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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Que esperança para o Médio Oriente?

Iraque, Síria, Líbia e Iémen em guerra civil. Arábia Saudita e os seus aliados do GCC (Gulf Cooperation Council) envolvidos em cada uma destas guerras. Irão enredado com os Houthis no Iémen, com os pés no Iraque, ligado ao Hizbullah libanês (que por sua vez opera com Assad na Síria) e cada vez mais uma peça fundamental no geograficamente limitado governo shiita de Bagdad. O Estado Islâmico controla milhões de civis e territórios extensos e segue parcialmente o estilo franchising da Al Qaeda, com inúmeros grupos e grupelhos a aliarem-se à causa, desde hackers europeus, ex-Al Qaedas no Iémen, Boko Harams na Nigéria e tribos líbias e iraquianas. Em nenhum destes sítios a paz, a democracia ou os direitos humanos fizeram progressos significativos. Pelo contrário, quando algo se alterou, foi para pior.

Em Israel e na Palestina, mantém-se o status quo, com os três actores principais (governo de Israel, Fatah e Hamas) a degradarem-se e digladiarem-se numa guerra semi-fria sem fim à vista. Nada a esperar senão a continuação da divisão palestiniana e as cíclicas guerras sobre Gaza, invasões da Cisjordânia e rockets atirados sobre os civis israelitas.

No Egipto, uma junta militar ilegalizou a Irmandade Muçulmana, prendeu o Presidente da República e elegeu um novo presidente com metade da população sem representação política. As detenções são às dezenas de milhares e as penas de morte aos milhares. Com grande pena minha, a única questão que coloco é quando começará a guerra civil no Egipto. Mesmo com os biliões de dólares que lá estão a ser injectados pelos Estados Unidos, pela Europa e pelas monarquias do Golfo, não tenho grande esperança. Assim que os ventos da economia mudarem, descobriremos que os milhões que votaram em Morsi ainda lá estarão, desta vez provavelmente armados e desiludidos com qualquer tipo de processo democrático.


Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud
Na Arábia Saudita, o recém chegado Rei Salman deserdou o príncipe herdeiro e fez descer uma geração no cargo, sendo o novo príncipe Muhammad bin Nayef - seu sobrinho, e o terceiro em linha o seu próprio filho, Muhammad bin Salman. O histórico príncipe Saud al Faisal, o poderoso ministro dos negócios estrangeiros durante 40 anos, é também uma alteração radical que não pode ser desprezada. O seu nome - e o seu poder - é uma constante em todos estes livros que vamos falando neste espaço. Estas mudanças recentes ainda não estabilizaram totalmente e esperamos para ver como o país e a numerosa família real lida com a situação. Há muito pouco de bom a dizer sobre a Arábia Saudita (em especial no que toca a direitos humanos no seu próprio país), mas se existe um factor que vale a pena mencionar é a sua estabilidade. Questionam-se muitos se, envolvidos em guerras no Iémen, Síria, Iraque e Líbia - todas com poucas esperança de sucesso - e uma passagem de testemunho atabalhoada onde muitos príncipes (literalmente filhos de antigos reis) acabaram de ser atirados para segundo plano, não terá essa estabilidade chegado ao fim. Para compreendermos melhor esta última frase, devo relembrar que os últimos seis reis da Arábia Saudita eram irmãos, todos filhos do fundador do país, Abdulaziz Ibn Saud.

Alguns países têm-se conseguido manter mais ou menos fora do pior da confusão, como a Jordânia, o Líbano e a Tunísia. No entanto, os dois primeiros recebem milhões de refugiados e estão a rebentar pelas costuras sem capacidade para tamanha imigração. O Líbano, já de si uma manta de retalhos de religiões e etnias com o mais peculiar de todos os sistemas supostamente democráticos do mundo, conta agora com 25% da população vinda da Síria. Para um país que nunca conseguiu recuperar totalmente da Naqba palestiniana em 1948 e dos refugiados de 1967, não é difícil imaginar que o pior ainda está para vir. A Jordânia mantém-se na sua inesperada paz, com o apoio ocidental e paz com Israel, mas cuja liderança relativamente iluminada não deve esconder o facto de que continua a estar muito longe de ser um país livre. Mas sobreviveu ao pior e ainda não perdi a esperança neste país sem grande passado mas ao qual o futuro ainda poderá reservar um lugar interessante.


Tataouine, Tunisia
Por fim, a Tunísia, o único local realmente merecedor de verdadeira esperança para o Médio Oriente (embora tecnicamente já estejam bem longe do Médio Oriente propriamente dito). O processo democrático tem-se aprofundado, com os partidos a aceitarem a alternância e sem a habitual utilização das forças de sergurança e serviços secretos para liquidarem a oposição. O Estado Islâmico já mostrou interesse na região, mas a situação está longe de perdida. Enquanto europeu, gostava muito de ver a União Europeia a financiar tanto quanto possível o desenvolvimento do país, sempre com os direitos humanos e políticos como moeda de troca. A democracia não sobrevive se não existir progresso, ordem e liberdade (só faltou esta última na bandeira verde e amarela).

