Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Passos Coelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Passos Coelho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Passos e os aeródromos fantasmas

Miguel Relvas e Pedro Passos Coelho
A SIC Notícias anunciava esta madrugada que a empresa Tecnoforma, da qual o actual Primeiro-Ministro foi consultor e administrador terá recebido mais de um milhão de euros da Comissão de Coordenação da Região Centro num concurso de formação relacionado com aeródromos inexistentes. Tenho a certeza que os próximos dias dar-nos-ão mais informações sobre este tema, mas para já podemos ver o nome de Miguel Relvas a surgir novamente.

O país assistiu incrédulo à forma como Relvas sobreviveu a uma campanha avassaladora feita sobre ele pela comunicação social. E com bons motivos para isso. O Ministro Adjunto esteve envolvido em diversos escândalos anteriores à sua nomeação, incluindo o da falsificação de residência para obtenção de subsídios e do caso das viagens fantasma[1]. Já enquanto ministro o seu nome volta a aparecer relacionado com outros casos como o das ameaças à jornalista de "O Público"[2] ou da licenciatura tirada na Universidade Lusófona onde conseguiu a incrível proeza de finalizar um curso de 3 anos em apenas um[3].

Conheço algumas pessoas que defendem que toda esta campanha é o resultado de dois dossiers complicados pelos quais Relvas está responsável: o do mapa autárquico, cujas decisões têm impacto em dezenas de milhares de políticos locais, e a privatização da RTP, decisão que terá impacto em todo o mercado dos media. Talvez seja essa a principal motivação. Mas não será certamente aí que encontrarão a lenha com que o estão a queimar. A lenha foi dada pelo próprio e é o efeito directo da sua actuação como político ao longo das últimas décadas. E a cada dia que passa vamos sabendo mais sobre essa carreira de enorme sucesso iniciada ainda na década de 80, tendo sido deputado desde 1985, com apenas 24 anos.

Mas a lealdade de Passos Coelho a Miguel Relvas ultrapassa toda a normalidade. Destituído de qualquer apoio do eleitorado, constantemente associado a escândalos, o Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares mantêm-se firme no seu posto. E o Primeiro-Ministro queima-se mais a cada dia que passa, porque já não estamos perante um erro de casting mas sim de uma opção consciente. E a verdadeira questão passa a ser... porquê? Porque motivo não isola o problema demitindo-o?

Talvez visse enormes qualidades em Relvas que se sobreponham a essa passado mais obscuro. Mas essa seria uma lógica pouco sólida quando os defeitos são públicos e na esfera moral.

Ou possivelmente Passos Coelho olharia para ele como carne para canhão. Deixava-o tratar desses dois dossiers complicados e depois punha-o fora, já com o problema da RTP resolvido e o mapa autárquico desenhado e aprovado. Talvez não fosse uma ideia descabida, mas dificilmente conseguiria aguentar tantos meses de um autêntico pelotão de fusilamente mediático.

Ou, por fim, talvez Passos Coelho estivesse entalado e simplesmente não tivesse poder para o demitir. Poder formal teria certamente, já que a legitimidade democrática está no Primeiro-Ministro e não nos nomeados como é óbvio. Mas por vezes, e em especial com figuras públicas, quando se está perante alguém que sabe mais do que deveria saber talvez não seja possível confrontar directamente. Foi uma hipótese que muitas pessoas começaram a colocar discretamente quando perceberam que Relvas não ia mesmo cair. Mas mantida fora dos grandes canais de televisão e jornais já que se estaria a lançar suspeitos sobre alguém baseando-se exclusivamente em indícios contextuais.

Esta terceira hipótese ganha agora forma, à medida que as investigações jornalísticas sobre a empresa Tecnoforma e o seu antigo administrador Passos Coelho aparecem junto do nome de Miguel Relvas (então Secretário de Estado da Administração Local) e de concursos públicos pouco claros.

Só em 2003, no programa Foral (da responsabilidade de Relvas enquanto Secretário de Estado), 82% do valor das candidaturas aprovadas na Região Centro foi parar a esta empresa administrada pelo actual Primeiro-Ministro[4].

Agora esperemos que a investigação não acabe aqui, como aconteceu a tantas outras relacionadas com políticas e altas figuras da nação...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Primeiro Ministro demitiu-se

Pedro Passos Coelho
Aconselhado por um dos nossos leitores, aqui fica o momento deplorável em que a televisão pública nacional resolve ensinar o povo português a escrever a palavra "Primeiro-Ministro". A frase que escolheu no (usualmente muito interessante) programa "Bom Português" foi:

O Primeiro-Ministro demitiu-se 

ou 

O Primeiro Ministro demitiu-se

Este exemplo mostra um posicionamento político claro, de extremo mau gosto e - em termos gramaticais - perfeitamente desnecessário. Fez-me lembrar os exercícios de matemática do Ministério da Educação da Alemanha Nazi[1] onde se faziam perguntas como: 

A construção de um asilo para doentes mentais custa 6 milhões de Reichsmarks. Quantas casas poderiam ter sido construidas pelo valor de 15 mil Reichmarks cada, com esse mesmo dinheiro?

Não obstante a diferença de grau, a lógica é a mesma. Procurar usar o ensino para passar mensagens subliminares. Agora só falta o nosso Goebbels mostrar a cara.






sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O triunfo do derrotismo

Os últimos dias trouxeram-nos provavelmente a maior manifestação de indignação sentida nas últimas décadas no nosso país. Os motivos são óbvios e compreensíveis: as medidas anunciadas pelo Primeiro Ministro são duríssimas e são colocadas em cima duma população que tem aguentado estoicamente sucessivos aumentos de impostos, um desemprego recorde e crescente, uma contracção de quase todas as áreas económicas do país e um declínio contínuo que não parece dar tréguas.

