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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Territórios Desocupados da Palestina

Ehud Barak - Ministro da Defesa israelita
Num movimento surpreendente, Israel prepara-se para fazer uma retirada unilateral de parte dos territórios ocupados da Cisjordânia. Pelo menos, é o que nos faz crer uma afirmação de Ehud Barak, Ministro da Defesa israelita nos últimos dias [1]. Embora esta mudança de curso seja inesperada, já que a política oficial israelita dos últimos 3 anos tem sido de congelamento do processo de paz em paralelo com uma acelaração da construção de colonatos judeus no território ocupado, os seus motivos são relativamente óbvios:

Já aqui tínhamos falado anteriormente sobre essa impossibilidade lógica de Israel ser um Estado Judeu e Democrático. Se quer ser um estado judeu, então uma parte dos cidadãos terão que ter menos ou nenhuns direitos. Se quer ser um estado democrático, então todos terão que ser iguais perante a lei independentemente da religião ou etnia. Se este situação é complicada nas fronteiras aceites internacionalmente (dos cerca de oito milhões de habitantes, dois milhões são árabes), então com a inclusão dos territórios ocupados o número de árabes provavelmente excederá rapidamente o da população judaica. Isto, aos olhos dos israelitas, faz com que seja totalmente impossível imaginar uma solução de um estado binacional já que os muçulmanos e cristãos palestinianos teriam a maioria do parlamento, com a complicação acrescida dos israelitas estarem bastante mais divididos em partidos relativamente pequenos enquanto os palestinianos concentram todos os seus votos em apenas dois partidos.

Yitzahk Rabin, prémio Nobel da Paz e Primeiro Ministro de Israel até ao seu assassinato em 1995 às mãos de um extremista judeu, explicou a sua assinatura dos tratados de Oslo de uma forma semelhante. Na sua opinião, não seria possível a Israel manter a sua identidade se tivesse que governar milhões de cidadãos hostis. Ao colocar em causa o bíblico projecto de Eretz Yisrael, as forças mais conservadores do seu país moveram-se para colocar um fim à sua vida. 

Eretz Yisrael - Grande Israel
O pragmatismo demonstrado por Yitzahk Rabin nos acordos de Oslo, por Ehud Barak nos acordos (falhados) de Camp David e até por Ariel Sharon na sua retirada de Gaza vão directamente contra esse sonho de um estado israelita que se estende do Mar Vermelho até ao Golfo Pérsico [2]. Para termos noção do que historiadores como Avron Schmulevic defendem, coloco aqui um mapa do que representa esse Grande Israel. Podemos ver que partes consideráveis do Egipto, incluindo todo o Sinai, assim como da Arábia Saudita, Iraque, Síria e todo o Líbano e Síria estão incluidos nesse sonho.

Já antes Ehud Barak se tinha afastado destas ideias, e numa frase resumiu de forma brilhante a situação de Israel:

"Cada tentativa de manter estas regiões [Gaza e Cisjordânia] (...) leva necessariamente a um estado não-democrático ou a um estado não-judeu. Porque se os palestinianos votarem, isto será um estado bi-nacional, e se não votarem será um apartheid."[3]

Embora compreenda o pensamento do ministro da defesa israelita (e que poderá mesmo significar uma mudança de rumo de todo o governo dada a recente inclusão do partido Kadima no governo de coligação), tenho dúvidas se o unilateralismo será a melhor solução. O Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, acabou por ser a grande vítima da retirada unilateral de Gaza que foi transformada pelo Hamas numa vitória da sua resistência armada contra Israel. Seria provavelmente do interesse de Israel que o equilíbrio de poder na Palestina desequilibrasse para o lado Abbas e uma retirada pacífica, coordenada e acordada entre os dois conseguiria isso mesmo. Para além disso, poderia ser utilizada como um primeiro passo para a retoma do processo de negociação de paz, congelado há 3 anos. 

Um último dado será certamente a Primavera Árabe. A indefinição do futuro próximo dos seus vizinhos é certamente um risco para Israel. O Líbano está tão agitado como sempre, com um Hizbullah que mantém a sua força e acumula stocks de armamento. A Síria está em guerra civil e o resultado é uma interrogação. O Egipto poderá em breve estar totalmente controlado pela Irmandade Muçulmana. Apenas a Jordânia se mantém calma devido à mestria com que o seu monarca tem gerido a Primavera Árabe.

Solucionar a questão Israelo-Palestiniana não é só importante, mas também urgente. Por muita pouca esperança que os intervenientes tenham neste processo de paz, a bem de todos os habitantes da região nenhuma das partes tem o direito de desistir.