Temo que grande parte do Médio Oriente piorará muito nos próximos anos, antes de começar a melhorar. Talvez um sucesso democrático na Tunísia possa iluminar o caminho para os restantes, mais uma vez. Durante o último ano, pouco temos ouvido da Tunísia. Pas de nouvelle, bonnes nouvelles? 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Inverno Egípcio

O Egipto tem um lugar especial no Médio Oriente. Não só pela sua história pré-clássica, mas também pela enorme influência que tem nas mentes de todos os árabes. Nos últimos séculos este país criou ou desenvolveu alguns dos pensamentos mais radicais e influentes do mundo árabe, tais como o Pan-Arabismo[1] de Gamal Abdel Nasser, a Irmandade Muçulmana[2] de Hassan al-Banna ou a Primavera Árabe (precedida neste caso pela Túnisia).

Mas não só no campo das ideias tem o Egipto liderado o mundo árabe. A sua população de 85 milhões de pessoas torna-o no mais populoso de todos os países do Médio Oriente, sendo seguido de perto apenas pelo Irão e Turquia, ambos países não-árabes e com as suas próprias línguas e sistemas políticos bastante peculiares. Dados os baixos salários na sua terra natal, encontramos egípcios a trabalhar por todo a região e cobrindo lugares de relevo nas monarquias petrolíferas do golfo, cuja rápida expansão os deixou numa constante necessidade de recursos especializados.
Cairo, 11 de Fevereiro de 2011. Festejos na Praça Tahrir.

Não é por isso de estranhar que, quando a Primavera Árabe chegou à Praça Tahrir e as manifestações de centenas de milhares de pessoas exigiram e conseguiram a queda do eterno ditador Hosni Mubarak, o mundo parou. Na altura encontrava-me na Palestina. Ninguém tirava os olhos da televisão dia e noite. Toda a gente tinha a Al Jazeera no computador para ouvir os directos enquanto trabalhava e os cafés encheram-se de improvisadas bandeirinhas do Egipto. Por todo o lado respirava-se um ar de esperança como nunca vi em todos os anos da minha vida. Os acontecimentos da Tunísia já tinham deixado toda a gente boquiaberta, mas ver o Egipto a tremer parecia um sonho para todos.

Depois de cinco mil anos de História,
 o Egipto elege democraticamente o seu chefe de estado.
2012 Mohamed Morsi
Depois de muita confusão, avanços e recuos chegaram as imprevisíveis e muito esperadas eleições presidenciais. Em 2012, Mohamed Morsi torna-se no primeiro presidente eleito na história do Egipto, apoiado pela Irmandade Muçulmana. Na realidade, muitos dos que fizeram e apoiaram a revolução na Praça Tahrir de Fevereiro de 2011 não eram conservadores islâmicos. As ínumeras entrevistas feitas na altura, a forma como receberam personalidades pró-ocidentais, o facto de não se ter visto os típicos incêndios de bandeiras israelitas ou americanas, deixam-me com a certeza de que se tratava acima de tudo de uma revolução urbana, pró-democrática e liberal[3]. Durante semanas a Irmandade Muçulmana manteve-se de parte, mas juntou-se à manifestação a tempo de ainda poder colher os frutos de quem escolhe o lado certo da História.

No entanto, o Egipto não é o Cairo, e os dois mais votado da primeira volta são o conservador islâmico - mas aparentemente democrático - Mohamed Morsi e o último Primeiro-Ministro do ditador Mubarak, Ahmed Shafik. Para quem sonhava com um regime democrático e secular, que seguisse o modelo françês ou americano, foi um rude golpe. Não é possível ter a certeza, mas pelo que fui ouvindo dos egípcios que conheço, parece-me que os liberais juntaram os seus votos à Irmandade Muçulmana para impedirem um regresso de Mubarak. O resultado final foi um vitória tangencial de Morsi com 51,73% contra 48,27% de Shafik[4].