Ao contrário de outros países onde medidas de austeridade levaram a actos de violência nas ruas colocando as capitais a ferro e fogo, como aconteceu na Grécia durante meses ou na Inglaterra de forma mais breve, Portugal beneficiou até agora de um povo que finalmente mereceu o antigo, e até há pouco tempo injusto, título de sereno.

As derrotas sucedem-se com os números oficiais a provarem-se quase sempre piores do que o esperado e as previsões em constante actualização em baixa. Os portugueses emigram a uma escala cujos únicos precedentes comparáveis foram autênticas fomes e guerras. Não existe, para onde quer que se olhe, um ténue brilho de esperança a que nos possamos agarrar. Não mais. Esgotou-se.

Durante muitos meses, acompanhamos as vindas da troika, seguindo a forma previsível como assinavam a aprovação de novas tranches quase de cruz, já que ao contrário de outros em situação semelhante, Portugal assumia orgulhosamente as suas responsabilidades e cumpria o combinado. E isso dava-nos alguma esperança.

Os mercados internacionais começavam a ver-nos como um caso muito diferente da Grécia. As nossas ruas tinham menos carros, os transportes públicos mais gente, mas as ruas não estavam bloqueadas por manifestantes nem os dirigentes políticos eram alvo da ira pública. Os sindicatos organizavam as suas greves e demonstrações de forma pacífica e ordeira exigindo direitos, salários e contratações, mas sempre sem inflamarem as ruas. E isso dava-nos alguma esperança. 

A indústria e os serviços, compreendendo as dificuldades do país e o rápido esgotamento da capacidade financeira dos bancos, das empresas e das famílias portuguesas, adaptaram-se de um modo formidável e vimos as exportações crescerem para a Europa, mesmo estando em crise, e redobraram esforços nas suas vendas para fora desta de forma espectacular. Acalentamos então a esperança de que mais uns anos assim e teríamos um novo Portugal, mais poupado, menos consumista e mais produtor e exportador. Como que uma pequena Alemanha. E isso dava-nos alguma esperança.

Vimos um novo governo nascer, conseguindo uma coligação estável e de maioria parlamentar à qual se juntava o maior partido da oposição, todos juntos na determinação de cumprir o acordo com os financiadores de portugal, a troika. E isso dava-nos alguma esperança.

Na Europa, as palavras de apreço de ministros, líderes de governo e chefes de estado, mostravam-nos que não estávamos sozinhos nesta luta e que desde que estivéssemos à altura dos acontecimentos, que estes nunca nos deixariam cair. E isso dava-nos alguma esperança.

E subitamente, toda a esperança desapareceu. Os eleitores sentem-se defraudados. A coligação governamental treme. A economia gela de medo. Os consumidores não compram. As empresas não investem. Os bancos não emprestam. A própria Europa assusta-se com a reacção dos portugueses. 

Todos gritam a injustiça das últimas medidas, mas não se ouvem alternativas. Todos clamam que este caminho é o mais errado possível mas não se atrevem a defender o caminho que nos trouxe até aqui. A governação do nosso ingovernável país parece mais do que nunca uma pena em vez de um prémio. Os próprios partidos, tão ávidos de poder, dão sinais de não quererem ficar com o bebé nos braços. Os deputados dos partidos do governo, normalmente tão obsequiosos face aos seus líderes partidários tentam esconder-se ou lavar as suas mãos de responsabilidades de uma situação calamitosa e pela qual não se querem chamuscar.

Mais assustador ainda, é o facto de subitamente velhas ideologias provadas erradas vezes sem conta levantarem de nova a sua voz. Comunistas e fascistas emergem dos buracos onde estiveram escondidos durante décadas para nos relembrarem que as suas opções teriam evitado este descalabro.

Estamos perante nada menos do que o triunfo total e em toda a linha do próprio derrotismo. Neste momento a rua portuguesa sente que simplesmente não existem possibilidades de alguma vez ultrapassarmos a catástrofe. E isso é pior do que todas as derrotas que sofremos antes. Porque a certeza da derrota é também o garante da derrota. O derrotismo não é condição sine qua non para a derrota. Podemos perder mesmo com o maior dos optimismos. Mas é certamente condição suficiente. A minha maior revolta não é para com as dificuldades crescentes por que temos que passar. É sim para o fatalismo com que todos à minha volta olham para a certeza da destruição total do país. Sem alternativas, sem ideias, sem energia, sem sequer o sonho de um dia melhor.

Não haverá ninguém que dê um murro na mesa? Que grite ao país que, não obstante todas as dificuldades porque hoje passamos, não há nada que nos impeça de sermos um país rico daqui a duas ou três décadas? Que não há nada de errado com a genética ou cultura dos portugueses? Que sobrevivemos a invasões, guerras civis, ditaduras e crises de todos os tipos e sempre fomos capazes de nos levantar novamente?

Nestas alturas a última coisa que precisamos é de um Primeiro Ministro que chore connosco, que partilhe connosco as suas dificuldades e incertezas como pai e cidadão. Nós não o elegemos para ser igual a nós. Não precisamos da sua compreensão. Esta é altura para dar um estalo e acordar o povo português da letargia e colocá-lo em acção. Mostre o caminho. Mostre esperança. Mostre certeza. Não dê parte de fraco a ninguém, nem mesmo a si próprio.