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sábado, 12 de maio de 2012

A loucura e os Jihadistas barbudos

Anders Breivik
Há pouco tempo atrás, causei alguns distúrbios num comentário que fiz no Expresso online, quando sairam as primeiras notícias de que tinha acontecido um atentado numa escola judaica em Toulouse. Na altura ainda não era conhecida a autoria do ataque, mas como tinha sido precedido por um outro onde morreram 3 militares franceses de origem magrebina, havia uma séria hipótese de ter origem em movimentos neo-nazis, para além dos suspeitos habituais, os muçulmanos. O artigo do Expresso começava com a frase "Um louco ou um fundamentalista". O meu comentário foi o de que baseado nas vítimas que teria que ser considerado como fundamentalista e que se as vítimas fossem 16 afegãos, então seria um caso de loucura. Num artigo escrito nesses dias, expliquei melhor a questão e que pode ser visto aqui. Baseado na sabedoria mediática, chegamos à conclusão de que um muçulmano que comete um crime nunca é louco, mas sim fundamentalista. Um cristão/judeu que cometa o mesmo crime nunca o faz por fundamentalismo ideológico ou religioso mas sim por problemas psicológicos. Parece ridículo, mas é precisamente isso que nos está a ser ensinado pelos media e opinion makers.

Durante o julgamento de Anders Breivik (acusado dos atentados que levaram à morte de 77 pessoas) este tem defendido que não tem qualquer problema psicológico e que os seus actos devem ser vistos como políticos. Numa frase particularmente interessante ele diz que "Se eu fosse um jihadista barbudo ninguém poria em causa a minha sanidade". Breivik toca na mesma questão que já tinha referido antes: o ocidente tem dificuldade em aceitar que um dos seus seria capaz de fazer rigorosamente os mesmos crimes que acusamos os "outros" de cometer.

Os nossos crimes são racionalizados de forma a serem transformados em auto-defesa, negados ou atenuados ou - se nada mais houver a fazer - actos de loucura de indivíduos. Provamos que Saddam Hussein era um monstro porque utilizou armas de destruição massiva e torturava, mas as bombas nucleares utilizadas pelos EUA, os bombardeamentos incendiários sobre civis feitos pelos aliados na WWII, a tortura em Guntánamo e Abu Graib, são tudo actos que podem sempre ser explicados ou esquecidos.

Ninguém pergunta se Mohammed Merah (o atirador de Toulouse) tinha algum problema psicológico? Subitamente deixou de ser um françês para ser reduzido à categoria de "nascido em França" como se de um acidente se tratasse. E quanto a Breivik? Vão continuar a tentar convencê-lo de que está louco. É que um cristão branco nunca faria tal coisa. Right...

Outros relacionados (externo):
[1] Público: Primeiro-ministro norueguês diz que Breivik "falhou"
[2] Público: Um ano depois dos ataques de Breivik, a Noruega é "um país mais democrático"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Hipocrisia

Não sou o primeiro e não serei certamente o último a escrever sobre este grave problema que temos nos media ocidentais, e por arrasto, em toda a cultura mainstream do ocidente.

A pretensa superioridade moral do Ocidente chegou a um tal ponto que conseguimos desculpar todos os "nossos" erros como crises de loucura de um indivíduo, danos colaterais, falta de formação, escudos humanos e coisas do género. Os crimes dos "outros" (em especial quando os outros são muçulmanos) são, pelo contrário, sempre resultado de uma cultura/religião atrasada, malvada e dominadora.

Já o tínhamos visto centenas de vezes em massacres como Kana I e II, Sabra e Chatila, em inúmeras ocasiões nas últimas guerras do Iraque e Afeganistão, onde cada vez que morrem civis passamos sempre pelo mesmo processo mediático: negação, suspeita de escudo humano, danos colaterais, erro logistíco/formação e finalmente loucura. Em momento algum somos nós - cristãos - a ter atitutes imorais contra muçulmanos.

Em Abu Graib voltamos a ver algo semelhante. Torturas desumanas que vão completamente contra a carta dos direitos do Homem que foram primeiro negadas e depois consideradas distúrbios psicológicos.

Por outro lado, o regime de Assad é acusado pelo ocidente de ser um regime malvado (o golpe de marketing utilizado foi a suposta pertença no recém imaginado Axis of Evil) precisamente por bombardear civis e torturar pessoas (precisamente o que a NATO tem feito sem qualquer tipo de vergonha durante os últimos 10 anos).

No espaço de duas semanas temos mais dois casos exemplificativos:

1) Um soldado americano no Afeganistão assassina 16 pessoas incluindo crianças e é considerado como um homem com problemas mentais.

2) Um françês de origem argelina assassina 7 pessoas incluindo crianças e é considerado um fundamentalista islâmico e um ataque do próprio Islão à civilização Judaico-Cristã.

O mais curioso é a velocidade com que o Ocidente inteiro aceita esta contradição em real time. Não é o resultado de análises psicológicas aos indivíduos ou um longo processo em tribunal. É simplesmente um dogma:

Quando um cristão/judeu comete um crime é um indivíduo louco. Quando um muçulmano comete um crime é resultado de uma religião criminosa.