Mas Morsi não consegue estar à altura das expectativas. Pouco democrático, começa a concentrar em si todo o poder do estado perdendo rapidamente o apoiou da ala liberal e urbana que derrubara o anterior regime e, directa ou indirectamente, o colocara no poder. As forças armadas, que tinham evitado um banho de sangue na Praça Tahrir um ano e meio antes forçando a queda de Mubarak, voltam a tomar o poder como fizeram no período de transição anterior às eleições. O seu líder, o general Abdel Fatah Al Sisi manda prender Morsi[5] e rapidamente bloqueia[6] e depois ilegaliza a Irmandade Muçulmana[7], que um ano antes juntara mais de 13 milhões de votos.
General Abdul Fatah Al Sisi,
actual Presidente do Egipto

Já em 2014, o mesmo Sisi ganha facilmente umas eleições a que o Partido Liberdade e Justiça (o braço político da Irmandade Muçulmana) é barrado. Lembrando outras famosas eleições na região, o novo Presidente Sisi atinge os 96,91% de votos[8]. Um fenómeno de popularidade que se estende bem para fora do Egipto. Grande parte das monarquias do Golfo[9][10], os Estados Unidos[11] e a Europa[12] rapidamente declaram a sua amizade e confiança no novo governo e presidente. 

Morsi, tal como Mubarak, apodrece na cadeia pelas mesmas acusações de ter causado massacres na praça Tahrir, antes de cair do poder. A ironia é que também Sisi pode um dia juntar-se aos dois anteriores chefes de estado. Segundo o Human Rights Watch, as forças de segurança egípcias mataram intencionalmente pelo menos 817 manifestantes durante o massacre da praça de Rabaa em 2013[13]. Entretanto centenas de penas de morte são decididas em processos judiciais demasiado rápidos para poderem ser honestos[14[15], tudo isto debaixo de enormes protestos de Ban Ki Moon, secretário geral das Nações Unidas[16], assim como os Estados Unidos, alguns governos europeus[17] e várias ONG's[18].

Entretanto, a televisão do Qatar, Al Jazeera vê vários dos seus jornalistas presos e condenados a longas penas de prisão sobre acusações ridículas de terrorismo que chocaram o mundo dos media[19]. Parece-me que ninguém que conheça minimamente a política do Médio Oriente acreditará que esta não é uma apenas uma pequena batalha de uma guerra fria entre a Arábia Saudita e o Qatar, de cujo resto do mundo parece ignorar.


Jornalistas de todo o mundo juntam-se à causa da libertação
 dos jornalistas da Al Jazeera: Peter Grest, Baher Mohamed and Mohamed Fahmy
Por todo o lado ouço que o Egipto está óptimo, cheio de esperança e a crescer num optimismo como há muito não se via. Por todo a região, o assunto parece estar fechado e arrumado. Mas, pergunto eu, alguém acha que se pode ilegalizar os representantes de 12 milhões de votantes, fazer 16.000 presos políticos no espaço de um ano, sentenciar penas de morte a centenas com tribunais fantoche, praticar dezenas de homicídios dentro de esquadras, torturar em larga escala[20] e continuar a ser uma democracia? O Egipto escolheu um caminho do qual dificilmente terá retorno e onde todas as opções são agora demasiado sombrías: ou o ciclo de violência se alastra com os milhões de apoiantes de Morsi a contra-atacarem, correndo até o risco de uma guerra civil; ou Sisi terá que deixar todas as pretensões de ser um presidente democrático e tornar-se num ditador com pulso de ferro.

Dizia Padmé Amidala: "Então é assim que liberdade morre... com um estrondoso aplauso"[20]. Para o Médio Oriente, essas palavras nunca foram tão verdadeiras como nos dias que correm.




segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Palestina e os refugiados

1948 Coluna de refugiados palestinianos
Uma das questões centrais do problema Israelo-Árabe e de uma futura solução de paz (seja ela de um ou dois estados) é do direito de regresso dos refugiados. E embora exista uma resolução da ONU (Resolução 194 de 1948[1]) que indica claramente que o direito de regresso existe, este continua a ser um dos temas que tem bloqueado muitas das conversações de paz. O grande problema é que depois de tantas guerras, de uma limpeza étnica em larga escala (em 1948[2]) e da não integração dos descendentes de refugiados nos países de acolhimento, existem hoje, segundo as Nações Unidas, mais de 5 milhões de refugiados palestinianos[3].
Ministro israelita dos Negócios Estrangeiros,
 Moshe Sharett, assina o acordo de reparações
 entre Israel e a Alemanha (RFA) em 1952

Dada a quantidade de refugiados, existe um problema claramente financeiro, ou seja, se de um momento para outro regressassem todas estes milhões de palestinianos (ou mesmo uma fracção delas) com direito a reaverem as suas terras, casas, depósitos bancários, bens ou compensações por valor semelhante, isso arruinaria imediatamente o estado de Israel e provavelmente também o da Palestina. Ou seja, é perfeitamente impraticável que tal aconteça, não obstante ser da mais elementar justiça que isso acontecesse. Aliás, o próprio estado de Israel, enquanto auto-entitulado representante de todos os judeus do mundo presentes e passados, recebeu enormes compensações da Alemanha[4] pelos crimes cometidos por esta durante a segunda guerra mundial. Nesse sentido, Israel deveria também arcar com as consequências dos seus actos de 1948 em diante.

