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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Abu Dhabi, da Pobreza à Riqueza

Um dos livros mais curiosos que li nos últimos tempos. Descrevendo com grande cuidado o progresso de Abu Dhabi na segunda metade do séc. XX, Mohammed Al-Fahim escreve na primeira pessoa revelando a absoluta miséria do seu povo até aos anos 60 e a rápida ascensão do Emirado até se tornar numa das mais ricas cidades do mundo.

Al Fahim não é um escritor ou um historiador, mas é filho de um dos conselheiros do fundador dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Zayed, e conhecido empresário local. O seu conhecimento é acima de tudo um testemunho que deveria ser complementado por muitos outros. Infelizmente para nós, que conhecemos e gostamos de Abu Dhabi, não existem muito mais livros escritos sobre essa época e praticamente nada se sabe sobre o que se terá passado antes do início do séc. XX. A excepção são alguns documentos das potências estrangeiras (em especial o Reino Unido) e relatos dos seus navegadores e viajantes.

Onde hoje existe uma cidade de 2.5 milhões de pessoas, no início dos anos 60 do século passado viviam menos de duas mil. Sem acesso a água potável a população bebia água do mar que era naturalmente (mal) filtrada pela própria areia e recolhida em poços dentro da ilha de Abu Dhabi. Durante os meses de maior calor, a população aumentava consideravelmente para se dedicar ao que era a única actividade económica digna de registo: pérolas. Este árduo trabalho consistia em passar 10 a 12 horas por dia a mergulhar para apanhar ostras no fundo do mar para recuperar as suas pérolas durante meses a fio. Os barcos eram pequenos e inseguros e mantinham-se no mar durante toda a temporada. Uma pequena indústria de barcos de transporte de víveres levava os bens mais essenciais até às frotas. Na ilha não existiam quaisquer edifícios, apenas as cabanas de "barasti" (folha de palma) onde a população vivia, sem acesso a electricidade, água corrente, esgotos ou qualquer outra das comodidades já comuns em tantos lugares do mundo.

Finalizada a época das pérolas, grande parte da população mudava-se para Al Ain, um oásis no interior do Emirado (hoje a segunda maior cidade) onde existia água fresca e alguma agricultura e pecuária. A viagem (que hoje fazemos em pouco mais de uma hora) durava então cerca de uma semana e cobrava a vida de muitos dos mais velhos e mais novos.

O livro é verdadeiramente fascinante e obrigou-me a olhar para os Emiratis de uma forma renovada. Olho para os meus colegas e imagino o que os seus pais e avós sofreram e a velocidade a que tiveram que se adaptar quando a enxurrada de petro-dólares chegou. Como ponto fraco deste livro, apenas o facto de este ser apenas um testemunho e um ponto de vista. Seria interessante ter outras vozes a contarem as suas experiências dessa época para ajudar a completar a história desses tempos.

Se não era já óbvio, aconselho "From Rags to Riches, A Story of Abu Dhabi" vivamente a todos os que residem e trabalham em Abu Dhabi e Dubai, assim como aos que mostram interesse pela história do Golfo Pérsico e destes pobres povos nómadas que no tempo de vida de uma pessoa se tornaram na mais rica cidade do globo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Petróleo, Medo e Armas

Explorar o interior de uma feira internacional de armamento é uma experiência que desperta alguma curiosidade para um civil, como é o meu caso. Quando imagino guerras o que me ocorre é morte e destruição; o desaparecimento de regimes, sociedades e economias que - seguindo a lei universal - são transformados em algo de diferente, tipicamente ódio e ressentimento ou, raríssimas vezes, um ambiente melhor do que o que o precedeu. Claro que nada disto é mostrado numa feira deste tipo, onde as palavras de ordem são sempre a segurança, a manobrabilidade, capacidade de carga e outras características que um qualquer arquitecto com gola alta procuraria no seu novo Volvo.

