A crise em que a europa está envolvida, já com a Grécia, Irlanda e Portugal em situação de apoio financeiro enquanto a Itália e Espanha estão perto disso tem obrigado a medidas de curto prazo duríssimas para os seus cidadãos de forma a controlar a espiral de déficit público destes países.São muitas as explicações para esta crise, com raízes na crise de subprime americana, seguidas pela crise financeira resultante e finalmente pela crise orçamental provocada pelos gastos estatais feitos na tentative de controlar as crises anteriores. A próxima crise é naturalmente a crise de investimento causada quer pela austeridade orçamental quer pela crise de confiança dos consumidores e investidores.
E acabei de usar oito vezes a palavra "crise" para conseguir descrever a dita-cuja em que nos encontramos...
Sou um crítico violento do prémio Nobel da economia Paul Krugman. Gosto das análises que faz mas discordo das soluções que apresenta. Foi ele mesmo, com o poder que só um "óscar" da economia tem, e suportado por uma onda global de novos keynesianos, que deu a base científica para os déficit orçamentais incontrolados em que nos encontramos. Agora visita Portugal e diz-nos que "não faria diferente do que o governo português está a fazer" e que os salários portugueses teria que ser cortados ainda mais em relação aos da Alemanha. Escrevi sobre as suas visões um mês antes dessa vinda a Portugal:
http://oreivaivestido.blogspot.com/2012/01/economia-de-guerra-de-krugman.html
Nesse mesmo dia, Krugman tem um artigo no New York Times que faz uma análise bastante interessante sobre o problema da Europa e as dificuldades em que esta tenha um comportamento semelhante aos EUA. Deixo aqui o link e uma cópia de um parágrafo que vai de encontro ao meu tema de hoje:
http://www.nytimes.com/2011/01/16/magazine/16Europe-t.html?_r=1&pagewanted=all
"What does this have to do with the case for or against the euro? Well, when the single European currency was first proposed, an obvious question was whether it would work as well as the dollar does here in America. And the answer, clearly, was no — for exactly the reasons the Ireland-Nevada comparison illustrates. Europe isn’t fiscally integrated: German taxpayers don’t automatically pick up part of the tab for Greek pensions or Irish bank bailouts. And while Europeans have the legal right to move freely in search of jobs, in practice imperfect cultural integration — above all, the lack of a common language — makes workers less geographically mobile than their American counterparts.
And now you see why many American (and some British) economists have always been skeptical about the euro project. U.S.-based economists had long emphasized the importance of certain preconditions for currency union — most famously, Robert Mundell of Columbia stressed the importance of labor mobility, while Peter Kenen, my colleague at Princeton, emphasized the importance of fiscal integration. America, we know, has a currency union that works, and we know why it works: because it coincides with a nation — a nation with a big central government, a common language and a shared culture. Europe has none of these things, which from the beginning made the prospects of a single currency dubious."
Acho particularmente interessante porque, na minha opinião, pega precisamente em alguns dos assuntos que eu gostaria de ver discutidos no parlamento europeu e depois sufragados pelos Europeus.
Acredito na criação de uns Estados Unidos da Europa, aliás, não vejo outra solução para a Europa senão essa. Já fizemos muito até agora mas espero que consigamos dar o passo em frente. Mesmo com todas as dificuldades que hoje passamos, devemos lembrar-nos de a europa é o mais democrático de todos os continentes, onde os cidadãos têm o direito de processar os estados, onde os líderes políticos não ficam nos seus lugares para sempre, onde as liberdades religiosa, política e de imprensa são maiores e a UE o maior garante de uma paz duradoura neste campo de batalha das duas maiores guerras alguma vez vistas pela humanidade.
São vários os pontos que a Europa tem que discutir, para além das crises de curto prazo:
- A criação de um verdadeiro governo central, onde todos os estados (e não só a Grécia) abdicam de uma parte da sua soberania.
- Definição do que são os problemas comuns e os problemas de cada um dos estados de forma a que possam ser separadas as responsabilidades (por exemplo, as questões aduaneiras, e de polícia federal, de defesa e de negócios estrangeiros seriam no meu entender centralizadas).
- Funções do Banco Central Europeu, passando não só de protector da inflação baixa para emprestador de último recurso e financiador do governo europeu.
- Língua (e Cultura e Mobilidade Laboral) devia também ser discutida. Sei que é um ponto sensível porque a europa tem quase tantas línguas como países, mas deveria existir uma língua europeia para além das línguas nacionais. Inglês, Françês, Esperanto ou outra qualquer. Uma que fosse ensinada em todos os países desde os 5 anos e que em vinte anos toda a Europa consegui tratar os seus negócios nessa língua. Os romanos conseguiram colocar toda o seu império a falar latim, uma língua incrivelmente complexa sem sequer existir ensino básico. Porque motivo seria tão difícil fazermos o mesmo?
Embora com escassas hipóteses de ganhar, uma solução destas deve ser claramente feita com o apoio do povo e não nas suas costas. Ou por referendo directo ou dando tempo suficiente para que estas questões estejam explicitamente definidas nos planos de governo de todas as eleições nacionais durante um período de 4 a 6 anos.
Existem ainda outras opções, mas eu vejo-lhes defeitos muito mais graves: ficar como está, ou voltar para trás (aos estados nação). Não consigo imaginar como é conseguimos sobreviver a longo prazo se a Europa estiver partida em dezenas de estados de 10 a 40 milhões de habitantes enquanto os outros blocos nos fazem frente com 200 a 1500 milhões. Seja em ataques monetários, económicos, políticos ou mesmo financeiros se nada mudar (ou pior ainda se voltar para trás) não seremos mais do que campo de batalha para os restantes.