No entanto, muitos destes refugiados não nasceram na Palestina ou em Israel. Muitos são filhos ou mesmo netos dos refugiados de 1948 ou 1967[5]. Isto causa alguma estranheza já que em muitos outros lugares do planeta existiram migrações massivas forçadas durante os anos 40 e no entanto não temos hoje um problema grave de refugiados na Ucrânia, na Alemanha ou na Polónia (só para dar alguns exemplos). Na mesma altura, durante a criação do estado de Israel, cerca de 700 mil judeus que viviam em países árabes, desde Marrocos até ao Irão são forçados também a fugir de suas casas. Uma enorme comunidade perfeitamente integrada nas sociedades desses países desde tempos ancestrais, foram subitamente considerados personas non gratas e fugiram para Israel. Marrocos, onde viviam um quarto de milhão de judeus está hoje reduzida a uns insignificantes dois mil. O Iraque, com mais de 100 mil judeus em 1948 tem hoje virtualmente zero e os únicos países que mantêm acima de dez mil judeus é a Turquia e o Irão, mas mesmo assim muito menos do que no final da segunda guerra mundial[6].

A grande diferença entre todos estes refugiados e os refugiados palestinianos está no comportamento dos países de acolhimento. E, devemos sublinhar, países anfitriãos que partilham cultura, língua, religião e história com a esmagadora maioria de pessoas desta vaga de refugiados.

Do outro lado do Jordão, a Jordânia é hoje o mais amigável dos vizinhos quer para israelitas quer para palestinianos. No entanto, nem tudo começou bem e desde a derrota de 1967, na guerra dos 6 dias, os refugiados palestinianos foram mantidos também como cidadãos de segunda. Acabou com o terrível "Setembro Negro"[7], uma guerra civil entre palestinianos e jordanos em grande parte provocada por Yasser Arafat num dos seus inúmeros erros  (e crimes) que resultaram em milhares de vítimas mortais. Muito poderia ter sido salvo se Arafat tivesse aceitado a proposta do Rei Hussein da Jordânia para servir como seu Primeiro-Ministro em 1974[8], o que teria levado à inclusão dos palestinianos como jordanos de pleno direito nessa altura. Infelizmente tal não aconteceu e acabou por fugir com as suas tropas para uma das outras concentrações de refugiados da Palestina: o Líbano.
1982 Yasser Arafat em Beirute

A norte, um Líbano que era supostamente o estado cristão maronita do Médio Oriente, via a sua frágil maioria política a desvanecer-se rapidamente para maior taxa de natalidade dos sunitas, shiitas e druzes[9][10]. O pecado original de, com o apoio da potência colonial gaulesa, terem criado um país com demasiado território e onde a os cristãos detinham mais poder político mas uma maioria demográfica muito ligeira. Desta forma, os palestinianos foram mal vistos e mantidos em guetos sem acesso aos serviços do estado (como educação ou justiça) e, durante décadas, sem terem sequer o direito de transformar as suas barracas em casas. Foram proibidas a utilização de variados materias de construção e o exército libanês mantinha este população de centenas de milhares permanentemente policiada[11][12]. Não é de estranhar que 1975 o país entrasse em guerra, precisamente entre cristãos e palestinianos (teve várias outras fases onde as várias facções regionais foram intervindo, como os sunitas, shiitas, israelitas, sírios e iranianos, para além dos Estados Unidos da América, Itália e França). Até hoje, os palestinianos nascidos no Líbano continuam a não ter passaporte libanês nem têm qualquer representação política[13].


2014 Palestinianos do campo de refugiados de Yarmouk,
perto de Damasco na Síria. (Imagem da UNRWA,
agência responsável pelos refugiados palestinianos)
Na Síria a situação era semelhante, embora os palestinianos nunca tenham conseguido criar a situação de "estado dentro de um estado", como aconteceu na Jordânia e Líbano. Hoje, muitos palestinianos nascidos na Síria estão novamente em fuga devido à selvagem guerra civil de destrói o país a cada dia que passa.
1948 Campo de Refugiados palestinianos em Gaza