O lado tecnológico da guerra é fascinante, embora sempre ligeiramente desfazado da realidade no terreno, como disse James A. Field na sua famosa frase "é proverbial que os generais sempre se preparam para a guerra anterior". Mas não será certamente mero conservadorismo. Os investimentos bélicos são enormes, demoram anos a serem transformados em armas utilizáveis e ainda mais a tornarem-se lucrativos. Nesta feira de Abu Dhabi (IDEX 2015), notava-se a enorme preponderância de drones, fossem eles de ar, terra ou mar. Sem dúvida o resultado de uma década e meia de guerra assimétrica no Iraque, Afeganistão e agora também da Síria. Também notei as enormes opções para APC (armored personnel carriers), certamente ligado ao grande número de baixas sofridas pelos países ocidentais nos Humvees e outros veículos leves semelhantes. Os grandes tanques - como o americano M1 Abrams - gastam tanto combustível que é inevitável que atrás desta fortaleza móvel e inexpugnável tenham que vir uma fila de apavorados camiões com gasolina e munições E é aí que estão um grande número de vítimas americanas no Iraque entre 2003 e 2011 - devidamente mascaradas nas estatísticas já que são considerados contractors e não militares[1].


Até há pouco tempo acreditávamos que os países ocidentais tinham uma hiper-sensibilidade às suas baixas, coisa que regimes menos democráticos não sofriam porque controlam mais a opinião pública e em especial a opinião publicada. Mas os tempos mudaram e mesmo países sem direito de voto não conseguem evitar totalmente os blogues, redes sociais e as centenas de televisões internacionais por cabo. Como seria de esperar, também os adversários usam cada vez mais as tecnologias ao seu dispor espalhando a sua mensagem de forma progressivamente mais eficiente. Os recentes casos do piloto jordano, Muadh Al Kasasbeh; do massacre dos soldados Shiitas do exército Iraquiano capturados pelo ISIS ou dos Cristãos Egípcios (Coptas) na Líbia mostram uma face terrível do Estado Islâmico, mas também a recém-descoberta sensibilidade às baixas por parte dos governos árabes. Não é de estranhar por isso que hoje estejam todos aqui em Abu Dhabi de carteira aberta a comprar aviões telecomandados, entre outros.

Mas este shopping spree começou bastante antes do aparecimento do Estado Islâmico. A constante ameaça (real ou imaginária) entre os três blocos do Médio Oriente (Árabes, Persas e Judeus) e o medo de levantamentos populares como a Primavera Árabe fez com que uma parte considerável das receitas do petróleo seja rapidamente gasta em armamento militar, como pode ser visto pelo orçamento militar da Arábia Saudita[2], que ultrapassou em 2014 países como o Reino Unido, a França ou a Alemanha e tem hoje o maior orçamento mundial em percentagem do PIB. Para um país que não entrou numa guerra a sério desde a sua formação em 1932, parece complicado de explicar. E não é um fenómeno novo, podemos encontrá-lo no Egipto de Nasser, no Iraque de Saddam, no Irão de Reza Pahlavi, etc. 


A verdade é que este constante clima de medo e desconfiança (entre Árabes, Persas e Judeus; entre Sunitas e Shiitas; entre seculares e religiosos) é extremamente lucrativo para muita gente. Em especial para os grandes exportadores de armas dos EUA, Europa e Rússia. E é esse o verdadeiro motivo para tantos estarem contra qualquer normalização das relações entre o Irão e o Ocidente. Só isso explica porque no meio das negociações o Congresso Americano - empurrado simultaneamente pelos lóbis de Israel, da Arábia Saudita e do complexo Industrial-Militar - tentou passar novas sanções sobre o Irão. Felizmente Obama esteve (para variar?) à altura e ameaçou clara e publicamente com o veto de tais sanções. Nas suas palavras na CNN, entrevistado por Fareed Zacharia, enquanto o Irão cumprisse o seu lado do acordo não permitiria que ninguém sabotasse as negociações. A paz pode ser do agrado de milhões e milhões de civis, mas não é conveniente a toda a gente.

