poderá estar à beira do colapso. A previsivel saída da Grécia do Euro - e eventualmente até da União Europeia - vai significar que dezenas de milhares de milhões de euros emprestados pelos países europeus vão desaparecer. Os países que já estão em risco sofrerão simultaneamente da falta desse dinheiro e duma desconfiança acrescida por parte dos mercados, dos países irmãos e até dos seus próprios cidadãos, que naturalmente reduzirão o consumo com o vista a preparem-se para o pior.

Como demonstra a teoria dos jogos de John Nash, a atitude racional de cada um dos jogadores não garante um resultado ideal, mesmo quando este existe e é claramente superior ao resultado de equilíbrio. O que temos na Europa pode ser demonstrado desta forma: as opções lógicas de Alemães e Gregos (e outras combinações semelhantes) levar-nos-ão inevitavelmente até um resultado que não agradará a ninguém.

A minha solução é directa, embora não seja consensual. Chama-se Estados Unidos da Europa e já falei dela anteriormente (ver aqui).

Mas parece cada vez mais distantes, e uma face vem ao de cima, e que poderá ficar para sempre lembrada como o carrasco da Europa: Alexis Tsipras, líder do Syriza e provável vencedor das próximas eleições gregas.

Por um lado, a sua posição anti-troika impede-o de aceitar entrar em algum governo liderado pela Nova Democracia ou pelo Pasok. Por outro lado, com as sondagens a darem-lhe vitória nas próximas eleições, não tem quaisquer vantagens políticas em o fazer. Por fim, a sua popularidade é resultado precisamente por ser anti-troika, pelo que uma participação num governo de unidade nacional ou algo semelhante seria um suicídio político. Resultado? Será o próximo primeiro ministro da Grécia. E, provavelmente, a face do fim da Europa.

sábado, 10 de março de 2012

Estados Unidos da Europa

A crise em que a europa está envolvida, já com a Grécia, Irlanda e Portugal em situação de apoio financeiro enquanto a Itália e Espanha estão perto disso tem obrigado a medidas de curto prazo duríssimas para os seus cidadãos de forma a controlar a espiral de déficit público destes países.

São muitas as explicações para esta crise, com raízes na crise de subprime americana, seguidas pela crise financeira resultante e finalmente pela crise orçamental provocada pelos gastos estatais feitos na tentative de controlar as crises anteriores. A próxima crise é naturalmente a crise de investimento causada quer pela austeridade orçamental quer pela crise de confiança dos consumidores e investidores.

E acabei de usar oito vezes a palavra "crise" para conseguir descrever a dita-cuja em que nos encontramos...

Sou um crítico violento do prémio Nobel da economia Paul Krugman. Gosto das análises que faz mas discordo das soluções que apresenta. Foi ele mesmo, com o poder que só um "óscar" da economia tem, e suportado por uma onda global de novos keynesianos, que deu a base científica para os déficit orçamentais incontrolados em que nos encontramos. Agora visita Portugal e diz-nos que "não faria diferente do que o governo português está a fazer" e que os salários portugueses teria que ser cortados ainda mais em relação aos da Alemanha. Escrevi sobre as suas visões um mês antes dessa vinda a Portugal:

http://oreivaivestido.blogspot.com/2012/01/economia-de-guerra-de-krugman.html

Nesse mesmo dia, Krugman tem um artigo no New York Times que faz uma análise bastante interessante sobre o problema da Europa e as dificuldades em que esta tenha um comportamento semelhante aos EUA. Deixo aqui o link e uma cópia de um parágrafo que vai de encontro ao meu tema de hoje:

http://www.nytimes.com/2011/01/16/magazine/16Europe-t.html?_r=1&pagewanted=all

"What does this have to do with the case for or against the euro? Well, when the single European currency was first proposed, an obvious question was whether it would work as well as the dollar does here in America. And the answer, clearly, was no — for exactly the reasons the Ireland-Nevada comparison illustrates. Europe isn’t fiscally integrated: German taxpayers don’t automatically pick up part of the tab for Greek pensions or Irish bank bailouts. And while Europeans have the legal right to move freely in search of jobs, in practice imperfect cultural integration — above all, the lack of a common language — makes workers less geographically mobile than their American counterparts.

And now you see why many American (and some British) economists have always been skeptical about the euro project. U.S.-based economists had long emphasized the importance of certain preconditions for currency union — most famously, Robert Mundell of Columbia stressed the importance of labor mobility, while Peter Kenen, my colleague at Princeton, emphasized the importance of fiscal integration. America, we know, has a currency union that works, and we know why it works: because it coincides with a nation — a nation with a big central government, a common language and a shared culture. Europe has none of these things, which from the beginning made the prospects of a single currency dubious."

Acho particularmente interessante porque, na minha opinião, pega precisamente em alguns dos assuntos que eu gostaria de ver discutidos no parlamento europeu e depois sufragados pelos Europeus.

Acredito na criação de uns Estados Unidos da Europa, aliás, não vejo outra solução para a Europa senão essa. Já fizemos muito até agora mas espero que consigamos dar o passo em frente. Mesmo com todas as dificuldades que hoje passamos, devemos lembrar-nos de a europa é o mais democrático de todos os continentes, onde os cidadãos têm o direito de processar os estados, onde os líderes políticos não ficam nos seus lugares para sempre, onde as liberdades religiosa, política e de imprensa são maiores e a UE o maior garante de uma paz duradoura neste campo de batalha das duas maiores guerras alguma vez vistas pela humanidade.

São vários os pontos que a Europa tem que discutir, para além das crises de curto prazo:

- A criação de um verdadeiro governo central, onde todos os estados (e não só a Grécia) abdicam de uma parte da sua soberania.

- Definição do que são os problemas comuns e os problemas de cada um dos estados de forma a que possam ser separadas as responsabilidades (por exemplo, as questões aduaneiras, e de polícia federal, de defesa e de negócios estrangeiros seriam no meu entender centralizadas).

- Funções do Banco Central Europeu, passando não só de protector da inflação baixa para emprestador de último recurso e financiador do governo europeu.

- Língua (e Cultura e Mobilidade Laboral) devia também ser discutida. Sei que é um ponto sensível porque a europa tem quase tantas línguas como países, mas deveria existir uma língua europeia para além das línguas nacionais. Inglês, Françês, Esperanto ou outra qualquer. Uma que fosse ensinada em todos os países desde os 5 anos e que em vinte anos toda a Europa consegui tratar os seus negócios nessa língua. Os romanos conseguiram colocar toda o seu império a falar latim, uma língua incrivelmente complexa sem sequer existir ensino básico. Porque motivo seria tão difícil fazermos o mesmo?

Embora com escassas hipóteses de ganhar, uma solução destas deve ser claramente feita com o apoio do povo e não nas suas costas. Ou por referendo directo ou dando tempo suficiente para que estas questões estejam explicitamente definidas nos planos de governo de todas as eleições nacionais durante um período de 4 a 6 anos.

Existem ainda outras opções, mas eu vejo-lhes defeitos muito mais graves: ficar como está, ou voltar para trás (aos estados nação). Não consigo imaginar como é conseguimos sobreviver a longo prazo se a Europa estiver partida em dezenas de estados de 10 a 40 milhões de habitantes enquanto os outros blocos nos fazem frente com 200 a 1500 milhões. Seja em ataques monetários, económicos, políticos ou mesmo financeiros se nada mudar (ou pior ainda se voltar para trás) não seremos mais do que campo de batalha para os restantes.