Para sudoeste, numa pequena faixa de território denominada Gaza e praticamente desconhecida do mundo, viviam apenas 80 mil habitantes[14]. Em 1948 chegaram até quase 300 mil habitantes[15]. Com as vagas seguintes de refugiados e o seu crescimento demográfico natural, passa de uma pequena cidade agrícola e piscatória para um dos lugares mais populosos à face da terra. Nas tréguas que se seguiram à guerra da independência de Israel, este território ficou nas mãos do Egipto[16], mas este nunca abriu o território ao Sinai nem permitiu que fossem considerados egípcios. Para todos os efeitos, tal como os restantes vizinhos árabes, o Egipto não queria o preço de absorver a população e queria manter o estatuto de refugiado vivo assim como um problema político grave para Israel. Com a paz conseguida em 1978/1979[17] entre Menachem Begin e Anwar Sadat (respectivamente líderes de Israel e Egipto), a faixa de Gaza e a Cisjordânia deveriam ter recebido a sua autonomia[18] num período de 5 anos, mas Israel nunca permitiu que essa parte do acordo fosse honrada. Como tal Gaza, ficou progressivamente mais isolada, e cada vez mais ocupada por colonos israelitas. Mais recentemente, com a decisão de Ariel Sharon de retirar todos os colonos israelitas de Gaza em 2005[19], o pequeno território de um milhão e oitocentas mil pessoas deixa de ser um sítio isolado para o que teremos de chamar de prisão a céu aberto, com todas as suas fronteiras terrestres, marítimas e aéreas controladas por Israel, com excepção da fronteira do Sinai, em Rafat. Entre Israel e Egipto, o povo de Gaza está hoje fechado num cerco absoluto.

Ou seja, cinco milhões e meio de palestinianos espalhados pelo mundo, tratados como cidadãos de segunda em todo o lado. Muitos conseguiram ser refugiados mais do que uma vez na vida. Histórias que ouço regularmente quando encontro palestinianos que cresceram nos campos de refugiados da Jordânia ou do Líbano, depois conseguiram ir trabalhar para o Kuweit para, depois da Tempestade do Deserto[20] serem expulsos novamente. Uma história que prometo contar com mais detalhe um destes dias. Mais um tiro no pé de Yasser Arafat, depois de apoiar Saddam Hussein na sua invasão do Kuweit[21].

Que fazer? Sinceramente eu só vejo uma solução. Num acordo de paz total entre Israel, Palestina e a Liga Árabe, (1) os refugiados devem ter direito a compensações mas não ao direito de regresso. O mesmo em relação aos refugiados judeus dos países árabes; (2) todos os palestinianos nascidos nos restantes países árabes devem ganhar cidadania automática (percebo que os negociadores da Autoridade Palestiniana não queiram admitir isto porque dependem também das ofertas monetárias de antigos refugiados e muitos países árabes apoiam a causa mas querem livrar-se dos palestinianos, mas não vejo outra forma). Os Estados Unidos da América e a União Europeia, se quiserem ajudar, podem contribuir muito quer na parte diplomática quer financeira. No final, quer Israel quer Palestina, têm que ter as suas fronteiras seguras, viver em liberdade e ter acesso aberto ao mundo. A Palestina independente poderá depois permitir ou promover o regresso dos antigos refugiados à nova Palestina.

A questão dos refugiados não é a única em aberto, mas é uma das mais complexas e provavelmente uma que não tem soluções ideais. Outros assuntos, como o estatuto de Jerusalém e os colonatos na Cisjordânia terão também que ser decididos, e certamente teremos também tempo para falar sobre esse assunto em breve.



terça-feira, 26 de junho de 2012

O caminho das pedras

A Praça Tahrir enche-se para celebrar a vitória de Morsi
As eleições presidenciais no Egipto entregaram o poder a Mohamed Morsi, candidato apoiado pela Irmandade Muçulmana, no entanto não existe uma constituição aprovada e para já não estão definidos os poderes do presidente egípcio. Ahmed Shafik perde por uma margem mínima e continua a ser o homem de confiança do aparelho construído por Mubarak durante décadas. Esse mesmo aparelho, em especial o SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas) continua agarrado firmemente ao poder e dissolveu o parlamento, o único orgão com alguma representatividade democrática e que poderia colocar as forças armadas no lugar deles - nos quarteis. Entretanto, Hosni Mubarak é dado como morte e logo a seguir como vivo mas em coma. Chegam-nos relatórios de que os cristãos coptas, representando cerca de 10% da população do país [1] estão aterrorizados com a hipótese de que o Egipto siga uma via teocrática ao estilo do Irão pós-revolucionário.

Falei aqui recentemente deste beco sem saída, um país sem constituição, sem parlamento, com umas forças armadas altamente politizadas e onde dezenas de milhares de pessoas têm esqueletos no armário fruto do trabalho da temida polícia secreta - Mukhabarat - durante três décadas [2].

O discurso de vitória de Morsi [3] procurou trazer alguma calma a todo o processo. Construiu uma imagem tranquila daquilo que procura fazer em termos nacionais, sem colocar de lado as minorias étnicas e religiosas, e defendendo uma via democrática clara. Em termos regionais e internacionais, pretende defender o acordo de paz com Israel assinado ainda pelo falecido presidente Anwar Sadat em 1981 (assassinado durante uma parada militar, com Mubarak sentado ao seu lado) e uma normalização das relações diplomáticas com o Irão. Este último item foi mal visto pela comunidade internacional, mas mostra a meu ver uma boa decisão em termos de política interna e procura um equilíbrio entre a influência da Arábia Saudita e outras forças regionais no país.