Esperemos que daqui a uns anos estas feiras de armamento não tenham tanto interesse... 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Emirados e o Serviço Militar Obrigatório

Num movimento inesperado, o Primeiro-Ministro dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohammed Al Maktoum anunciou o início do Serviço Militar Obrigatório para todos os Emirados[1]. Tipicamente, os países optam por esta via quando sentem algum tipo de ameaça militar regional ou geo-estratégica. Em alguns casos, quando já têm o inimigo às portas. Neste caso, essa lógica dificilmente pode ser defendida já que os Emirados não se encontram em guerra com nenhum país. Têm relações extremamente amigáveis com os vizinhos com quem partilha fronteiras terrestres (Oman e Arábia Saudita) e tem uma aliança fortíssima com os Estados Unidos da América e com a europa ocidental.
Sheikh Hamdan, príncipe herdeiro do Dubai no topo do Burk Khalifa
celebrando a vitório da Expo 2020

Têm no entanto alguns países com quem as relações são bastante piores, mas nenhum deles parece ser uma ameaça a médio ou longo prazo. Israel está longe, o Irão está mais amigável do que nunca (embora seja verdade que ainda têm umas questões territóriais de umas ilhas no golfo por resolver[2]) e a Síria de Assad tem demasiados problemas para resolver em casa do que tentar atacar os patronos da resistência.

Uma outra hipótese de cariz securitário seria algum tipo de revoltas internas ou risco de revolução, mas não me parece que exista qualquer tipo de problema desse tipo no horizonte em nenhum dos sete Emirados. O país está, como sempre, pacífico e a população satisfeita com a governação do Presidente Sheikh Khalifa (que acumula essa função com a de Sheikh de Abu Dhabi) e do Primeiro-Ministro Sheikh Mohammed (que é também Sheikh do Dubai). Ambos os príncipes herdeiros de Abu Dhabi (Sheikh Mohammad Al Nahyan) e Dubai (Sheikh Hamdan Al Maktoum) são estimados pela população local e expatriada e também daí não parecem vir grandes problemas.

O país continua a sua ascenção económica, o Dubai recuperou do crash de 2008/2009, e recentemente ganhou o concurso para a Expo 2020[3], que será feita à saída do Dubai, a menos de uma hora de Abu Dhabi, pelo que deverá beneficiar não só a cidade, mas vários dos Emirados.

É verdade que os EAU têm feito grandes investimentos militares na última década. São, aliás, um dos grandes compradores de armas a nível mundial, mas parece-me que isso se deve mais a um jogo de compromissos e amizade entre os EAU e os EUA do que propriamente uma necessidade militar. Uma ideia que certamente merecia um artigo especificamente sobre o assunto e que se alargaria a outros países da região.

Porquê então um serviço militar obrigatório? A resposta está, na minha opinião, nos detalhes. No anúncio do Twitter, Sheikh Mohammed afirmou que o serviço será "obrigatório para todos os nacionais emiratis entre os 18 e os 30 anos", que será opcional para as mulheres, que terá a duração de 9 meses para os que tiverem o secundário completo e dois anos para os que não o completarem.

Já várias figures de destaque da sociedade emirati tinham mostrado preocupação pela falta de desafios da sua juventude, como escrevi há dois anos[4]. Em alguns casos, o estado social é tão forte que cria uma opção extremamente perigosa para o país que é não se fazer nada. Ou seja, que algumas pessoas simplesmente optem por viver exclusivamente de subsídios. Este movimento do governo dos Emirados parece que vai nesse sentido e procura resolvê-lo de várias formas simultaneamente. Por um lado, trazer para as forças armadas todos aqueles em idade apropriada, penalizar os que não completaram os estudos (de referir que os estudos são totalmente pagos pelo estado para os cidadãos dos Emirados, pelo que a condição financeira não é uma questão) e acima de tudo disciplinar uma parte da sociedade que, do ponto de vista de algumas figuras importantes locais[5], corria o risco de se sentir excessivamente confortável. 

Red Bull Air Race está de volta

Infelizmente não a Portugal, mas o evento vai voltar a encher os céus de várias cidades pelo mundo fora. Espero ter a oportunidade de assistir à abertura, em Abu Dhabi. 



Ainda não esqueci a vergonha que foi o processo de 2009/2010 em que Lisboa - específicamente na pessoa de António Costa - procurou roubar o evento ao Porto utilizando os dinheiros do estado central - na altura ainda nas mãos de José Sócrates. 

Espero que o novo presidente do Porto, Rui Moreira, esteja atento e faça os possíveis para que em breve esta prova possa voltar à cidade Invícta.