Morsi terá que ser extremamente habilidoso a lidar com o SCAF, procurando um apoio constante do povo egípcio. Terá que manter um equilíbrio difícil na região evitando a excessiva influência dos salafistas apoiados pela Arábia Saudita e estados do golfo pérsico. Terá que acalmar os medos israelitas que viram a vitória de Morsi como o fim de todas as esperanças de paz entre os dois países (algumas capas de jornais incluiam títulos como "Trevas no Egipto" e "O Temor tornou-se realidade). E os medos em Israel tendem a transformar-se em terror nos EUA e sangue na região.

O mais triste disto tudo é que Morsi deveria ocupar o seu tempo a tentar democratizar o país e colocá-lo no caminho do progresso económico, cultural, judicial e educacional de que tanto precisa. Mas dificilmente terá tempo para isso pois estará mais preocupado com a sua sobrevivência. Política... e física.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Territórios Desocupados da Palestina

Ehud Barak - Ministro da Defesa israelita
Num movimento surpreendente, Israel prepara-se para fazer uma retirada unilateral de parte dos territórios ocupados da Cisjordânia. Pelo menos, é o que nos faz crer uma afirmação de Ehud Barak, Ministro da Defesa israelita nos últimos dias [1]. Embora esta mudança de curso seja inesperada, já que a política oficial israelita dos últimos 3 anos tem sido de congelamento do processo de paz em paralelo com uma acelaração da construção de colonatos judeus no território ocupado, os seus motivos são relativamente óbvios:

Já aqui tínhamos falado anteriormente sobre essa impossibilidade lógica de Israel ser um Estado Judeu e Democrático. Se quer ser um estado judeu, então uma parte dos cidadãos terão que ter menos ou nenhuns direitos. Se quer ser um estado democrático, então todos terão que ser iguais perante a lei independentemente da religião ou etnia. Se este situação é complicada nas fronteiras aceites internacionalmente (dos cerca de oito milhões de habitantes, dois milhões são árabes), então com a inclusão dos territórios ocupados o número de árabes provavelmente excederá rapidamente o da população judaica. Isto, aos olhos dos israelitas, faz com que seja totalmente impossível imaginar uma solução de um estado binacional já que os muçulmanos e cristãos palestinianos teriam a maioria do parlamento, com a complicação acrescida dos israelitas estarem bastante mais divididos em partidos relativamente pequenos enquanto os palestinianos concentram todos os seus votos em apenas dois partidos.

Yitzahk Rabin, prémio Nobel da Paz e Primeiro Ministro de Israel até ao seu assassinato em 1995 às mãos de um extremista judeu, explicou a sua assinatura dos tratados de Oslo de uma forma semelhante. Na sua opinião, não seria possível a Israel manter a sua identidade se tivesse que governar milhões de cidadãos hostis. Ao colocar em causa o bíblico projecto de Eretz Yisrael, as forças mais conservadores do seu país moveram-se para colocar um fim à sua vida. 

Eretz Yisrael - Grande Israel
O pragmatismo demonstrado por Yitzahk Rabin nos acordos de Oslo, por Ehud Barak nos acordos (falhados) de Camp David e até por Ariel Sharon na sua retirada de Gaza vão directamente contra esse sonho de um estado israelita que se estende do Mar Vermelho até ao Golfo Pérsico [2]. Para termos noção do que historiadores como Avron Schmulevic defendem, coloco aqui um mapa do que representa esse Grande Israel. Podemos ver que partes consideráveis do Egipto, incluindo todo o Sinai, assim como da Arábia Saudita, Iraque, Síria e todo o Líbano e Síria estão incluidos nesse sonho.

Já antes Ehud Barak se tinha afastado destas ideias, e numa frase resumiu de forma brilhante a situação de Israel:

"Cada tentativa de manter estas regiões [Gaza e Cisjordânia] (...) leva necessariamente a um estado não-democrático ou a um estado não-judeu. Porque se os palestinianos votarem, isto será um estado bi-nacional, e se não votarem será um apartheid."[3]

Embora compreenda o pensamento do ministro da defesa israelita (e que poderá mesmo significar uma mudança de rumo de todo o governo dada a recente inclusão do partido Kadima no governo de coligação), tenho dúvidas se o unilateralismo será a melhor solução. O Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, acabou por ser a grande vítima da retirada unilateral de Gaza que foi transformada pelo Hamas numa vitória da sua resistência armada contra Israel. Seria provavelmente do interesse de Israel que o equilíbrio de poder na Palestina desequilibrasse para o lado Abbas e uma retirada pacífica, coordenada e acordada entre os dois conseguiria isso mesmo. Para além disso, poderia ser utilizada como um primeiro passo para a retoma do processo de negociação de paz, congelado há 3 anos. 

Um último dado será certamente a Primavera Árabe. A indefinição do futuro próximo dos seus vizinhos é certamente um risco para Israel. O Líbano está tão agitado como sempre, com um Hizbullah que mantém a sua força e acumula stocks de armamento. A Síria está em guerra civil e o resultado é uma interrogação. O Egipto poderá em breve estar totalmente controlado pela Irmandade Muçulmana. Apenas a Jordânia se mantém calma devido à mestria com que o seu monarca tem gerido a Primavera Árabe.

Solucionar a questão Israelo-Palestiniana não é só importante, mas também urgente. Por muita pouca esperança que os intervenientes tenham neste processo de paz, a bem de todos os habitantes da região nenhuma das partes tem o direito de desistir.


     

domingo, 3 de junho de 2012

Egipto - Um beco sem saída?

Mubarak durante a leitura da sentença
Quando achávamos que a situação do Egipto estava complicada, um novo factor se acrescenta tornando toda a situação ainda mais dramática. Nesta semana, Hosni Mubarak é considerado culpado em tribunal de primeira instância de não ter evitado o massacre ocorrido na praça Tahrir, Alexandria e outros lugares há um ano atrás, e onde morreram centenas de egípcios. A condenação, que num primeiro momento agradou todos aqueles que foram vítimas do regime, acabou com cenas de violência no tribunal, quando os seus filhos Alaa e Gamal Mubarak receberam o veredicto de inocência (não serão no entanto libertados pois estão já indiciados num crime económico relacionado subornos na venda de gas para Israel). Dezenas de milhares voltaram à famosa praça pedindo justiça, o que na opinião destes seria nada menos do que a pena de morte para Mubarak, os seus filhos e os seus ajudantes.

A contribuir para uma desconfiança total no sistema judiciário está ainda a questão de Mubarak ter sido considerado culpado apenas de não ter evitado os massacres, quando a generalidade da população acredita que ele foi o mandante. Que o seu crime não é de negligência, mas premeditado e ordenado pessoalmente.

Na realidade, todo o sistema da era Mubarak ainda se mantém de pé. A sua polícia secreta (mukhabarat), os seus tribunais, toda a economia, forças militares e polícias são as mesmas que das últimas três décadas. Não admira por isso que Mubarak não tenha ainda passado uma noite na cadeia. Todo este tempo, desde a sua detenção até hoje, foi passado num hospital de Sharm El Sheikh devido à necessidade de cuidados de saúde. Este, como seria de imaginar, torna o descrédito ainda maior.

Em paralelo, as eleições presidenciais resumem-se a apenas dois candidatos: Mohamed Morsi do Partido Liberdade e Justiça (ou seja a Irmandade Muçulmana) e Ahmed Shafik, independente, mas conotado com o regime de Mubarak e último primeiro ministro deste. Ou seja, a democracia egípcia tem apenas dois caminhos que são o de voltar atrás ou de avançar para um regime dominado na presidência e no parlamento pelos conservadores islâmicos (não utilizo o termo fundamentalista porque ainda temos os salafistas que fazem a irmandade parecer liberal).

Para todos os cristão, ateus, muçumanos moderados ou seculares, ter que fazer uma escolha destas é quase tão mau como quando não eram sequer chamados a decidir o seu líder.

O facto do ditador egípcio não ter recebido a pena de morte que todos esperavam, acrescido de nem sequer estar a ser julgado pelos crimes cometidos pelo seu regime durante três décadas, pode ser visto ainda como uma forma de ganhar tempo até que Shafik ganhe as eleições, altura em que o poderá eventualmente salvar de toda esta humilhação. O sistema é poderoso, rígido e antigo e combate a mudança - qualquer que ela seja - com todas as suas forças.

Esta história não ficará por aqui. Os militares não parecem ter qualquer vontade de entregar o poder a civis e mesmo depois das eleições poderão tentar aguentar a sua junta militar no poder até que uma constituição esteja escrita e aprovada no parlamento, o que poderá demorar algum tempo.

O maior dos sonhos do mundo árabe poderá transformar-se num pesadelo se as forças militares egípcias e a irmandade muçulmano não souberem estar à altura do momento histórico que vivem.

Enquanto olhava para as imagens de Hosni Mubarak atrás das grades, no tribunal do Cairo, lembrei-me das últimas palavras de Khalid Islambouli, o homem que assassinou o anterior presidente do Egipto, Anwar Sadat, durante uma parada militar em 1981: "Morte ao Faraó". Neste país, estas palavras têm muita força. Um Faraó é alguém que se julga Deus, que concentra em si o poder absoluto. Perguntei-me em silêncio se Mubarak teria sido o último. Ou só mais um. 


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mubarak não é um ditador

Joe Biden - Vice Presidente dos EUA
A diplomacia dos bons e dos maus. os bons são sempre bons mesmo quando matam, torturam, violam e oprimem. os maus são sempre maus mesmo que não tenhamos qualquer prova.

Por exemplo, Saddam era muito mau porque tinha utilizado armas de destruição massiva em cima do seu próprio povo e porque torturava os adversários, tal como disse Tony Blair no parlamento inglês a 25 de Fevereiro de 2003 (três semanas antes do início da invasão):

(...) the tens of thousands imprisoned, tortured or executed by his barbarity every year. The innocent die every day in Iraq—victims of Saddam—and their plight, too, should be heard.

(...) To those who say we are rushing to war, I say this: we are now 12 years after Saddam was first told by the UN to disarm; nearly six months after President Bush made his speech to the UN accepting the UN route to disarmament; nearly four months on from resolution 1441; and even now, today, we are offering Saddam the prospect of voluntary disarmament through the UN. I detest his regime—I hope most people do—but even now, he could save it by complying with the UN's demand. Even now, we are prepared to go the extra step to achieve disarmament peacefully [1].

Quando as potências ocidentais invadiram o Iraque utilizando urânio empobrecido e torturando em Abu Graib, Guantánamo, Diego Garcia e outras prisões da CIA, não o fazem por serem maus. Fazem-no porque o inimigo é mau e os obriga a isso. É uma lógica retorcida (e que já agora, podia ser utilizada por ambos os lados), mas aparentemente aceite desde o mais comum dos mortais até aos grandes líderes do mundo. Curiosamente o facto de Saddam Hussein ter utilizado armas químicas e biológicas sobre os iranianos de Ayatollah Khomeini (durante a guerra Irão-Iraque nos anos 80 [2]) não é nunca dado como exemplo da vilania do ditador iraquiano. É que afinal de contas, os maus - nessa altura - eram os iranianos. O Saddam era dos bons e tinha o apoio da Arábia Saudita, dos estados do golfo e das potências ocidentais. As armas químicas utilizadas por Saddam tinham sido produzidas com o apoio da Alemanha, Itália, França, Brasil, Estados Unidos da América, Reino Unido, Áustria, Singapura, Holanda, Egipto, Índia, Luxemburgo, Espanha e China [3]. Como se pode ver, os telhados de vidro são amplos e cobrem quase todos os cantos do mundo.

Aqui temos mais um caso que demonstra que esta hipocrisia continua viva e de boa saúde. Em plena Primavera Árabe, com um milhão de pessoas na praça Tahrir no Egipto prestes a destituirem o ditador Hosni Mubarak que durante décadas torturou e corrompeu o berço da civilização mundial, o vice presidente americano Joe Biden é alvo da seguinte pergunta:

PBS: (...) should Mubarak be seen as a ditactor?

JB: Look [haaaa....] Mubarak has been an ally of ours in a number of things. He has been very responsible on relative to geo political interest in the region... [haaaa....] [haaaa...] [haaaa...] [he...] middle east peace... [he...] [he..] [ha...] efforts... [he...] [ha...] the actions Egypt is taking relative to [ha...] [ha...] normalize relationship with [ha...] with Israel [hum...] and I... I think that [ha...] [hum...] it would be... I... I would not refer to him as a ditactor.

Obviamente Joe Biden sabe melhor do que qualquer um de nós que Mubarak era mesmo um ditador. Que a sua polícia secreta - a temida Mukhabarat - comete violações dos direitos humanos numa base diária. Que as eleições eram totalmente falsificadas. Que os oponentes políticos eram presos e torturados. Que era líder de um país totalmente corrupto e em que ele próprio era um líder desse mesmo crime organizado. Que tinha uma fortuna acumulada de dezenas de milhares de milhões de dólares que não podem ser explicados pelo salário dele enquanto presidente, etc. Mas era um ditador útil. E por isso não pode ser chamado pelo que ele é. Mesmo quando nesse preciso momento a sua polícia reprimia violentamente manifestações no Cairo, Alexandria, Suez e outros pontos do Egipto com um nível de violência quase ilimitado. 

Esta frase fez-me ainda recordar um momento extremamente infeliz de Franklin D. Roosevelt, presidente americano durante a segunda guerra mundial, que terá dito a seguinte frase sobre o ditador da Nicarágua, e aliado anti-comunista, Somoza, em 1939:

"Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch"

A única coisa que faz sentido na frase de Joe Biden é a dificuldade que ele tem em dizer tamanha mentira. Contei cada uma das hesitações e marquei-a no texto acima com os sons haaaa, he, hahum. São só 62 segundos. Vale a pena ver. E não esquecer.